Pediatria/Criança - Fatores ambientais e hospitalizaes em crianas menores de cinco anos com infeco respiratria aguda
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Pediatria/Criança

Fatores ambientais e hospitalizaes em crianas menores de cinco anos com infeco respiratria aguda

09/10/2004

 

Environmental factors and hospitalization of under-five children with acute respiratory infection

 

 

Clovis BotelhoI,II; Ademir Lopes CorreiaIII; Ageo Mrio Cndido da SilvaIV; Alex Gonalves MacedoIII; Clystenes Odir Soares SilvaIII

IPr-Reitoria de Ensino e Graduao, Universidade Federal de Mato Grosso. Av. Fernando Correa s/n, Cuiab, MT 78060-900, Brasil. fbotelho@terra.com.br
IIUniversidade de Cuiab. Rua 24 de Outubro 495, Cuiab, MT 78045-740, Brasil
IIIDepartamento de Medicina, Disciplina de Pneumologia, Universidade Federal de So Paulo. Rua Botucatu 740, So Paulo, SP 04023-900, Brasil
IVUniversidade de Vrzea Grande. Av. Dom Orlando Chaves 2655, Vrzea Grande, MT 78118-000, Brasil

 

 


RESUMO

Considerando a hospitalizao como um indicador de gravidade da Infeco Respiratria Aguda (IRA), objetiva-se estudar a associao de alguns fatores ambientais com a necessidade de tratamento hospitalar em crianas com diagnstico de IRA. Foram analisados todos os pronturios de atendimento do Pronto Socorro Municipal de Cuiab, das crianas menores de cinco anos, de ambos os sexos, agrupados por ms do atendimento. Obedecendo s caractersticas climticas da regio, dois perodos climticos foram levados em conta: seco (maio a outubro) e chuvoso (novembro a abril). As variveis: temperatura, umidade relativa do ar, o nmero de focos de calor (queimadas) foram cotejadas. A prevalncia da IRA foi 49,8%; a necessidade de internao alcanou 7,6%, com percentual de internaes maior no perodo seco. Conclui-se que o perodo seco e a umidade relativa do ar esto associados com as hospitalizaes das crianas estudadas.

Palavras-chave: Infeces Respiratrias; Bem-Estar da Criana; Criana Hospitalizada


ABSTRACT

Considering hospitalization as an indicator of seriousness of acute respiratory infection (ARI), this study focuses on the association between some environmental factors with the need for hospitalization of children with a diagnosis of ARI. The study analyzed all the medical records (at the Municipal Emergency Ward in Cuiab, Mato Grosso State) of children under five years of age (both sexes), collected by month of attendance. Two weather seasons were considered: dry (May-October) and rainy (November-April). Variables included: temperature, relative humidity, and number of fires (due to extensive slashing and burning for agriculture in the region). Prevalence of ARI was 49.8%, and hospitalization was required in 7.6% of cases, with a higher percentage during the dry season. The dry season and lower relative humidity were associated with increased pediatric hospitalization rate due to ARI.

Key words: Respiratory Tract Infections; Child Welfare; Hospitalized Child


 

 

Introduo

Taxas elevadas de morbidade mostram a amplitude e a necessidade do estudo das Infeces Respiratrias Agudas (IRA), especialmente em crianas menores de cinco anos. A incidncia da IRA semelhante em todo o mundo, seja em pases desenvolvidos ou em desenvolvimento; no entanto, existe diferena na tendncia a maior freqncia e na gravidade das infeces das vias areas inferiores (IVAI), em especial as pneumonias. Isso acarreta aumento nas taxas de mortalidade em at trinta vezes, nos pases em desenvolvimento (Denny & Loda, 1986; Huffman & Martin, 1994; Leowski, 1986).

