FUNÇÕES do baço. Rio de Janeiro: Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro,
1892. 82p. (These Inaugural).
THESE
DISSERTAÇÃO
CADEIRA DE PHYSIOLCGIA THEORICA E EXPERIMENTAL
FUNCÇÕES DO BAÇO
PROPOSIÇÕES
TRES SOBRE CADA UMA DAS CADEIRAS DA FACULDADE
THESE
APRESENTADA A' FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO
Em 15 de Dezembro de 1891
E PERANTE ELLA DEFENDIDA E APPROVADA PLENAMENTE
Em 9 de Janeiro de 1892
POR
VITAL BRAZIL MINEIRO DA CAMPANHA
Doutor em sciencias medico-cirurgicas pela mesma Faculdade
Ex-ajudante de preparador da cadeira de physiologia
Natural de Minas-Geraes e filho legitimo de
JOSÉ MANUEL DOS SANTOS PEREIRA JUNIOR E D. MARIANNA
CAROLINA DOS SANTOS PEREIRA
CAROLINA DOS SANTOS PEREIRA
RIO DE JANEIRO
TYPOGRAPHIA CARIOCA - R. TH. OTTONI 143
ESCRIPTORIO DO JORNAL DO AGRICULTOR
1892
Escolhendo para ponto de these as
funcções do baço, assumpto que, no estado
actual da sciencia, ainda se acha cercado de grande obscuridade, não tivemos
em vista apresentar o resultado de nossa propria experimentação, mas estudar
de um modo synthetico os importantes trabalhos produzidos sobre tão
interessante questão.
As funcções do baço têm merecido desde a mais remota antiguidade, a attenção
dos medicos: a principio, hypotheses as mais absurdas foram formuladas para
explicar o funccionamento deste orgão, que á mercê da imaginação dos homens
da sciencia, desempenhou os mais variados papeis, e só em uma epocha
relativamente recente os progressos da physiologia e as victorias alcançadas
pelo methodo experimental vieram offerecer elementos mais solidos para o
estabelecimento de theorias sobre o assumpto.
Neste trabalho só trataremos das theorias baseadas em factos experimentaes
procurando deduzir as verdades scientificas, que devem ser aceitas para a
solução do problema de que nos occupamos.
Com o unico fim de nos orientar, em relação a certos pontos controvertidos,
tentamos algumas experiencias, das quaes apenas consignamos a que nos
pareceu concludente e isenta de objecção.
INTRODUCÇÃO
Estudo Anatomo-Histologico
BAÇO é uma glandula vascular sanguinea, cuja existencia é constante em quasi
todos os vertebrados, excepção feita de algumas especies de peixes.
Nos invertebrados não é encontrado.
No homem acha-se situado profundamente, no hypochondro esquerdo, entre a
curvatura do estomago e o diaphragma.
O peritoneo revestindo a sua superficie e passando d'esta ás partes visinhas,
fornece-lhe pregas e ligamentos, que servem para fixal-o.
Estas pregas e ligamentos são: o
epiplon gastro-esplenico, o ligamento phrenoesplenico,
o
ligamento pancreato-esplenico e uma especie de sacco seroso que
recebe a extremidade inferior do baço.
O epiplon gastro-esplenico é tanto mais longo quanto mais retrahido está o
estomago e inversamente, tanto mais curto, quanto mais dilatado se acha o
estomago.
O ligamento phreno-esplenico é uma pequena dobra do peritoneo que une a
parte superior da face interna do baço á parte mais elevada do pilar esquerdo do
diaphragma.
O ligamento pancreato-esplenico une a extremidade inferior da face interna do
baço á cauda do pancreas.
O pequeno sacco seroso, que recebe a extremidade inferior do baço, é formado
por duas laminas soldadas superiormente e que se afastam na parte inferior. O
bordo superior deste sacco seroso é concavo e prende-se, por sua extremidade
esquerda, ao diaphragma, continuando-se, por sua extremidade direita, com o
mesocolon transverso
.
De todas estas dobras peritoneaes, a que concorre mais efficazmente para
manter o baço em sua posição, é o ligamento phreno-esplenico, que tem por fim
immobilisar a extremidade superior da viscera e oppôr-se ao seu deslocamento
no sentido vertical. As dobras pancreato-esplenicas se inserem em orgãos muito
moveis e por isso pouco contribuem para fixal-o em sua posição.
O baço é um orgão impar. Existe, porém, na sciencia algumas observações, que
tendem a provar que este orgão póde faltar e outras mais numerosas e
positivas, que attestam que póde haver baços supplementares em numero
variavel. Baços duplos são relativamente frequentes; Sappey, Duverney, Pataris,
Baillie e Cruveilhier tiveram occasião de observar maior numero, e Otto
observou um caso em que poude contar 23.
VOLUME - O volume do baço é extraordinariamente variavel.
