Meio Ambiente/Ecologia - Bhopal, Índia
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Meio Ambiente/Ecologia

Bhopal, Índia

10/06/2003

O pior desastre químico da história

1984-2002

Na madrugada entre dois e três de dezembro de 1984, 40 toneladas de gases letais vazaram da fábrica de agrotóxicos da Union Carbide Corporation, em Bhopal, Índia. Foi o maior desastre químico da história. Gases tóxicos como o isocianato de metila e o hidrocianeto escaparam de um tanque durante operações de rotina. Os precários dispositivos de segurança que deveriam evitar desastres como esse apresentavam problemas ou estavam desligados.

Estima-se que três dias após o desastre 8 mil pessoas já tinham morrido devido à exposição direta aos gases. A Union Carbide se negou a fornecer informações detalhadas sobre a natureza dos contaminantes, e, como conseqüência, os médicos não tiveram condições de tratar adequadamente os indivíduos expostos. Mesmo hoje os sobreviventes do desastre e as agências de saúde da Índia ainda não conseguiram obter da Union Carbide e de seu novo dono, a Dow Química, informações sobre a composição dos gases que vazaram e seus efeitos na saúde.

Infelizmente, a noite do desastre foi apenas o início de uma longa tragédia, cujos efeitos se estendem até hoje. A Union Carbide, dona da fábrica de agrotóxicos na época do vazamento dos gases, abandonou a área, deixando para trás uma grande quantidade de venenos perigosos. A empresa tentou se livrar da responsabilidade pelas mortes provocadas pelo desastre, pagando ao governo da Índia uma indenização irrisória facea gravidade da contaminação.

Hoje, bem mais de 150.000 sobreviventes com doenças crônicas ainda necessitam de cuidados médicos, e uma segunda geração de crianças continua a sofrer os efeitos da herança tóxica deixada pela indústria.


O Desastre

Na noite do desastre, as seis medidas de segurança criadas para impedir vazamentos de gás fracassaram, seja por apresentarem falhas no funcionamento, por estarem desligadas ou por serem ineficientes. Além disso, a sirene de segurança, que deveria alertar a comunidade em casos de acidente, estava desligada.

Os gases provocaram queimaduras nos tecidos dos olhos e dos pulmões, atravessaram as correntes sangüíneas e danificaram praticamente todos os sistemas do corpo. Muitas pessoas morreram dormindo; outras saíram cambaleando de suas casas, cegas e sufocadas, para morrer no meio da rua. Outras morreram muito depois de chegarem aos hospitais e prontos-socorros. Os primeiros efeitos agudos dos gases tóxicos no organismo foram vômitos e sensações de queimadura nos olhos, nariz e garganta, e grande parte das mortes foi atribuída a insuficiência respiratória. Em alguns casos, o gás tóxico causou secreções internas tão graves que seus pulmões ficaram obstruídos; em outros, as vias aéreas se fecharam levando à sufocação. Muitos dos que sobreviveram ao primeiro dia foram diagnosticados com problemas respiratórios. Estudos posteriores com os sobreviventes também apontaram sintomas neurológicos, como dores de cabeça, distúrbios do equilíbrio, depressão, fadiga e irritabilidade, além de danos nos sistemas músculo-esquelético, reprodutivo e imunológico.

Aquisição da Union Carbide pela Dow Química

Em 2001, a Union Carbide foi adquirida pela multinacional Dow Química, sediada nos Estados Unidos. Com a

compra da Union Carbide por um total de US$ 9,3 bilhões, a Dow se tornou a maior indústria química do mundo. A Dow comprou não apenas os bens da empresa, mas também a responsabilidade pelo desastre de Bhopal. Mesmo assim, a empresa se recusa a aceitar a responsabilidade moral pelo passivo ambiental adquirido. Ao mesmo tempo em que a responsabilidade legal da Dow está sendo julgada pela justiça norte-americana, os moradores de Bhopal continuam a sofrer os impactos do desastre.

De acordo com a Dow, com a fusão das duas empresas, a receita anual passou a ser superior a US$ 24 bilhões, e seus ativos estão avaliados em mais de US$ 30 bilhões. Em novembro de 2000, o novo presidente eleito da Dow, Michael D. Parker, demonstrou preocupação com as questões referentes à Union Carbide em Bhopal em seu primeiro informe oficial à imprensa:

"É claro que temos consciência do incidente em Bhopal e de sua associação ao

nome da Union Carbide, mas é importante ressaltar que [a Union Carbide] fez o que foi preciso para adotar os programas adequados para meio ambiente, saúde e segurança"

.