Vrios fatores esto associados no agravamento da IRA: desnutrio (Johnson et al., 1992; Siqueira et al., 1992; Sutmoller & Maia, 1995); tabagismo passivo (Botelho et al., 1987 e 1989); escolaridade materna (Broeck et al., 1996; Duarte & Botelho, 2000; Ginneken, 1996; Harrison et al., 1995); densidade de moradores por domiclio (Berman, 1991; Shah et al., 1994).

Destacam-se, neste momento, os fatores ambientais, como a poluio do ar respirado e as variveis climticas, como determinantes para o aumento dos casos e da gravidade da IRA em menores de cinco anos de idade (Pereira et al., 1995). Mudanas climticas bruscas ajudam a piorar a qualidade do ar respirado, sobretudo quando a massa de ar frio dificulta a corrente de ventos e faz precipitar o material particulado da atmosfera nas grandes cidades. Com isso, h aumento significativo para os casos de pneumonia, asma e bronquiolite (Nunes et al., 2000; Pereira et al., 1995; Taranto & Sologuren, 2000).

Saldiva et al. (1994) estudaram a relao entre mortalidade por doena respiratria em crianas na regio de So Paulo e a relao com umidade, temperatura, SO2, MP10, CO, O3 e NOx, e encontraram associao significativa entre mortalidade respiratria e nveis de NOx. Estudo realizado por Lin et al. (1999), relacionando adoecimento respiratrio em crianas e poluentes ambientais mostraram que houve aumento de cerca de 20% no atendimento emergencial das doenas respiratrias.

Em Mato Grosso, notadamente na regio da Grande Cuiab, vive-se situao peculiar, devido s suas caractersticas geogrficas e climticas. Durante o perodo seco, maio a outubro, todos os municpios pertencentes Depresso Cuiabana entre a Serra dos Parecis e da Chapada dos Guimares sofrem com o aumento substancial da poluio atmosfrica. Os motivos principais so as queimadas existentes na mata e no cerrado, queima do lixo domstico em quintais e terrenos baldios, alm do aumento da frota automotiva, que despeja gases altamente irritativos e nocivos sade humana e de todos os seres vivos. Soma-se a isso a diminuio da velocidade dos ventos, que interfere na capacidade de disperso do material particulado da atmosfera, alm da inverso trmica que ocorre em alguns dias desse perodo (Botelho, 1999).

Avaliando o aumento da poluio atmosfrica em Cuiab como uma realidade sentida (no medida), tem-se a hiptese de que exista aumento das complicaes e da gravidade da IRA em crianas menores de cinco anos. Considerando, tambm, que existam associao dos fatores ambientais com a IRA, este trabalho tem os objetivos de: (a) avaliar se os perodos climticos do ano (seco ou chuvoso) so determinantes para as hospitalizaes das crianas com IRA; (b) analisar a influncia da temperatura, umidade relativa do ar e o nmero de focos de calor sobre a gravidade da IRA.

 

Casustica e mtodos

O Municpio de Cuiab est situado na unidade geomorfolgica classificada como Depresso Cuiabana, com clima predominante tropical, alternadamente seco e mido. No geral, este clima caracterizado por apresentar inverno seco (quando a massa de ar tropical continental fica estacionada na regio) e vero chuvoso (quando a massa de ar equatorial continental predomina em todo o Estado), com mdias anuais em torno de 28C (Maitelli, 1994).

O estudo foi realizado no Pronto Socorro Municipal de Cuiab (PSMC), que serve como referncia ao sistema regionalizado de sade do Estado de Mato Grosso, prestando atendimento de urgncia, secundrio e/ou tercirio. A populao atendida reputada como de baixa renda. Foi realizado estudo utilizando-se dos pronturios de atendimento do PSMC, em crianas de 0 a 5 anos de idade de ambos os sexos, residentes em Cuiab, que tiveram diagnstico de IRA, durante o perodo de janeiro a dezembro de 1999.

