Bioética - Aspectos éticos de estudos envolvendo células-tronco
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Bioética

Aspectos éticos de estudos envolvendo células-tronco

11/12/2004
Em meio à discussão ética, a pesquisa avança em todo o mundo

Há tempos a comunidade científica internacional discute o potencial para a medicina, os riscos e os aspectos éticos de estudos envolvendo células-tronco. Os que defendem a necessidade de pesquisas com células-tronco embrionárias garantem que elas podem representar grande esperança para o tratamento de doenças como mal de Parkinson e diabetes. Entre os opositores ao uso de embriões em pesquisas, há os que apontam as células-tronco adultas como uma alternativa viável e eticamente razoável para os mesmos fins. Ambas as vertentes já deram resultados promissores, mas ainda há muito a ser feito para que os testes feitos com cobaias de laboratório possam gerar novos tratamentos em humanos.

Entre os mais recentes resultados, uma equipe da Universidade de Toronto, do Canadá, liderada por Duncan Stewart, apresentou no ano passado, na Sessão Científica da American Heart Association, um estudo sobre a restauração da circulação sanguínea em ratos afetados por hipertensão arterial pulmonar, a partir de células-tronco da medula óssea transplantadas para vasos sanguíneos pulmonares.

Nesse mesmo evento, pesquisadores alemães da Universidade de Dusseldorf apresentaram os primeiros resultados de transplantes de células-tronco retiradas de medula óssea em seres humanos com problemas cardíacos. Essa pesquisa, realizada com 40 pacientes - 20 que se submeteram ao transplante e 20 de um grupo de controle -, indicou que três meses após o tratamento a partir de células-tronco, a fração do sangue bombeado pelo coração dos pacientes passou de 55% para 65%, e o percentual de tecido cardíaco danificado passou em média de 33% para 14%.

"O grupo alemão trabalhou com pacientes que tinham infarto agudo. A fração de ejeção [de sangue] dos pacientes alemães, pelo fato de serem pacientes de infarto agudo, é em geral maior que a de pacientes com infarto crônico", comenta o pesquisador Antonio Carlos Campos de Carvalho, do Laboratório de Cardiologia Celular e Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "Mas isto não diminui de maneira nenhuma a importância dos resultados do grupo alemão. Os resultados obtidos na Alemanha mostram que se pode aplicar as terapias ao infarto agudo, e assim, evitar que os pacientes evoluam para um quadro de insuficiência cardíaca muito comum após o infarto", acredita.

Outro estudo que também já deu resultados com um grupo restrito de humanos que se submeteram a transplantes foi realizado pela equipe de Jonathan Lakey, da Universidade de Alberta, no Canadá, com pacientes com diabetes do tipo 1. Essa doença é causada pela redução de disponibilidade ou perda de sensibilidade à insulina, hormônio que regula os níveis de açúcar no sangue e é secretado pelo pâncreas. A partir de células pancreáticas de órgãos doados, os pesquisadores induziram a maturação in vitro de células-tronco de ilhotas, que são as precursoras das células produtoras de insulina. Dos 38 pacientes que se submeteram ao transplante, após um ano, 33 estavam livres da terapia com insulina.

As aplicações das pesquisas com células-tronco, no entanto, ainda são restritas em relação a seres humanos, e além disso os tratamentos já disponíveis são caros e nem sempre dão resultado positivo. Em novembro de 2003, a Associated Press noticiou a morte de um garoto de quatro anos de idade na Califórnia, nos Estados Unidos, uma semana após ele ter recebido o transplante de células-tronco retiradas do cordão umbilical de um recém-nascido. O garoto sofria de síndrome de Sanfilippo, uma doença rara que causa em crianças a perda gradativa da capacidade de falar e andar. Seus pais conseguiram levantar através de doações e do seu seguro de saúde cerca de US$ 1 milhão para financiar as pesquisas no Duke University Medical Center. Os pesquisadores dessa instituição afirmam que já haviam feito esse mesmo transplante em 11 crianças com síndrome de Sanfilippo nos últimos três anos, e seis delas, segundo eles, passam bem.

Os pesquisadores, em geral, são cautelosos quanto à previsão de quando os avanços na pesquisa vão poder ser aplicados com segurança em tratamentos de humanos. "Apesar dos grandes avanços atuais, o campo de células-tronco ainda está em estágio inicial", comenta Ping Wu, da Universidade do Texas, nos Estados Unidos. "Nós esperamos que o uso de células-tronco venha a se tornar uma das melhores formas de cura de certas doenças, mas eu penso que ninguém sabe ao certo quando isso pode acontecer", opina Jong-Hoon Kim, do National Institute of Neurological Disorders and Stroke, também dos Estados Unidos. "Uma coisa que eu posso supor é que alguns cientistas podem usar essa tecnologia em testes clínicos em um futuro próximo", conclui Kim.

Entre as pesquisas que já haviam dado resultado em anos anteriores, em 2002, Jong-Hoon Kim e sua equipe publicaram o resultado de um estudo no qual geraram uma classe específica de neurônios a partir da cultura in vitro de células-tronco embrionárias. Os neurônios gerados foram usados para reverter sintomas de mal de Parkinson em ratos. Na ocasião, os pesquisadores defenderam que as células-tronco embrionárias seriam capazes de gerar tipos de células especializadas, que por sua vez, seriam terapeuticamente eficazes em animais.

"Células-tronco de embriões humanos, no entanto, são diferentes de células-tronco embrionárias de ratos no que diz respeito à morfologia, métodos de cultura e o seu comportamento", disse Kim à ComCiência por e-mail. "Além do mais, existem algumas diferenças mesmo entre linhas de células embrionárias humanas, dependendo de sua origem", acrescentou. "Apesar desses problemas, há vários cientistas que estão trabalhando com células-tronco embrionárias humanas em todo o mundo e eles estão conseguindo muitos resultados positivos para resolvê-los", afirmou.

