Pediatria/Criança - Atendimento à parada cardiorrespiratória na faixa etária pediátrica
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Pediatria/Criança

Atendimento à parada cardiorrespiratória na faixa etária pediátrica

01/11/2004

Rev Med Minas Gerais 2004; 14 (1 Supl. 3): S96-S105 96

ATENDIMENTO À PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA NA FAIXA ETÁRIA PEDIÁTRICA

MANAGEMENT OF PEDIATRIC CARDIORESPIRATORY ARREST

MARIA DO CARMO BARROS DE MELO*; MARCOS CARVALHO DE VASCONCELLOS**; HENRIQUE FONSECA DE ASSIS TONELLI***

RESUMO

A parada cardiorrespiratória em crianças raramente é um evento

súbito. Tipicamente, elas apresentam parada cardíaca secundária a

período prolongado de falência respiratória ou circulatória. Muitos

autores relatam que as taxas de sobrevida são maiores naquelas

crianças que apresentam parada respiratória apenas, dentro ou

fora do hospital, em relação àquelas que apresentam parada cardiorrespiratória.

O reconhecimento precoce e a rápida intervenção

na falência respiratória previnem o aparecimento de hipoxemia e

de acidose respiratória, sendo esses últimos os mais importantes

fatores que nos advertem para uma progressão para parada cardíaca.

Em qualquer emergência que ocorra com paciente pediátrico, a

primeira etapa é estabelecer a perviabilidade das vias aéreas,

seguida por ventilação e circulação adequadas (ABC). O manejo

das vias aéreas pode ser através de uma simples observação ou

posicionamento, até procedimentos mais invasivos como a intubação

traqueal. O oxigênio deve ser sempre suplementado. A forma

mais fácil de oferecer suporte ventilatório à criança é através da

ventilação com máscara-unidade ventilatória. O comprometimento

circulatório deve ser avaliado. Os pulsos mais facilmente palpáveis

são o braquial (< 1 ano de idade) e o carotídeo (> 1 ano de

idade). O curso de Suporte Avançado de Vida em Pediatria (SAVP)

fornece as bases fundamentais para o aprendizado do atendimento

às emergências pediátricas, e é recomendado para o treinamento

de todos os médicos e enfermeiras. O objetivo deste artigo é

rever as recomendações para a ressuscitação cardiorrespiratória e

ajudar o pediatra a salvar vidas e a melhorar a qualidade de vida

das crianças criticamente enfermas.

Palavras-chave: Ressuscitação, suporte avançado de

vida, suporte básico de vida, ressuscitação cardiopulmonar,

parada cardiorrespiratória.

INTRODUÇÃO

Uma revisão da literatura1 avaliou os resultados, as

taxas de sobrevivência e as questões que ainda requerem

pesquisas na área de ressuscitação cardiorrespiratória

(RCR) em pediatria. Entre as principais conclusões, ressalta-

se que o atual conhecimento sobre RCR em pediatria

está cheio de lacunas a serem preenchidas, existindo

um longo caminho a percorrer e muito a aprender nessa

trilha do conhecimento médico. A taxa de sobrevivência

para pacientes pediátricos em parada cardiorrespiratória

(PCR) é baixa (13%) e não cresceu na última década;

crianças menores de um ano de idade constituem, aproximadamente,

50% dos casos de parada. Os pacientes nos

quais o evento é testemunhado ou que são imediatamente

reanimados têm prognóstico melhor do que aqueles

que não recebem rápida assistência; pacientes que apresentam

parada respiratória isolada têm taxa de sobrevivência

bem mais elevada; a RCR executada por mais de

trinta minutos e a administração de mais de duas doses de

adrenalina são indicadores de pior prognóstico.

As crianças diferem dos adultos quanto às causas e à

fisiopatologia da parada cardiorrespiratória. Ainda assim,

os serviços pré-hospitalares e as equipes especializadas em

atendimentos de urgência/emergência foram, inicialmente,

criadas para o atendimento prioritário de adultos,

mostrando-se, em geral, inadequadamente preparados

para prestar assistência ao paciente pediátrico. Os resultados

insatisfatórios da RCR em pediatria devem ser revertidos

através de pesquisas que concentrem seus esforços

* Professora Adjunto do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG. Instrutora

do Curso de Suporte Avançado de Vida em Pediatria/ Pediatric Advanced Life Support (PALS).

** Professor Assistente do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG.

Instrutor do Curso de Suporte Avançado de Vida em Pediatria/ Pediatric Advanced Life Support

(PALS).

*** Médico do CTI pediátrico do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais.

Coordenador do Curso de Suporte Avançado de Vida em Pediatria/ Pediatric Advanced Life Support

(PALS) do Sítio de Minas Gerais.

Departamento de Pediatria

Endereço para correspondência:

Maria do Carmo Barros de Melo

Endereço para correspondência:

Av Alfredo Balena, 190

30130-100 - Santa Efigênia

Belo Horizonte – Minas Gerais

Telefone: (31) 99525281

E-mail: mcbmelo@medicina.ufmg.br

nos cuidados de emergência e nas técnicas de reanimação

específicas para crianças. Deve-se investir na prevenção e

no tratamento precoce dos estados que podem evoluir

para PCR, já que, nas crianças, a parada é geralmente

resultante de uma deterioração progressiva das funções

respiratórias e circulatórias, em contraste com os eventos

súbitos comumente vistos em adultos.

Estudos futuros devem ser baseados em amostras que

representem toda uma população, especificando definições

operacionais, delimitando as faixas etárias empregadas

e os referenciais adotados para análises de prognóstico

(reserva funcional e taxas de sobrevida). A uniformização

de registros pode ser obtida através do emprego de

protocolos reconhecidos internacionalmente (como o

guia pediátrico de Utstein).1

Os estudos publicados sobre o prognóstico da RCR em

crianças variam substancialmente em relação aos resultados,

devido às diferenças amostrais (diagnósticos e prognósticos),

de procedimentos adotados entre as equipes e de

metodologia entre os registros. Os índices prognósticos

variam conforme o local de ocorrência, nível de atendimento

envolvido, idade do paciente, condição mórbida

prévia, etiologia do evento, preparo do serviço de saúde

local, organização do serviço médico de emergência

(SME) e treinamento específico de profissionais de saúde

e da comunidade para a assistência adequada.