Para determinao da casustica estudada, os seguintes procedimentos foram efetuados: (a) todos os pronturios das crianas de 0 a 5 anos foram separados e agrupados por ms do atendimento; (b) dentre tais pronturios, foram separados os que tiveram diagnstico de IRA e outros diagnsticos, todos procedentes de Cuiab. Os seguintes dados foram anotados dos pronturios das crianas estudadas: sexo, idade (0 a 1 ano; 1 a 3 anos; 3 a 5 anos); diagnstico (IRA, IVAS Infeces das Vias Areas Superiores ou IVAI e Outros); tipo de atendimento (ambulatorial ou hospitalar).

Os critrios para definio de caso de IRA foram os contemplados pelo "Programa de Assistncia e Controle da IRA" do Ministrio da Sade (MS, 1994), obedecendo ao padro anatmico das vias areas, tendo como limite a epiglote. Assim, todas as sndromes clnicas com localizao acima da epiglote constituram o grupo denominado de IVAS, e as abaixo da epiglote, IVAI, estando includas neste grupo as laringotraquoebronquite, laringite diftrica e epiglotite.

Respeitando as caractersticas climticas da Depresso Cuiabana, foram considerados dois perodos durante o ano: perodo seco meses de maio a outubro; perodo chuvoso meses de novembro a abril. As seguintes variveis ambientais foram analisadas: (a) temperatura mxima, mdia e mnima considerada como a mdia mensal (Servio de Meteorologia de Cuiab); (b) umidade relativa do ar considerada como a mdia mensal (Servio de Meteorologia); (c) focos de calor considerada como a mdia mensal do nmero de focos de calor da Depresso Cuiabana (IBAMA).

Testes do qui-quadrado, com intervalo de confiana de 95%, para diferenas de propores, foram utilizados para a verificao de associaes entre as co-variveis e a varivel-resposta. Para variveis contnuas e paramtricas foi utilizado o teste de ANOVA; para variveis no paramtricas, utilizou-se o teste de Kruskal-Wallis.

Como variveis dependentes para anlise de regresso, coletou-se o total de casos de IRA, diferenciando-o em nmero de atendimentos ambulatoriais e nmero de internaes hospitalares. Criou-se, ento, uma nova varivel, tendo como numerador o nmero de internaes hospitalares por IRA e tendo como denominador o nmero do total de atendimentos de IRA por ms. Desta maneira, quanto maior o resultado do escore encontrado, maior seria a gravidade mensal dos casos de IRA.

Modelos de Regresso Linear Mltipla incluram todas as "variveis-resposta" (contnuas) que se mostraram estatisticamente associadas gravidade de IRA. Entedeu-se como testes de associao estatisticamente significantes p-valores menores de 0,05; testes de distribuio de Fisher-Snedecor com valores crticos de F, tais que (F > Fc) = 0,05 e coeficientes de explicao (R2) que no inclussem valores nulos.

Verificou-se a distribuio normal das diversas variveis por intermdio do mtodo de Kolmogorov-Sminov (K-S), como tambm foram analisadas a heterocedasticidade e a inexistncia de colinearidade, por meio da utilizao de grficos de plotagem e testes estatsticos apropriados. Nesta fase, optou-se pela suavizao da varivel "nmero de focos de calor", devido ao fato de ela mesma ter apresentado distribuio assimtrica no perodo analisado. Deste modo, a mesma foi transformada em varivel binria, do tipo presena/ausncia (1/0), o que permitiu a sua utilizao na modelagem da regresso linear mltipla. Tambm foi realizada a modelizao de categorias de umidade relativa do ar pela transformao em variveis do tipo "dummy", utilizando os seus respectivos quartis, na tentativa de se encontrarem pontos de corte que pudessem explicar melhor o modelo.

Para se verificar a inexistncia de autocorrelao entre o escore de gravidade da IRA (nmero de internaes mensais por IRA/nmero total de atendimentos mensais por IRA) e conseqente pressuposto de independncia dos erros, utilizou-se anlise grfica dos resduos de Student, j que a utilizao do mtodo de Durbin-Watson, que testa a hiptese que indica a inexistncia da autocorrelao residual ser igual a zero, foi comprometida pelo pequeno tamanho da srie analisada.