Outra equipe do mesmo instituto de pesquisa norte-americano, liderada por Eva Mezey, apresentou em 2003 a hipótese de que alguns tipos de células da medula óssea - que os pesquisadores supõem sejam células-tronco - poderiam entrar no cérebro humano e produzir novos neurônios. Essa hipótese foi levantada a partir de um estudo em que os pesquisadores examinaram os tecidos do cérebro retirados na autópsia de quatro pacientes que haviam recebido transplante de medula óssea e sobrevivido por até nove meses. Mezey e seus colaboradores supõem que a irradiação ou algum outro tratamento recebido pelos pacientes pode ter facilitado a entrada das células no cérebro. Os pesquisadores verificaram que nos dois pacientes mais jovens estavam as áreas do cérebro com o maior número de neurônios derivados da medula. Mas eles não conseguiram ainda determinar que fatores de crescimento ou outros sinais induzem as células da medula óssea a entrar no cérebro e produzir neurônios.

Na Universidade do Texas, nos Estados Unidos, a equipe de Ping Wu também já havia apresentado em 2002 resultados de experimentos com células-tronco embrionárias isoladas do sistema nervoso central e transplantadas em ratos adultos, que apontaram a possibilidade de tratamentos futuros para doenças neurodegenerativas. Segundo os pesquisadores, o maior obstáculo, até então, é que a maioria das células-tronco isoladas do sistema nervoso central de adultos ou embriões não se diferenciavam em neurônios quando transplantadas em áreas não-neurogênicas do sistema nervoso central de um adulto.

O laboratório de Wu desenvolveu um procedimento in vitro que induz as células-tronco neurais humanas a iniciar sua diferenciação até um certo estágio. "Elas podem transformar-se em tipos específicos de neurônios, de acordo com o local onde são transplantadas", explica Wu. "Por exemplo, elas se tornam neurônios motores quando transplantadas para a medula espinhal", completa. Antes de iniciar os testes com humanos, os pesquisadores ainda estudam se os neurônios gerados são capazes de liberar neurotransmissores e se não há formação de tumor a partir das células-tronco embrionárias implantadas nas cobaias.

Outro estudo com células-tronco embrionárias que gerou resultados promissores em 2002 foi realizado pela equipe liderada por Clare Blackburn, da Universidade de Edimbugo, no Reino Unido. Os pesquisadores implantaram um tipo específico de célula-tronco epitelial em ratos com deficiência na produção de glóbulos brancos, o que resultou na recuperação dos níveis das células de defesa desses animais. Essa pesquisa gerou perspectivas para o desenvolvimento de novos tratamentos para problemas no sistema imunológico e melhora nos resultados de transplantes em pacientes com leucemia. Mas ainda é preciso estabelecer se essa célula específica pode ser encontrada em humanos e ser usada para regenerar a produção de glóbulos brancos.

Na defesa de estudos como esses, os pesquisadores Stuart H. Orkin e Sean J. Morrison, do Howard Hughes Medical Institute, dos Estados Unidos, em artigo publicado na revista Nature em 2002, observam que as células-tronco coletadas de tecidos de adultos são mais restritas que as embrionárias em seu potencial de desenvolvimento e capacidade de proliferação. Eles apontam como exemplo as células-tronco hematopoiéticas - ligadas à formação e desenvolvimento de células sanguíneas - que formam todo tipo de célula sanguínea in vivo, mas proliferam pouco em cultura in vitro. "Estudos recentes têm levantado a possibilidade de que algumas células-tronco adultas podem restaurar células fora do seu tecido de origem. No entanto, esses resultados são controversos e têm se demonstrado em geral de difícil reprodução", afirmam.

É o que aconteceu, durante um bom tempo, em relação às pesquisas que tentavam diferenciar células do músculo cardíaco em cultura in vitro. Em 1999, Shinji Makino e sua equipe da Universidade de Keio, no Japão, relataram no Journal of Clinical Investigation ter conseguido essa diferenciação a partir de células-tronco hematopoiéticas. Antonio de Carvalho, da UFRJ, explica que a capacidade das células-tronco hematopoiéticas e neurais de gerar diversos tipos de células - tecnicamente chamada de pluripotencialidade - permitia supor que essas células, se cultivadas em ambiente adequado, poderiam originar células cardíacas. "Vários laboratórios, inclusive o da UFRJ, tentam desde então, sem sucesso, reproduzir os resultados da equipe de Makino", conta.

"O sistema hematopoiético, porém, não é a única fonte de células-tronco para os transplantes cardíacos", emenda. O laboratório da UFRJ, que iniciou em 2000 um projeto de pesquisa com o objetivo de transplantar células-tronco para corações submetidos a infarto experimental, já conseguiu - ao lado de muitos outros laboratórios no mundo - isolar e cultivar por longo período células de medula óssea de ratos, induzindo-as a se diferenciar em células musculares cardíacas. O primeiro relato que descreve a diferenciação de células-tronco da medula óssea em músculos cardíacos, em camundongos infartados, foi publicado na revista Nature em abril de 2001, pela equipe de Donald Orlic, da Faculdade de Medicina de Nova York.

Apesar de ser um campo de pesquisa ainda em estágio inicial, como diz Wu, e não ser possível precisar em quanto tempo trará resultados em tratamentos de humanos, como afirma Kim, as pesquisas com células-tronco continuam avançando a cada ano, e cada nova descoberta impulsiona novas investigações em laboratórios de todo o mundo. Independente do avanço da pesquisa, o debate ético continua. E vice-versa.

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