Tóxicos/Intoxicações - Qualidade do leite: uma questão de quantidade
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Tóxicos/Intoxicações

Qualidade do leite: uma questão de quantidade

10/06/2003

Desnecessário enfatizar a importância do leite como alimento básico para a população, e do setor leiteiro como gerador de renda (3º lugar na formação da renda bruta agropecuária) e como fixador de mão-de-obra no campo (2,5 milhões de produtores, em sua grande maioria familiares). Assume, portanto, uma dimensão social dificilmente superada por outros setores produtivos, notadamente no Nordeste e, particularmente, em Sergipe, onde garante a sustentabilidade de sua região semi-árida.

Quando se fala em qualidade do leite e de seus derivados, é interessante notar a preocupação predominante de abordar a questão de uma perspectiva quase que puramente higiênico-sanitária, em que a contaminação microbiológica seria a responsável maior pela perda de qualidade e pelos malefícios já conhecidos e até enfatizados na mídia.

De fato, esse aspecto constitui-se problema relevante de saúde pública e não há como negar que programas que busquem a melhoria higiênico-sanitária dos produtos lácteos, em geral, sejam necessários, mormente quando se sabe que cerca de 50% destes, no Brasil, e bem acima disso no Nordeste, não sofrem qualquer tipo de controle ou inspeção oficial. Também é verdade que além da inquestionável legitimidade da preocupação com a qualidade microbiológica, não se pode ignorar que ela também é a grande responsável pela magnitude das perdas econômicas no processamento industrial.

Assim é que, a bem da saúde do consumidor, medidas modernizantes, já inseridas na legislação, como o resfriamento do leite na origem (fazenda) e sua coleta granelizada estão sendo impostas ao produtor. Isso implica, necessariamente, em investimentos pesados na compra de equipamentos (tanques de expansão), o que já se constitui na primeira restrição à integração do pequeno produtor ao circuito industrial. De outro lado, essas medidas permitem reduzir significativamente os custos de coleta e de controle desse leite por parte da indústria que, até então diários, passam a ser realizados a cada dois dias, levando a supor uma lógica mais quantitativa que qualitativa. Outro dado que reforça tal hipótese é o brutal aumento da participação do leite longa vida no mercado do leite fluido, freqüentemente apontado como vilão do processo de melhoria da qualidade do leite. Isso porque o tratamento de esterilização a que é submetido permite o aproveitamento de matéria-prima de baixa qualidade e de custo mais barato, anulando os esforços dos produtores especializados na melhoria da qualidade do produto na origem. Há, portanto, uma aparente contradição nos rumos da cadeia de produção do circuito industrial do leite.

Por outro lado, tangenciada na discussão da qualidade do leite, há a face obscura da contaminação toxicológica por pesticidas intensivamente usados na pecuária leiteira – carrapaticidas e mosquicidas cada vez mais tóxicos, por conta da progressiva resistência que os causadores destas pragas adquirem aos princípios ativos utilizados.

Pouco tem sido feito para se conhecer, de forma substanciada, esse lado da questão, provavelmente porque laboratórios de análises toxicológicas custam muito caro. Com o crescente encolhimento da pesquisa governamental e o óbvio desinteresse do setor privado em um tema que ainda não lhe causa perdas econômicas, dificilmente se avançará nesse campo. Além disso, nossos sistemas agropecuários de produção, altamente dependentes de insumos externos industrializados, constituem um mercado bastante convidativo: quarto maior no mundo, em agrotóxicos, com um movimento de quase US$ 1,5 bilhão ao ano. No caso específico do leite, conceitos equivocados de eficiência tecnológica têm privilegiado a adoção de sistemas ditos "avançados" ou "modernos" - em que instalações e equipamentos sofisticados tidos como indicadores de tecnificação e intensificação têm levado a um crescente consumo dos insumos ditos modernos (pesticidas, medicamentos, máquinas/equipamentos, rações, sêmem ...). Daí a conveniência óbvia da manutenção desse quadro.

Em contrapartida, afortunadamente, toma corpo entre os consumidores, principalmente em centros mais desenvolvidos, a incorporação de conceitos de saudabilidade, com a preocupação de consumo de alimentos cada vez mais limpos, a partir da constatação dos malefícios advindos do consumo de alimentos produzidos com agrotóxicos. Documentário científico, produzido pela BBC de Londres, informa que "um homem de 50 anos produz o dobro de espermatozóides viáveis em relação a um homem de 20 anos, coincidentemente o período em que começou o uso maciço de inseticidas químicos". A alta taxa de câncer registrada nas últimas décadas também é atribuída ao uso intensivo de produtos tóxicos na agricultura, registra o documento.

No Brasil, entre os poucos estudos sobre o tema, está uma pesquisa conduzida por Bissacot e Vassilief (1999), na UNESP de Botucatu (SP), em que foram detectados, no leite, níveis elevados de piretróides (considerados como dos menos tóxicos), após 28 dias de uma única aplicação dérmica ("pour on") em vacas girolandas. Isso remete à indagação sobre o que estará ocorrendo com o leite que estamos consumindo, quando se sabe que mosquicidas, cada vez mais tóxicos (alguns já incorporando organo-fosforados), estão sendo aplicados em nossas vacas leiteiras, sem o respeito quase que generalizado pelos períodos de carência.

Assim, ao mesmo tempo em que a lógica modernizante do circuito industrial da cadeia produtiva do leite tende a excluir, de forma crescente, uma parcela incomensurável de pequenos produtores do setor formal, a produção orgânica de lácteos, com alto valor agregado, surge como uma alternativa de sobrevivência da produção familiar, sabidamente mais adequada a sistemas de produção menos danosos ao ambiente.

A alternativa da permanência ou da migração para a informalidade, aparentemente ainda tolerada pelo governo, por suas implicações sócio-políticas, embora justificada como estratégia de sobrevivência, não parece ser sustentável. Talvez menos por ações punitivas de governo e mais pelo processo de informação ao consumidor do "perigo" dos produtos clandestinos. Nesse sentido, uma campanha de combate ao leite informal já está em curso, por parte dos setores organizados da produção que, amparados na legislação, procurarão desvencilhar-se da concorrência "desleal" e ampliar seu espaço no mercado.

A coexistência de diferentes segmentos de mercado oferece espaço para os diferentes atores do agronegócio do leite. É necessário, entretanto, ter em conta a preservação da saúde do consumidor em um contexto mais abrangente e menos como pretexto para maximizar lucros. O processo deve ser conduzido de modo a reduzir ao máximo a exclusão social e para isso é que os governos existem.

 

Orlando Monteiro de Carvalho Filho - Pesquisador da Embrapa Semi-Árido, Petrolina (PE)

 


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