Quanto anlise residual, observou-se uma distribuio gaussiana de resduos, aproximando-se de um padro horizontal de disperso em torno de sua mdia, que apresentou valor igual a zero (0,0). A heterocedasticidade e a linearidade tambm puderam ser verificadas por meio de plotagem em grficos de resduos, apresentando distribuio aleatria, sem um comportamento cclico ou de tendncia definidos, que inviabilizariam o modelo de regresso.

Finalmente, na tentativa de se encontrarem modelos que demonstrassem melhor o relacionamento entre variveis ambientais e internao por IRA, explorou-se o comportamento das associaes mediante a transformao curvilinear das variveis-resposta, com conseqente realizao de regresso. No entanto, no se verificou diferena entre os nveis de significncia e os coeficientes de explicao que inviabilizassem a utilizao de regresso linear, uma vez que os pressupostos para a sua realizao foram satisfeitos, aps os ajustes referidos anteriormente.

Os programas utilizados para anlise estatstica foram o Epi-Info verso 6.04 e SPSS for Windows verso 9.0.

 

Resultados

Na Tabela 1, encontram-se os valores mdios mensais da varivel umidade relativa do ar e temperatura mxima. Na Tabela 2, v-se a distribuio das crianas atendidas por tipo de agravo diagnosticado, se IRA ou outros diagnsticos, ou ainda quanto conduta adotada (ambulatorial ou hospitalar). Nota-se que do total de atendimentos das crianas estudadas, 8,1% foram internadas. V-se que a conduta hospitalar (internao) foi maior quando era para outros diagnsticos com 8,6%, e na IRA foi de 7,6%.

 

 

 

 

Quando se analisa o tipo de conduta adotada, por tipo de agravo diagnosticado, se ambulatorial ou hospitalar, segundo o perodo climtico do ano do atendimento (seco ou chuvoso), Tabela 3, v-se que a IRA teve maior proporo de tratamento hospitalar no perodo seco (seco = 9,2%; chuvoso = 6,2%). O mesmo aconteceu com outros diagnsticos (seco = 9,9%; chuvoso = 7,2%), sendo as diferenas significantes (p = 0,001).

 

 

Ao comparar conduta adotada, ambulatorial ou hospitalar, da IRA conforme a localizao anatmica (IVAS ou IVAI), segundo o perodo do ano estudado (seco ou chuvoso), Tabela 4, encontrou-se que no perodo seco no houve maior percentual de atendimento hospitalar do que no perodo chuvoso, para IVAS (hospitalar no perodo seco = 2,2% e chuvoso = 1,6%; p = 0,061). Porm, para IVAI (hospitalar no perodo seco = 18,5% e chuvoso = 11,4) houve maior percentual de atendimento hospitalar no perodo seco (p-valor < 0,001).

 

 

A Tabela 5 mostra a anlise da associao das variveis ambientais (temperatura mdia, temperatura mxima, temperatura mnima, umidade relativa do ar e nmero de focos de calor) com o tipo de conduta adotada (ambulatorial ou hospitalar) para as crianas com diagnstico de IRA. Nela se v que os atendimentos hospitalares aconteceram em temperatura mxima (mdia de 33,1C), quase meio grau a mais que a temperatura mxima (mdia de 32,8C) dos atendimentos ambulatoriais (p-valor = 0,001). Tambm se constatou que os atendimentos hospitalares ocorreram em perodos de maior nmero de focos de calor (mdia de 153,1 focos mensais) do que os atendimentos ambulatoriais (mdia de 109,8 focos mensais), diferenas estatisticamente significantes (p-valor < 0,001). Atestou-se, tambm, que os atendimentos hospitalares aconteceram mais nos meses em que a umidade relativa do ar foi menor (atendimento hospitalar com umidade relativa do ar com mdia de 74,2% e ambulatorial igual a 76,6%).