Assim como no caso dos atentados terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos, a morte de inocentes civis em Bhopal também chocou o mundo e provocou mudanças no comportamento da indústria. Depois desse desastre, a legislação ambiental e de segurança química em muitos países ricos ficou mais rigorosa. Nos Estados Unidos, foi criada a legislação de Direito à Informação, e a indústria química desenvolveu códigos de conduta, como a

Atuação

Responsável


(

Responsible Care

). De acordo com Sam Smolik, vice-presidente da Dow para questões de meio ambiente, saúde e segurança, em um discurso feito recentemente, "(...) em 1984, a terrível tragédia que ocorreu em Bhopal, na Índia, serviu para despertar a indústria química como um todo...".
No entanto, as mudanças ocorridas no setor químico não foram suficientes e trouxeram poucos benefícios aos indivíduos mais afetados pelo acidente, cujos pedidos de indenização justa e de descontaminação da área continuam sendo ignorados.


Justiça para Bhopal

A Union Carbide foi intimada a indenizar aqueles que, com o desastre, perderam sua capacidade de trabalhar. Em fevereiro de 1989, depois de cinco anos de disputa legal, o governo indiano e a empresa chegaram a um acordo, fixando a indenização em US$ 470 milhões. Essa quantia deveria ser capaz de pôr fim a toda responsabilidade da indústria perante à sociedade. A indenização média, de US$ 370 a US$ 533 por pessoa, era suficiente apenas para cobrir despesas médicas por cinco anos. Muitas das vítimas, assim como seus filhos, sofrerão os efeitos do desastre pelo resto de suas vidas.

Organizações locais de sobreviventes estimam que entre 10-15 pessoas continuam morrendo a cada mês como resultado da exposição. Desde 1984, mais de 140 ações civis a favor das vítimas e sobreviventes de Bhopal foram iniciadas nas Cortes Federais dos Estados Unidos, na tentativa de obter indenização apropriada. Os casos continuam em curso.


Contaminação na Fábrica e Arredores

Em 1999, o Greenpeace e grupos comunitários de Bhopal visitaram a fábrica abandonada para avaliar as condições ambientais do local e dos arredores. A equipe documentou a presença de estoques de agrotóxicos, assim como resíduos perigosos e material contaminado espalhado por todo o terreno. Encontraram níveis elevados de metais pesados e compostos clorados no solo e na água, e, em alguns locais, os níveis eram bastante alarmantes.

 

As amostras coletadas pelo Greenpeace mostraram níveis elevados de compostos clorados no lençol freático

amostrado a partir da água de poços, incluindo clorofórmio e tetracloreto de carbono, indicativos de contaminação a longo prazo. Além disso, foram encontrados no solo chumbo, níquel, cobre, cromo, hexaclorociclohexano (HCH) e clorobenzenos. A contaminação geral do local e dos arredores deve-se a vazamentos e acidentes rotineiros durante o período em que a fábrica funcionava, ou às contínuas emissões resultantes dos resíduos tóxicos que permanecem no local.

A muitos dos indivíduos que continuam habitando as redondezas da fábrica, incluindo sobreviventes do desastre, não resta outra alternativa a não ser usar água do lençol freático contaminada com poluentes tóxicos. Desde 1990 a comunidade já luta por água limpa. Testes realizados pelo governo local em 1996 apontaram níveis elevados de contaminação, concluindo que muitos dos poços tinham condições de potabilidade inadequadas. O Greenpeace e os sobreviventes de Bhopal exigem que a Dow Química:

*

Descontamine a área e se responsabilize pelos custos da operação, como seria exigido nos Estados Unidos;

*

Assegure tratamento médico e as condições necessárias para tratamento a longo prazo de sobreviventes do

desastre;

*

Indenize as pessoas afetadas pela exposição ao gás, assim como suas famílias;

*

Providencie água potável para as comunidades que são forçadas a consumir água de poços contaminados; Além disso, o Greenpeace e as organizações de sobreviventes exigem que governos assinem tratados internacionais para responsabilizar as empresas criminal e financeiramente pelos desastres industriais e pela poluição resultante.


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Publicado por: Dra. Shirley de Campos
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