Drogas/Vício - O conceito de dependência e os modelos de atendimento
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Drogas/Vício

O conceito de dependência e os modelos de atendimento

26/04/2004


 

Psiquiatra e consultor do site "Álcool e Drogas sem Distorção"


O tratamento da dependência química é um assunto relativamente novo. Não faz dois séculos, os bêbados do Reino Unido eram expostos em praça pública e seu nome colocado nos principais jornais da cidade. O objetivo era punir com a execração todo aquele que excedesse os padrões aceitos para o consumo de álcool1. Apenas os casos mais avançados, marcados por inúmeras repercussões físicas e psíquicas eram internados em grandes hospitais psiquiátricos2. Predominava nesse período o modelo moral de tratamento: o consumo excessivo de álcool e outras drogas era acima de tudo uma escolha pessoal (intencional) e por isso, passível de punição1.

Durante o século XX, o consumo de substâncias psicoativas foi estudado exaustivamente e suas nuances compreendidas sob a óptica científica. Deixou de ser visto como um desviou de caráter para ganhar características de doença3. Essa mudança paulatina de mentalidade também repercutiu sobre as estratégias de tratamento: se há uma doença, deve de haver também um tratamento específico para essa. O surgimento dos Alcoólicos Anônimos, durante os anos trinta, representou a primeira proposta de tratamento ambulatorial para os dependentes1. Outro esforço implementado foram as comunidades terapêuticas, espaços geralmente rurais, que visavam (além da abstinência) à reeducação dos hábitos morais e sociais do indivíduo dependente. As abordagens, no entanto, eram duras, baseadas no confronto e na humilhação1.


A segunda metade do século XX viu nascer os modelos de tratamento contemporâneos. Para isso, contribui a nova concepção de dependência química: uma doença de natureza biológica, psicológica e social3. Como qualquer entidade nosológica, possuía sinais e sintomas clínicos universais e específicos. Por outro lado, cada dependente tem níveis de gravidade distintos dentro das idiossincrasias de seu contexto sócio-cultural4. Isso trouxe, mais uma vez, a necessidade de novos modelos de tratamento.

 
Figura 2: início do século XX. Anúncio comercial de uma clínica para o tratamento de dependentes químicos. O uso indevido de drogas passou a ser considerado doença.
Ao entender o consumo de álcool e drogas como um padrão de comportamento cuja gravidade varia ao longo de um continuum, surgiu a necessidade de organizar serviços que atendessem aos usuários em seus diferentes estágios5. Um usuário de álcool, empregado e dentro de uma união estável, demanda um tratamento diferente de um segundo, com os mesmos critérios diagnósticos, mas desempregado e sem apoio familiar. Um usuário de cocaína que consegue restringir seu consumo ao final do dia, difere daquele que a utiliza sem nenhum critério. Há uma diferença marcante no controle que ambos exercem sobre o seu consumo, por mais que os sinais de fissura sejam iguais nos dois casos.

 
Figura 3: a partir da segunda metade do século XX, o ambulatório passou a ser considerado paulatinamente a melhor forma de tratamento para a dependência química, por manter o indivíduo na comunidade e mostrar-se flexível nas abordagens propostas.  

O novo conceito de dependência também passou a atribuir pesos semelhantes para os critérios biológicos, psicológicos e sociais que compõem o quadro diagnóstico da dependência química4. A internação era o recurso terapêutico mais utilizado, porque o objetivo primordial era a busca abstinência completa6. A partir dessa nova concepção, no entanto, passou-se a pensar para além desta: o tratamento da dependência química carecia de abordagens capazes de motivar os indivíduos a ampliarem novamente seu repertório social, a buscarem novas maneiras de relacionamento com seu ambiente, novas habilidades sociais para lidar com o cotidiano, enfim, a construção de um novo estilo de vida5. Desse modo, novas dimensões de tratamento foram desenvolvidas e indicadas de acordo com a gravidade dos sintomas e do contexto social dos indivíduos7.

A partir daí, serviços de atendimento foram sendo criados ou adaptados para o tratamento da dependência química: ambulatórios, centros de convivência, internações breves e longas, hospitais-dia, moradias assistidas, acompanhamento terapêutico, agentes multiplicadores, dentre outros. Para ampliar ainda mais a malha de atendimento a esses usuários, nasceu a necessidade de sensibilizar a rede primária de atendimento, para fazer o diagnóstico precoce e motivar os usuários para o tratamento8. Abordagens como a política de redução de danos, surgiram com a finalidade de prevenir conseqüências danosas à saúde do usuário, tais como as doenças sexualmente transmissíveis e a AIDS, sem necessariamente interferir na oferta ou na demanda9.

Desse modo, nota-se que a qualidade e a variedade de serviços oferecidos estão diretamente relacionados aos conceitos de dependência vigentes. Apesar dos progressos alcançados, os serviços e técnicas oferecidas são eficazes apenas para uma parte dos indivíduos. Um campo de conhecimento vasto, que ainda trará muitos conceitos e modelos, capazes de ampliar a compreensão e o sucesso no tratamento destes indivíduos.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Miller WR & Hester RK. Treatment for alcohol problems: toward an informed eclecticism. In: Miller WR. Handbook of alcoholism treatment approaches – effective aternatives. Allyn & Bacon; 1995.


Crowley JW. Drunkard´s progress – narratives of addiction, despair and recovery. Baltimore: Johns Hopkins University Press; 1999.


Grant BF, Dawson DA. Alcohol and drug use, abuse and dependence: classification, prevalence, and comorbidity. In: McCrady BS, Epstein EE. Addictions – a comprehensive guidebook. Oxford: Oxford University Press; 1999.


Edwards G, Marshall EJ, Cook CCH. A síndrome de dependência do álcool. In: Edwards G, Marshall EJ, Cook CCH. O tratamento do alcoolismo. Porto Alegre: ARTMED; 1999.


Organização Pan-Americana de Saúde (OMS) & Comissão Interamericana para o Controle do Abuso de Drogas (CICAD). El tratamiento de los problemas relacionados com la dependencia de las drogas. In: OPAS & CICAD. La dependencia de las drogas y su tratamiento – guia y criterios básicos para el deserollo de programas de avaluación de la calidad y normas para la atención de la dependencia de drogas. OPAS/CICAD; 2000.


Kramer JF, Cameron DC. Tratamiento y prevención. In: Kramer JF, Cameron DC, Organizacion Mundial de la Salud (OMS). Manual sobre dependencia de las drogas. Genebra: OMS; 1975.


Allen JP, Litten RZ. Treatment of drug and alcohol abuse: an overview of major strategies and effectiviness. In: McCrady BS, Epstein EE. Addictions – a comprehensive guidebook. Oxford: Oxford University Press; 1999.


Administración de Servicios para el Abuso de Sustancias y la Salud Mental (SAMSHA). Programas especializados en el tratamiento del abuso de sustancias. In: Guía de servicios para el abuso de sustancias para provedores de atención primária de la salud. Rockville: NIH; 1999.


Marlatt GA. Redução de danos no mundo: uma breve história. In: Marlatt GA. Redução de danos – estratégias práticas para lidar com comportamentos de alto risco. Porto Alegre: ARTMED; 1999.

Marcelo Ribeiro

www.einstein.br


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