 

 

No modelo final da regresso linear mltipla, certificou-se que a funo linear, selecionada para o modelo de regresso, apresentou distribuio aleatria ao redor da linha zero e no apresentou "outliers" (observaes discrepantes) em sua distribuio residual, o que caracterizou uma homogeneidade de varincia no ajuste, validando, portanto, a anlise final. Assim sendo, apenas a umidade relativa do ar permaneceu associada gravidade da IRA (Tabela 6).

 

 

Discusso

Os registros dos servios de sade so importantes fontes de dados para a anlise da morbidade de determinada doena, servindo como indicador de sade da populao usuria daquele servio. So teis para o planejamento das aes de sade a serem implementadas nos diversos servios e programas de sade. Alm disso, esses registros servem para a anlise dos fatores associados, da relao entre diversas doenas, dos fatores scio-econmicos e das variveis ambientais relacionadas s doenas que esto sendo investigadas (Laurenti, 1987).

Pela anlise dos dados coletados, os resultados mostram que foi marcante a freqncia da IRA em menores de cinco anos no PSMC durante o ano de estudo, pois quase a metade (49,8%) dos atendimentos desta faixa etria se deve a crianas com sinais e sintomas decorrentes de algum diagnstico de IRA, ficando todos os outros diagnsticos reunidos (diarria, dermatoses, traumas, intoxicaes exgenas, etc.) com a outra metade. Isto o dobro do encontrado por Duarte & Botelho (2000) quando estudaram crianas da mesma faixa etria no servio de pronto atendimento de pediatria do hospital Universitrio Julio Muller (HUJM), dado que encontraram prevalncia de 25,6%. Deve-se destacar que a clientela e as caractersticas dos servios, possivelmente, so os responsveis pela grande diferena encontrada. Taxas prximas destas foram encontradas no Pronto Socorro Infantil da Santa Casa da Cidade de So Paulo e em outro estudo multicntrico, realizado em diversas cidades do Estado de So Paulo, que variaram de 16,4% at 59,2% (Ribeiro et al., 1985, 1987).

A IRA est entre as principais causas de consulta mdica, sendo responsvel por mais de um tero delas e por grande nmero de hospitalizaes em crianas, na maioria dos pases. A faixa etria com maior incidncia de IRA ocorre entre seis meses e dois anos, tanto em pases desenvolvidos, quanto naqueles em desenvolvimento. A freqncia da IRA em crianas na faixa pr-escolar de cerca de seis a dez episdios por ano, ao passo que no adulto de dois a quatro (Bricks, 1998). A diferena da morbidade da IRA entre os pases mais ricos e os em desenvolvimento que nestes ltimos so mais freqentes os casos mais graves, particularmente as pneumonias e que muitas das vezes vm com complicaes fatais. fato descrito que a taxa de mortalidade da IRA maior nos pases com menor qualidade de vida dos seus habitantes (Niobey et al., 1992).

Outro indicador de gravidade da IRA a taxa de hospitalizao em determinado servio. Sabe-se que as complicaes da IRA geralmente necessitam de atendimento hospitalar, sendo as infeces das vias areas inferiores, sobremodo as pneumonias e as broncopneumonias, as que mais requerem hospitalizaes, em razo de sua gravidade, podendo chegar ao bito.