A sobrevida após a PCR varia entre 3 a 17%, sendo

relativamente freqüentes as seqüelas neurológicas.2 As

crianças em PCR têm recebido menos medidas de suporte

avançado do que os adultos, com menor percentagem

de intubação e obtenção de acesso vascular.3 O treinamento

dos profissionais envolvidos através de cursos

como o de Suporte Avançado de Vida em Pediatria -

SAVP (Pediatric Advanced Life Support - PALS) aumentou

os índices de intubação de 48 para 90% nas crianças

menores de 18 meses e a taxa de obtenção de acesso vascular

de 18 para 64%.4 Os melhores resultados da RCR,

quanto à sobrevida, encontram-se relacionados ao rápido

atendimento da criança vítima de PCR (tempo inferior a

10 minutos), fato normalmente observado quando o

evento é testemunhado por potenciais reanimadores.5

As complicações da reanimação são raras quando suas

técnicas são aplicadas corretamente (incidência de 3%). A

prevalência de efeitos adversos tais como fratura de arcos

costais, pneumotórax, pneumoperitôneo e hemorragias é

menor em crianças do que em adultos, estando tais complicações

relacionadas ao nível de treinamento do pessoal

assistente.6

Fala-se muito atualmente em ressuscitação cardiorrespiratória-

cerebral, destacando-se uma série de cuidados

adotados, durante e após a PCR, visando a proteção do

sistema nervoso central. As ações de correção da hipóxia e

da má circulação, aliadas ao controle adequado de temperatura

e glicemia permitem a recuperação e a prevenção

do sofrimento neurológico. Diante disto, devemos ter em

mente que as ações sistematizadas através de treinamentos

da equipe e organização do serviço de assistência é de

suma importância para a boa evolução do paciente. Todo

serviço de urgência/emergência deve ter o material e os

medicamentos utilizados nas emergências checados a cada

plantão. Recomenda-se que os pediatras e as enfermeiras

sejam treinados através de cursos SAVP que utilizam protocolos

estabelecidos pela American Heart Association

(AHA) e American Academy of Pediatrics (AAP) e que

são aceitos mundialmente.7

O atendimento pré-hospitalar pode ser definido como

a assistência prestada, em um primeiro nível de atenção, aos

portadores de quadros agudos de natureza clínica, traumática

ou psiquiátrica, que ocorrem fora do ambiente hospitalar

e podem acarretar sofrimento, seqüelas ou mesmo a

morte. Para este atendimento, o Ministério da Saúde lançou

o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência

(SAMU-192), que pretende organizar os serviços de atendimento

pré-hospitalar em 152 municípios com mais de

100 mil habitantes. A Portaria nº 1864/GM, de 29 de

setembro de 2003, institui o componente pré-hospitalar

móvel da Política Nacional de Atenção às Urgências, por

intermédio da implantação de Serviços de Atendimento

Móvel de Urgência (SAMU-192), suas Centrais de

Regulação (Central SAMU-192) e seus Núcleos de

Educação em Urgência, em municípios e regiões de todo o

território brasileiro, como primeira etapa da implantação

da Política Nacional de Atenção às Urgências. No atendimento

pré-hospitalar, a conexão com o Serviço de

Atendimento Móvel de Urgência (SAMU-192) é realizada

discando-se 192 em todos os estados do Brasil. Em Minas

Gerais, o SAMU-192 já se encontra funcionando em Belo

Horizonte, Contagem, Ipatinga e Betim. Brevemente

entrará em funcionamento em Governador Valadares,

Itabira, Sete Lagoas, Santa Luzia, Patos de Minas,

Barbacena e Juiz de Fora.

A antecipação e a prevenção da parada na faixa etária

pediátrica são fases importantes no atendimento do

paciente gravemente enfermo visto que, na maioria das

vezes, os estágios de progressiva instabilidade que acenam

para a possibilidade de uma futura PCR podem ser identificados

e tratados a tempo. A prevenção também pode

ser realizada através de campanhas educativas. Dados do

Ministério da Saúde de 1995 apontam, por exemplo, que

as causas externas (acidentes de trânsito, quedas, intoxicações,

afogamentos, acidentes com armas etc) são a primeira

causa de óbito nos pacientes entre 5 e 19 anos de idade.

Uma RCR precoce, juntamente com o rápido acesso ao

serviço médico de emergência e ao suporte avançado de

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ATENDIMENTO À PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA NA FAIXA ETÁRIA PEDIÁTRICA

vida, formam elos que, aliados às medidas de prevenção

de acidentes, compreendem a cadeia de sobrevivência

para o paciente pediátrico.8,9,10,11

As unidades de cuidados primários devem estar adequadamente

preparadas para o rápido reconhecimento

das situações de risco e atendimento das raras emergências,

o que pode significar a grande diferença entre a

morte, a "sobrevivência" com graves limitações e incapacidades

e a total recuperação sem seqüelas. O treinamento

no atendimento pré-hospitalar pode melhorar a evolução

das crianças gravemente enfermas. O contato sistematizado

com os serviços de emergências médicas e o

preparo das unidades hospitalares para receber esses

pacientes são também peças fundamentais. Devem-se

tentar acordos de transferência facilitada entre centros e

contratos com serviços de transporte especializados na

tentativa de oferecer as melhores condições de atendimento.

12 O encaminhamento responsável inicia-se no

primeiro contato com o serviço de emergência, estendendo-

se durante a assistência ao doente até a chegada

da equipe de transporte ou a transferência do paciente

para outro centro (sempre com acompanhamento médico).

12,13 Todos os dados devem ser anotados e avaliados.

A ampla informação sobre os casos e o suporte psicológico

para familiares ou responsáveis pela criança são fundamentais

na relação médico-paciente e caracterizam o

atendimento humanizado.12,13

Será abordado, na seqüência, cada elo desta cadeia,

dividindo-se, para fins didáticos, a assistência em pré-hospitalar,

hospitalar e situações especiais.

ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR

O atendimento à PCR em pediatria deve fazer parte de

um esforço comunitário, e de certa forma político, integrando

a educação para prevenção de lesões, a divulgação

e ensino das técnicas de suporte básico de vida, o fácil acesso

aos serviços de emergência (SAMU-192) e sistemas de

pronto atendimento, com conexões pelo sistema de saúde

municipal e estadual para locais de suporte avançado e

preparados para cuidados pós-ressuscitação. Esta rede de

comunicações deve ser planejada passo a passo pelos gestores

do sistema de saúde e testada quanto ao seu funcionamento

pelos profissionais de saúde e pela comunidade.