Os anatomistas, que o tem medido em um grande numero de individuos,
estabeleceram as seguintes médias para as 3 dimensões: comprimento, 12
centimetros, largura 8 e espessura 3.
Em alguns individuos este orgão mostra-se extremamente reduzido de volume.
O mais frequente, porém, é elle hypertrophiar-se.
O volume desta viscera varia, não só segundo o individuo, mas tambem
segundo o sexo, o estado de plenitude da veia porta, o estado de saude ou de
molestia.
PESO -O peso do baço é directamente proporcional ao seu volume. E' como
este, extremamente variavel e nas mesmas condições. Os anatomistas
estabelecem 195 grammas para o seu peso medio. Sappey, calculando em 30
grammas o sangue que o baço perde, qunado é tirado do cadaver para ser
pesado, affirma que um baço normal, no estado physiologico, deve pesar 225
grammas.
Gray publicou um grande numero de observações sobre o peso do baço do
homem, nas differentes epochas da vida e verificou que o crescimento deste
orgão torna-se muito rapido no 6º mez da vida intra-uterina. No recém-nascido, o
seu peso é cerca de 1/350 do peso total do corpo e esta proporção conserva-se
intacta até á idade adulta. Na velhice, o peso absoluto e o peso relativo deste
orgão diminuem e na velhice extrema, este ultimo não é senão cerca de 1/700
do peso total do corpo, emquanto que no adulto essa relação oscilla entre 1/320
e 1/400.
COR. -Em um animal vivo, o baço apresenta uma côr de um vermelho
carregado. Depois da morte apresenta geralmente uma coloração vermelha
livida, devida talvez ao accumulo de sangue venoso em suas malhas. A polpa
esplenica tem uma côr especial que os autores comparam com muita
propriedade a da borra de vinho.
CONSISTENCIA - O baço offerece um parenchyma nimiamente molle. Póde-se
mesmo distinguir de todos os outros tecidos pela facildade com que deixa-se
despedaçar, esmagar e transformar em uma polpa. D'ahi a frequencia com que
se notam collecções sanguineas em sua espessura, em consequencia de
quedas, esforços, etc.
FORMA E RELAÇÕES - A configuração que apresenta o baço é pouco regular.
Em geral elle é alongado de cima para baixo e achatado de fóra para dentro,
podendo-se comparar a sua fórma a de um segmento de ellipsoide cortado
segundo o seu grande eixo.
Podemos, pois, distinguir no baço duas faces, dois bordos e duas extremidades.
A face externa é convexa e corresponde á concavidade do diaphragma, que a
separa da parte mais inferior do pulmão esquerdo.
A face interna é quasi plana ou ligeiramente concava, parecendo algumas
vezes, formada pela reunião de dois planos em angulo obtuso.
Esta face é dividida em duas partes, uma anterior um pouco maior e outra
posterior, por uma serie de orificios que constituem o hilo do baço e servem para
dar passagem aos vasos e nervos que vão se destribuir na espessura desse
orgão.
Dos bordos, o anterior é convexo e corresponde á grande extremidade do
estomago; o posterior é muito mais espesso, arredondado transversalmente,
quasi rectilineo no sentido vertical e acha-se em relação com a parte superior do
rim esquerdo e com a capsula supra-renal correspondente.
Vêm-se algumas vezes, sobre um dos bordos e mais frequentemente sobre o
anterior, scisuras de profundidade variavel, ora perpendiculares, ora obliquas á
direcção desses bordos, podendo se estender sobre uma das faces ou sobre
ambas. Estas scisuras são consideradas pelos anatomistas como vestigios de
baços multiplos.
A extremidade superior do baço, é mais volumosa e dahi provém o nome de
cabeça
, que lhe davam os antigos. Esta extremidade acha-se em relação com o
diaphragma.
A extremidade inferior ou cauda do baço é recebida em um pequeno sacco
seroso, preso á parte lateral esquerda do diaphragma.
Estructura
Das glandulas vasculares sanguineas é o baço a que apresenta estructura mais
complicada.
Nós estudaremos: 1º, as suas duas membranas; 2º, a sua snbstancia propria ou
polpa esplenica
; 3º, os corpusculos o glomerulos de Malpighi; 4º, emfim, os seus
vasos e nervos.
MEMBRANAS DO BAÇO. - Destas membranas, uma é serosa, simples
dependencia do peritoneo que reveste este orgão, como todas as outras
visceras da cavidade abdominal; a outra é uma membrana propria, fibrosa e,
não só cobre a sua perepheria, como penetra na sua espessura: é para o baço o
que
a capsula de Glisson é para o figado.
