Antienvelhecimento/Longevidade - Morte e Envelhecimento
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Antienvelhecimento/Longevidade

Morte e Envelhecimento

10/06/2003

O envelhecimento trás consigo a  perspectiva da morte. Mesmo com a aumento da sobrevida da população humana, a vida é sempre um período finito. Esta finitude passa a ser mais contundente com a chegada da velhice. A perda de amigos, familiares e de pessoas de referência social reforça esta característica.

Quando existe uma doença grave ou outra condição de saúde, incluindo-se aspectos físicos, mentais e sociais, que gera sofrimento a morte passa a ser não só uma probabilidade, mas também uma alternativa. Esta possibilidade passa por um dilema básico: o ser humano é proprietário ou guardião da vida. Caso seja considerado proprietário pode dispor da sua própria vida, caso seja guardião deve zelar pela mesma. Esta última é a perspectiva da maioria das religiões, pois consideram que a vida é um dom divino, sendo o ser humano responsável pela sua preservação.

Um ponto fundamental a ser esclarecido é o que diz respeito ao estabelecimento limites de tratamento. Um tratamento pode ser considerado como uma medida ordinária, extraordinária ou fútil. As medidas ordinárias são mandatórias, devem ser propostas e trazem potencial benefício para a pessoa, mesmo com riscos associados. As medidas extraordinárias são procedimentos terapêuticos que não podem ser obtidos sem gastos excessivos, dor ou outro incômodo, ou, se utilizados, não oferecem uma possibilidade razoável de benefício. Entende-se por futilidade a ausência de motivo ou de resultado útil em um procedimento diagnóstico ou intervenção terapêutica. A determinação envolve, freqüentemente, juízos de valor, particularmente quando o objetivo é a qualidade de vida. A futilidade pode ser caracterizada como sendo um tratamento sem valor terapêutico. Cabe relembrar que os profissionais de saúde tem a obrigação de cuidar sempre, mas não de tratar sem que haja benefícios .

O limite de tratamento é muito mais facilamente aceito em pessoas muito idosas que em jovens e crianças. Nestas decisões o critério da idade serve como atenuante do impacto. Qual a justificativa para assumir que uma pessoa com mais de 65 anos tenha um prognóstico pior que um jovem em iguais condições ? Vários autores tem utilizado o critério de idade para justificar situações que poderiam ser caracterizadas não como a aceitação de limites terapêuticos, mas sim de abandono terapêutico.

Em muitas reflexões sobre  a morte o tema da eutanásia e do suicídio assistido estão presentes. A eutanásia foi muito utilizada em vários países do mundo, nas décadas de 1920 e 1930. Foi utilizada como uma medida eugênica matando doentes mentais, deficientes e também muitos velhos, com a justificativa de liberar a sociedade destas pessoas consideradas como um encargo. A partir da década de 1960, a discussão da eutanásia retornou, com outro enfoque, devido aos avanços tecnológicos postos à disposição das equipes de saúde, que mudaram inclusive a própria definição e critérios para o estabelecimento da morte.

A eutanásia em velhos assume uma importância muito grande, principalmente no que se refere às questões de respeito à autonomia. O importante é caracterizar que esta decisão é plenamente consciente, que ela não está sendo tomada devido a uma estado depressivo. Na legislação australiana sobre eutanásia, que foi revogada, havia a exigência de uma avaliação psiquiátrica para afastar esta possibilidade. O Prof. Lolas, da Universidade do Chile e do Programa Latino-Americano de Bioética da OPS, tem alguns relatos de pacientes que haviam solicitado aos seus médicos interrupção de seu tratamento ou a tomada de medidas diretas com o objetivo de causar a sua morte, uma vez tratados de sua depressão, agradeceram seus médicos por não terem atendido ao seu pedido.

Para finalizar, com relação a morte e o envelhecimento, cabe relembrar as reflexões feitas por Cícero em seu texto  De Senectude.
 

Mas como é lastimável o velho que, após ter vivido tanto tempo, não aprendeu a olhar a morte de cima !
...
Aliás, quem pode estar segura, mesmo jovem de estar vivo até o anoitecer ?  Mais ainda: os jovens correm mais risco de morrer que nós. Adoecem mais facilmente, e mais gravemente; são mais difíceis de tratar. Assim, não são muitos a chegar à velhice.
...
Mas retorno à morte que nos espreita. Por que fazer disso motivo de queixa à velhice, se é um risco que a juventude compartilha ?
...
E o velho nada mais teria a esperar ? Então sua posição é melhor que a do adolescente. Aquilo com que este sonha, ele já o obteve. O adolescente quer  viver muito tempo, o velho já viveu muito tempo !
...
Quando este fim chega, o passado desapareceu. Dele vos resta apenas o que vos puderam trazer à prática das virtudes e as ações bem conduzidas. Quanto às horas, elas se evadem assim como os dias, os meses e os anos. O tempo perdido jamais retorna e ninguém conhece o futuro. Contentemo-nos com o tempo que nos é dado a viver, seja ele qual for.
...
Assim como a morte de um adolescente me faz pensar numa chama viva apagada sob um jato d'água, a de um velho se assemelha a um fogo que suavemente se extingue. Os frutos verdes devem ser arrancados à força da árvore que os carrega; quando estão maduros, ao contrário, eles caem naturalmente. Da mesma forma, a vida é arrancada à força aos adolescentes, enquanto deixa aos poucos os velhos quando chega sua hora.
...
Conclusão: os velhos não devem nem se apegar desesperadamente nem renunciar sem razão ao pouco de vida que lhes resta.

Prof. José Roberto Goldim

 

Callahan D. Death and the research imperative. N Engl J Med 2000;342:654-6.
Cartas enviadas ao NEJM comentando o artigo de Callahan.
Cícero. Saber Envelhecer. Porto Alegre: LP&M, 1997:52-60.

 


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