Drogas/Vício - Dependente
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Drogas/Vício

Dependente

11/10/2004
Addicted Alison Abbott
Correspondente senior da Revista Nature na Europa
Nature 2002; 419: 872-4.
Em sua edição de agosto de 2002, a Revista Nature publicou um panorama dos progressos obtidos pela neurobiologia no estudo da dependência química e apontou suas perspectivas.

O artigo começa citando dois relatos de dependentes, onde se comenta como as drogas se apresentam como uma "recompensa sedutora" e a ausência absoluta de relação entre fissura (craving) e prazer. Essas afirmações são ouvidas rotineiramente em qualquer local de tratamento para dependência química. A explicação neurobiológica para elas, no entanto, ainda aguarda descobertas mais elucidativas do que as atuais. Embora já se entenda em parte os circuitos neuronais envolvidos, pouco se sabe, por exemplo, acerca das mudanças no cérebro daqueles que evoluem do uso recreativo para a dependência ou ainda, porque alguns indivíduos se tornam dependentes e outros não.

Uma recompensa acidental para James Olds

Psiquiatra, doutorado em psicologia pela Universidade de Harvard, James Olds (1922 - 1976) interessou-se desde cedo pelas neurociências do comportamento, em especial pela motivação. Trabalhando em seu pós-doutorado, então na Universidade de McGill - Canadá (1953 - 1955), começou a estudar as áreas de controle do sono em ratos. Para tal experimento, eletrodos eram introduzidos na região do sistema reticular médio do cérebro destes animais, sem que houvesse a preocupação de posicioná-los em um local específico. Olds guiava-se pelos estudos de H. R. Delgado, W. W. Roberts, e N. E. Miller (Universidade de Yale), que haviam posicionado eletrodos em ratos em algum local da mesma região cerebral e notaram que os animais evitavam os lugares onde recebiam estímulos elétricos.

Para a surpresa de Olds, o rato, ou contrário do que se esperaria, buscava o lugar da caixa onde o cientista aplicava os choques elétricos. Pensando que os estímulos provocavam curiosidade no animal, mudou o canto da caixa onde este era aplicado. Em cerca de cinco minutos, o animal passou a preferir aquele canto. Posteriormente, foi dado ao animal a chance de auto-estimular dentro de uma caixa de Skinner. O rato logo aprendeu e buscava constantemente o estímulo elétrico. Ele se estimulava repetidas vezes e tentava mesmo após a eletricidade ter sido desligada. O comportamento observado era semelhante ao de ratos famintos que aprendiam a maneira de obter comida dentro da caixa.

James Olds viu-se acidentalmente diante da descoberta do sistema de recompensa do sistema nervoso central (SNC), um sistema dopaminérgico, conhecido também por sistema mesolímbico-mesocortical. A descoberta de Olds foi um dos tópicos mais estudados nas décadas subseqüentes. Olds é considerado um dos mais importantes cientistas do século XX. Sua descoberta do sistema de recompensa foi talvez o achado isolado mais importante do século, no que diz respeito aos substratos neurobiológicos ligados ao comportamento. Tal descoberta aumentou significativamente o entendimento das bases neurobiológicas e os mecanismos do uso nocivo de substâncias psicoativas pelo homem.

Fontes:
1. Olds, J. Pleasure center in the brain. Sci Am 1956; 195: 105-16.
(
http://www.wireheading.com/james-olds.html)
2. National Academy of Sciences. James Olds - biographical memoirs. (http://stills.nap.edu/readingroom/books/biomems/jolds.html)

O sistema de recompensa do sistema nervoso central

A anatomia relacionada aos efeitos euforizantes da droga está razoavelmente compreendida, graças aos estudos de James Olds, que durante a década de cinqüenta identificou em ratos um sistema de natureza dopaminérgica, denominado sistema mesolímbico-mesocortical e batizado pelo cientista como sistema de recompensa (leia o quadro ao lado).

FIGURA 1: O sistema de recompensa, constituído pela área tegmental ventral e o nucleus accumbens, emite prolongamentos para o sistema límbico (emoção) e córtex pré-frontal (funções psíquicas superiores). Está relacionado à busca de prazer e estimulado pelas substâncias psicoativas. www.nida.nih.gov

O sistema de recompensa consiste na área tegmental ventral (Figura 1), parte de uma região localizada acima da medula espinhal, chamada tronco encefálico. Os neurônios dessa região enviam projeções para as regiões ligadas à emoção (sistema límbico) e às funções cognitivas superiores (córtex pré-frontal). Também compõe o sistema de recompensa o nucleus accumbens, um agrupamento de neurônios e parte integrante do sistema límbico. Os neurônios do sistema de recompensa trocam informação com outros sistemas por meio da liberam um neutransmissor denominado dopamina.