Neste estudo, ao analisar todas as internaes de IRA e de outros diagnsticos, encontrou-se que, enquanto 8,6% destes resultaram em hospitalizaes, uma menor proporo de IRA necessitou deste tipo de conduta (7,6%). Esse resultado difere do percentual de internao das crianas com IRA atendidas em outros servios, no de urgncia, em que as taxas de hospitalizaes foram menores: 2,2% (Benguigui, 1987) e 1,8% (Duarte & Botelho, 2000). A taxa de hospitalizao por IRA encontrada neste estudo foi cerca de trs a quatro vezes superior aos outros resultados da literatura. Tambm este fato facilmente explicado, pois o PSMC, geralmente, utilizado nos casos de urgncias mdicas. Os resultados encontrados aqui neste estudo confirmam isto, ao destacar que as taxas de IVAS (quadros benignos) e de IVAI (quadros mais graves) so prximas, medida que em outros servios, ou na populao geral, as IVAS aparecem com cerca de dois teros dos casos.

Como j era o esperado, casos de crianas com infeces das vias areas inferiores foram as que mais exigiram de tratamento hospitalar, cerca de oito vezes mais que os casos de infeces das vias areas superiores (1,9% x 14,6%). No foi possvel determinar o percentual de cada diagnstico das crianas internadas com IRA, mas, provavelmente, as crianas com pneumonias foram as mais freqentes, como j foi relatado por outros autores (Lopez et al., 1992; Ramos et al., 1991).

Comparando todas as internaes de crianas menores de cinco anos, por qualquer diagnstico, os dados da OPAS/OMS (1992) mostram que as pneumonias so responsveis por 20 a 40% das hospitalizaes, nos pases em desenvolvimento, e poderiam ser atribudas as freqentes hospitalizaes a formas que poderiam ser eficazmente tratadas em ambulatrio. Tambm refere ao maior nmero de casos graves serem por causa da maior prevalncia de diferentes fatores associados que agravam a IRA, como: desnutrio, desmame precoce, consulta tardia e inadequada avaliao e classificao dos casos pelo pessoal de sade, quando da primeira consulta (Cunha, 1989).

Sabe-se que fatores ambientais influenciam na prevalncia e no perfil de gravidade da IRA, havendo aumento da demanda ambulatorial nos meses de inverno, principalmente dos quadros benignos de infeces das vias areas superiores. Contudo, as pneumonias e as bronquiolites tm significativo aumento proporcional, fato que refora a demanda hospitalar (Pereira et al., 1995).

Caracteristicamente, o clima de Cuiab e regio da Depresso Cuiabana dividido em perodo seco (de maio a outubro) e chuvoso (novembro a abril), no existindo inverno propriamente dito. No perodo seco so encontradas as menores temperaturas mdias, geralmente nos meses de junho e julho de cada ano (Maitelli, 1994). Por isso se optou por avaliar comparativamente a prevalncia da IRA e por se considerarem os perodos citados, em vez de se utilizar a estao climtica clssica. Ao contrrio do que se esperava, percebeuse que a maioria do atendimento criana com IRA ocorreu no perodo chuvoso, quando comparado com Outros Diagnsticos. Este dado importante e merece ser analisado, pois poucos so os trabalhos nacionais que referem os fatores climticos interferindo na IRA.

A idia inicial era que fosse encontrada prevalncia da IRA maior no perodo seco, porque nesta poca do ano Cuiab sofre intensa poluio atmosfrica. O ar fica insalubre pelas queimadas das florestas vizinhas, dos campos e cerrados que circundam a cidade, alm da queima do lixo urbano, costume arraigado dos antigos moradores da cidade. Soma-se a isso a diminuio da velocidade dos ventos que interfere na capacidade de disperso do material particulado da atmosfera, alm da inverso trmica que ocorre em alguns dias deste perodo (Botelho, 1999). Assim, foi grande a surpresa de encontrar justamente o contrrio do esperado: maior freqncia da IRA no perodo chuvoso.

Ao aprofundar a anlise dos dados, v-se que, reforando a idia inicial de que o perodo seco ofereceria maior risco para as crianas com IRA, foi encontrado maior percentual de crianas com IRA que necessitaram de atendimento hospitalar no perodo seco. Quer dizer, no perodo climtico mais crtico do ano as crianas sofrem mais o impacto da IRA; possivelmente o somatrio do processo inflamatrio, que a prpria infeco acarreta s vias areas, com a m qualidade do ar respirado. Tudo faz com que as crianas demorem mais a se recuperar, aumentando a chance de complicaes, tais como as pneumonias.

