- suscetibilidade individual (condição intrínseca de o organismo reagir frente a uma agressão por um agente químico);
- exposição a um único produto ou a vários deles.
5.1 VIAS DE ABSORÇÃO
Do ponto de vista toxicológico, um agente poderá apresentar-se fisicamente como um líquido, sólido ou gasoso (névoas e vapores). Os gases oferecem elevado perigo pelo fato de serem inalados rapidamente para os pulmões. Agentes químicos, sob a forma de partículas sólidas ou gotículas, oferecem também risco à saúde por inalação, ingestão e contato com a pele. As principais vias de absorção responsáveis pelas intoxicações originadas pelo manuseio e/ou uso inadequado de agentes tóxicos constam nas Seções seguintes.
5.1.1 VIA CUTÂNEA (DÉRMICA)
A via dérmica é a porta de entrada mais freqüente das intoxicações por praguicidas, principalmente através das mãos, braços, pescoço, face e couro cabeludo que estão particularmente expostos quando se manipulam produtos. Olhos, boca e língua também são bastante vulneráveis. A absorção ocorre através do contato do produto (pó, líquido ou gás) com a pele, por respingos, névoa de pulverização ou pelo uso de roupas contaminadas. A absorção do agente tóxico por via dérmica depende de fatores como formulação, tempo de exposição, hidro e lipossolubilidade, grau de ionização, tamanho da molécula e hidrólise do composto nas condições de pH da epiderme e derme, estados de hidratação da camada de queratina, umidade ambiental, temperatura do corpo e do ambiente, luz solar. Quando um agente tóxico entra em contato com a pele, pode:
- ser barrado efetivamente pelo suor ou pela própria pele;
- reagir com a superfície da pele produzindo uma irritação primária;
- combinar-se com proteínas dos tecidos e produzir uma sensibilização;
- penetrar através da pele e ingressar na corrente sangüínea.
Como a transpiração aumenta a absorção através da pele, devem ser tomados cuidados especiais em dias quentes.
5.1.2 VIA RESPIRATÓRIA (INALATÓRIA)
A via inalatória é uma das principais vias de entrada de praguicidas no organismo em aplicações que produzem gases, vapores, fumos, fumaças, neblinas, poeiras, principalmente se realizadas em espaços confinados ou sob condições inadequadas de arejamento. Temos como agentes facilitadores do processo de intoxicação, a extensa área alveolar (uma pessoa adulta pode ter aproximadamente 700 milhões destes alvéolos), altamente permeável e ricamente vascularizada. Quando uma partícula consegue chegar até um alvéolo, este é inutilizado, impedindo a ocorrência da troca gasosa, possibilitando a penetração dos gases tóxicos no sangue. Quanto mais alvéolos estiverem inutilizados, maiores as evidências das doenças pulmonares. Para uma partícula ou gotícula ser inalada e atingir os pulmões (alvéolos), é necessário que a mesma tenha diâmetro menor do que 1 micra. Portanto, cuidados devem ser adotados, como o uso de máscaras apropriadas, para reduzir o risco de intoxicação por inalação, quando do emprego das nebulizações térmicas ou frias a Ultra Baixo Volume (UBV). Ambas produzem gotas de pequeno diâmetro, sendo que em parte, as gotículas aspergidas, nos dois tipos de nebulização, possuem diâmetros inferiores a 10 micrometros (ver Seção 1.4, Capítulo II). Os equipamentos de pulverização com bico em leque, utilizados nas borrifações de ação residual, no entanto, mesmo produzindo gotículas com tamanho médio ao redor de 200 micrometros, também podem causar intoxicações. Tais gotículas ficam retidas nas mucosas do trato respiratório alto (nariz e faringe), são deglutidas e podem, por via digestiva, ser absorvidas.