A epidemiologia da PCR na faixa etária pediátrica difere

do adulto, sendo principalmente, de causa respiratória.7-13

A PCR fora do hospital ocorre, freqüentemente, no

ambiente onde as crianças encontram-se sob a supervisão

dos pais ou de seus substitutos (professores, pajens e

supervisores). Desta forma, cursos de suporte básico de

vida deveriam ser oferecidos a este público de cuidadores.

No ambiente pré-hospitalar, as causas mais comuns de

PCR nas crianças são a síndrome da morte súbita infantil,

os acidentes em geral (trauma, quedas, submersão,

queimaduras, acidentes com armas, obstrução de vias

aéreas por corpo estranho etc), a septicemia, as doenças

respiratórias (como asma e pneumonia).

Para o cuidado pré-hospitalar efetivo, as equipes de

SAMU-192 devem estar equipadas para atender todas as

faixas etárias pediátricas. O suporte básico de vida inclui

avaliações seqüenciais e habilidades para manter e restaurar

a ventilação e a circulação eficazes da criança em PCR.

Para um atendimento organizado e efetivo, recomenda-se

o seguimento de protocolos internacionalmente aceitos, a

exemplo do conteúdo divulgado nos cursos de Suporte

Avançado de Vida em Pediatria (SAVP) coordenados pela

AHA.8 No seguimento desta discussão, será adotado

como referencial técnico-científico o manual de provedor

de Suporte Avançado de Vida em Pediatria (AHA, AAP).8

O atendimento às vítimas de PCR pode ser sintetizado

através da mnemônica do ABC (ou, segundo novas

adaptações, do ABCDEF).

A inspeção superficial do doente durante a aproximação

do socorrista já pode oferecer informações iniciais

importantes sobre as circunstâncias do evento, o estado

de consciência da vítima e a gravidade geral do quadro.

Na abordagem direta ao doente, o primeiro passo é checar

a sua consciência, tocando a criança gentilmente e

perguntando com clareza: Você está bem? (Figura 1).

Deve-se evitar a manipulação excessiva, principalmente

quando se suspeita de lesão de coluna vertebral. A seguir,

se o paciente não esboçar nenhuma resposta verbal ou

motora, grita-se alto por ajuda elevando-se o braço direito

(sinal internacional de pedido de ajuda): AJUDA! Se a

criança está consciente, dá-se o seguimento à avaliação

clínica fora do algoritmo de atendimento da PCR. Se a

vítima está inconsciente, dá-se continuidade à avaliação

do doente dentro da mnemônica do ABC.8,9,10,11

Rev Med Minas Gerais 2004; 14 (1 Supl. 3): S96-S105 98

ATENDIMENTO À PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA NA FAIXA ETÁRIA PEDIÁTRICA

Figura 1 - Testando o estado de consciência: Você está bem?

Fonte: Melo MCB, Vasconcellos MC, Guerzoni MTG. Ressuscitação cardiopulmonar. In:

Manual de Urgências em Pediatria, Simões e Silva AC, Norton RC, Mota JAC, Penna FJ.

Ed, MEDSI. Rio de Janeiro 2002; 87-103).

Nas crianças acima de 8 anos de idade que não forem

vítimas de trauma, intoxicações ou submersão, a identificação

da inconsciência implica não só no típico pedido de

ajuda, mas também na ativação do sistema médico de

emergência (SAMU-192). Para tal, cogita-se, inclusive, o

abandono momentâneo da vítima para a realização de

contato telefônico. Tal orientação prioriza o rápido acesso

à desfibrilação, considerando-se o maior risco de PCR por

fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular sem pulso

a partir desta idade. Nas crianças menores de 8 anos, excetuando-

se aquelas vítimas de colapso súbito - sobretudo

se diante de história prévia de arritmias ou cardiopatias,

dá-se seguimento normal ao ABC, mantendo-se as manobras

de reanimação (se indicadas) por pelo menos um

minuto antes de se cogitar o abandono da vítima para a

ativação do SAMU-192. Esta orientação decorre da grande

probabilidade de PCR por assistolia nesta idade; a

assistolia por sua vez resulta, freqüentemente, de uma

série de afecções que cursam com hipóxia, choque e acidose

e que respondem bem à reanimação com ventilação

assistida e compressões torácicas do ABC. Na presença de

mais de um socorrista, um deles procederá à imediata ativação

do SAMU-192 tão logo seja constatada a inconsciência

de qualquer vítima, independente da idade e do

provável mecanismo de parada. Nos locais em que o

SAMU-192 pode ser ativado, ao ser realizado o contato

telefônico, o socorrista deve informar: o seu nome, o local

e o número do telefone da chamada, as circunstâncias do

evento, o número e a condição geral das vítimas e o tipo

de cuidado em curso.

Dentro do ABC da reanimação, a etapa A corresponde

à avaliação das vias aéreas (do inglês "Airway"). Esta

etapa é iniciada com o posicionamento da vítima para a

abertura das vias aéreas. Se o paciente estiver em decúbito

ventral, ele deve ser virado em bloco para o decúbito

dorsal, protegendo-se a coluna cervical através de apoio

manual. Se há suspeita de trauma, a coluna cervical deve

ser completamente imobilizada, e quando a criança for

movimentada, a cabeça e o corpo devem ser movidos em

bloco, de preferência por dois ou mais socorristas.8,9,10,11

A abertura das vias aéreas (Figura 2) pode ser então

realizada com a manobra de inclinação da cabeça para

trás, elevando-se o queixo. Diante da suspeita de trauma

de coluna cervical, esta última manobra não pode ser realizada

(pelo risco de agravamento da lesão cervical),

devendo a abertura de vias aéreas ser executada com a técnica

de elevação do ângulo da mandíbula, sem extensão

da cabeça (Figura 3). Percebe-se que o ramo da mandíbula

se desloca anteriormente, com a elevação por meio de

dois ou três dedos colocados atrás do seu ângulo.7,8,9,10,11

A seguir, verifica-se se o paciente respira pela manobra

"ver-ouvir-sentir". Para executá-la, tangencia-se o olhar

pela superfície do tórax da vítima, procurando pela presença

de incursões ("ver"), ao mesmo tempo em que se

aproximando da face do paciente em busca das sensações

sonoras ("ouvir") e táteis ("sentir") do ar exalado (Figura

4). Um intervalo máximo de 15 segundos será gasto nesta

manobra.7,8,9,10,11

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ATENDIMENTO À PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA NA FAIXA ETÁRIA PEDIÁTRICA

Figura 3 - Abertura de vias aéreas no Trauma

Figura 4 - Ver-ouvir-sentir

Fonte: Melo MCB, Vasconcellos MC, Guerzoni MTG. Ressuscitação cardiopulmonar. In:

Manual de Urgências em Pediatria, Simões e Silva AC, Norton RC, Mota JAC, Penna FJ.