A explicao para isto que possivelmente no perodo chuvoso a umidade excessiva, determinada pelas intensas chuvas, poderia estar propiciando maior nmero de casos IRA naquelas crianas, porm sem gravidade, a maioria de infeces das vias areas superiores. Ao contrrio, no perodo seco, como o esperado, a m qualidade do ar respirado, irritante para as vias areas, estaria facilitando o agravamento da IRA, resultando em maior nmero de casos de crianas internadas. Corroborando esses dados, observou-se que as infeces das vias areas inferiores necessitaram mais de atendimentos hospitalares no perodo seco, as IVAS internaram apenas 2,2% de todos os atendimentos do perodo seco, enquanto as IVAI internaram quase noves vezes mais (18,5%). Diversos autores j relataram a associao da IRA com a qualidade do ar, apesar das dificuldades de os estudos epidemiolgicos confirmarem a relao causal entre determinado poluente e agravo respiratrio (Pope, 1989, 1991; Schwartz, 1996).

Na composio das diversas variveis que determinam o perodo "seco" ou o "chuvoso", quais seriam aquelas que estariam mais associadas gravidade da IRA? Na busca dessa explicao foram analisadas algumas variveis que poderiam estar relacionadas: temperatura, umidade relativa do ar e nmero de focos de calor. Essas variveis foram analisadas, buscando associaes ou correlaes existentes entre elas e o tipo de atendimento: ambulatorial ou hospitalar. Assim, procurou-se encontrar qual das variveis climticas estaria associada gravidade da IRA, j que o perodo climtico considerado como seco influenciou na taxa de internao, nos casos graves (IVAI).

Mais uma vez, comprova-se a influncia do clima seco na determinao da gravidade da IRA. Das variveis destacadas acima, a temperatura mxima, a umidade relativa do ar e o nmero de focos de calor foram associadas com as hospitalizaes das crianas com diagnstico de IRA. Observou-se que, quando a temperatura mxima est elevada, a umidade relativa do ar baixa e h maior nmero de focos de calor, aumenta a necessidade de atendimento hospitalar para essas crianas. Refora-se que estas caractersticas climticas so tpicas do perodo seco do ano, vindo a confirmar os resultados vistos anteriormente.

Aprofundando a anlise, mediante uso da regresso linear mltipla, v-se que persiste a influncia da umidade relativa do ar, sendo considerada associada gravidade da IRA (maior necessidade de hospitalizaes). Cumpre dizer que o coeficiente de explicao do modelo foi de apenas 0,56; isto : a variao mensal da umidade relativa do ar explica apenas 56% das internaes por IRA. Mesmo aps a modelizao de categorias de umidade relativa do ar, valendo-se de variveis binrias do tipo "dummy", bem como a suavizao de irregularidades e a realizao de regresso curvilinear, chegou-se a melhores coeficientes de explicao ou significncia estatstica. Por outro lado, sabe-se que medidas de exposio individuais ou at mesmo determinadas sazonalidades endmicas e as possibilidades de variaes irregulares como epidemias, por exemplo, poderiam explicar os outros 44% de variabilidade no explicada pelo modelo. Infelizmente tais variveis explicativas no puderam ser aferidas, e aquelas referentes exposio individual no foram avaliadas pelo tipo de desenho desenvolvido.

