Drogas/Vício - Atividades artísticas como dança e pintura abrem as portas da recuperação para dependentes químicos tratados na UNIFESP
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Drogas/Vício

Atividades artísticas como dança e pintura abrem as portas da recuperação para dependentes químicos tratados na UNIFESP

29/09/2004

Poder da arte


Por Simone Paulino

Ilustração Helton Meschine
Montagem sobre foto de Julio Vilela

Quando chegam aos serviços de tratamento para dependentes químicos oferecidos pela UNIFESP, os usuários de drogas são surpreendidos por uma criativa proposta de adesão ao tratamento. Em vez do difícil contato olho no olho com o psiquiatra, são chamados a participar de uma aula de dança.

No lugar de interrogatórios verbais sobre como se sentem, são convidados a fazer desenhos e pinturas em cartolinas. Essa é a base do atendimento que utiliza a arte como coadjuvante, sobretudo na primeira etapa de contato do paciente com o ambiente terapêutico.

Na Uniad (Unidade de Tratamento e Pesquisa em Álcool e Drogas), o trabalho denominado “Porta de Entrada”, feito por um grupo psicoeducacional que tem como objetivo orientar os pacientes sobre o que é a dependência química, dedica um dos dias a uma oficina de dança étnica. Realizado diariamente no Ambulatório de Crack e Cocaína, o programa inclui exercícios de consciência corporal e tem o intuito de sensibilizar e motivar o paciente a aderir ao tratamento.

“Quando eles chegam aqui, é como se o corpo deles estivesse adormecido e “viciado” em repetir as sensações provocadas pela droga”, diz Miriam Moretti, coordenadora do projeto. Por isso, o programa começa por atividades de conscientização corporal como relaxamento, alongamento e auto-massagem. “Aos poucos, eles vão percebendo que não têm apenas um nariz para cheirar cocaína ou uma boca para fumar, e desse primeiro despertar é que se abrem as portas da recuperação”, sintetiza.

Depois desse preparo inicial, entra em cena a parte principal, com coreografias étnicas elaboradas a partir de músicas de diversos países. A escolha inusitada dos ritmos tem como justificativa a necessidade de dissociar a dança praticada na Uniad das danças modernas que remeteriam o paciente ao que os especialistas chamam de “memória boa da droga”. “Usamos músicas que dificilmente poderiam ser associadas ao que eles ouvem quando saem para as “baladas”, momentos em que geralmente se drogam”, explica Fabiana Duarte Takiuti, psicóloga e bailarina, que foi pioneira na organização das oficinas de dança na Uniad.

Segundo os especialistas, o paciente em geral chega desconectado do mundo e de si mesmo. E por meio da expressão corporal, do engajamento ou não nas atividades, da integração ou não ao grupo, é possível avaliar o grau de destruição que a droga já causou. “A avaliação da expressão em movimento nos serve de ponto de apoio para fazer a triagem, o diagnóstico e a discussão dos casos”, diz Ana Beatriz de Vasconcelos, psicóloga que ministra as oficinas atualmente.

Num primeiro momento, o estranhamento dos pacientes é inevitável. “É natural que eles cheguem na defensiva, alguns, homens principalmente, ironizam, dizem que não trouxeram a sapatilha, mas logo percebem que a proposta é fazê-los retomar o contato com o próprio corpo e descobrir sensações diferentes, que não sejam a euforia ou a depressão provocadas pela droga”, diz a psicóloga Joana Martins Tarraf. Quando essa descoberta acontece, a tendência é que eles consigam prolongar os períodos de abstinência, pavimentando o caminho para a etapa seguinte do tratamento.

O “Porta de Entrada” tem duração de 40 dias, depois do que, os pacientes passam por uma avaliação para saber se estão prontos para integrar o grupo de abstinência recente. Mas se quiserem, podem ainda participar uma vez ou outras das atividades, para não perder o passo. O recurso cognitivo dos dependentes químicos às vezes está tão comprometido, que eles não conseguem sequer ouvir o que os outros dizem ou não são capazes de articular em palavras o que estão sentindo.

Baseados nessa constatação, os profissionais do Proad (Programa de Orientação e Atendimento ao Dependente) também enxergaram na arte uma via de acesso. “Um paciente que entra em surto psicótico fica incapacitado de falar, mas às vezes consegue desenhar com riqueza de detalhes o que se passa dentro dele. O desenho então ganha a dimensão de uma fotografia da mente”, justifica Fernanda Moreira, médica psiquiatra e coordenadora de ensino do Proad.

Quando chegam em busca de ajuda, os pacientes são atendidos primeiro pelos “Grupos de Acolhimento”, nos quais encontrarão formas diferenciadas de se expressar. Depois de um bem-sucedido trabalho com escultura em argila, eles agora têm à disposição uma espécie de ateliê de pintura e podem ainda optar por integrar um grupo de contação de histórias.

Sem compromisso estético
Todas as atividades são realizadas por psiquiatras e psicólogos com especialização em farmacodependência. “Na primeira fase, o paciente precisa participar das atividades, mas tem a liberdade de escolher os grupos que quer freqüentar”, diz Juliana Delgado, psicóloga responsável pelo grupo de pintura. Segundo ela, o primeiro desafio é mostrar que além da freqüência livre, não há compromisso estético. “Muitos se retraem inicialmente com o argumento de que não sabem pintar nem desenhar, mas depois alguns até se surpreendem ao descobrir potencialidades que estavam encobertas pela dependência”, relata.

No grupo de contação de histórias, o ambiente criado é o mais afetivo possível. Isso porque, segundo os psiquiatras, boa parte dos pacientes chega em estado muito regredido, com atitudes e necessidades semelhantes às de uma criança. “Quando você cria um ambiente com conforto, segurança e liberdade, abre-se a possibilidade de encontrar um caminho até o mundo interior do paciente”, diz a psiquiatra Fernanda Moreira. Mesmo nesses encontros, apesar de verbal, o trabalho é feito a partir de simbologias e metáforas, sempre partindo do princípio de que a comunicação verbal lógica, por si só, não alcança o todo da essência humana.

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