Sistema de recompensa e dependência química


O sistema de recompensa é uma parte primitiva do sistema nervoso dos mamíferos. Ele assegura que comportamentos fundamentais à sobrevivência da espécie, tais como alimentação e sexo, sejam percebidos como prazerosos. Dessa forma, aumenta a possibilidade de que tais comportamentos sejam sempre repetidos.

Substâncias psicoativas como a cocaína e a anfetamina agem diretamente sobre esse sistema, enquanto a nicotina e os opiáceos estimulam-no indiretamente. As causas naturais que normalmente estimulam o sistema de recompensa chegam a aumentar em até 100% sua atividade. Na vigência de substâncias psicoativas, no entanto, essa atividade ser 1000 vezes maior.

FIGURA 2: A fissura é a lembrança prazerosa do consumo em meio a uma sensação extrema de desconforto físico e psíquico. Apesar de ser um sintoma comum entre os dependentes, sua base neurobiológica é ainda pouco conhecida. Provavelmente, decorre das alterações adaptativas do cérebro à presença constante da droga no organismo.
FONTE: Sofrimento da Espanha. Lam (1938) [modificado].

 

A fissura


Não é apenas o prazer o responsável pelo surgimento da dependência. Ao contrário, a evitação dos sintomas de desconforto (síndrome de abstinência), entre eles a fissura, é o grande propulsor da manutenção do uso. Tais sintomas decorrem provavelmente de alterações neurobiológicas na estrutura anatômica dos neurônios, por exemplo, redução de terminações nervosas e receptores. Essas alterações permanecem meses após a interrupção do consumo. Elas acabam por bloquear o efeito euforizante da droga: o indivíduo deixa de sentir o prazer de outrora, mas continua impelido a buscar a droga, uma vez que seu corpo se adaptou a sua presença e sentirá sua falta em caso de abstinência da mesma.

 

FIGURA 3: Os caminhos da memória da dependência química. Que distância temporal seria capaz de sucumbi-la? FONTE: A despedida. Varo (1958) [modificado].

Aprendizado e memória

É do conhecimento geral que a fissura pode ser facilmente desencadeada por lembranças (ou situações que as desencadeiem) ligadas aos tempos de consumo. A neurobiologia tem estudado também esse fenômeno. A cocaína e a nicotina, por exemplo, intensificam as conexões entre neurônios - fenômeno associado ao aprendizado - do nucleus accumbens. O córtex pré-frontal, região das funções superiores (raciocínio, abstração, planejamento,...) e relacionado ao aprendizado, é fortemente estimulado pelo uso de substâncias psicoativas. O controle da impulsividade e a tomada de decisões também são regulados pelo córtex pré-frontal e se tornam menos eficazes após a instalação da dependência.


FIGURA 4: A tendência da neurobiologia para os próximos anos será a procura de genes relacionados ao comportamento e à predisposição para a dependência. Uma saída para a cura? FONTE: As meninas de Velázquez. Pablo Picasso (1957) [modificado].

 

Novas fronteiras

Nos últimos cinqüenta anos, a neurobiologia da dependência química avançou significativamente no campo da anatomia. Os modelos fisiopatológicos da doença, no entanto, permanecem grosseiros, pouco elucidativos e impassíveis de generalizações. Segundo o presente artigo, "marcadores fisiológicos para os comportamentos da dependência precisam substituir os métodos atuais, baseados em escalas para investigar os sentimentos do dependente".

Talvez esses marcadores possam ser os genes. Para dar cabo a essa tarefa, o Centro para Avaliação de Tecnologia Antidroga da Casa Branca (White House's Counterdrug Technology Assessment Center) está equipando laboratórios estratégicos com aparelhos de última geração, tais como o PET e a ressonância magnética funcional. Eis a nova fronteira da neurobiologia voltada para a dependência química: detectar os genes responsáveis pelo comportamento da dependência. Um dos projetos em desenvolvimento (Harvard Medical School), coordenado por Hans Breiter, começará avaliando algumas centenas dependentes e não-dependentes de nicotina e cocaína e seus familiares. Numa segunda fase, o mesmo estudo será repetido em 5000 indivíduos. Na última etapa será realizado um amplo estudo em diversos centros de pesquisa (estudo multicêntrico). Citando o presente artigo mais uma vez: essa "abordagem permitirá aos pesquisadores a procura de ligações entre os múltiplos genes envolvidos na predisposição à dependência - e também reconhecer ligações inesperadas, as quais as teorias vigentes dão pouca ou nenhuma importância".

O trabalho em planejamento levará anos para apresentar os primeiros resultados concretos acerca da susceptibilidade à dependência. Mas o presente artigo vê neste esforço científico um importante passo rumo à elucidação dos caminhos fisiopatológicos da recompensa e da fissura na dependência química. Isso pode significar a descoberta da cura? O artigo não se atreve à tamanha previsão, mas termina com uma máxima: "entenda a biologia e você saberá como indicar o seu remédio".

Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein


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Publicado por: Dra. Shirley de Campos
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