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Reumatologia/Doenças Auto-Imune

Anticorpos antinucleares

26/01/2004
 

Eloisa Bonfá e Vilma ST Viana

INTRODUÇÃO: O sistema imunológico tem como principal função a proteção do indivíduo através de mecanismos específicos que reconhecem antígenos (patógenos, proteínas ou outras moléculas) estranhos ao hospedeiro. Entretanto, resposta anormal a componentes próprios pode ser desencadeada pela quebra do controle ativo de tolerância imunológica resultando na produção de células T ou de anticorpos autorreativos e eventualmente lesão tecidual. Os ensaios desenvolvidos para a detecção de auto-anticorpos são os mais amplamente utilizados para se determinar autorreatividade, por serem fáceis, rápidos e reproduzíveis.

A importância da detecção e caracterização dos auto-anticorpos nas doenças difusas do tecido conectivo baseia-se na contribuição de muitos deles no diagnóstico e monitoramento dessas patologias sendo úteis também na discriminação de subgrupos de pacientes. Os anticorpos anti-nucleares constituem-se num grupo bastante heterogêneo de auto-anticorpos quanto sua especificidade antigênica. De fato, os antígenos alvos são constituintes nucleares ou citoplasmáticos, com algumas características comuns: são altamente conservados evolucionariamente e com função biológica relevante no ciclo celular, transcrição e na síntese protéica. Quanto à sua natureza, compõe um grupo amplo de moléculas como ácidos nucléicos (DNA), proteínas solúveis ou constitucionais de partículas subcelulares ou ainda complexos formados principalmente de proteínas com ácidos nucléicos (DNA e RNA). A denominação destes antígenos baseia-se na sua localização na célula (nucleolar, centromérico), na natureza molecular do mesmo (U1RNP, complexo ribonucleoprotéico de RNAs pequenos ricos em uracila, DNA), no nome do paciente no qual o anticorpo específico foi descrito inicialmente (Sm, Ro, La, Jo-1) ou ainda nas iniciais da doença onde o anticorpo correspondente foi detectado pela primeira vez (SS-A ou SS-B de síndrome de Sjögren, Scl-70 de esclerodermia).

 

1- Fatores Antinucleares (FAN): Compreendem um grupo de auto-anticorpos bastante heterogêneo quanto sua especificidade antigênica. São dirigidos para componentes intracelulares com distribuição nuclear ou citoplasmática.

Método: O teste de imunofluorescência indireta (IFI) utilizando como substrato antigênico, fígado de camundongo ou linhagem celular humana, célula HEp-2, é o mais comumente empregado na detecção desses auto-anticorpos. Tanto a sensibilidade como a identificação e discriminação dos padrões de reatividade dos anticorpos, são melhores quando o ensaio é realizado sobre células isoladas HEp-2 comparativamente a seções ou imprint teciduais. Os resultados baseiam-se no padrão e na distribuição celular da fluorescência observados e são expressos em títulos (maior diluição do soro que ainda apresenta reatividade).

Interpretação: A utilidade do teste do FAN se baseia na sua sensibilidade e facilidade de execução mas não na sua especificidade. Embora sua análise auxilie o diagnóstico da doença, não é de grande valor no acompanhamento da mesma, existindo outros testes mais específicos para este fim. Os padrões de fluorescência de FAN podem, na maioria das vezes, sugerir mas não confirmar, a presença de determinados auto-anticorpos:

Nuclear Homogêneo: Esta reatividade sugere a presença de anticorpos anti-DNA nativo (anti-dsDNA) específicos do LES, anti-DNA-histona ou anti-nucleossomal , anti-histona anti-DNA de fita simples (anti-ssDNA) principalmente quando em altos títulos (Figura 2). Além disso, este mesmo padrão na IFI quando em baixos títulos, pode também indicar a ocorrência de auto-anticorpos em doenças neoplásicas e infecciosas crônicas, porém sua especificidade antigênica ainda não está definida.

Nuclear Periférico: Este padrão está associado à presença de auto-anticorpos anti-dsDNA predominantemente. No entanto, pode também estar relacionado aos anticorpos anti-ssDNA ou DNA-histona (nucleossomal) (Figura 3).

Nuclear Pontilhado: Reatividade característica dos auto-anticorpos dirigidos às proteínas nucleares extraíveis com sal (ENA) como Sm específico do SLE, U1RNP, Ro/SS-A e LA/SS-B (Figura 4).

Nucleolar: Este padrão é observado mais frequentemente com soro de pacientes com esclerose sistêmica progressiva (ESP) e, está associado, a anticorpos anti-ribonucleoproteínas tais como a RNA polimerases 1, 2 e 3 (Figura 5).

Centromérico: A imunofluorescência com um padrão pontilhado discreto e disperso em número de 46 pontos pelo núcleo da célula em repouso e, que se alinha com os cromossomos na placa metafásica da célula em divisão, é altamente específico dos anticorpos dirigidos aos constituintes do centrômero (ACA). Estes são detectados em cerca de 70% dos pacientes com CREST.

