Genética/Clonagem/Terapia gênica - O que nos faz humanos
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Genética/Clonagem/Terapia gênica

O que nos faz humanos

06/08/2004

 Efeito de fabricação

No livro 'O que nos faz humanos', o britânico Matt Ridley aponta os limites da influência da genética e da cultura

Alexandre Werneck escreve para o ‘Jornal do Brasil’:

Nem galinha, nem ovo. Para Matt Ridley a pergunta a ser feita para explicar as origens do que faz do homem homem é de outra ordem. Para este zoólogo britânico, de 46 anos, que se tornou uma estrela da literatura por escrever sobre a relação entre a genética e nossas vidas cotidianas, não se deve perguntar nem tanto aos genes nem tanto à cultura.

A resposta está lá, no título original de seu último livro, O que nos faz humanos, que acaba de ser lançado no Brasil (pela Record): Nature via nurture, (ou Natureza via criação).

- Um gene determina não se você será uma pessoa depressiva, mas se você se tornará uma pessoa depressiva depois de uma série de eventos traumáticos no início de sua vida adulta - explica Ridley, ao JB.

Ex-editor de ciências da revista The Economist, autor de best-sellers como As origens da virtude e Genoma (também lançados pela Record), Ridley mostra em seu novo livro como boa parte dos traços comportamentais humanos são uma composição de elementos tanto genéticos quanto de aprendizado.

Ele foi fundador e até ano passado era presidente do International Center for Life, em Newcastle, Inglaterra, o primeiro centro de biotecnologia do Reino Unido. Desde o começo deste ano, no entanto, o cientista passou a fazer experimentos em outra área: assumiu a direção de um banco.

Parece que seu objetivo principal em O que nos faz humanos é mostrar que, ao contrário do que sugere a velha pergunta sobre quem veio primeiro, temos um pouco de ovo e um pouco de galinha nas origens de nossos comportamentos, no sentido em que eles podem ser explicados em parte por potenciais genéticos e em parte por ações culturais. Essa era de fato sua intenção?

- Sim e não. Sim, temos influências tanto culturais como genéticas, mas estou tentando dizer um pouco mais que isso. Mesmo aquelas partes do nosso comportamento que são influenciadas pelo meio-ambiente são afetadas por ele por meio de alterações na expressão de nossos genes. A linguagem é um bom exemplo. Falamos porque, como espécie, temos potencial genético para falar. Mas nós obviamente falamos a língua e o sotaque ditados por nossas culturas. Ou seja, os genes, nesse caso, tornam possível que a cultura afete nossa natureza. Genes e culturas são, afinal, entidades muito menos distintas que galinhas e ovos.

O livro narra o caso de uma criança que nasce com indefinição genital e é operada para crescer como uma menina, mas a criação não é capaz de fazê-la aceitar isso e ela acaba preferindo ser menino. Isso não prova que os genes vencem, no fim das contas?

- Sim, neste exemplo. Às vezes os genes resultam em aspectos de nossa personalidade que não podem ser alterados pelas culturas. Aqui, a masculinidade dele em seu cérebro havia sido determinada antes que ele nascesse e não poderia ser reajustada pela cultura depois.

Estamos distantes de afirmar quando a determinação genética vai atuar e quando será outro fator?

- No caso da personalidade e do caráter, conseguimos precisar com grande certeza hoje em dia o quão hereditários são a capacidade de ser extrovertido (que é altamente hereditária) e o bom humor (cuja probabilidade de ser hereditário é baixa). Mas isso funciona apenas em um tipo de sociedade. A hereditariedade é mais provável em sociedades nas quais as pessoas experimentam criações similares.

O homossexualismo, por exemplo, poderia ser discutido nesses termos? A comunidade gay costuma dizer que o homossexual possui outro caráter sexual, definido não necessariamente pela determinação da via genética.

- A comunidade gay argumenta que eles têm um caráter sexual mental diferente dos de outros homens, o que faz com que, embora eles tenham corpos masculinos, sintam-se atraídos por homens. Eles podem dizer que essa diferença mental é causada por uma diferença genética, ou pelo menos pré-natal. E que, então, não é uma escolha ou resultado de alguma influência cultural pós-natal. Em conseqüência disso, a homossexualidade mereceria tolerância, tanto quanto as diferenças raciais merecem. Eu diria que é verdade e que isso deveria ser repetido para os pais que não querem que a cultura ''torne'' seus filhos gays. E que também deveria convencer as pessoas a aceitar os gays como eles são. Mas devemos tomar muito cuidado antes de aceitar o argumento geral de que, se alguma coisa é inata, então deve ser tolerada. Alguma criminalidade também é provavelmente inata, por exemplo.

Mas um dos discursos mais fortes das entidades de defesa dos direitos humanos não é justamente o de que não podemos dizer que a criminalidade é inata?

- Claro, é equivocado falar que a criminalidade é inata, assim como é equivocado dizer que a linguagem seja inata. O que quero dizer é que seu potencial é inato em todos nós. Os homens cometem mais crimes e os homens são geneticamente diferentes das mulheres e, nesse sentido, o crime é inato. Os homens jovens cometem mais crimes e homens jovens estão expressando genes hormonais que outros não estão, então, de novo, isso é inato.

Mas a genética não colabora um pouco com preconceitos ao fazer pesquisas para buscar um gene da criminalidade?