Em Cuiab, no perodo seco, a umidade relativa do ar chega a nveis incompatveis com a integridade das vias areas. Sabe-se que para o bom funcionamento das vias areas h necessidade de certo grau de umidade, que no dever ser inferior a 60% (Hungria et al., 1996). grande o trabalho que a via area tem para tentar manter a homeostase interna com a qualidade do ar respirado, pois a umidade relativa do ar muito baixa, em torno de 20 a 30% durante o perodo seco. Somente o fato da queda da umidade do ar justificaria tamanho sofrimento para qualquer indivduo que resida em Cuiab, mormente para aqueles que tenham algum acometimento respiratrio, tal qual um simples episdio de IRA. Junta-se a isto o elevado nmero de focos de calor, que traduz as queimadas nas matas, nos cerrados e do lixo urbano, o que coloca na atmosfera uma grande quantidade de material particulado. Neste estudo no foi possvel quantificar e nem qualificar os poluentes respiratrios; eles, provavelmente, contribuem para o aumento da gravidade da IRA.

Os resultados analisados permitem concluir que a prevalncia da IRA em crianas menores de cinco anos atendidas no PSMC alta e a sua gravidade est associada ao perodo seco do ano. Conclui-se, tambm, que a baixa umidade relativa do ar est associada maior necessidade de tratamento hospitalar nas crianas estudadas.

 

Consideraes finais

Com o mtodo de estudo empregado, a utilizao de dados secundrios registrados em pronturios de servios de sade (Pronto Socorro), alguns vises podem ter ocorrido. Assim, alguns comentrios acerca do mtodo so pertinentes. Em primeiro lugar, cita-se a falta de informaes que poderiam ajudar nas anlises das variveis de estudo, como acontece com fontes de registros de sade, pois foram feitos com outro propsito. Dados sobre o tabagismo dos pais, a presena de doena respiratria na famlia, a histria de patologia pregressa e o estado de nutrio da criana, entre outros, no foram encontrados. Isto dificulta a compreenso do processo como um todo, ao limitar a profundidade de anlise dos resultados encontrados, o que impossibilitou a realizao de desenhos de estudo que meam tambm a exposio individual da criana aos fatores de risco da IRA.

Em segundo lugar, encontra-se a qualidade dos dados registrados, quanto ao diagnstico dado, aps o exame clnico da criana no atendimento de urgncia. conhecido que a margem de erro aumenta muito graas ao tipo de servio que o pediatra do Pronto Socorro enfrenta, j que a demanda enorme e cansativa. Isso tudo leva a menos tempo dedicado a cada criana, o que facilita a gerao de erros de interpretao dos sinais e sintomas apresentados pela criana.

Em terceiro lugar, discute-se a forma de anlise dos dados efetuada. Devido ao tipo de coleta, os dados de morbidade retirados dos pronturios foram agrupados mensalmente, o que impossibilitou a comparao dia a dia com as variveis ambientais, impedindo a realizao de metodologias analticas mais recomendadas para a avaliao dos efeitos ambientais na sade. Logo, este estudo no teve a pretenso de construir um modelo preditor que pudesse estimar precisamente o nmero de internao por IRA de acordo com a poca do ano, mas apenas demonstrar a associao entre este desfecho e as principais variveis ambientais em Cuiab, levando-se em conta a relevncia de se conhecer as caractersticas epidemiolgicas da doena frente s peculiaridades climticas da regio. A utilizao de regresso linear mltipla, visto que foram respeitados os seus principais pressupostos, foi satisfatria para a demonstrao da associao entre internao por IRA e as variveis de estudo.

Entretanto, apesar das diversas limitaes relatadas, o presente estudo assume importncia relevante na medida que indica a associao entre variaes climticas e internaes por IRA, indicando a necessidade da realizao de novos estudos com mtodos mais aprimorados, aprofundando a anlise das variveis envolvidas, para melhor compreenso deste processo em Cuiab e regies com caractersticas climticas semelhantes.

 

Agradecimentos

Trabalho realizado no Pronto Socorro Municipal de Cuiab; Curso de Mestrado em Sade Coletiva da Universidade de Cuiab.

 

Referncias

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Escola Nacional de Sade Pblica, Fundao Oswaldo Cruz


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