Wagner Seixas, jornalista
Dá para contar nos dedos as vezes que fui, voluntariamente, a um médico. Duas, por imposição familiar: uma para o exame de próstata, a que todo homem é obrigado, e outra impulsionada por dores de cabeça originárias da necessidade de usar óculos para distância. A resistência não está diretamente ligada à desconfiança sobre estes milagreiros tecnológicos, mas por um permeável pressentimento de que o diagnóstico será o mais terrível. Sempre acho que eles descobrirão mais moléstias do que o corpo tem capacidade de abrigar. Frente a previsões tão catastróficas e com aflitivos indícios, tento estar o mais longe possível dos consultórios. Porém, cinqüentões como eu parecem ser o alvo preferencial de vírus, bactérias e outros males descritos na literatura médica. Como descreve, ironicamente, o jornalista Djalma Gomes, é a chamada idade do condor: com dor aqui, com dor ali..... E esta semana, após ficar por dias sob o flagelo de dores na região lombar, decidi procurar um especialista. Como na relação médico-paciente sou o pior dos pessimistas, já me preparei para o pior. Eu mesmo me autodiagnostico. Estou com câncer na coluna, antecipo a opinião do médico, sob efeito de uma depressão ocasionada pela falência orgânica. Nós, cinqüentões, ainda não admitimos as falhas do organismo decorrentes da idade. No meu caso específico, sempre acredito, por mais banal que seja a doença, estar com as horas contadas em solo terrestre. Reconheço ser um método mórbido, mas se trata de uma prevenção para uma possível identificação de uma grave anomalia. E quando nada se descobre, após minucioso exame, espalha-se uma euforia e um alívio dignos de fausta comemoração. Quando o médico diz não ser nada aquele estranho espasmo no peito, dá um sentimento de imortalidade. Na terça-feira passada, depois de uma noite insone provocada pela nevralgia do lombo, colocara sob as vistas o cartão do plano de saúde. Acordo, rompo a rotina e lanço-me em direção ao hospital. Senha, fila, espera (deu para ler um jornal inteiro) e, finalmente, sou atendido. Uma simpática médica me inspira confiança. Como não estou habituado às consultas, papagueio num ritmo alucinante. Digo que sou relapso, sedentário, que fumo, bebo e exalto a incapacidade de qualquer esforço físico para moldar e enrijecer o corpo. Diante do auto-retrato destrutivo, temia ser levado direto para a UTI. Calma e sem se impressionar com a autodescrição de um quase moribundo, pergunta-me a razão da consulta. "Estou sentindo dores na coluna, com reflexos na parte frontal . "Tire a roupa e deite-se naquela cama", recomenda, impositiva. O susto pela sugestão deixou-me curado. Tímido que sou, jamais pensara passar por um constrangimento daquela natureza, especialmente pelo fato de não usar cueca devido à alergia produzida por elas. Nu, completamente nu, frente a esta senhora eu não ficaria. Criou-se um impasse por eternos segundos. "A senhora não tem aquele avental?" pergunto-lhe, com o intuito de protegê-la do grotesco visual. "Não", responde secamente, sem mirar para meu desespero. "Posso só tirar a camisa? As dores são no membro superior", peço-lhe num tom de piegas súplica. "Não", responde. "Doutora, tenho vergonha e, além do mais, estou sem cueca", confesso pudicamente, à espera de que a revelação demovesse a moça de expor-me à nudez plena. Ela sorri e aceita o dorso nu e meia calça arriada. Apalpa daqui, espreme dali e manda-me compor. "E aí, doutora, estou muito mal?" "Que nada! É apenas uma contratura muscular. Os seus músculos em torno da coluna estão fracos por falta de exercício." Apesar do diagnóstico tão simples, a danada lista um punhado de exames por culpa da idade. Aliviado, prometo-lhe praticar esportes, caminhada e todas as atividades compatíveis com o meio século (né, Francis Rose!) que pesa nas costas. Agradeço, entusiasmado, ela não ter descoberto outras moléstias. "Sou uma rocha", penso arrogante. Mas a doutora adiciona um pouco de medo e muita provocação no fim da nossa curta relação. "Sua pressão está um pouquinho alta. Deve ser o estresse de você ter vindo ao médico". Não deixei escapar a insinuação. "Está vendo, doutora, por que não vou a médicos? Quando aqui cheguei, meu problema era na coluna e saio com pressão alta".