Ed, MEDSI. Rio de Janeiro 2002; 87-103).

Fonte: Melo MCB, Vasconcellos MC, Guerzoni MTG. Ressuscitação cardiopulmonar. In:

Manual de Urgências em Pediatria, Simões e Silva AC, Norton RC, Mota JAC, Penna FJ.

Ed, MEDSI. Rio de Janeiro 2002; 87-103).

Fonte: Melo MCB, Vasconcellos MC, Guerzoni MTG. Ressuscitação cardiopulmonar. In:

Manual de Urgências em Pediatria, Simões e Silva AC, Norton RC, Mota JAC, Penna FJ.

Ed, MEDSI. Rio de Janeiro 2002; 87-103).

Figura 2 - Abrir vias aéreas

Se a vítima respira de maneira suficiente, a seqüência

da avaliação prosseguirá fora do algoritmo de atendimento

à PCR. Após terminada a avaliação inicial, a vítima

pode ser colocada em posição de recuperação (decúbito

lateral direito, com o membro inferior esquerdo fletido

sobre o direito) para a ativação do SAMU-192. Se o

doente não respira ou apresenta respirações agônicas, dáse

continuidade à abordagem do doente dentro da mnemônica

do ABC.7,8,9,10,11

Inicia-se nesta seqüência a etapa B do ABC da reanimação

(do inglês "Breathing"). Ventila-se o paciente em

até cinco tentativas para produção de duas ventilações efetivas

(expansão satisfatória do tórax). São várias as possibilidades

de ventilação no nível pré-hospitalar de assistência.

Para socorristas eventuais, as possibilidades mais realísticas

seriam a da ventilação boca-a-boca com pinçamento

manual do nariz da vítima (em crianças acima de

um ano), boca-a-boca/nariz (em lactentes) ou boca-anariz

com o fechamento manual da boca da vítima (em

crianças maiores e lactentes) - figuras 5 e 6. O socorrista

deve inspirar profundamente e ventilar de forma lenta

(um a um e meio segundo) através do "selo" criado com

a boca e/ou nariz da vítima; os demais orifícios (nariz ou

boca da vítima, dependendo da técnica) devem ser vedados

durante a inspiração. Um intervalo de tempo ligeiramente

superior ao da inspiração deve ser reservado para a

exalação do ar, permitindo-se que o socorrista, no intervalo

das insuflações, reoriente lateralmente a sua cabeça

para buscar um ar mais puro (com menos CO2) ao

mesmo tempo que liberando as oclusões realizadas na inspiração.

Existem dispositivos de barreira (lenços e máscaras

valvuladas) apropriados para a proteção do socorrista

durante a ventilação da vítima e o seu uso deveria ser

incentivado. São excepcionais, entretanto, os relatos de

transmissão de doenças durante a RCR de pacientes

pediátricos. Caso haja disponibilidade (como no caso dos

serviços de resgate pré-hospitalar), deve ser sempre utilizada

a unidade ventilatória nas ventilações artificiais (vide

adiante). Para os serviços de resgate, a ventilação por bolsa

auto-insuflável com máscara pode ser tão eficaz quanto a

ventilação através da bolsa auto-insuflável acoplada ao

tubo traqueal. Especialmente nas situações de transporte

por curtas distâncias e para os profissionais de resgate com

pouca experiência em intubação infantil, a ventilação

com bolsa e máscara parece ser mais segura para o doente.

7,8,9,10,11

A etapa C (do inglês "Circulation") do ABC da reanimação

é iniciada com a palpação de pulso ou com a checagem

dos sinais de circulação. Por sinais de circulação

entende-se, além da presença de pulso central palpável, a

presença de movimentação e respiração espontânea bem

como qualquer reação motora à ventilação executada na

etapa anterior. O pulso de escolha nas crianças menores

de 1 ano é o braquial, que é palpável na face interna do

terço médio do braço, com o indicador e o dedo médio

(vide Figura 7). Nas crianças acima de um ano, o pulso de

escolha é o carotídeo. Este pulso pode ser localizado palpando-

se no pescoço da vítima a saliência anterior da cartilagem

tireóide ("pomo de Adão") com dois ou três

dedos, enquanto se mantém a cabeça inclinada com a

outra mão. Os dedos devem ser então escorregados até a

borda medial do esternocleidomastóideo do mesmo lado

do socorrista (Figura 8). Se o pulso estiver presente, com

freqüência superior a 60 bpm, e a respiração ausente,

deve-se ventilar o paciente com uma freqüência de 20 respirações

por minuto (1 vez a cada 3 segundos) para os lactentes

e crianças e de 12 respirações por minuto (uma a

cada 5 segundos) para as crianças acima de 8 anos. As

ventilações de resgate são mantidas até que a vítima recobre

a respiração espontânea.7,8,9,10,11

Rev Med Minas Gerais 2004; 14 (1 Supl. 3): S96-S105 100

ATENDIMENTO À PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA NA FAIXA ETÁRIA PEDIÁTRICA

Figura 5 - Respiração boca-a-boca em crianças e adultos

Figura 6 - Respiração boca-nariz/boca em lactentes

Fonte: Melo MCB, Vasconcellos MC, Guerzoni MTG. Ressuscitação cardiopulmonar. In:

Manual de Urgências em Pediatria, Simões e Silva AC, Norton RC, Mota JAC, Penna FJ.

Ed, MEDSI. Rio de Janeiro 2002; 87-103).

Fonte: Melo MCB, Vasconcellos MC, Guerzoni MTG. Ressuscitação cardiopulmonar. In:

Manual de Urgências em Pediatria, Simões e Silva AC, Norton RC, Mota JAC, Penna FJ.

Ed, MEDSI. Rio de Janeiro 2002; 87-103).

