MICROBIOLOGIA E SANEAMENTO AMBIENTAL
Microbiologia e Saneamento Ambiental
2. Problemática do Lançamento e Disposição de Rejeitos no Ambiente
Os ecossistemas aquáticos possuem funções ambientais de indiscutível valor. Neles, os nutrientes são reciclados, a água é purificada, as enchentes são atenuadas, os fluxos das águas são conservados e ampliados, os lençóis freáticos são recarregados, e sobretudo, constituem fonte de abastecimento de água para a vida vegetal, animal e humana.
Porém, o rápido aumento populacional em diversas partes do mundo, em conjunto com o intenso desenvolvimento industrial, comercial e residencial, resultaram na poluição dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos por fertilizantes, pesticidas, inseticidas, óleos, percolados tóxicos de aterros sanitários (local de disposição controlada de resíduos sólidos), enfim, uma enorme variedade de efluentes industriais e os sanitários. O agravamento da situação pelo uso indiscriminado dos sistemas hídricos verificou-se ainda, pelo aumento da demanda do consumo de água, que em último caso, provoca a redução do fluxo de água disponível no meio ambiente para a diluição dos despejos (Committee on Restoration of Aquatic Ecosystems - EUA, 1992).
Em 1992, GRIFFITHS indicou que apenas 10% do total mundial de águas residuárias estão sujeitas a algum tipo de tratamento. O residual de 90% permanece no meio suscetível a auto-purificação nos sistemas aquáticos. Em termos quantitativos, como abordado por GLAZER & NIKAIDO (1995),10% de todas as bacias continentais no mundo suprem as necessidades de uso da água. Deste valor, são consumidos 70% na irrigação agrícola, 20% nos processos industriais, e o restante pelas atividades domésticas e de agropecuária, entre outras.
No Brasil, a maioria dos ecossistemas aquáticos recebe toda a espécie de impactos oriundos da atividade humana, sendo prováveis exceções algumas áreas da bacia amazônica e corpos d'água situados em localidades bastante isoladas. O Brasil possue uma ampla rede hidrográfica em relação ao mundo, e 51% dos sistemas existentes para a captação de águas de abastecimento estão localizados em rios, nos quais são lançados cerca de 92% dos esgotos gerados nas regiões (TUNDISI & BARBOSA, 1995). A Tabela 1, baseada nas informações de TUNDISI & BARBOSA (1995), resume as atividades antrópicas e suas consequências nos ecossistemas aquáticos brasileiros.
As interferências geradas nos sistemas aquáticos são, portanto, de diferentes origens, e aquelas resultantes do lançamento de efluentes industriais e sanitários são de difícil controle, principalmente devido a diversidade e quantidade das fontes de emissão.
Os solos também sofrem alterações pelo despejo de poluentes nos sistemas aquáticos, e pela disposição superficial de resíduos, tais como compostos químicos tóxicos e lixos oriundos das atividades agrícola e industrial.
TABELA 1. Atividades antrópicas e suas consequências nos ecossistemas aquáticos brasileiros.
|
ATIVIDADES ANTRÓPICAS |
CONSEQUÊNCIAS DAS ATIVIDADES |
|
|
|
|
Irrigação |
Eutrofização de lagos, rios, reservatórios, estuários e águas costeiras |
|
|
|
|
Lançamento de efluentes industriais |
Alteração no nível das águas e no ciclo hidrológico |
|
|
|
|
Lançamento de esgotos sanitários |
Alteração nas cadeias alimentares existentes |
|
|
|
|
Produção e disposição de resíduos agrícolas |
Toxicidade nos sistemas aquáticos |
|
|
|
|
Produção e disposição de resíduos sólidos (urbanos, hospitalares, etc.) |
Aumento nos custos dos sistemas de tratamento de águas de abastecimento |
|
|
|
|
Desflorestamento |
Veiculação de doenças, com consequências prejudiciais a saúde pública |
|
|
|
|
Mineração |
Perda da biodiversidade |
|
|
|
|
Construção de rodovias |
Impedimento dos múltiplos usos da água |
|
|
|
|
Remoção de espécies nativas importantes |
Mudanças na qualidade de vida |
|
|
|
Fonte: Baseado em TUNDISI & BARBOSA (1995).