A tunica serosa ou peritoneal é formada pelo desdobramento do epiplon gastroesplenico
em duas folhas, que chegadas ao hilo do baço separam-se seguindo
um trajecto opposto: a anterior reflectindo-se em angulo recto, forra a parte
anterior da face interna do baço, seu bordo anterior, sua face externa e seu
bordo posterior e se dirige para o pilar esquerdo do diaphragma, sobre o qual
elle continúa-se com o peritoneo que reveste o hypochondro esquerdo; a
posterior reveste a parte posterior da face interna e colla-se depois à porção da
folha anterior, que se applica ao pilar esquerdo do diaphragma, constituindo
assim uma prega que prende o baço á parede posterior do abdomen.
A tunica propria ou fibrosa cerca completamente o baço.
E' mais fina do que a precedente, de uma côr ligeiramente opalina e semitransparente
e adherente por sua face externa á tunica serosa e pela interna ás
partes do orgão que ella reveste.
Ao penetrarem no baço os vasos são acompanhados pela tunica fibrosa, que, á
maneira de uma bainha, segue-os em as suas divisões, sendo delles separada
apenas por um tecido cellular frouxo. O conjuncto destas bainhas constitue a
capsula de Malpighi
.
Innumeraveis prolongamentos se destacam destas bainhas e de toda superficie
interna da tunica fibrosa, os quaes depois de curto trajecto se dividem e se
crusam, dividindo a cavidade circumscripta pelos envoltorios do baço em
aureolas descriptas por Malpighi sob o nome de cellulas ou trabeculas.
As trabeculas ou cellulas circumscriptas por estes prolongamentos não revestem
uma fórma determinada; são muito irregulares, de dimensões desiguaes e
communicam largamente entre si, de sorte que um liquido qualquer injectado em
uma destas cellulas póde passar successivamente a todas as outras.
A tunica fibrosa, assim como a capsula de Malpighi e todos os prolongamentos
que contribuem para formar o trama reticulado do baço, compoem-se fibras
connectivas e de algumas fibras elasticas muito delicadas.
Além destas duas ordens de fibras, o trama fibroso do baço comprehende
tambem fibras musculares lisas, que explicam a contractilidade, de que é dotado
este orgão.
POLPA ESPLENICA. - A polpa esplenica ou substancia propria do baço occupa
todas as trabeculas circumscriptas pelos prolongamentos da tunica fibrosa e
constitue com os glomerulos o elemento essencial da viscera. Sua côr é
constantemente vermelha, variando o matiz do vermelho carregado ao vermelho
pallido. Sua consistencia é extremamente molle, tornando-se depois da morte
diffluente ou quasi liquida.
Em cada espaço trabecular, a polpa esplenica é sustentada por filamentos de
uma tenuidade extrema, os quaes se entrecrusam e se unem de maneira a
formar uma rêde sómente visivel ao microscopio.
Eis o que ella apresenta em sua composição:
1.º Nucleos muito numerosos e muito evidentes, de fórma irregularmente
arredondada e de dimatro de 0,003mm a 0,004mm;
2.º Cellulas multiplicadas de 0,006mm a 0,009mm contendo um grande nucleo
cercado de um protoplasma granuloso;
3.º Cellulas maiores do que as precedentes, cujo diametro varía de 0
mm,010 a
0
mm,012, em geral extremamente pallidas e pouco numerosas, de sorte que
acham-se como que perdidas no meio das outras: estas cellulas por seu aspecto
e suas dimensões offerecem uma grande analogia com osglobulos brancos do
sangue;
4.º Globulos vermelhos, a cuja presença constante, deve a polpa esplenica a côr
que possue,
5.º Corpusculos de fórma irregular, transparentes no centro e vivamente
coloridos nos bordos que são de um vermelho escuro, de uma côr de cobre, ou
de um amarello côr de ouro. Estes corpusculos apresentam-se raramente
isolados; as mais das vezes são encontrados reunidos por pequenos grupos de
5 a 7.
Não constituem elementos de natureza particular: são globulos vermelhos do
sangue em via de decomposição.
Koelliker seguio passo a passo todas as phases desse trabalho e observou que,
quando os globulos se acham recentemente em contacto com a polpa esplenica,
conservam seus caracteres distinctivos, mas, que depois de algum tempo
começam a se deformar, tornam-se irregulares e seu contorno apresenta uma
côr mais viva: é então que se reunem por grupos. Mais tarde estes grupos se
cercam de uma membrana, os globulos parecem passar a um estado de simples
granulações pigmentares e se dissociam finalmente em uma ultima phase de
decomposição.
CORPUSCULOS DE MALPIGHI. - Os corpusculos ou glomerulos do baço foram
descobertos em 1666 por Malpighi e por isso receberam o nome deste autor.
Em certos mammiferos elles são muito manifestos; no homem, porém, são
observados mais difficilmente.
Estão situados no trajecto das ultimas divisões da arteria esplenica, ás quaes
adherem por um ponto de sua superficie. O espaço que os separa varia de 2 a 4
millimetros, de sorte que deve existir um para cada 3 millimetros cubicos. Seu
diametro mede 0
mm,3 a 0mm,4.
