Uma situação preocupante pode matar o ideal olímpico: uma nova geração de drogas para melhorar a performance atlética é capaz de transformar simples corredores em medalhistas. Dezenas ou até mesmo centenas de atletas que competiram na última Olimpíada de Inverno em Salt Lake City, em 2002, podem ter usado substâncias modificadas geneticamente. Livres de serem pegos por exames anti-doping, os especialistas prevêem que os competidores vão extrapolar os limites da performance humana.
“Creio que a engenharia genética já começou”, conta o ex-campeão de patinação em velocidade Johann Olav Koss, mebro da Agencia Mundial Anti-doping. “Não podemos tapar o sol com a peneira. Devemos ser realistas.”
Não é a primeira vez que o alarme soa. Basta lembrarmos do caso controverso ocorrido 30 anos atrás envolvendo o esquiador finlandês Eero Mäentyanta. Depois de levar duas medalhas de ouro nos Jogos de Inverno de 1964, além de sete medalhas conquistadas antes em três jogos olímpicos, foi acusado de doping no sangue. Mäentyanta supostamente adicionava glóbulos vermelhos para aumentar a quantidade de oxigênio no organismo e melhorar a resistência. Submetido por exames, ficou comprovado que possuía mais glóbulos vermelhos que o normal. Mas não surgiram evidências de doping, a controvérsia permanece como um mistério.
Com a evolução da engenharia genética, os cientistas revelaram o segredo de Mäentyanta. Mais do que um atleta de elite, ele é um fenômeno da natureza. Portador de uma rara mutação genética capaz de produzir grandes quantidades do hormônio erythropoietin (EPO), seu organismo produzia mais glóbulos vermelhos que o normal.
A mutação de Mäentyanta é bem rara, mas qualquer pessoa pode aproveitar as vantagens desse elixir mágico. Desde que foi desenvolvido o EPO sintético injetável, essa é a droga da vez para atletas.
Já se passou uma década desde que médicos removeram fluído embrionário e criaram uma nova geração de atletas-prodígio. Porém, as drogas sintéticas já estão sendo usadas. Uma vasta gama de medicamentos está disponível, incluindo o hormônio do crescimento (HGH), que é usado na maioria dos casos por atletas que usam a força ou precisam ser velozes. Outro caso são as ginastas que o consomem para retardar o desenvolvimento sexual e também há os patinadores que desejam melhorar o desempenho nas competições. Além disso, cientistas estão pesquisando exaustivamente terapias genéticas para regenerar a cartilagens lesionadas ou ossos quebrados em fraturas.
O próximo passo na revolução genética acontecerá nos próximos anos, quando os geneticistas começarem a testar genes artificiais que auto-regulariam o crescimento muscular e, mais espantoso, sem os atletas se preocuparem em serem pegos no exame anti-doping.
“Se uma injeção é aplicada, o DNA estará presente apenas em um músculo específico”, aponta Peter Schjerling, membro do Centro de Pesquisas Musculares de Copenhagen. “Para um exame dar positivo o tecido muscular teria que ser analisado à parte. Não são muitos atletas que permitiriam isso”, completa.
Mas há um custo para tudo isso, e não é apenas a desintegração do esporte como conhecemos. O EPO causa o engrossamento do sangue, o que já provocou a morte de mais de 20 ciclistas. O HGH provoca o aumento do tamanho dos órgãos bem como o crescimento descontrolado dos ossos da face e das mãos. E, por fim, genes inseridos em laboratório podem levar a problemas que só o Dr. Frankenstein poderia imaginar.