Se o pulso não for palpável ou a freqüência cardíaca estiver

menor que 60 bpm com sinais de má perfusão capilar,

devem ser iniciadas as compressões torácicas coordenadas

com a ventilação. Os ciclos de compressão-ventilação

devem ser realizados com relação de 5:1 nas crianças até 8

anos de idade e de 15:2 nas crianças acima de 8 anos. Nestas

últimas, após a chegada do sistema médico de emergência e

a intubação da vítima, o ciclo passará a ser de 5:1 na presença

de dois socorristas. A profundidade da compressão é de

1/3 a 1/2 do diâmetro ântero-posterior do tórax. O ritmo

da compressão deve ser de pelo menos 100 vezes por minuto

nos lactentes e de cerca de 100 vezes por minuto nas

crianças de 1 a 8 anos; nas crianças maiores, embora mais

difícil, deve ser tentado o ritmo de 100 compressões por

minuto (Figura 9). O número de compressões efetivamente

realizadas em um minuto, pela interposição das ventilações,

será obviamente menor que o referencial de 100 preconizado.

Nos lactentes, as compressões devem ser realizadas sobre

o esterno, 1 dedo abaixo da linha intermamária, usando-se

a técnica dos polegares superpostos ou justapostos (envolvendo-

se o tórax da vítima com os demais dedos) ou a técnica

do segundo e terceiro dedos de uma só mão justapostos

(a técnica das duas mãos ou dos polegares é a preferida

na presença de dois socorristas). Na criança de 1 a 8 anos,

deve-se comprimir sobre o terço inferior do esterno (evitando-

se o apêndice xifóide) com as regiões tenar e hipotenar

de uma das mãos, mantendo-se o membro superior esticado

(Figura 10). A outra mão fica inclinando a fronte, promovendo

a abertura das vias aéreas. Nas crianças maiores de

8 anos, a técnica é praticamente a mesma, utilizando-se,

entretanto, as duas mãos superpostas (Figura 11).8

Rev Med Minas Gerais 2004; 14 (1 Supl. 3): S96-S105 101

ATENDIMENTO À PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA NA FAIXA ETÁRIA PEDIÁTRICA

Figura 7 - Palpação do pulso braquial

Figura 8- Palpação do pulso carotídeo

Figura 9 - Compressão torácica em lactentes

Figura 10 - Compressão torácica em crianças

Figura 11 - Compressão torácica em crianças maiores de 8 anos e adultos

Fonte: Melo MCB, Vasconcellos MC, Guerzoni MTG. Ressuscitação cardiopulmonar. In:

Manual de Urgências em Pediatria, Simões e Silva AC, Norton RC, Mota JAC, Penna FJ.

Ed, MEDSI. Rio de Janeiro 2002; 87-103).

Fonte: Melo MCB, Vasconcellos MC, Guerzoni MTG. Ressuscitação cardiopulmonar. In:

Manual de Urgências em Pediatria, Simões e Silva AC, Norton RC, Mota JAC, Penna FJ.

Ed, MEDSI. Rio de Janeiro 2002; 87-103).

Fonte: Melo MCB, Vasconcellos MC, Guerzoni MTG. Ressuscitação cardiopulmonar. In:

Manual de Urgências em Pediatria, Simões e Silva AC, Norton RC, Mota JAC, Penna FJ.

Ed, MEDSI. Rio de Janeiro 2002; 87-103).

Fonte: Melo MCB, Vasconcellos MC, Guerzoni MTG. Ressuscitação cardiopulmonar. In:

Manual de Urgências em Pediatria, Simões e Silva AC, Norton RC, Mota JAC, Penna FJ.

Ed, MEDSI. Rio de Janeiro 2002; 87-103).

Fonte: Melo MCB, Vasconcellos MC, Guerzoni MTG. Ressuscitação cardiopulmonar. In:

Manual de Urgências em Pediatria, Simões e Silva AC, Norton RC, Mota JAC, Penna FJ.

Ed, MEDSI. Rio de Janeiro 2002; 87-103).

Na seqüência da reanimação pré-hospitalar do

doente em PCR, torna-se essencial a obtenção de acesso

para a administração de drogas e o rápido acesso ao

desfibrilador (sugerido por alguns como a etapa "D"

da reanimação – do inglês "Drugs" ou

"Defibrilation"). A obtenção de acesso vascular e o

emprego do desfibrilador são tarefas habitualmente

executadas pelo serviço médico de emergência. Na

situação de parada, deve-se priorizar sempre o acesso

vascular que seja mais facilmente obtido sem prejuízo

para as manobras de reanimação. Uma idéia interessante

é a da tentativa simultânea de diferentes opções

(periférico, femoral e intra-ósseo). Dos acessos centrais,

a via femoral deve ser priorizada por não interferir

com as manobras de reanimação; a via intra-óssea

constitui sempre uma ótima opção de acesso vascular

resistente ao colapso, podendo ser obtida facilmente e

em curto intervalo de tempo no paciente em PCR; a

via periférica constitui alternativa viável e igualmente

eficaz às duas anteriores desde que as infusões de drogas

realizadas sejam seguidas por "flush" de soro fisiológico

em volume de 5 a 10mL. Diante da total

impossibilidade de obtenção de acesso vascular, resta a

opção da intubação do doente para a realização de

drogas lipossolúveis (adrenalina, atropina, lidocaína e

naloxone) através do tubo traqueal. As drogas por via

traqueal podem ser administradas de duas formas:

diretamente no tubo após pré-diluição com 5mL de

soro fisiológico; ou através de sonda introduzida até a

extremidade do tubo, sem pré-diluição e com o auxílio

de um "flush" de 5mL de soro fisiológico. A administração

em ambos os casos deve ser seguida de algumas

ventilações com pressão positiva. O algoritmo de

drogas na PCR será revisto mais adiante no item sobre

o atendimento hospitalar. O desfibrilador será utilizado

tão logo seja possível a monitoração do ritmo do

doente. As situações de fibrilação ventricular e de

taquicardia ventricular sem pulso devem ser tratadas

com a desfibrilação (vide adiante). A disseminação de

aparelhos do tipo DEA (desfibrilador externo automático)

para uso leigo em lugares de grande concentração

de pessoas tornará a desfibrilação uma realidade cada

vez mais viva na assistência pré-hospitalar dos doentes.

O DEA avalia o ECG do paciente para determinar

se existe um ritmo chocável, carrega a dose apropriada,

e quando ativado pelo operador, aplica o choque.

Tais aparelhos encontram-se atualmente liberados

para uso em crianças, sendo indicado o seu uso em

crianças maiores de 8 anos de idade quando se suspeita

de uma arritmia cardíaca. Pode ser utilizado também

em crianças de 1 a 8 anos de idade se o dispositivo

fornecer uma dose infantil.8,11

ATENDIMENTO HOSPITALAR

A PCR dentro do hospital varia substancialmente em

termos etiológicos de acordo com a nosologia prevalente ou

com o perfil da população assistida em cada serviço.

