Drogas/Vício - A implicação da família no uso abusivo de drogas: uma revisão crítica
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Drogas/Vício

A implicação da família no uso abusivo de drogas: uma revisão crítica

26/04/2004

Miriam Schenker
Maria Cecília de Souza Minayo

Este artigo apresenta uma revisão crítica da literatura sobre a relação entre adolescência, família e uso abusivo de drogas. As bases para a composição do presente artigo foram o Scielo e o Medline, entre os anos de 1995 e 2002, a partir das seguintes palavras-chave: adolescente (adolescent); família (family); tratamento (treatment); abuso de substância (substance abuse); transtornos de uso de substância (substance use disorder).
Por família se entende uma instituição privada, passível, neste mundo pós-moderno, de vários tipos de arranjo, mas basicamente tendo a função de socialização primária das crianças e dos adolescentes. Neste trabalho, parte-se do entendimento da adolescência como um período do ciclo vital em que a curiosidade por experiências novas e a troca e a influência do grupo de amigos são fundamentais. O uso das drogas aqui se inclui como fonte de socialização e como uma linguagem do adolescer e, quando acontece de forma abusiva, constitui-se num problema que pode repercutir em todo o processo posterior de vida do jovem.

Embora a atenção do adolescente esteja voltada para fora do lar e centrada nos grupos de colegas e amigos, para compreendê-lo torna-se necessário inseri-lo no contexto familiar e sociocultural, pois a família – nuclear e extensa – integrada à cultura é que fornece as bases para o seu desenvolvimento. Ela é o lugar privilegiado da socialização primária (Oetting & Donnermeyer, 1998) cuja proposição principal é o asseguramento de comportamentos normalizados pelo afeto e pela cultura. Por isso, a família é fundamental no tratamento do uso abusivo de drogas de seu adolescente.

As normas para os comportamentos sociais (Oetting & Donnermeyer, 1998), incluindo-se aí o uso de drogas, são aprendidas predominantemente no contexto das interações com as fontes primárias de socialização que, na sociedade ocidental, são a família, a escola, e os amigos na adolescência. Cada uma das conexões das fontes primárias com o jovem envolve um vínculo que provê um canal para a comunicação de normas. Vínculos frágeis entre o jovem e essas fontes são fatores de risco para a instalação de desvios. Vínculos e ajustes saudáveis com a família e com a escola previnem a associação do jovem com as ditas "más companhias" na adolescência.

A família tem um papel importante na criação de condições relacionadas tanto ao uso abusivo de drogas pelo adolescente quanto aos fatores de proteção, funcionando igualmente como antídoto, quando o uso de drogas já estiver instalado (Liddle & Dakof, 1995a).

O estilo de criação dos pais (Liddle et al., 1998) é entendido como o clima emocional em que ocorre a socialização, uma vez que atos educativos específicos só terão eficácia no contexto de uma relação emocional apropriada.
A gama de comportamentos dos pais que define a prática de criação dos adolescentes subdivide-se em categorias de monitoramento e supervisão; controle, consistência/coerência e rigor de disciplina; apoio e comunicação. Os adolescentes buscam naturalmente a sua independência em relação aos pais com o intuito de controlar e decidir acerca de sua vida. Os pais freqüentemente confundem essa atitude com rebelião, pois os filhos tendem, nessa etapa da vida, a questionar os seus valores e opiniões. Os amigos preenchem o vácuo do progressivo desprendimento da tutela dos pais e são tratados, pelos jovens, como se fossem os primeiros em importância na sua vida. Eles formam grupos de intimidade, influenciando, de forma marcante, a transmissão de normas na fase da adolescência.

Uma pesquisa publicada em 2001 mostrou que o engajamento dos jovens no tratamento se relacionou, em ordem de importância, com as expectativas parentais positivas com relação à realização educacional de seus adolescentes; a observação acurada nos relatórios dos pais sobre o sintoma externo do jovem (comportamento delinqüente e agressivo); e os maiores níveis de conflito familiar percebido pelos jovens. O forte argumento desta pesquisa é que os adolescentes, filhos de pais que apresentaram a combinação de reconhecimento de problemas e a crença que seu filho pode ultrapassá-los através da realização na escola, engajaram-se no tratamento. Os pais que apresentaram a combinação de reconhecimento de problemas e a crença que seu filho pode ultrapassá-los através da realização na escola, engajaram-se no tratamento.

O monitoramento e a supervisão dos pais em relação aos filhos são sinais das expectativas que têm de que se cumpram as normas familiares, protegendo-os de se associarem a pares desviantes, reduzindo, assim, a chance do uso de drogas (Oetting & Donnermeyer, 1998).

As abordagens que envolvem a unidade familiar nos problemas relativos ao de tratamento por uso abusivo de drogas são consideradas mais efetivas do que as abordagens de tratamento individual (Alexander & Gwyther, 1995). Hoje, os diferentes tipos de tratamentos de família estão equipados para lidar com problemas reconhecidos como previsíveis do comportamento anti-social: monitoramento parental frouxo; vínculo e ligação pais-criança pobres; e hostilidade e conflito nesta relação.

Sabe-se, por experiência e através de pesquisas (Liddle et al., 1998), que os pais continuam influenciando seus filhos adolescentes ainda que, nesta fase, o grupo de amigos se torne muito importante. O conflito intenso entre pais e adolescentes, além de não ser a norma, dificulta o desenvolvimento da identidade desse ser em formação. A transição positiva para a adolescência se faz através da negociação de mudanças nas relações entre pais e filhos, em busca da autonomia. Quando isto não acontece, o adolescente poderá se distanciar dos pais de forma hostil para conseguir manter o controle sobre sua independência. Desta forma, um dos principais objetivos das intervenções baseadas na família com adolescentes envolvidos com uso abusivo de drogas deve ser o da reconstrução do vínculo emocional dos pais em relação ao jovem, de forma a atender às necessidades de ambos.

Observa-se que os pais, ou figuras substitutas, têm dificuldade em passar normas e limites para seus filhos. Em relação aos jovens isso se manifesta na falta de assertividade e na ambigüidade com relação às leis e normas. As crianças e os adolescentes aceitam a autoridade dos pais – o estabelecimento de regras claras e coerentes e a imposição de limites – quando há uma relação de confiança e afeto entre eles.

Percebe-se que as famílias adictas buscam "terceirizar" suas responsabilidades com relação a seus filhos. Cultivam um tipo de comportamento irresponsável, como se o dever de monitorar e supervisionar o comportamento dos adolescentes fosse algo mecânico, robótico, sem a necessidade de construção prévia da relação de confiança. Quanto mais a família é "desengajada" (Minuchin, 1974) nas suas relações interpessoais maior risco seus filhos correm de desenvolver comportamentos anti-sociais.

É importante ressaltar que todas as intervenções baseadas na família (Schmidt et al., 1996) partem do princípio de que a mudança no indivíduo de um uso abusivo de drogas para a diminuição deste abuso, agregado a um funcionamento socialmente saudável, resulta da mudança no sistema familiar.

O comportamento do adolescente que faz uso abusivo de drogas é entendido no seu contexto de influências, no meio sociocultural em que estiver vivendo.

 

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