Apresentam uma fórma arredondada, côr de um cinzento opalino e são mais
consistentes do que a polpa esplenica.
Nos glomerulos de Malpighi distingue-se uma vesicula transparente, delgada,
perfeitamente fechada e um conteudo que se compõe: 1º de uma rêde
reticulada; 2º de capillares sanguineos; 3º de um liquido albuminoso pouco
abundante; 4º de cellulas, que não são mais do que globulos sanguineos em via
de evolução.
VASOS. - A arteria esplenica é um ramo volumoso e bastante flexuoso do tronco
cliaco, o qual depois de seguir a parte inferior e posterior do pancréas e de
fornecer alguns ramos a este orgão, ao chegar ao nivel da prega que liga o baço
a parede posterior do abdomen, divide-se em 3 ou 4 ramos volumosos que se
dirigem para o hilo do baço. Estes ramos se subdividem por sua vez, de modo
que se observa muitas vezes, na scisura deste orgão 8 ou 10 pequenos ramos
que penetram na sua espessura, seguindo o trajecto das bainhas vasculares.
Depois de ter penetrado na sua bainha vascular cada um destes pequenos
ramos segue o seu trajecto emittindo divisões de calibre differente. Os
ramusculos quando não têm mais do que 0
mm,3 ou 0mm,4, começam a se isolar
dos ramusculos venosos que os acompanham e fornecem ramificações mui
delicadas na extremidade das quaes são encontrados os corpusculos de
Malpighi.
A veia esplenica apresenta um calibre duplo do da arteria. Está situada abaixo
da arteria e atraz do pancréas que fornece-lhe uma gotteira particular crusando
sua face posterior á maneira de uma diagonal.
Na visinhança do baço a veia esplenica divide-se em varios ramos, que por sua
vez se subdividem, de tal sorte que o seu numero iguala sempre ao dos ramos
arteriaes.
Ao entrar na capsula de Malpighi cada um destes ramos venosos une-se á
arteria que lhe corresponde e aos nervos que acompanham essa arteria e
depois de percorrer em toda a extensão toda a bainha em que se acha alojada,
fornecendo numerosos ramos e anastomoses, vae terminar nas trabeculas do
baço, por uma rêde de ramificações capillares que vão ter aos glomerulos e a
polpa esplenica.
Os vasos lymphaticos do baço distinguem-se em superficiaes e profundos. Os
superficiaes são em grande numero e bastante volumosos em alguns
mammiferos. No homem, porém, a sua existencia não está perfeitamente
demonstrada.
Os lymphaticos profundos têm sido bem observados.
Elles se originam nos corpusculos de Malpighi e seguem em todo o seu trajecto
os ramos venosos, sobre os quaes se applicam. Cada veia principal é
acompanhada por um tronco lymphatico. Quando sahem do baço são em
numero de 4 ou 5 e vão lançar-se nos ganglios situados na cauda do pancréas.
NERVOS. - Os nervos do baço provém do plexo sollar e acompanham a arteria
esplenica. Em alguns mammiferos taes como o boi e o carneiro, elles
apresentam um volume mais consideravel do que no homem; em taes animaes
tem-se podido acompanhar os seus ramos até ás arteriolas, que dão inserção
aos corpusculos de Malpighi. O seu modo de terminação, porém, não é
conhecido, apesar das minuciosas pesquizas que se tem feito a respeito.
DESENVOLVIMENTO DO BAÇO. - Segundo Ch. Robin, no trigesimo oitavo dia
começam a mostrar-se os primeiros vestigios do baço, sob a fórma de cellulas
embryonarias, e segundo Meckel e Burdach esta apparição só se faz no 2º mez.
No 45º dia, este orgão mede já 1 millimetro de diametro e 2 millimetros na 10ª
semana. Na 10ª ou 11ª semana apparecem os primeiros delineamentos do seu
trama fribro-elastico, mas os corpusculos de Malpighi, só se mostram no 8º ou 9º
mez.
O baço desenvolve-se no meso-gastro posterior, apresentando, a principio,
intimas connexões com o pancréas, do qual vae separando-se pouco a pouco.
As cellulas embryonarias que entram em sua composição pertencem ao typo
dos epithelios nucleares. Algumas destas cellulas se allongam e passam ao
estado de corpos fibro-plasticos, para constituirem as trabeculas e a sua rêde
intra-trabecular; outras se anastomosam e se grupam sob um envoltorio
commum para formar os corpusculos de Malpighi.
Desde o 6º dia de incubação, nota-se no embryão da gallinha, um
espessamento blasto-dermico, atraz do pancréas, representando os primeiros
traços do baço e no 7º dia de incubação, torna-se claro o apparecimento desse
orgão.