Categorias como a sepse, a pneumonia, a asma grave, os

estados de choque (hipovolêmico e séptico), o trauma grave

e uma grande variedade de doenças crônicas complexas

sempre aparecem em destaque nas mais diferentes séries.

A criança encaminhada para o atendimento hospitalar

em PCR ou que evolui para PCR no hospital deve ser

atendida dentro da mesma sistematização do "ABC" já

comentada.8 As técnicas de abertura de vias aéreas, palpação

de pulso central e de compressões torácicas são as

mesmas relatadas no atendimento pré-hospitalar. O atendimento

com mais de um socorrista torna-se a regra no

ambiente hospitalar e a interação da equipe é fator primordial

para a boa evolução do paciente, sendo indicado

treinamentos periódicos dos profissionais de saúde. A

aspiração da orofaringe com aspirador portátil ou "de

parede" e sonda flexível ou cânula rígida (para secreção

espessa e partículas sólidas) pode ser empregada neste

cenário, contribuindo para o clareamento das vias aéreas.

A manobra "ver-ouvir-sentir" deve ser substituída pela

inspeção torácica aliada ao uso do estetoscópio. A ventilação

boca-a-boca ou boca-a-nariz/boca ou boca-a-nariz ou

boca-a-dispositivo de barreira será substituída pela ventilação

através de dispositivos especiais: máscara-unidade

ventilatória auto-insuflável (na maioria dos serviços) ou

máscara-bolsa fluxo-insuflável ("baraca"). A ventilação é

sempre realizada com oferta de oxigênio suplementar,

podendo a FiO2 oferecida aproximar-se de 95% nas unidades

ventilatórias providas de reservatório de O2. Estes

equipamentos devem ser checados periodicamente quanto

ao seu estado de funcionamento.7,8,10,11

Diferentemente da assistência pré-hospitalar, a antecipação

da situação de PCR dentro do hospital pode ser

realizada freqüentemente, permitindo algumas iniciativas

que otimizam a assistência durante a parada. As folhas de

atendimento à PCR possibilitam o cálculo simplificado

de doses, o rápido preparo das medicações e a discriminação

dos materiais mais adequados para o tamanho do

doente (lâminas de laringoscópio, tubos traqueais, sondas

de aspiração, cateteres de punção torácica etc), devendo

ser preenchidas para todos os pacientes internados. A checagem

do material potencialmente utilizado no atendimento

à PCR deve ser sempre realizada para os pacientes

de risco (portadores de esforço respiratório, insuficiência

respiratória, choque, falência cardiorrespiratória ou falência

de múltiplos órgãos). Tais doentes devem ser colocados

sob vigilância rigorosa com avaliações médicas e de

enfermagem freqüentes, além de monitoração contínua

Rev Med Minas Gerais 2004; 14 (1 Supl. 3): S96-S105 102

ATENDIMENTO À PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA NA FAIXA ETÁRIA PEDIÁTRICA

por eletrocardiógrafo e saturímetro. Suas alterações fisiopatológicas

devem ser prontamente corrigidas e os agentes

etiológicos tratados, sempre que possível. Vagas em

serviço de terapia intensiva devem ser requisitadas com

antecedência.

Em diversos momentos da RCR no hospital pode-se

cogitar a intubação do doente para o prosseguimento das

manobras de reanimação. Os seguintes equipamentos

devem estar disponíveis para o procedimento da intubação:

unidade ventilatória com bolsa auto-insuflável, máscara

e reservatório de oxigênio; laringoscópio com lâmina

adequada, tubos endotraqueais (em três tamanhos: número

ideal estimado, 0,5 mm acima e 0,5mm abaixo do

ideal), aspirador com sonda grossa, fita adesiva já preparada

para fixação do tubo, oxímetro de pulso e capnógrafo

ou detector de CO2 (para confirmação da intubação). Tão

logo o paciente acima de oito anos esteja intubado, caso

persista a situação de PCR, a relação entre compressões e

ventilações para dois reanimadores passa a ser de 5:1.8

A seqüência do ABC da reanimação dentro do hospital

é continuada com a administração de drogas, preferencialmente,

pela via vascular ou intra-óssea.7,8,10,11

As drogas devem ser administradas conforme o estabelecido

pela folha de atendimento à PCR disponível em

cada serviço (veja tabela 1). Aquelas que apresentam as

melhores indicações de emprego durante o atendimento à

PCR são discutidas abaixo.

A epinefrina é uma catecolamina endógena com ação

\ e β. Nas vítimas de PCR, a ação \ é a mais importante

por causar intensa vasoconstrição periférica, restaurando

a pressão diastólica na aorta, o que permite uma

melhor perfusão miocárdica e a possível retomada de sua

atividade elétrica. Nos pacientes em fibrilação ventricular,

a droga aumenta a amplitude das ondas, melhorando a

resposta à desfibrilação. A epinefrina é, portanto, uma

droga de primeira escolha em qualquer paciente com

PCR, devendo ser realizada tão logo esteja disponível a via

de administração. No decorrer da reanimação, enquanto

persistir a ausência de pulso, a adrenalina deve ser repetida

a cada 3 a 5 minutos.

Indica-se como primeira dose por via intravenosa (IV)

ou intra-óssea (IO) 0,01mg/Kg, ou seja, 0,1mL/Kg de

adrenalina diluída 1:10.000 em água destilada ou solução

fisiológica.7-15 Pela via endotraqueal, diante da absorção

limitada da droga, indica-se 0,1mg/Kg, ou seja,

0,1mL/Kg de adrenalina pura (1:1000), exceto na faixa

etária neonatal. A dose ideal no paciente pediátrico

encontra-se em investigação. Uma publicação recente

comparou o uso de "megadose" com a convencional após

a inicial e não demonstrou benefícios.14 Por outro lado,

protocolos de diversos serviços têm considerado a utilização

nas administrações subseqüentes à inicial doses mais

elevadas (0,1 a 0,2 mL/Kg ou 0,1 a 0,2 mL/Kg da solução

1:1000).8

A epinefrina é inativada em solução alcalina não

podendo ser administrada, portanto, junto com bicarbonato

de sódio.

