|
Dois homens e um menino que poderiam facilmente passar despercebidos na rua entraram para a História da Humanidade. Para a primeira linha do primeiro capítulo
Eles viveram há cerca de 160 mil anos e seus crânios são os mais antigos e bem preservados fósseis de seres humanos modernos já descobertos.
Foram achados na tórrida região de Afar, na Etiópia, de onde já emergiram outras espécies de hominídeos. Como nós, são Homo sapiens.
Porém, por terem um constituição física que os cientistas consideram um pouco mais arcaica, ganharam uma classificação à parte, uma subespécie: Homo sapiens idaltu - palavra que em língua afar significa 'o mais velho'.
Os crânios apresentam uma visão um pouco mais nítida da nebulosa aurora da Humanidade - um período em que sobram teorias e faltam fósseis que as comprovem. É a primeira vez que podemos ver o rosto de ancestrais diretos do homem.
Os fósseis do idaltu preenchem parte considerável desse abismo evolutivo. Sua contribuição mais importante é reforçar a teoria de que o homem surgiu na África.
Eva genética encontra o seu Adão fóssil
Eles são também a prova que geneticistas procuravam há duas décadas para a Eva genética.
Segundo essa teoria, baseada em análises do DNA de milhares de pessoas de todo o mundo, a Humanidade descende de uma mulher que viveu na África, há cerca de 150 mil anos.
Com entre 154 mil e 160 mil anos, o homem idaltu é o Adão fóssil que a Eva genética procurava.
Assunto de capa desta semana da 'Nature', uma das mais importantes revistas científicas do mundo, a descoberta foi realizada por uma equipe internacional liderada pelo americano Tim White, da Universidade da Califórnia, e um dos mais experientes e bem-sucedidos caçadores de fósseis humanos em atividade.
White ficou surpreso com a boa forma desse irmão mais velho da Humanidade.
'Como esses crânios podemos ver como eram nossos ancestrais diretos. Pegue o homem mais forte de qualquer população robusta atual, adicione alguns hormônios e você terá o idaltu . Ele era realmente forte e grande', disse White.
Os crânios foram achados em 1997, num vilarejo chamado Herto, um lugar miserável, árido e extremamente quente, habitado durante somente parte do ano devido ao clima hostil.
Ruim para os pastores etíopes, Herto - bem como o resto do Afar - é um paraíso para os paleantropólogos (especialistas em espécies ancestrais humanas).
Os dois homens deveriam ter entre 20 e 30 anos na época de sua morte. O menino, cujo crânio era o que estava em pior estado, fragmentado em 200 pedaços, teria 6 ou 7 anos de idade.
White e seu grupo (45 cientistas de 14 países) descobriram ainda ossos de outras sete pessoas, mais de 600 artefatos de pedra e restos da fauna que viveu na mesma época que o homem de Herto.
Foram precisos mais de três anos de testes somente para a datação e mais de dois anos para análise.
O Homo sapiens idaltu é um elo entre nossa própria espécie e outras espécies mais primitivas do gênero humano.
Sua descoberta afasta nosso parentesco com o homem de neandertal (Homo neanderthalensis), agora mais do que nunca visto como um primo europeu extinto do qual o ser humano moderno não herdou qualquer vestígio.
'Até agora não tínhamos fósseis intermediários entre fósseis pré-humanos e o homem moderno, num período de 100 mil a 300 mil anos atrás. O homem de Herto veio preencher essa lacuna. Ele é quase como nós e claramente não-neandertal', afirmou White.
'Na verdade, sequer Herto é tão diferente assim. Podemos considerá-lo o mais antigo registro do homem moderno', observou o inglês Chris Stringer, um dos maiores especialistas em evolução humana do mundo e que fez a revisão do estudo para a 'Nature'.
Os instrumentos de pedra - principalmente machados e cortadores - e ossos de hipopótamos quebrados até a medula indicam que esses homens já tinham desenvolvido meios mais eficientes de obter alimentos.
'Não há dúvida que essa gente gostava de comer hipopótamos. O que não podemos dizer é se eles os caçavam ou se eram apenas carniceiros', explicou Yonas Beyene, integrante da equipe de White.
Outro sinal de que o povo de Herto também já possuía características essencialmente humanas são marcas de que os crânios foram descarnados, gravados e polidos. Segundo o cientista etíope Berhane Asfaw, que participou da descoberta, essas marcas foram deixadas por rituais fúnebres.
'Cuidar dos mortos é parte do que nos faz humanos. Rituais assim já foram vistos em outras culturas. Não sabemos, porém, se praticavam canibalismo', disse Asfaw.
Etiópia, um lar ancestral
O Homo sapiens idaltu não foi o primeiro humano a deixar marcas no Afar, na Etiópia.
Há milhões de anos, ancestrais ainda mais primitivos, muito mais parecidos com macacos do que com homens, já vagavam por lá. Há quase seis milhões de anos o Afar foi o lar do Ardipithecus ramidus.
O Australopithecus garhi viveu há 2,5 milhões de anos e foi, supostamente, o primeiro hominídeo capaz de cortar carne para comer. Na região foi achado ainda um fóssil do Homo erectus , fazendo do Afar um dos berços da Humanidade.
Se hoje Herto e a região que o cerca são desolados, lugares onde é muito difícil viver, há 160 mil anos o Afar fervilhava de vida.
Na época boa parte da Europa, habitada pelo homem de neandertal, estava enterrada pelo gelo.
Mas no Afar a temperatura mais quente e úmida permitia a existência de um grande lago de água doce, rico em peixes.
Nas margens desse lago viviam crocodilos e hipopótamos. Na planície, havia antílopes. Essa era a terra do Homo sapiens idaltu . (O Globo, 12/6) |