5.1.3 VIA DIGESTIVA (ORAL)
Constitui o meio menos provável de intoxicação em situação de uso normal. No entanto, imprudências como comer, beber, fumar com as mãos contaminadas, ou mesmo, guardar produtos em embalagens não originais, que podem ser confundidas com alimentos ou bebidas, podem levar à ingestão acidental, que é particularmente perigosa. A absorção dos princípios ativos ingeridos é rápida, o que significa que tais intoxicações podem ser fatais se não tratadas imediatamente. Diversos fatores influenciam a absorção de substâncias químicas pela parede gastrointestinal: formulação, solvente e propriedades físico-químicas do produto.
5.2 GRUPOS QUÍMICOS E VIAS DE ABSORÇÃO
As principais vias de absorção dos praguicidas pelo organismo humano, de acordo com o grupo químico, são indicados no Quadro 8.
Quadro 8: Vias de absorção pelo organismo humano dos praguicidas utilizados
na área da Saúde.
ORGANOCLORADOS:
São de apreciável absorção cutânea, já que são altamente lipossolúveis. São também absorvidos por via oral e respiratória.
ORGANOFOSFORADOS:
São absorvidos por via dérmica, respiratória e digestiva. A absorção dérmica é a via principal de penetração nos envenenamentos ocupacionais, sendo tão tóxica como a via oral.
CARBAMATOS:
As vias principais das intoxicações são oral, respiratória e dérmica.
PIRETRÓIDES:
Por serem altamente lipófilos, os piretróides passam facilmente através das membranas celulares e se absorvem por via dérmica, respiratória e oral.
5.3 TOXICIDADE
As características tóxicas de uma substância ou composto químico são avaliadas por experimentações em animais de laboratório. A avaliação toxicológica do produto permite a detecção de possíveis efeitos graves para a saúde que possam impedir o registro e a utilização de um determinado praguicida. No caso presente, stará em foco a ação dos praguicidas sobre animais de sangue quente.
5.3.1 DADOS TOXICOLÓGICOS AGUDOS
A toxicidade aguda (produzida por dose única e excessiva, por qualquer via de absorção) é a maneira mais comum de expressar o poder letal de uma substância ou composto químico, sendo geralmente expressacomo dose letal mediana 50 e concentração letal mediana 50. 5.3.1.1 DOSE LETAL MEDIANA 50 (DL50) É a quantidade, em miligramas da substância por quilograma de peso corpóreo
(mg/kg), necessária para provocar a morte em 50 % do lote de animais submetidos ao
experimento. Para o bioensaio da DL50, pelo menos 4 doses crescentes do produto químico são selecionadas, de tal maneira que a menor dose não provoque mortes e a dose maior provoque 100 % de mortalidade na amostra examinada. Assim, em geral, quanto mais alta é a DL50 de um determinado praguicida, menor será risco de intoxicação.
Os bioensaios para a determinação da DL50 podem ser realizados pelas vias oral, dérmica, intraperitonial, subcutânea, intravenosa e intramuscular. A dose letal 50 % oral (DL50 oral) é a dose única que provoca a morte de 50 % dos animais testados em até 14 dias após sua administração por via oral. A dose letal 50 % dérmica (DL50 dérmica) é a dose única que, após o contato por 24 horas com a pele (tanto intacta quanto escoriada), provoca a mortalidade de 50 % em até 14 dias após a administração. O animal eleito para este teste é o rato.
5.3.1.2 CONCENTRAÇÃO LETAL MEDIANA 50 (CL50 INALATÓRIA)
É utilizada para avaliar a toxicidade aguda pela via respiratória. É a concentração de uma substância química em mg/m³ no ambiente, capaz de provocar a morte em 50 % dos animais após uma exposição mínima de 60 minutos. Os testes são realizados em câmaras fechadas de volumes definidos nas quais uma aparelhagem apropriada asperge uniformemente as substâncias em partículas com diâmetro igual ou inferior a 3 micrometros. O animal utilizado também é o rato.
5.3.2 DADOS TOXICOLÓGICOS CRÔNICOS
São informações a respeito da toxicidade acumulativa de um agente tóxico, obtidas pela exposição contínua a um produto durante um período prolongado.