- Ninguém que eu conheça espera encontrar genes que façam pessoas serem assassinas, mas estão sendo achados genes que fazem com que as pessoas fiquem mais inclinadas a reagir a algumas experiências violentamente. É o caso do gene chamado ''maoa'', que ativa a produção da enzima monoamina oxidase A, fundamental para a comunicação entre os neurônios. Deficiências na produção dessas enzimas explicariam por que alguns indivíduos se tornam agressivos em resposta a maus-tratos e, para alguns, explicaria por que eles se tornam criminosos.

De volta ao debate sobre a personalidade sexual, a ''diferença genética'' que a comunidade gay aponta como explicação para a homossexualidade poderia ser um gene gay?

- Não acho que haja um gene gay, mas não tenho dúvidas de que vão descobrir genes que fazem algumas pessoas ficarem mais propensas a se tornarem gays. Ter um irmão mais velho o deixa mais propenso a ser gay, por exemplo. Isso acontece provavelmente por causa de uma interação entre alguns genes da mãe e do feto e de alguma reação imune a fetos anteriores.

Os cientistas costumam apresentar os genes como uma planta para uma construção, na qual estariam descritas as partes de nosso conjunto...

- Sim, e isso tem sido mesmo um problema: uma planta é uma metáfora ruim para o genoma, porque os corpos se desenvolvem, eles não são construídos a partir de um esquema prévio.

Pois parece que sua descrição é mais próxima à de um mapa de estradas, no qual os genes são indicações de caminhos, que a vida pode tomar, mas não necessariamente obedecendo-os de maneira restrita...

- É verdade. Mas não podemos dizer isso de quaisquer genes. O gene que diz se os olhos serão azuis ou castanhos, por exemplo, está mais próximo do modelo da planta de construção. Os genes de alguns aspectos da personalidade podem também ser bastante prescritivos. Mas os genes que nos tornam aptos a nos apaixonar (provavelmente os genes receptores dos hormônios oxitocina e vasopressina) não fazem com que você se apaixone, eles dizem que você é passível de se apaixonar em uma idade em especial e, depois de algumas experiências, ao encontrar uma pessoa especial. Ou seja, eles fazem você ficar aberto para a experiência, mas não lhe impõem a experiência. Desse modo, quando e onde você vai se apaixonar não é determinado por seus genes.

Quando iremos entender como são tomadas as decisões por um caminho ou por outro?

- Nós agora entendemos o processo bastante claramente em seu princípio, mas não conhecemos os detalhes de todos os genomas. O trabalho de Terrie Moffitt (sobre o gene maoa e a violência) e dos colegas dela é um bom exemplo. Ela descobriu que algumas pessoas são geneticamente mais inclinadas a reagir a certas experiências de determinadas maneiras, ou tomar determinadas estradas no mapa, como você descreveu, do que outras pessoas. Assim, um gene determina não se você será uma pessoa depressiva, mas se você se tornará uma pessoa depressiva depois de uma série de eventos traumáticos no início de sua vida adulta.

Recentemente, no Zoológico de Ramat Gam, em Israel, uma macaca chamada Natasha, que se locomovia apenas em quatro patas, começou a andar em dois pés, o que aconteceu depois que ela recebeu muitos medicamentos para um problema de estômago. Isso seria a prova de que, por causa de uma pequena alteração química, foi ativada uma região do cérebro de um dos nossos primatas avós e os transformou em bípedes?

- Não creio. Sabemos hoje que coisas que nos afetam em nossas vidas geralmente não são transmitidas a nossa descendência. As gerações posteriores não têm acesso aos genes no corpo do macaco, apenas aos genes em seu esperma ou em seus óvulos, que não trazem nenhuma informação sobre a vida. Isso é diferente de dizer que as expressões dos genes em nossos corpos e cérebros é afetada por nossas experiências.

Apesar de livros como o seu, as pessoas ainda têm um pouco de medo da genética, porque a vêem como determinações inexoráveis sobre nossas vidas...

- Bem, a genética não é uma coisa inexorável. Há coisas em nossas vidas que são mais inexoráveis que a genética e não são genéticas, como a minha total falta de habilidade para falar português, por exemplo, e que temos que aceitar. E há outras coisas que são genéticas e que podem ser mudadas. Muitos genes, especialmente os de nossos cérebros, vão sendo ligados e desligados o tempo todo em resposta as nossas experiências de vida. Quando você aprende a andar de bicicleta, seu cérebro ergue uma rede inteira de conexões neurais. Ou seja, você simplesmente altera seu sistema genético apenas por aprender a andar de bicicleta. Ir ao analista pode operar da mesma maneira.

O senhor deixou a presidência do International Center for Life para assumir a direção de uma instituição financeira, uma agência de empréstimos. Como isso aconteceu?

- Eu sempre me interessei tanto por questões financeiras como por científicas, e tenho desenvolvido uma carreira como um homem de negócios em paralelo a minha carreira de escritor. Após acumular experiência de presidir uma organização grande, como é o ICL, fui convidado para assumir a direção de um banco. Não é um emprego de período integral, e tem sido bem interessante. Mas eu também acredito que companhias deste tipo, quando dirigidas com competência, podem fazer tão bem quanto outras instituições - porque, de maneira eficiente, elas satisfazem as necessidades dos clientes.

Jornal do Brasil, 5/8


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