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O campus de Manguinhos da Fiocruz está sendo palco de uma experiência poucas vezes ocorrida no país: a da restauração de obras modernistas. A intervenção em dois painéis de azulejos - construídos no início dos anos 50 - situados em pavilhões distintos da Fundação mobilizou a equipe de arquitetos e técnicos do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Fiocruz e do Instituto Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural (Inepac), este responsável pelo tombamento da obra em 2003. O restauro - que conta com o apoio do escritório do paisagista Roberto Burle Marx, autor do maior dos painéis - deverá ser concluído em outubro e de acordo com a arquiteta Bettina Collaro Goerlich de Lourenço, responsável pelo projeto de restauração e integrante do DPH, dará projeção nacional às obras, no âmbito da preservação do patrimônio, por ter gerado uma discussão profissional e uma mesa-redonda.
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Peter Illicciev/Fiocruz |
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O maior dos painéis, idealizado por Burle Marx, tem seis mil azulejos em sua parte superior e cerca de 1.800 na parte inferior, todos pintados à mão. Instaladas no Pavilhão Arthur Neiva (antigo Pavilhão de Cursos) do IOC, as duas partes têm, respectivamente, 122 e 50 metros quadrados, sendo ambas maiores que o outro painel em reforma, o que fica no Pavilhão Carlos Augusto da Silva - este, com 32 metros quadrados, de autoria de Paulo Rossi Osir, que trabalhou para Portinari e Volpi, entre outros artistas. Osir também produziu os azulejos desenhados por Portinari para a sede do então Ministério da Educação e Saúde, marco da arquitetura modernista no Brasil localizado no Rio de Janeiro. Os dois painéis em restauração estão em prédios projetados pelo arquiteto Jorge Ferreira, que pelo Refeitório Central ganhou Menção do júri da 1ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, em 1951.
A obra, orçada inicialmente em R$ 86 mil, recebeu um aditivo de R$ 20 mil para que fosse possível confeccionar integralmente cerca de 70% dos azulejos da parte inferior do painel de Burle Marx. Eles foram danificados depois de passarem anos encaixotados após uma reforma nos anos 80. "Só conseguimos recuperar 30% dos azulejos", conta Bettina. Para que fosse possível refazer as peças exatamente como eram, o DPH precisou recorrer a fotografias do acervo do Instituto Moreira Salles, porque nem o escritório de Burle Marx tinha o projeto. A reprodução, feita em papel-cartão, permitirá recompor a imagem dos microorganismos aquáticos criada pelo paisagista - também criador dos jardins do pavilhão - e que enfeitam o painel, situado de frente para a Avenida Brasil. A localização é um desafio para a conservação, devido à poluição do tráfego da movimentada avenida, uma das portas de entrada no Rio, e da Refinaria de Manguinhos. Daqui para frente, Bettina prevê uma limpeza do painel a cada dois anos.
Os azulejos são feitos manualmente e cada um leva cerca de três horas para ficar pronto. Feitos de cerâmica e porcelana, eles são pintados em dois tons de azul: o ultramar e o cobalto. Depois de receberem os pigmentos, são submetidos a um forno com temperatura de 1.800 graus para que o desenho entranhe na peça. Bettina diz que um texto explicativo ao lado dos painéis contará todos os detalhes da reforma, passo a passo. Ela vem documentando a restauração e pretende apresentá-la em um seminário técnico.
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Peter Illicciev/Fiocruz |
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O texto também explicará para os futuros apreciadores das obras que os responsáveis pela reforma decidiram que os azulejos originais existentes ficarão assentados no mesmo nível do acabamento do prédio e os novos estarão colocados à frente, com uma espessura correspondente a um azulejo (aproximadamente 0,5 centímetro). É de praxe deixar nítido para o público que determinada obra passou por uma intervenção.
Mestre em preservação, restauração e patrimônio em bem cultural, Bettina defendeu a dissertação Harmonia da cor no espaço urbano: um estudo de casa em Santa Teresa. Depois de morar 36 anos no bairro carioca, ela agora reside no município de Areal (RJ).
Mais informações sobre o patrimônio arquitetônico e histórico da Fundação podem ser obtidas em dois recentes lançamentos da Editora Fiocruz: Um lugar para a ciência: a formação do campus de Manguinhos e Caminhos da arquitetura em Manguinhos. |