Uma das fontes de poluição mais agressiva às águas subterrâneas,e consequentemente aos aquíferos, é aquela produzida pela percolação de resíduos colocados em solos permeáveis, que não dispõem de nenhum método artificial de proteção das camadas superficiais da terra que o constituem. São exemplos de fontes de poluição dos lençóis freáticos, líquidos gerados pela degradação e/ou percolação de resíduos sólidos industriais ou urbanos, inadequadamente dispostos em áreas permeáveis, e por vazamentos de dutos de condução de petróleo.
Os resíduos mais comuns são os sanitários e os produzidos pela atividade agro-pecuária, e são constituídos, em sua maioria, por matéria de origem orgânica. Um número significante de compostos sintéticos, ou xenobióticos, muitos dos quais são pesticidas, solventes orgânicos, e compostos poliaromáticos e halogenados, tais como as dioxinas, também compõem a gama de poluentes orgânicos que persitem e acumulam no ambiente. A Tabela 2 resume algumas fontes de poluição por compostos antropogênicos aromáticos tóxicos, segundo FIELD et al. (1995).
Além disso, um importante número de poluentes inorgânicos pode ocasionar efeitos prejudiciais ao meio ambiente, como é o caso de várias formas de nitrogênio, fósforo e metais pesados. Particularmente, a eutrofização dos sistemas aquáticos é ocasionada pela liberação de nitratos e fosfatos, nutrientes que suportam o florescimento de uma enorme massa celular de algas no corpo d'água receptor.
TABELA 2. Fontes de poluição por compostos antropogênicos aromáticos tóxicos.
|
|
|
COMPOSTOS AROMÁTICOS |
FONTES INDUSTRIAIS |
|
|
|
|
BTEX |
combustíveis fósseis, solventes, |
|
|
|
|
estireno |
plásticos |
|
|
|
|
PAH |
combustíveis fósseis, preservantes de madeiras |
|
|
|
|
alquilfenóis |
sulfactantes, detergentes |
|
|
|
|
sulfo aromáticos |
sulfactantes, detergentes, despolpamento com sulfito, corantes |
|
|
|
|
amino aromáticos |
pesticidas, corantes, pigmentos, fármacos |
|
|
|
|
azo aromáticos |
corantes |
|
|
|
|
nitroaromáticos |
explosivos, fármacos, pesticidas, corantes |
|
|
|
|
clorofenóis e dioxinas |
preservantes de madeiras, pesticidas, efluentes de branqueamento de polpa |
|
|
|
|
hidrocarbonetos cloroaromáticos e PCB |
pesticidas, solventes, fluidos hidraúlicos e dieletricos |
|
|
|
BTEX=benzeno, tolueno, etilbenzeno e xileno; PAH= hidrocarbonetos aromáticos policíclicos; PCB= bifenilas policloradas.
Fonte: FIELD et al., 1995.
As ações de prevenção, recuperação e manutenção dos ecossistemas devem priorizar as tecnologias que conduzam a purificação de áreas poluídas, com base na remoção da matéria orgânica facilmente degradável ou, pela eliminação de um poluente químico específico de difícil degradação.
As possíveis soluções para os rejeitos lançados no meio ambiente podem abrigar diferentes processos biológicos, cujo objetivo é a biodegradação de compostos poluentes em compostos mais simples, em outras palavras, a mineralização completa de moléculas orgânicas. Alguns processos podem gerar ainda, produtos finais de valor energético, como é o caso do metano, ou de valor para a indústria de química fina, como é o caso do catecol, originado a partir da transformação biológica de fenóis (GRIFFITHS, 1992).