A imensa biodiversidade do planeta não é igualmente distribuída em sua superfície. De fato, admite-se que cerca de 60% de toda a diversidade biológica se encontre em apenas 1,44% da superfície da Terra.
Nessa pequena área se restringem 44% das espécies de plantas vasculares e 35% dos vertebrados não peixes.
Denominados Hot Spots, esses não são apenas os pontos quentes em diversidade biológica do planeta, mas também os recordistas em devastação, devendo ser, portanto, as prioridades de conservação (Myers et al., 2000)
A estratégia dos Hot Spots é baseada nas seguintes premissas (Mittermeir et al, 1999):
A biodiversidade é importante para a manutenção das comunidades das diferentes nações, devendo ser levada em conta na decisão de estratégias de desenvolvimento;
Algumas áreas apresentam mais alta diversidade biológica do que outras;
Muitas das áreas que exibem alta diversidade exibem, também, alto endemismo de espécies;
Muitas das áreas de alta diversidade estão sendo devastadas pela ação antrópica;
Para conseguir o maior impacto com recursos limitados é preciso concentrar esforços nas áreas de alta diversidade, alto endemismo e grande devastação.
HISTÓRICO
Normam Myers foi o primeiro conservacionista a introduzir o termo Hot Spots no mundo científico. Em 1988, o pesquisador publicou um trabalho no qual afirmava que 13% de todas as espécies de plantas vasculares estavam restritas a apenas 0,2% da superfície terrestre, fazendo inferências sobre a importância da conservação dessas áreas.
As 10 localidades identificadas por Myers et al. (1988) eram compostas por florestas tropicais úmidas e foram batizadas de Hot Spots. No ano seguinte a Conservation International e a Mac Arthur Fundation admitiram a importância da conservação dessas áreas para a manutenção da biodiversidade global e investimentos foram feitos para preservar esses ambientes e determinar novos Hot Spots.
Após mais de uma década de pesquisas e investimentos em conservação (a Mac Arthur Fundation investiu sozinha cerca de 150 milhões de dólares), este ano, Myers et al. (2000), publicaram mais uma atualização da lista de Hot Spots, definindo as 25 áreas do planeta prioritárias para a conservação da biodiversidade.
É interessante notar que muitas das áreas consideradas por Myers et al. (2000) foram também apontadas como importantes para a manutenção da biodiversidade global por outros estudos, como Megadiversity Contries (Mittermeir et al, 1997), Major Tropical Wildeness Areas (Mittermeir et al, 1998), Bird Life International (Stattersfield et al, 1997), e Global 200 Ecoregions (WWF, 1997).
DEFINIÇÃO
Para ser considerado um Hot Spot de biodiversidade um determinado ambiente precisa ter as seguintes características (Mittermeir et al, 1999):
Alto endemismo e diversidade de plantas
Como todas as demais formas de vidas dependem delas, as plantas são de grande importância na determinação de um Hot Spot. De fato, o candidato a Hot Spot precisa conter pelo menos 0,5%, ou seja, 1 500 das 300.000 espécies de plantas do planeta, como endêmicas.
Vertebrados
Dados de diversidade e endemismo de vertebrados terrestres apenas complementam a determinação do Hot Spot. Informações sobre peixes são ainda menos consideradas, uma vez que se admite que se conhece muito pouco sobre essas espécies, não podendo ser o fator determinante na escolha do Hot Spot.
Invertebrados
Diversidade e endemismo de invertebrados também são considerados apenas informações complementares, admitindo-se que ao se conservar o ambiente, essas espécies serão indiretamente preservadas
Grau de devastação
Para se tornar um Hot Spot, o ambiente precisa já ter sido intensamente devastado, com pelo menos 70% da vegetação nativa descaracterizada.
O fator endemismo de espécies é bastante importante na determinação dos Hot Spots, uma vez que admite-se que as espécies restritas à uma determinada área estão mais vulneráveis a extinção. Porém o fator endemismo vêm tornando-se menos representativo devido a falta de estimativas atuais e coerentes, e, mais importante, as estimativas são feitas, em geral, para um país como um todo ou para uma determinada região do país, e muitos dos Hot Spots se estendem por mais de um país.
Problemas na definição
As características consideradas importantes na determinação de Hot Spots são eficientes para determinar áreas ricas em diversidade biológica, porém estão longe de ser o ideal de preservação efetiva da natureza. Ambientes marinhos e aquáticos ainda estão excluídos da análise, assim como ecossistemas como a floresta Amazônica, que também deveriam ser prioridades de conservação. Além disso, existe discussão a cerca do fato de uma área com alto endemismo ser realmente diversa. A convergência de grande diversidade e grande endemismo de espécies parece ocorrer em escalas globais, mas não ocorre necessariamente em escala regional (Reid, 1998). É possível que com o tempo a estratégia Hot Spot ganhe mais força e possa investir na conservação de um número cada vez maior de ambientes.