Após a retomada do pulso em alguns pacientes, é

necessário o uso de epinefrina em infusão contínua. As

indicações incluem sinais de perfusão sistêmica ruim ou

hipotensão no doente com volume intravascular adequado

ou nos casos de bradicardia significativa. Inicia-se com

infusão de 0,1 a 1µg/Kg/minuto. Ocasionalmente,

podem ser necessárias doses altas de até 5µg/Kg/minuto,

mas o paciente deve ser monitorizado quanto a efeitos

colaterais (taquiarritmias, disfunção miocárdica, hipertensão

arterial, extravasamento com necrose tissular etc) e

a droga deve ser suspensa o mais rápido possível.7,8,11,12,13

A indicação do bicarbonato de sódio na PCR é menos

precisa que a da adrenalina. Indica-se o bicarbonato nas

situações de PCR por hipercalemia, hipermagnesemia,

intoxicação por bloqueadores de canais de sódio e na acidose

grave documentada ou suspeita, PCR com duração

superior a dez minutos. A dose é de 1 mEq/Kg/dose, ou

seja, 1 mL/Kg do bicarbonato de sódio a 8,4%. A diluíção

1:1 com ABD não é necessária em maiores de um mês

de vida. O bicarbonato pode ser repetido na PCR a cada

10 minutos (0,5 a 1mEq/Kg empiricamente), ou conforme

resultado de gasometria.7,8,11,12,13

O cálcio possui indicações também restritas na PCR.

Sua administração está indicada nos casos de PCR por

hipercalemia, hipermagnesemia, intoxicação por bloqueadores

de canais de cálcio e hipocalcemia suspeita ou documentada.

A dose utilizada é de 5 a 7 mg/Kg de cálcio elementar,

ou seja, 0,5 a 0,75 mL/Kg de gluconato de cálcio

a 10% (9mg/mL). Nas infusões em veia periférica, existe

o risco de infiltração e necrose do tecido adjacente.7,8

A glicose deve ser administrada somente na PCR associada

à hipoglicemia suspeita ou documentada, na dose

de 0,5 a 1g/Kg, ou seja, 2 a 4mL/Kg de glicose a 25%; em

neonatos, a dose passa a ser de 0,2g/Kg e a concentração

máxima da solução de 12,5%.7,8 No estado de choque

pós-PCR, recomenda-se manter os níveis séricos de glicose

próximos da normalidade, evitando-se tanto a hipo

quanto a hiperglicemia.

Outras drogas poderiam ser empregadas durante o

atendimento do paciente em fibrilação ventricular (FV)

ou taquicardia ventricular (TV) sem pulso. É o caso da

amiodarona (5mg/Kg) ou da lidocaína (1mg/Kg) em

bolus. Recomenda-se que tais medicações sejam realizadas

na FV/TV sem pulso após a primeira dose de adrenalina

e a primeira seqüência de três tentativas de desfibrilação.

Doses posteriores poderiam ser repetidas na seqüência da

reanimação. Nos portadores de TV sem pulso do tipo

Rev Med Minas Gerais 2004; 14 (1 Supl. 3): S96-S105 103

ATENDIMENTO À PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA NA FAIXA ETÁRIA PEDIÁTRICA

"Torsades de Pointes" recomenda-se o emprego de magnésio

na dose de 25 a 50mg/Kg (máximo de 2g) ou 0,5 a

1mL/Kg de MgSO4 a 50%.8

Ao lado das drogas de reanimação, nas situações de

FV/TV sem pulso a desfibrilação aparece como procedimento

essencial no tratamento do paciente em PCR. A

desfibrilação será utilizada nos aparelhos monofásicos nas

doses de 2 a 4J/Kg (doses menores podem ser eficazes nos

aparelhos bifásicos), realizada numa seqüência inicial de

2J/Kg, 2 a 4J/Kg e 4J/Kg. De 30 a 60 segundos após cada

droga realizada no prosseguimento da reanimação, podese

tentar novamente a desfibrilação em seqüências de até

três tentativas de 4J/Kg.8

Nos pacientes que retomam o ritmo durante a reanimação

do "ABC", seguem etapas importantes de estabilização

do doente, avaliação mais detalhada (anamnese

dirigida e exame físico completo), preparação para transporte

(preferencialmente, para uma unidade de tratamento

intensivo) e informação e suporte para os familiares.

Tais etapas são também conhecidas como "DEF" na

seqüência da mnemônica. O "D" corresponde ao inglês

"Disability" e representa um momento de avaliação mais

detalhada do doente (anamnese dirigida e exame físico

completo), incluindo seu estado neurológico. O "E" (do

inglês "Exposure" ou "Environment") representa os cuidados

com a exposição ambiental, particularmente sobre

o controle térmico do doente (evitando-se a hipotermia

profunda ou inferior a 33∞c). O "F" (do inglês "Family")

representa a atenção que deve ser destinada aos pais ou

familiares em termos de esclarecimento e suporte emocional.

8 Na presença de um profissional capacitado que

possa estar presente ao lado dos pais durante toda a assistência

ao doente, passando informações adequadas sobre

o andamento e o significado dos procedimentos realizados,

pode ser dada aos mesmos a oportunidade de presenciarem

o atendimento à PCR.

SITUAÇÕES ESPECIAIS

Abordagem da PCR no período neonatal

Algumas considerações sobre a ressuscitação no período

neonatal são importantes.

As técnicas de abertura de vias aéreas e de compressão

torácica são as mesmas já descritas para os lactentes. A

compressão com dois polegares é a mais indicada por

gerar maior pico pressórico. A profundidade de compressão

deve ser de 1/3 do diâmetro ântero-posterior do tórax.

A relação entre compressões/ventilações passa a ser de 3:1,

realizando-se em 1 minuto cerca de 120 eventos (90 compressões

e 30 ventilações). As compressões esternais estão

indicadas se a freqüência cardíaca for menor que 60 batimentos

por minuto, após ventilação adequada por 30

segundos.8

A dose de adrenalina utilizada no período neonatal é

de 0,01 a 0,03mg/kg ( 0,1 a 0,3mL/kg da solução diluída

1:10.000), por qualquer via, inclusive a endotraqueal. A

dose administrada pode ser repetida a cada 3 a 5 minutos.

Altas doses de adrenalina podem levar à hipertensão prolongada,

com maior risco de hemorragia intracraniana,

não estando, portanto, indicadas.7,8,12,13

Nas situações emergenciais, o acesso venoso preferencial

nas primeiras horas de vida é a veia umbilical. As outras

opções para administração de medicamentos são a via

endotraqueal (drogas lipossolúveis) e, na impossibilidade

de obtenção de acesso venoso rápido, a via intra-óssea.7,8,13

As soluções preferencialmente utilizadas para as primeiras

expansões nos casos de sangramento com choque

são: cristalóides (soro fisiológico 0,9% ou Ringer-lactato)

e concentrado de hemácias "O" negativo cruzado com o

sangue materno. Nas apnéias secundárias a opióides administrados

à mãe ou ao recém-nascido, pode-se utilizar o

Naloxone em doses que variam de 0,001 a 0,1mg/Kg, por

via venosa, intra-muscular ou endotraqueal.