Citoplasmático:
A fluorescência pontilhada densa com distribuição citoplasmática em células HEp-2 sugere fortemente a presença de anticorpos para a proteína P ribossômica detectados exclusivamente no LES.


A freqüência de FAN nas diferentes doenças do tecido conectivo bem como os padrões de imunofluorescência mais comumente encontrados podem ser observados na Tabela 2.



Figura 2 - PADRÃO HOMOGÊNEO:
Imunofluorescência indireta de soro de paciente com anticorpo anti-histona em célula HEp-2 (40X).



Figura 3 - PADRÃO HOMOGÊNEO-PERIFÉRICO:
Imunofluorescência indireta de soro de paciente com anticorpo anti-DNA nativo em célula HEp-2 (40X).



Figura 4 - PADRÃO PONTILHADO:
Imunofluorescência indireta de soro de paciente com anticorpo anti-Sm e RNP em célula HEp-2 (40X).



Figura 5 - PADRÃO NUCLEOLAR:
Imunofluorescência indireta de soro de paciente com anticorpo antinucleolar em célula HEp-2 (40X).

    DOENÇA     PADRÃO     FREQÜÊNCIA(%)
    LES
    DMTC
    Lúpus por droga
    ESP
    Síndrome de Sjögren
    Polimiosite
    H, PE, Pont
    Pont
    H
    Pont, Nucleolar
    Pont
    Pont
    >90
    >90
    >90
    >70
     70
     70
H - Homogêneo
PE - Periférico
Pont - Pontilhado
Tabela 2

- Padrões de fluorescência mais freqüentemente observados nas diferentes doenças reumatológicas

 

 

2- Anti-DNA nativo:

Método: O método mais difundido em nosso meio é o de imunofluorescência indireta, utilizando a Crithidia luciliae como substrato antigênico. A fluorescência é restrita ao cinetoplasto deste microrganismo, organela localizada próxima ao flagelo, sendo altamente específica para o anticorpo anti-DNA nativo. Existem ainda outros testes para a detecção deste anticorpo como o método de Farr, ELISA etc.

Interpretação: O anticorpo anti-DNA nativo é considerado marcador do lúpus eritematoso sistêmico. Além disso, os títulos deste anticorpo podem estar associados à atividade de doença, sendo, portanto, importante sua determinação no acompanhamento do paciente lúpico.

3- Anticorpos dirigidos a outros constituintes celulares:

Método: Os métodos de imunodifusão, contra-imunoeletroforese e hemaglutinação passiva utilizando antígenos recombinantes purificados ou extratos teciduais brutos, são os mais difundidos em nosso meio para a detecção de anticorpos para as proteínas Sm, RNP, Ro/SSA, La/SSB, Scl-70 e Jol. A contra-imunoeletroforese é mais sensível que a imunodifusão e é um método altamente específico. Por outro lado, a hemaglutinação tem a vantagem da simplicidade e rapidez na execução. Os métodos de ELISA e RIE (radioimunoensaio) podem ser utilizados, porem a especificidade esta' relacionada com o grau de purificação dos antígenos. Além destes, o teste de immunoblotting utilizando extratos brutos de células HeLa têm contribuído sobremaneira para a identificação desses anticorpos bem como na caracterização de novos auto-antígenos.

Interpretação: Alguns anticorpos são considerados marcadores de doença, como ilustrado na Tabela 3 e, sua freqüência nessas patologias é, no entanto, variável. A determinação do perfil antigênico dos diferentes auto-anticorpos no paciente é uma conduta que merece ser considerada. Existem doenças que são caracterizadas pela restrição da especificidade dos auto-anticorpos como a DMTC, onde a presença do anticorpo anti-RNP em altos títulos e isoladamente sugere fortemente o diagnóstico da doença. Por outro lado, no lúpus eritematoso o perfil de auto-anticorpos é múltiplo ou seja, apresentam amplo espectro antigênico. A Tabela 3 ilustra também os diferentes auto-anticorpos encontrados em determinadas doenças do tecido conectivo bem como sua freqüência nas mesmas.

    ANTÍGENO     DOENÇA     FREQÜÊNCIA (%)
    DNA nativo
    DNA fita simples



    RNP

    Sm
    La/SS-B

    Ro/SS-A

    SCI-70
    Centromérico
    Jo-1
    Proteína P ribossômica
    LES
    LES
    Lúpus por droga
    DRe
    Hepatite
    DMTC
    LES
    LES
    S.Sjögren
    LES
    S.Sjögren
    LES
    ESP
    CREST
    Polimiosite
    LES

 >65*
 80
 60
 50
 30
100
 32
   35*
 40
 15
 60
 35
  70*
  70*
  25*
  25*

*Altamente específico para a doença

Tabela 3

- Anticorpos antinucleares e anticitoplasmáticos nas doenças difusas do tecido conectivo
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