DISSERTAÇÃO
Funcções do Baço
I.
Das ampliações e retracções do baço
E' facto perfeitamente conhecido que o baço mesmo no estado physiologico,
gosa de uma grande variabilidade de volume e de aspecto, variabilidade esta
dependente das varias condições hydrostaticas da circulação e da
contractilidade e elasticidade que lhe são proprias.
Recebendo uma irrigação sanguinea abundante, fornecida por uma arteria
calibrosa e apresentando uma distensibilidade notavel, o baço amplia-se ou
volta sobre si mesmo conforme a menor ou maior facilidade com o que sangue
escoa-se do seu interior. Este escoamento faz-se pela veia esplenica, affluente
da veia porta. Por este facto, comprehende-se desde logo, que qualquer
embaraço que haja na veia porta deve augmentar a tensão na veia esplenica,
determinando uma ampliação de volume do baço directamente proporcional ao
augmento da tensão venosa. Desde, porém, que desappareça o embaraço da
veia porta e que a tensão venosa diminua o baço, obedecendo a sua
elasticidade, diminue tambem de volume.
Multiplas são as circumstancias em que se reproduzem taes modificações de
volume. Assim durante os esforços prolongados que determinam um certo
retardamento na affluencia do sangue da veia cava inferior na auricula direita, o
augmento de tensão resultante, reflectindo-se progressivamente sobre as veias
superhepaticas, porta e esplenica, traz como consequencia ultima a ampliação
do baço.
Esta ampliação póde crescer a ponto de se tornar a causa de uma dôr tensiva.
Os individuos que fazem grandes corridas a pé accusam quasi sempre depois
de um tal excesso, uma dôr no hypochondro esquerdo, a qual corre
necessariamente por conta da tumefacção esplenica, e é para impedir essa
tumefacção e a dôr que ella causa que os andarilhos usam de uma cinta
comprimindo-lhes os hypochondros.
Beau insiste sobre o facto, já empiricamente indicado por Flammedig
Drelincourt, de individuos tendo um engorgitamento esplenico de origem
malarica ou outra qualquer, apresentarem o baço doloroso depois da marcha ou
dos exercicios ligeiros. Em taes individuos essa dôr produz-se mais
promptamente depois da ingestão de liquidos; pelo que elles fazem o menor uso
possivel das bebidas.
Na opinião de Beau os doentes podem evitar ou diminuir a tumefação dolorosa
do baço, exercendo uma certa pressão sobre os hypochondros por meio de uma
cinta.
Duverney, Lieutaud e Bordeu notaram que o baço apresenta-se retrahido,
exangue e duro nos cães mortos, logo após a ingestão de alimentos e que
quando o estomago acha-se vasio, mostra-se, pelo contrario, augmentado de
volume, molle e avermelhado.
Haller, explicando esse facto, diz que o baço apresenta-se diminuido de volume,
quando o estomago acha-se em estado de plenitude, pela compressão que esta
viscera exerce sobre elle e que no estado de vacuidade da cavidade estomacal,
a glandula esplenica achando-se livre daquella compressão, deixa-se dilatar
pela onda sanguinea, mostrando-se então mais volumosa, molle e avermelhada.
Bordeu sustenta que a falta de sangue não póde ser a causa do endurecimento
do baço e attribuindo um papel mais activo a este orgão, affirma que elle se
contrahe para que o sangue arterial vá em maior abundancia ao estomago, ao
figado e ao pancréas, justamente no periodo em que estes orgãos estão no
periodo maximo de sua actividade; passado esse periodo o baço se relaxa e
deixa-se encher, gozando então das funcções de reservatorio para o sangue
affluente.
Esta opinião foi aceita por Leuret, Lasaigne e Broussais.
Mas o modo de pensar de taes observadores não é sustentavel, porque basêa
se sobre o facto de uma relação de causa e effeito entre a digestão e a
retracção da glandula esplenica, o que absolutamente não é exacto. O baço não
se retrahe durante a actividade das funcções digestivas, nem tão pouco se
tumefaz na abstinencia; pelo contrario, a medida que a digestão vae se fazendo
e que a absorpção vae enriquecendo de materiaes nutritivos o systhema porta, o
baço vai augmentando de volume em consequencia do augmento de tensão
venosa e diminue á medida que a absorpção vae se completando; mostrando-se
inteiramente retrahido depois de algumas horas de abstinencia.
Com effeito, Dobson em 1830, fez algumas experiencias em cães e verificou que
o augmento de volume do baço, que se observa durante o periodo da digestão,
começa a ser notavel 3 horas depois da ingestão de alimentos, tem o seu
maximo na 6ª hora e diminue em seguida progressivamente até tornar-se
retrahido.