5.3.2.1 ADMINISTRAÇÃO DO PRODUTO EM CURTO PRAZO É a dose do produto químico, expressa em miligrama de praguicida por quilograma de peso corpóreo (mg/kg), que pode ser ingerida diariamente sem presentar sinais ou sintomas. É obtida por administração de doses pequenas, diárias, do agente na dieta dos animais de experimentação (rato), por um período de 90 dias.
5.3.2.2 ADMINISTRAÇÃO DO PRODUTO EM LONGO PRAZO
São informações toxicológicas obtidas a partir da administração de doses pequenas, diárias, do agente na dieta de ratos, durante período de tempo equivalente à metade da vida normal dos animais.
5.3.3 LESÕES OCULARES
Os dados toxicológicos neste caso, são obtidos a partir da instilação do agente nas mucosas oculares do animal, sem posterior lavagem dentro de 24 horas, e observação posterior por sete dias. Utiliza-se coelho.
5.3.4 LESÕES DÉRMICAS
Os dados toxicológicos são obtidos, neste caso, a partir da aplicação do agente na pele do animal (coelho), em dois sítios: um intacto e outro escoriado, sem que haja rompimento da rede capilar. A pele não é lavada dentro de 24 horas e a irritação é registrada em até 72 horas após a aplicação.
5.3.5 SENSIBILIZAÇÃO DÉRMICA
São dados toxicológicos obtidos a partir da exposição de animais a baixas concentrações do agente, tanto por contato dérmico como por injeções intradérmicas, com o objetivo de observar alterações imunológicas.
5.3.6 EFEITOS NEUROTÓXICOS
São dados obtidos a partir da administração oral de doses próximas à DL50, em galinhas Leghorn, observando-se alterações de comportamento e de controle motor durante 14 dias. Ao final do período de observação, os animais são sacrificados e o sistema nervoso central, incluindo o tecido mielínico, é submetido à análise histopatológica. São utilizadas aves, devido à maior sensibilidade do seu sistema nervoso central.
5.3.7 PROPRIEDADES CARCINOGÊNICAS
Os dados relativos à carcinogênese são obtidos a partir da administração de doses diárias do agente na dieta de ratos por período equivalente à metade da vida normal dos animais. Estes, ao final do experimento, são sacrificados e submetidos a exames histopatológicos. Os efeitos carcinogênicos devem ser observados em, no mínimo, duas espécies de animais de laboratório.
5.3.8 PROPRIEDADES TERATOGÊNICAS
Os efeitos sobre o feto são observados a partir da administração de doses diárias do agente na dieta de ratas, durante o período da organogênese, isto é, entre o 6.º e o 16.º dias de prenhez.
5.3.9 PROPRIEDADES MUTAGÊNICAS
Os efeitos mutagênicos em espermatozóides são obtidos a partir da administração intravenosa de doses diárias do agente tóxico em ratos machos, durante um período de cinco dias do pré-acasalamento.
5.3.10 EFEITOS TÓXICOS SOBRE A REPRODUÇÃO
Efeitos sobre a reprodução dos animais, quando o agente é administrado por três gerações consecutivas. Visa a observar o grau de reprodução, interesse sexual e fertilidade de ratos machos e fêmeas.
5.4 TOXICIDADE DOS PRAGUICIDAS
O Quadro 9 indica os efeitos tóxicos provocados pelos praguicidas de acordo com o grupo químico.
Quadro 9: Efeitos tóxicos provocados pelos praguicidas utilizados na área da
Saúde.
ORGANOCLORADOS:
Apresentam, dentre outros, efeito cancerígeno, mutagênico e neurotóxico. Nos casos agudos, atuam no sistema nervoso central (SNC), impedindo a transmissão nervosa normal, resultando em alterações do comportamento, do equilíbrio, da atividade da musculatura involuntária, distúrbios sensoriais e depressão dos centros vitais, particularmente da respiração (afetam o equilíbrio sódio/potássio). Tem ação estimulante sobre as enzimas metabolizantes de drogas. Ao penetrarem no organismo, têm efeito cumulativo e concentram-se nos tecidos adiposos, especialmente no abdômen, cérebro e fígado. A eliminação se faz pela urina, cabendo destacar também a eliminação pelo leite materno.