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Medicina Esportiva/Atividade Física

Anti-Doping para "limpar" os jogos de Atenas

26/03/2004
"Trapaceiro", velejador dos EUA luta para ir a Atenas

Obrigado a retirar os dois testículos por causa de um câncer, Kevin Hall levanta discussão sobre os limites do controle antidoping em meio à cruzada do COI
para "limpar" os Jogos de Atenas.


Vicente Toledo Jr.
Em São Paulo



Divulgação
Kevin Hall: sonho ameaçado


Em meio à maior investida contra o doping de sua história, o Comitê Olímpico Internacional terá pela frente um caso que desafia os limites do Código Mundial Antidoping, documento criado no ano passado pela Agência Mundial Antidoping (Wada) para uniformizar os regulamentos de controle no esporte internacional.

Classificado para defender seu país em Atenas, o velejador norte-americano Kevin Hall bateu de frente com a política encampada pela entidade máxima do esporte mundial. Não porque tenta melhorar seu desempenho usando substâncias proibidas, mas porque precisa de uma delas para sobreviver.

"Eu sou reprovado em todos os testes. Sou um caso interessante para o pessoal do controle de dopagem", afirma Hall, de 34 anos. Depois de três tentativas fracassadas - em 1992, 1996 e 2000 - ele finalmente venceu a seletiva norte-americana da classe Finn e conquistou o direito de ir às Olimpíadas.

A vitória, no entanto, não garante que Hall vai realizar seu sonho no próximo mês de agosto. Obrigado a retirar seus testículos há dez anos por causa de um câncer, em caso semelhante ao do ciclista Lance Armstrong, Hall precisa de injeções constantes de testosterona para viver normalmente.

Nos primeiros anos após a cirurgia, o velejador chegou a ser proibido de competir pelo comitê olímpico dos EUA. Ele só conseguiu voltar ao esporte de alto nível depois de ganhar na Justiça uma ação contra a entidade, baseado em uma lei de proteção aos deficientes.

"Meu corpo não produz nenhuma testosterona, por isso os testes mostram que 100% da testosterona no meu organismo vem de fora. Sou um trapaceiro", brinca o velejador. A testosterona é um hormônio masculino produzido naturalmente pelo corpo humano, que atua sobre o crescimento dos ossos, o desenvolvimento de praticamente todos os órgãos, a distribuição da gordura corporal e no desenvolvimento das características sexuais masculinas.

Sua versão sintética, no entanto, é utilizada como doping para estimular o ganho de massa muscular, força e velocidade. No caso de Hall, o hormônio injetado tem como objetivo compensar a falta da produção natural que ele perdeu com a retirada dos testículos. O problema é que se o COI permitir a participação do velejador, pode abrir um precedente perigoso para o combate ao doping.

"Estão relutantes em dizer que é OK tomar testosterona. Eles sabem que é um esteróide quem vem sendo muito utilizado como trapaça. Mas quem pensa que eu perdi os testículos para poder receber mais testosterona só pode ser louco", afirma o norte-americano.

Representante do Brasil na classe Finn e possível adversário de Hall em Atenas, João Signorini não acredita que o norte-americano tenha vantagem de desempenho. "O doping na vela não tem o mesmo efeito que na maioria das modalidades, mas na classe Finn o velejador tem que ser muito forte. Dependendo do porte físico do atleta, ele pode fazer uso antes da competição", comenta.

Apesar da preocupação de Hall, a federação norte-americana de vela confia em um dispositivo do Código Mundial Antidoping conhecido como TUE (sigla em inglês de isenção para uso terapêutico) para garantir a participação do velejador em Atenas.

O dispositivo garante aos atletas uma chance de terem seus casos submetidos a um comitê médico, que pode liberar o uso de substâncias ou procedimentos proibidos nos seguintes casos: se o atleta experimentar um debilitamento na sua saúde sem uso de determinada substância, se ela não proporcionar um ganho adicional de desempenho e se não houver uma alternativa terapêutica ao seu uso, desde que essas necessidades não tenham sido causadas por prática anterior de doping.

"Acho que ele está preocupado demais. Ainda não há nada que diz que ele não pode competir nas Olimpíadas", diz Fred Hadegorn, presidente do comitê olímpico da federação de vela dos EUA.

 

UOL


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