Pesquisadores se animam para estudar embrião
por Dra. Shirley de Campos em 2005-03-23
 

 


Em princípio, os pesquisadores brasileiros que hoje estudam o potencial terapêutico das células-tronco adultas teriam poucos problemas para se adaptar às perspectivas abertas pela nova Lei de Biossegurança. A instrumentação de laboratório e os métodos de cultivo que eles já usam são suficientes para enfrentar o desafio de transformar também as células-tronco embrionárias, em tese mais versáteis que as adultas, em futuras opções de terapia. “Os equipamentos são basicamente os mesmos”, afirmou a Acadêmica Rosalia Mendez Otero, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ.

Rosalia Otero e seus colegas Radovan Borojevic e Hans Dohmann (este do Hospital Pró-Cardíaco, também no Rio) ganham manchetes desde 2002, graças à recuperação de pacientes cardíacos terminais com células-tronco adultas da medula óssea. “Nossa idéia é continuar com os protocolos clínicos que já temos e compará-los com as células embrionárias – mas primeiro só com modelos experimentais, em laboratório e com animais”, declarou a pesquisadora.

Esse, aliás, é o xis da questão: a promessa das células-tronco embrionárias como arma contra diabetes, mal de Parkinson e uma infinidade de doenças ainda precisa ser testada e retestada com esses modelos de laboratório. Em tese, as células-tronco embrionárias poderiam ser usadas para “fabricar” qualquer tecido do organismo, dos neurônios do cérebro às unhas do dedão do pé. Elas surgem quando os mamíferos (e o homem) não passam de uma bolinha oca de umas cem células, com cinco dias de vida.
Segundo a maioria dos pesquisadores, elas seriam ainda mais poderosas do que as células-tronco adultas, mas eles ainda sabem muito pouco sobre como fazê-las se transformar nos tecidos que desejam ou evitar que causem efeitos indesejados, como câncer.

Nenhum tumor é presença agradável no organismo de alguém, mas o chamado teratoma (“monstruosidade”, em grego latinizado) provavelmente ganha o prêmio de mais assustador: uma maçaroca de todos os tecidos possíveis, de músculo a dentes completamente formados. Pois o aparecimento desse tipo de aberração celular é uma ocorrência comum nos atuais estudos com células-tronco embrionárias. E não é só isso. O teratoma é o resultado mais comum de injetar essas células num animal antes que elas estejam diferenciadas - ou seja, antes que já tenham assumido pelo menos parte das funções do tecido que se quer reconstruir. “Mas pode acontecer que você consiga diferenciar as células, e elas se ‘desdiferenciem' depois mesmo assim”, conta Rosalia Otero.

A busca de tratamentos, no entanto, não é a única motivação por trás do estudo das células-tronco embrionárias. Muitas vezes, antes que se desenvolva uma cura, é preciso entender como a doença se desenvolve. Para esses casos, é útil usar o embrião como modelo em miniatura do que vai acontecer com o organismo adulto.

Com tantas chances de erros, a demanda por embriões, ao que parece, será grande. E está dada a partida desta corrida.

(Fonte: Folha de S.Paulo, 6/3)

 

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