Outros experimentadores fizeram experiencias no mesmo sentido; entre elles
citaremos Bardeleben, Landis, Dittmar e H. Gray. Este ultimo determinou, no
coelho, o peso do baço nos diversos periodos da digestão, chegando ás
seguintes conclusões: 1º que o peso deste orgão augmenta muito mais depois
das refeições, attingindo ao seu maximo na 11ª ou 12ª hora depois da ingestão
de alimentos; 2º que nos coelhos bem nutridos, o baço pesa na média 6
decigrammos, ao passo que nos coelhos privados de alimentos durante muitas
horas, o seu peso médio é apenas de 2 decigrammos.
Por outras experiencias, praticadas em cavallos, o mesmo autor procurou
determinar a quantidade de sangue, contida nas grossas veias do baço nas
diversas condições de nutrição.
Em nove cavallos bem nutridos e que haviam tomado alimento de 4 a 16 horas
antes da morte, elle achou que essa quantidade de sangue variava entre 180 e
90 grammas; em outros que se achavam igualmente bem nutridos, mas cuja
ultima refeição tinha sido 24 horas antes da morte, essa quantidade era de 60
grammas; em outros ainda que tinham estado privados de alimentação durante
48 horas, elle não encontrou nos mesmos vasos mais de 40 grammas de
sangue; finalmente em outros cavallos que estavam quasi mortos de forme essa
quantidade de sangue reduzira-se a 5gr.,4, chegando mesmo em alguns a
3gr.,2.
Schonfeld, experimentando em coelhos, chegou a resultados identicos. Este
physiologista depois de haver privado de alimentação durante 12 horas os
coelhos, que tinham de ser submettidos á experiencia, ministrava-lhes
abundante nutrição e sacrificando-os em horas mais ou menos afastadas do
momento da ingestão de alimentos, verificou o seguinte: que logo após a
ingestão de alimentos o baço tinha 1/2100 do peso do corpo; que 2 horas depois
tinha 1/1137; que 3 horas depois attingia ao seu peso maximo, apresentando
1/738; que dahi por diante o seu peso decrescia progressivamente até
apresentar, ao cabo de 24 horas, 1/214 do peso total do corpo.
Alguns physiologistas pretendem explicar o augmento de volume do baço,
durante o periodo da digestão, por um acto reflexo tendo por ponto de partida a
excitação que, no tubo digestivo, determina a presença das diversas substancias
alimentares. Esta explicação, porém, além de não ser necessária, porquanto a
simples actividade da absorpção e o augmento consecutivo de tensão no
systema porta, nos dão a comprehensão exacta do mechanismo da tumefação
da glandula esplenica; não póde ser acceita, porque se a presença de alimentos
no tubo digestivo fosse capaz de produzir uma excitação de ordem reflexa, esta
determinaria não a ampliação do baço, mas sim a sua retracção, como veremos
adiante quando nos occuparmos da contractilidade desse orgão sob o influxo
nervoso.
Segundo Beau o baço é um agente contractil de impulsão da onda sanguinea da
veia porta, impulsão esta que se torna necessaria principalmente quando a
proporção muitas vezes notavel das substancias alimentares, cria uma certa
difficuldade na progressão do sangue no interior daquella veia.
O baço por seu elemento vasculo areolar e por sua membrana de envoltorio
preenche com relação ao sistema porta, as funcções de um verdadeiro coração
de impulsão continua.
Este coração multilocular é por assim dizer improvisado todas as vezes que a
columna do sangue porta, sendo embaraçada em seu movimento, tem
necessidade de um accrescimo de propulsão para atravessar o figado; fóra
desta condição, esse coração deixa de desempenhar as suas funcções, porque
a simples
vis a tergo é sufficiente para fazer progredir a columna sanguinea.
Não ha duvida que o baço, já por sua elasticidade, já por sua contractilidade,
influe sobre a tensão da veia esplenica e por conseguinte sobre a da veia porta;
mas, não podemos deixar de reconhecer que a theoria de Beau expressa em
termos tão absolutos, é exagerada.
Segundo as experiencias de Home e Gonbaux, o baço augmenta de volume,
quando o estomago se acha replecto de liquidos, principalmetne estando o
duodeno ligado perto do pyloro.
Gray também estudou a influencia da absorpção das bebidas sobre o peso do
baço. Em um cavallo em boas condições de saude, que durante 30 horas tinha
sido privado de beber, elle encontrou nas veias do baço, 19 grammas de
sangue, emquanto que, em um outro animal, nas mesmas condições, que, 3
horas antes de ser sacrificado, havia bebido um balde d'agua, achou perto de 50
grammas do mesmo liquido, e em um 3º que, 9 horas antes de ser morto,
bebera 2 baldes d'agua, o peso do sangue esplenico elevou-se a mais de 110
grammas.
Estor e Saintpierre tendo posto a descoberto o baço de um cão, que desde o dia
antecedente não era alimentado, e injectando uma certa quantidade de leite no
estomago do animal, notaram quasi logo após uma tumefação esplenica se
produzir.
