
As mulheres que sofrem de câncer do pulmão vivem um pouco mais do que os homens que padecem da doença, respondem de forma diferente a pelo menos um medicamento e apresentam altos níveis de danos genéticos induzidos pelo tabaco em seus pulmões. Essas informações serão anunciadas nesta quarta-feira (14/04) por pesquisadores norte-americanos.
Algumas dessas diferenças podem estar vinculadas aos efeitos do estrogênio, seja na forma natural, seja ingerido como medicamento. E os cientistas dizem que mais mulheres deveriam ser incluídas nos estudos sobre o câncer de pulmão, para determinar se métodos particulares de tratamento, prevenção e detecção da doença são apropriados para elas.
Os pesquisadores disseram ainda que a identificação das diferenças relativas à doença entre homens e mulheres poderia proporcionar informações que, em última instância, auxiliariam ambos os sexos.
"Essa iniciativa poderia nos ajudar a descobrir alguns segredos sobre o comportamento do câncer de pulmão", diz Peter B. Bach, pneumologista e epidemiologista do Centro de Câncer Memorial Sloan-Kettering, em Nova York, e um dos autores do relatório. Os outros autores são Mark G. Kris, também do Sloan-Kettering, e Jyoti D. Patel, da Universidade Northwest.
O relatório reflete um interesse médico crescente pelo entendimento das diferenças na forma como as principais doenças afetam homens e mulheres. Os pesquisadores reconheceram, por exemplo, que as mulheres que sofrem ataques cardíacos podem não experimentar a dor excruciante sentida pelos homens, e que as mulheres têm mais tendência que os homens a desenvolverem doenças auto-imunes, como o lupus e a esclerose múltipla.
O artigo escrito por Bach e seus colegas, que será publicado na edição desta quarta do "The Journal of the American Medical Association", afirma que o câncer de pulmão é "uma epidemia contemporânea" nas mulheres. A maior parte dos casos - chegando a 80% nas mulheres - é causada pelo tabagismo. No ano passado, foram diagnosticados 80.100 novos casos nas mulheres norte-americanas, e 68.800 mulheres morreram da doença.
O relatório ressalta que, embora o índice de mortalidade feminina devido ao câncer do pulmão tenha-se estabilizado nos últimos cinco anos, ele pode começar a subir novamente, à medida que os grupos de mulheres que mais fumam atingirem a idade na qual os cânceres começam a se desenvolver.
O câncer de pulmão é um dos mais letais, já que, freqüentemente, começa a se espalhar pelo organismo antes de ser detectado. Entre os casos diagnosticados entre 1992 e 1999, somente 12% dos pacientes sobreviveram por cinco anos. No caso dos pacientes homens, somente 10% sobreviveram, contra 14% das mulheres.
"É um quadro desalentador, e que não melhorou muito", afirma Bach.
A doença mata mais mulheres nos Estados Unidos do que qualquer outro câncer. O número de casos de câncer de pulmão nas mulheres equivale ao do câncer ginecológico e ao da mama combinados. Em 1987, o câncer de pulmão superou o câncer da mama como a principal causa de morte por câncer em mulheres. De 1930 a 1997, à medida que mais e mais mulheres passaram a fumar, o número de mortes causadas por câncer de pulmão em mulheres aumentou 600%.
Embora se saiba há décadas que o fumo é o responsável pela maior parte dos casos de câncer de pulmão, um quarto das mulheres adultas nos Estados Unidos fuma. Em 2000, 30% das alunas do segundo grau ouvidas em uma pesquisa disseram ter fumado nos últimos 30 dias. Desde os anos 60, o índice de tabagismo entre os homens norte-americanos diminuiu quase 50%. Já no caso das mulheres, esse índice sofreu um aumento de 25%.
Segundo o relatório, o aumento drástico do tabagismo entre as mulheres na África, Japão e China indica que haverá epidemias nessas regiões. Não se sabe se homens e mulheres que fumam apresentam a mesma susceptibilidade para desenvolver o câncer de pulmão. As conclusões dos estudos estão divididas. Alguns deles afirmam que as mulheres correm mais risco, outros que os homens apresentam maior predisposição para desenvolver a doença. E há também aqueles que dizem que, nesse ponto, não há diferença entre os sexos.
Mas os pesquisadores afirmam que há diferenças biológicas com relação à doença em si, em se tratando de homens ou mulheres. As mulheres apresentam maior tendência a desenvolver um tipo de câncer denominado adenocarcinoma.
Não se sabe qual é o motivo para isso, embora o adenocarcinoma seja o câncer de pulmão mais comum entre os não fumantes, e as mulheres tenham menos predisposição a fumar do que os homens. Mas os estudos também sugeriram que o estrogênio, na forma natural ou ingerido como medicamento, poderia estimular o surgimento de adenocarcinomas.
Estudos múltiplos revelaram índices mais altos de danos genéticos causados pelo tabaco nos tumores retirados de mulheres fumantes, do que no dos homens, ainda que as mulheres tivessem, em média, fumado menos. As mulheres parecem também ter menor capacidade de reparar danos genéticos.
Comparadas aos fumantes do sexo masculino, as mulheres que fumam possuem também uma versão mais ativa de um gene que torna os produtos químicos presentes na fumaça do cigarro mais danosos às células. O estrogênio pode tornar esse gene mais ativo.
Ainda que as mulheres pareçam ser mais vulneráveis à lesão de tecidos causada pelos produtos químicos cancerígenos da fumaça do cigarro, aquelas que desenvolvem o câncer de pulmão vivem um pouco mais do que os homens que padecem da doença. Os pesquisadores não sabem ao certo por que isso ocorre, e isso é um outro motivo pelo qual mais pesquisas se fazem necessárias, afirma Bach.
Os estudos com o Iressa, uma droga para combater o câncer de pulmão, aprovada no ano passado, revelaram que ela funciona melhor nas mulheres do que nos homens. Não se sabe a razão disso, mas Bach disse que os cientistas estão estudando outras drogas da mesma classe para descobrir se homens e mulheres respondem a elas de maneira diferente.
"Quando fazemos nossas pesquisas, sempre encontramos diferenças", afirma Bach. "Algumas dessas diferenças são importantes, outras não. Esperamos que algumas delas nos ajudem a compreender melhor o câncer de pulmão. Conhecemos muito poucas peças desse quebra-cabeça".

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- As informações disponíveis no site da Dra. Shirley de Campos possuem apenas caráter educativo.
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