Pediatria/Criança - Toxoplasmose: Perigo que ronda os bebês
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Pediatria/Criança

Toxoplasmose: Perigo que ronda os bebês

13/06/2003

 

Conceição Lemes

Perder um filho aniquila. Denise Linhares, 38 anos, dentista em Campos, norte fluminense, conhece essa dor. Em 1996, com uma bela menina de 10 anos, casamento feliz e sucesso na profissão, engravidou. Imediatamente iniciou
o pré-natal. Fez todos os exames. Nenhum positivo. Quinze dias depois teve febre alta. Os médicos não descobriram o motivo, e a gravidez foi até o fim. Linda, aparentemente perfeita, nasceu Maria Paula. No mesmo dia, foi para a UTI. Sobreviveu um mês. Investigação aprofundada revelou a causa: toxoplasmose congênita, que possivelmente seria evitável se os médicos tivessem feito o diagnóstico correto do febrão de Denise. “Apesar de minha filha ter vivido tão pouco, sua perda me dói muito”, engole as lágrimas.

Não é a única. Estima-se que cerca de 8 mil bebês brasileiros nascem por ano com toxoplasmose transmitida via placenta – a chamada toxoplasmose congênita. Muitos ainda são abortados. Por desinformação ou negligência, parte da culpa é dos próprios obstetras. “Em geral, não fazem direito nem a prevenção nem o diagnóstico na gravidez”, denuncia à no. a também obstetra Denise Pedreira, com tese de mestrado em toxoplasmose congênita pela Faculdade de Medicina da USP e especialista em Medicina Fetal.

Explica-se. A toxoplasmose congênita – atenção: não tem vacina! - é evitável com medidas alimentares e de higiene e a repetição do teste sorológico ao longo da gestação. Porém, de rotina, os obstetras solicitam o exame apenas no início da gravidez; depois, não mais. Uma das razões para a conduta errada é não terem contato no consultório com as seqüelas graves da doença, como o retardo mental e a cegueira progressiva. É que, na maioria, esse quadro só se manifesta com 1, 2 anos de idade.

A cegueira, isoladamente, pode às vezes aparecer aos 12, 13 anos e até aos 30, 40. Para complicar, meses após o nascimento, não dá mais para saber pelo exame de sangue se a infecção é congênita ou não, reforçando o equívoco de obstetras de que a toxoplasmose congênita não é importante. Resultado: 90% dos casos não são diagnosticados. O professor Mário Camargo, do Instituto de Medicina Tropical da USP e autoridade mundial em toxoplasmose, endossa a denúncia e adverte: “Nas gestantes negativas, é obrigatório repetir a sorologia durante o pré-natal. Do contrário, pode-se tirar de seus bebês a chance de uma vida normal”.

Bebês em risco

Freqüente no mundo inteiro, o protozoário Toxoplasma gondii é o causador da toxoplasmose. Na Inglaterra, 21% dos adultos são positivos para o parasita. Nos Estados Unidos, de 10% a 50%. Na capital da França, Paris, a positividade chega 72%. No Brasil, de 40% a 90%, dependendo da região. A contaminação se dá ao contato com fezes de gatos (eles e os leões são os grandes reservatórios do parasita na forma infectante), terra, ingestão de verduras frescas ou água contaminados. Também ao consumir alimentos de origem animal com cistos do parasita. Na lista de risco: carnes cruas ou malcozidas de frango, carneiro, porco e boi; leite não pasteurizado, especialmente de cabra; ovos crus ou mal-cozidos.

“Na pessoa com as defesas do organismo em ordem, a toxoplasmose é geralmente benigna”, explica o professor Mário Camargo. Lembra gripe ou resfriado: dá e passa. Os parasitas são prontamente atacados pelo sistema imunológico, ficando aprisionados em diferentes tecidos, já que o organismo não consegue eliminá-los em definitivo. A infecção torna-se, então, crônica ou latente.

No feto, é completamente diferente. O bebê desenvolve a toxoplasmose congênita, porque a contaminação ocorre numa fase em que o seu sistema imunológico não funciona bem. “Corre risco o bebê cuja mãe nunca teve contato com o Toxoplasma gondii e o adquire pela primeira vez na gestação”, alerta a médica Denise Pedreira. Ao cair na corrente sangüínea materna, os toxoplasmas podem atravessar a placenta e alcançar a circulação do feto,
acarretando a infecção congênita. Nas seis primeiras semanas, o risco é de 1% a 2%, pois a placenta é pouco vascularizada. Até a 17ª semana sobe para cerca de 15%. Da 17ª à 25ª atinge aproximadamente 50%. Da 25ª semana até o final da gravidez a chance sobe para 80%.

Retardo mental e cegueira

A gravidade, porém, é inversamente proporcional ao tempo da gestação e à facilidade da transmissão. Assim, apesar de facilmente transmissível no último trimestre, em geral não causa danos ao feto, cuja capacidade de defesa já é bem maior. Em compensação, quando a mãe infecta-se no primeiro trimestre e passa o toxoplasma para o feto, o estrago é imenso. As seqüelas são geralmente graves, podendo levar a aborto, em especial no primeiro mês.