Todos estes factos experimentaes offerecem uma base sólida á opinião que
acceitamos para explicar a tumefacção do baço, durante as diversas phases da
digestão.
As sangrias, segundo as experiencias de Dobson e Gray, determinam uma
diminuição de volume do baço, assim como a transfusão produz o effeito
contrario, isto é, um augmento de volume. Estas experiencias estão
apparentemente em contradição com as de Dechambre e Vulpian, que, tendo
provocado perdas sanguineas mais ou menos abundantes em animaes, notaram
que o baço se tumefasia na mesma proporção; mas, o que nos parece, é que os
primeiros observadores se referem ao facto que se dá immediatamente após as
sangrias, ao passo que os 2º notaram o que se passa depois de algum tempo
daquella operação.
Tendo por ponto de partida as suas experiencias, Vulpian examinou o volume do
baço em individuos victimas de hemorrhagias e chegou a determinar, tanto pela
percussão, como pela autopsia,
post-mortem, que o augmento de volume da
glandula esplenica era um facto constante, depois de perdas sanguineas mais
ou menos abundantes, e que nos individuos que não sucumbiam a essas perdas
sanguineas, o baço voltava ás suas dimensões normaes a medida que o sangue
recuperava a sua riqueza globular.
Este autor attribue o augmento de volume em taes condições á hyperactividade
do orgão no desempenho de suas funcções hematopoeiticas. Laforest
sustentando essa opinião em sua these inaugural sobre a influencia das
hemorrhagias sobre o baço do homem, apresenta um grande numero de
observações, em que elle verificou os mesmos factos assignalados por Vulpian.
A contractilidade do baço póde ser posta em evidencia, pela excitação eletrica
feita directamente sobre o orgão, ou pela excitação chimica ou electrica de
diversas partes do systema nervoso. Varios autores têm se occupado desse
assumpto e dentre elles destacamos os nomes de Wagner, Defermon, Cl.
Bernard, Piorry, Schiff e Bochefontaine. Este ultimo principalmente fez um
grande numero de experiencias, com o fim de verificar as differentes condições
em que se realizava a contracção do baço, sob o influxo nervoso, procurando
determinar os centros de excitabilidade para producção desse phenomeno.
Começou por excitar galvanicamente os nervos esplenico e grande
esplanchnico, a região cervical da medulla e o pneumo-gastrico, constatando em
todos estes casos, notavel retracção do baço; depois seccionou o
pneumogastrico e verificou que a galvanisação da extremidade central produzia
a diminuição da glandula esplenica, ao passo que a mesma excitação feita sobre
a extremidade peripherica, nenhuma modificação produzia sobre o volume do
orgão.
Era, pois, claro que a excitação do pneumogastrico não se transmittia
directamente ao baço, mas seguia uma via reflexa. Para evidenciar este ponto,
Bochefontaine seccionou a medulla na região cervical e excitando então a
extremidade central do pneumogastrico, vio que essa excitação nenhuma
influencia exercia mais sobre o volume do baço.
Conhecidos estes factos, restava ainda saber qual o caminho que seguia a
excitação da parte superior da medulla até a glandula esplenica. A esse
resultado chegou Bochefontaine seccionando os grandes esplanchnicos e
verificando que depois desta operação qualquer excitação feita na parte superior
da medulla nenhuma acção exercia sobre o baço. Os grandes esplanchnicos
recebem pois as fibras que unem os centros medullares ao baço.
A excitação do sciatico, do mediano, etc., se transmitte, como a do
pneumogastrico ao baço, produzindo-lhe a mesma diminuição de volume.
Certas substancias taes como a camphora, a quinina e seus saes, a strychnina
determinam a diminuição de volume do baço. Esta ultima substancia
principalmente tem uma acção energica e produz a sua completa retracção,
alguns segundos depois da apparição das contracções espasmodicas dos
musculos voluntarios. Quando os acessos de strychnismo são separados por um
um intervallo de tempo bastante longo, o baço volta ao seu estado normal, para
se retrahir de novo, quando um outro accesso tem lugar.
A excitação de uma parte sensivel provoca a retracção do baço, por acção
reflexa, nos casos de strychnismo, mesmo que pela curarisação, se achem
paralysados os musculos voluntarios.
A morte por asphixia, segundo as experiencias de Bochefontaine determina
tambem uma retracção do baço.
II.
Da extirpação do baço e seus effeitos physiologicos
A suppressão de um orgão, como um meio de indagação de suas funcções, é
um methodo experimental intuitivo e racional, que deve ser posto em pratica
sempre que é possivel. Mas, as vezes esse methodo não dá os resultados que
se deviam delle esperar, porque a suppressão funccional ou anatomica de um
orgão, cujas funcções são desconhecidas, nem sempre deixa no organismo
modificações capazes de guiar o physiologista no descobrimento da verdade. E'
o que tem acontecido com relação a physiologia do baço, cuja extirpação tem
sido praticada tanto no homem, como nos animaes, sem que os resultados
tenham podido fornecer os elementos para a determinação do papel que elle
representa no organismo.