Atendimento inicial ao paciente vítima de trauma

A prioridade na abordagem inicial do paciente vítima

de trauma é, também, a seqüência do "ABC". Embora os

princípios básicos da assistência sejam os mesmos, atenção

especial deve ser destinada às principais causas de

óbito e seqüelas permanentes nestes pacientes, que são a

hipóxia e o choque hemorrágico sem controle.

Pelos riscos de lesão medular associada à manipulação

excessiva, a abertura de vias aéreas deve ser realizada pela

elevação do ângulo da mandíbula (Figura 3); para o

transporte definitivo dos pacientes, da mesma forma,

procede-se à imobilização do doente em maca especial de

transporte, incluindo o emprego do colar cervical.

As vias aéreas devem ser aspiradas com sonda rígida

de largo calibre, devido à possibilidade de corpo estranho

em orofaringe. Em caso de lesão grave da face, pode ser

necessária a cricotirotomia por agulha para acesso às vias

aéreas.

Na abordagem da circulação, deve ser realizada a pesquisa

dos possíveis locais de sangramento para o controle

imediato das lesões sangrantes. Um ou mais acessos

venosos calibrosos ou um acesso intraósseo devem ser

prontamente obtidos para reposição volêmica agressiva

em bolus rápidos de 20ml/Kg (se necessário, sob pressão).

Na situação de PCR, pode-se considerar a administração

de sangue "O" negativo sem prova cruzada. O pneumotórax

hipertensivo, o hemotórax volumoso, o tamponamento

cardíaco por hemopericárdio e o choque profundo

por sangramento descontrolado devem ser sempre

lembrados como causas de dissociação eletromecânica, e

imediatamente tratados.

Após a seqüência inicial do "ABC", caso o paciente

recupere o pulso, deve-se realizar a checagem do nível de

Rev Med Minas Gerais 2004; 14 (1 Supl. 3): S96-S105 104

ATENDIMENTO À PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA NA FAIXA ETÁRIA PEDIÁTRICA

consciência (Fase "D" = "Disability") através da escala de

Coma de Glasgow ou Escala de Glasgow adaptada para a

faixa etária pediátrica. A seguir, deve-se expor toda a

superfície corpórea do paciente (Fase E = "Exposure")

para avaliação clínica mais completa, protegendo o

paciente da hipotermia e evitando-se a hipertermia.8

Inicia-se, na seqüência, uma avaliação secundária,

seguindo-se o "ABCDE" de forma mais detalhada (o que

escapa aos objetivos deste trabalho).

Tais pacientes devem ser encaminhados a centros

especializados em trauma que tenham um cirurgião

pediátrico de trauma para intervenção imediata nos processos

que ameaçam a vida7,8,13,14.

Intoxicações

Nas vítimas de PCR secundária à intoxicação, a abordagem

sistemática do "ABC" deve ser, novamente, priorizada.

Os procedimentos de descontaminação gastrointestinal

não possuem indicação nos doentes que já apresentaram

manifestações graves da intoxicação (o que sugere

exposição ocorrida há mais tempo). Tentativas de identificação

do tóxico pela história e pelas manifestações que

antecederam a PCR (síndromes tóxica) devem ser realizadas

para início do tratamento específico. A taquicardia

ventricular sem pulso e a fibrilação ventricular devem ser

sempre lembradas como manifestações possíveis de uma

série de intoxicações.

Caso a vítima recupere o pulso durante a abordagem

inicial, procede-se à anamnese detalhada e ao exame físico

sucinto, enfatizando-se o estado neurológico (escala de

Glasgow modificada) e cardiopulmonar. O contato com

o centro de toxicologia permite um auxílio ao diagnóstico

e ao tratamento a ser instituído (telefone em Minas

Gerais: 31 32244000).7,13

Afogamento

Situações de afogamento podem ocorrer na faixa etária

pediátrica mesmo em locais de pouca profundidade, principalmente

nos lactentes. O combate a hipóxia através da ventilação

do paciente no local (respiração boca-a-boca) é fundamental

para melhorar o prognóstico. A manobra de abertura

de vias aéreas para trauma (elevação do ângulo da mandíbula)

com a estabilização da coluna cervical está indicada

quando se suspeita de lesão durante mergulho ou queda.

Assim que possível, deve-se iniciar as ventilações com pressão

positiva e oxigênio a 100%. A passagem de sonda gástrica

é também recomendada, pois geralmente grande quantidade

de água é ingerida, podendo dificultar a ventilação ou

levar a aspiração. A ventilação, quando indicada, deve ser

realizada do modo habitual, sendo desnecessárias outras

manobras objetivando a eliminação da água ingerida e aspirada.

As roupas molhadas devem ser retiradas e o paciente

aquecido.7,13,14 A seqüência da reanimação ocorre como em

qualquer outra situação de PCR.

SUMMARY

Cardiopulmonary arrest in the pediatric patient is rarely of sudden

onset. Typically, children have primary cardiac arrest secondary to

a prolonged period of respiratory or circulatory compromise. Many

investigators have confirmed that survival rates after respiratory

arrest alone, whether in or out of the hospital, are significantly better

than survival rates once cardiac arrest has occurred. Early

recognition and prompt intervention of respiratory failure to prevent

further hypoxemia and respiratory acidosis appear to be the

most factors in averting progression to cardiac arrest. In any

pediatric emergency, the first step is establishing airways status

followed by breathing and circulation evaluation (ABC). Airway

management can be as simple as observation or as complex as

endotracheal intubation. Oxygen should be considered for all

pediatric emergencies. The easiest form of assisted ventilation in a

child is bag-valve-mask ventilation. Circulatory compromise

should be evaluated. The pulses most easily palpated are the brachial

(< 1 year old) and carotid (> 1 year old).

The Pediatric Advanced Life Support (PALS) course teaches the

fundamental basic for pediatric emergency care, and it is recommended

that all physicians and nurses who care for children complete

training and refresher courses on a regular basis. The purpose

of this study is to review the recommendations of pediatric

resuscitation and help pediatrician to save lives and improved quality

of life.

Keywords: Ressuscitation, advanced life support, basic

life support, cardiopulmonary ressuscitation, cardiorespiratory

arrest

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