“Até a 17ª semana é desastroso”, avisa Denise Pedreira. Nesses casos, o bebê já pode apresentar sinais ao nascer: hipotonia (é molinho, não mama bem), fígado e baço aumentados e pintinhas vermelhas por sangramento em todo o corpo. Também lesão ocular que pode afetar os dois olhos (retinocoroidite bilateral), convulsões, calcificações intracanianas e microcefalia/hidrocefalia, revelando grande destruição do tecido cerebral.

Noventa por cento, porém, dos bebês com toxoplasmose congênita têm carinha absolutamente normal, e apresentarão as seqüelas neurosopsicomotoras e oculares ao longo do tempo. Primeiro, a criança não firma cabeça. Depois, não senta. Com a evolução, pode apresentar retardo mental e cegueira progressiva. Nos casos menos graves, unicamente lesão ocular nas duas vistas. Ela pode ser detectada no início da idade escolar (a criança não consegue enxergar direito), na adolescência e até na vida adulta, quando a pessoa começa a ter borramento de visão. O médico Luiz Vicente Rizzo, chefe do Laboratório de Imunologia Clínica do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e do Hospital das Clínicas de São Paulo, alerta: “Ainda que tratada, a toxoplasmose ocular pode levar progressivamente à cegueira”.

Teste indispensável

Por isso, os especialistas consultados por no. insistem: já no início do pré-natal, todas as gestantes devem fazer no sangue a pesquisa de anticorpos IgG e IgM (é assim que o médico solicita) contra o Toxoplasma gondii. O anticorpo IgM aparece no sangue logo no início da infecção. Na seqüência, o IgG, o marcador de exposição. É também com esses termos que os laboratórios divulgam os resultados dos exames, quase sempre abertos pelas próprias gestantes. Por isso, atenção aos significados dos possíveis resultados:

IgM negativo e IgG positivo - indica que a gestante teve contato prévio com o toxoplasma, mas é considerada imunizada. A recomendação atual é tranqüilizar-se.

IgM e IgG positivos - pode representar infecção recente, mas não obrigatoriamente. Como os exames atuais são muito sensíveis, “pegam” o retrato de até dois anos antes. Por isso, nesses casos, o ideal é fazer o teste de avidez, que revela se a infecção é nova ou antiga, ou seja, se há risco ou não de contaminação para o bebê. Pesquisa feita em São Paulo com 2.475 gestantes e publicada no Journal of Ultrasound in Obstetrics and Gynecology revela: 97,6% das grávidas com IgM e IgG positivos têm alta avidez. Interpretação: a infecção ocorreu há mais de três meses, o que significa antes da gravidez, já que o teste foi no início do pré-natal. Essa gestante, portanto, pode ficar tranqüila. Evitam-se, assim, tratamento e amniocentese (punção de líquido amniótico) desnecessários, além da enorme ansiedade durante toda a gestação.

IgM e IgG negativos - Demonstra que a gestante nunca teve contato com toxoplasma. Portanto, é a que tem risco de infectar-se e transmitir ao bebê. Em São Paulo, 40% das gestantes de baixo nível socio-econômico estão nessa situação. Entre as de alto poder aquisitivo, 70% correm o risco.

Gestantes negativas, cuidado!

A precaução imediata é evitar a contaminação, adotando medidas higiênico-dietéticas até o final gestação. Outro cuidado obrigatório: repetição do teste, já que a toxoplasmose materna não revela sintomas em mais de 80% dos casos. O professor Mário Camargo e o médico Luiz Vicente Rizzo defendem a repetição mensal, como é feito na França. A médica Denise Pedreira recomenda com 20 e 30 semanas, algo próximo ao recomendado na Áustria. Apesar da divergência quanto à periodicidade, os três concordam: a repetição é a única forma de fazer o diagnóstico precoce da infecção materna e tratar, reduzindo o risco de transmitir o parasita para o bebê.

A economista Aviva Apter tem certeza. Grávida do terceiro filho, essa paulistana de 29 anos descobriu, ao repetir o teste no sétimo mês, que tinha se infectado pelo toxoplasma. Imediatamente, começou a tomar antibióticos "para o bichinho não passar para o bebê", e fez amniocentese. Felizmente, no líquido amniótico examinado, não havia parasitas. Mas alívio, mesmo, só após o nascimento da filhota Bruna, com a saúde perfeita. “Por isso, se o obstetra esquecer, pressione-o para pedir a repetição do teste”, defende Aviva. Ou peça você mesma no laboratório. Só não deixe para tomar essa atitude aos oito, nove meses de gravidez; aí, pode ser tarde demais. Faça a prevenção certa!

Fonte: http://www.no.com.br

 

 


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