HOT SPOTS TROPICAIS
Os trópicos úmidos são a região mais rica em diversidade biológica de todo o planeta. Aparentemente, a riqueza dos trópicos é devido a diversos fatores como a grande área ocupada por eles (uma maior área garante a possibilidade de sobrevivência de um maior número de espécies), condições climáticas, perturbações históricas, estabilidade e heterogeneidade ambiental, produtividade e interações entre espécies e indivíduos (Gaston, 2000).
Estima-se que dois terços de todas as espécies do mundo ocorram nos trópicos, em especial nas florestas úmidas. Estes ambientes ocupavam inicialmente cerca de 14 a 18 milhões km2, hoje têm apenas metade dessa área ainda conservada (Pimm & Raven, 2000). A importância da manutenção da biodiversidade tropical se revela na escolha de 15 desses ecossistemas para compor os 25 Hot Spots do globo.
Alguns Hot Spots são mais ricos em espécies endêmicas do que outros. Impressionantemente os 5 Hot Spots considerados os principais em endemismo ocupam juntos apenas 0,4% da superfície do globo, mas neles se restringem 20% de todas as espécies de plantas e 16% dos vertebrados não peixes. Como era de se esperar, todos esses 5 importantes Hot Spots são ecossistemas de florestas tropicais úmidas: Andes Tropicais, Floresta Atlântica, Madagascar, Caribe e Sundland (Indonésia).
DIVERSIDADE/TAMANHO
Por que tamanha biodiversidade se restringe a áreas tão pequenas? Mittermeier et al. (1999) acreditam que, aparentemente, os fatores principais que promovem a grande riqueza e endemismo de espécies nos Hot Spots são:
Trópicos
Grande parte dos Hot Spots se localiza nos trópicos, região que naturalmente é bastante rica em biodiversidade, clique aqui;
Ilhas
Oito Hot Spots são formados por grupos de ilhas tropicais ou sub-tropicais, sendo que a maioria das ilhas tropical é um Hot Spot. Devido ao espaço restrito, as ilhas oceânicas concentram um grande número de espécies por área, assim como sofrem intenso impacto antrópico à medida que as populações humanas crescem. Além disso, ilhas apresentam alta especiação, garantindo um número pronunciado de espécies endêmicas;
Refúgios do Pleistoceno
A teoria dos refúgios admite que durante períodos seco no Pleistoceno (entre 1 milhão e 30 mil anos atrás) haveria ocorrido uma retração das florestas, que ficariam restritas aos locais mais úmidos, verdadeiros refúgios para as espécies. Com a chegada de períodos úmidos, as florestas teriam se expandido novamente, e os refúgios teriam se tornado centros de dispersão, porém já haveria decorrido tempo suficiente para que houvesse especiação nos refúgios, aumentando a diversidade regional. Os autores admitem que Hot Spots são os mais expressivos refúgios do Pleitoceno.
CONSERVAÇÃO HSs
Os Hot Spots não são apenas as áreas mais ricas em biodiversidade do planeta, mas também as mais devastadas. Estima-se que apenas 12% da área originalmente ocupada pelos Hot Spots esteja intacta, uma porcentagem bem abaixo da média, uma vez que calcula-se que 30% dos ecossistemas terrestres localizados em regiões habitadas pelo homem, ainda estejam conservados. O fenômeno de maior devastação nas áreas biologicamente mais ricas, deve-se ao fato de que o homem, assim como as demais espécies, têm preferência por existir nessas áreas muito hospitaleiras à vida, em geral, regiões de clima tropical, sub-tropical ou temperada amena.
Apenas 5% da superfície ocupada pelos 25 Hot Spots juntos está de alguma forma preservada, seja como parque nacional, reserva particular ou santuário ecológico. Apesar de preservar apenas 0,6% da área do globo, esses locais já são de grande importância para a manutenção da biodiversidade dos Hot Spots. Além de haver necessidade de ampliar essas reservas, é preciso também verificar se elas não existem apenas “no papel”, uma vez que é possível que muitas ainda assim estejam sendo degradadas.
Certamente é necessário transformar toda a área ocupada pelos Hot Spots em reservas. Calcula-se que a compra de todos esses locais custaria cerca de 5 bilhões de dólares. Aparentemente essa é uma quantia bastante elevada, porém parece viável se considerarmos que a Austrália investiu sozinha 8 bilhões de dólares para que Sidney fosse a sede das Olimpíadas do ano 2000.
Transformar os Hot Spots em reservas seria apenas o passo seguinte, já que outras atitudes devem ser tomadas para garantir a conservação da biodiversidade desses locais. Muitas dessas áreas já estão bastante fragmentas, como é o caso da Mata Atlântica Brasileira, necessitando de cuidados especiais. Com a formação de fragmentos surgem problemas relacionados a biogeografia de ilhas, implicando no aumento das chances de extinção das espécies. As populações sofrem com a endogamia e com a baixa variabilidade genética. É necessário haver um manejo dessas populações e promover migração entre os fragmentos.
Além dos problemas biológicos a serem resolvidos, é necessário vencer as barreiras políticas e sociais. Os Hot Spots localizam-se em diferentes nações que culturalmente possuem prioridades e valores de vida diferentes. É preciso vencer essas barreiras para que os Hot Spots tornem-se patrimônio da humanidade.
Universidade Federal de Minas Gerais