Alguns physiologistas tém chegado mesmo a acreditar que o baço é um orgão
inutil e que nenhum papel importante desempenha, viste como póde ser
extirpado sem que, por isso, o animal succumba ou apresente perturbação
notavel de saude.
Não aceitamos este modo de pensar e acreditamos que a unica dedução que se
deve tirar dos factos experimentaes com relação a este ponto, é que o baço
desempenha funcções que podem ser suppridas por outros orgãos, quando elle
é extirpado. Estas funcções serão estudadas em outros capitulos.
Vejamos agora quaes os autores que tem praticado a esplenectomia e quaes os
effeitos physiologicos assignalados por elles em consequencia dessa operação.
Malpighi foi o primeiro, não que extirpou o baço, mas que supprimiu
experimentalmente o seu exercicio funccional, ligando completamente o feixe
vasculo nervoso desse orgão. Elle observou apenas que o animal depois desta
operação, tornara-se mais voraz e apresentara um augmento de secreção
ourinaria. Depois de muitos mezes sacrificou o animal e pela autopsia encontrou
o baço inteiramente atrophiado, de côr cinzenta e adherente ao epiplon. No
sangue nada de anormal encontrou.
Denis, Dupuytren e outros observaram tambem o augmento de appetite nos
animaes esplenectomisados. Dalton e Flint assignalaram igualmente estes
factos, assim como uma tendencia á depravação do appetite e a ferocidade, se
bem que as digestões e a nutrição se fizessem bem. Flint observa todavia que
estes phenomenos não são invariaveis e que ha cães esplenectomisados que
não apresentam nada de anormal. Este mesmo autor vio tambem cães
tornarem-se ferozes e aggressivos, depois da extirpação de um rim.
O illustrado preparador da cadeira de physiologia, Dr. Utinguassú nos referio ter
praticado, no laboratorio desta Escola, a ablação do baço de um cão, que
sobreviveo por espaço de dois annos á operação, em optimas condições de
saude, apresentando como unico phenomeno notavel, essa aggressibilidade
assignalada por alguns experimentadores. Este animal succumbio
repentinamente. Infelizmente a autopsia não foi feita, não sendo por isso
determinada a causa da morte.
Nós tambem extirpamos o baço a quatro cães, dos quaes, dois succumbiram no
dia seguinte ao da operação, o terceiro, no dia 25º, e o quarto, operado ha cinco
dias, ainda está vivo em boas condições.
Pela autopsia do que morrera 25 dias depois da operação, verificamos que a
causa da morte fôra uma peritonite consecutiva a um ferimento que
encontramos na região hypogastrica, interessando a parede abdominal em toda
a espessura. A ferida por onde haviamos feito a extirpação esplenica, achava-se
completamente cicatrizada. Nenhuma alteração encontramos nos orgãos
contidos na cavidade abdominal.
Denis notou que os animaes esplenectomisados apresentavam uma tendencia
ao engordamento. Schmith, Delson, Van Dee, Stinstra e Colin, observaram o
mesmo facto. Este ultimo vio que os gatos e cães esplenectomisados 15 dias e
um mez após o nascimento, apresentavam vinte dias depois da operação, um
peso sensivelmente maior do que o dos animaes, da mesma idade, cujos baços
não haviam sido extirpados.
Legros praticou a extirpação do baço em um grande numero de animaes, que
elle conservou durante muitos mezes, observando em todos estes casos o
appetite exagerado. Elle não vio entretanto, como Stinstra, Colin e outros, os
animaes submettidos a sua experimentação, engordarem; facto que póde até
certo ponto ser attribuido a alimentação estrictamente necessaria, ministrada
aos animaes. O engordamento dos animaes privados do baço estaria, com
effeito, provado, se é verdade, como affirma Schmith, que em certas regiões da
Inglaterra os creadores extirpam o baço dos animaes com o fim de engordal-os.
Legros notou ainda que os ratos esplenectomisados entregavam-se com mais
ardor ao desempenho das funcções da reproducção, do que os animaes da
mesma especie que não haviam sido operados; o memo facto tinha sido
assignalado por Jolyffe. Os filhos dos ratos que haviam soffrido a extirpação do
baço apresentavam todos este orgão. Beclard, tambem refere ter feito ablação
do baço a um casal de cães, que reproduziram individuos dotados daquelle
orgão.
Tiedmann, Gmelin, Credé e Zesas acreditaram que estreitas relações fuccionaes
existiam entre o baço e a glandula thyroide, e que quando aquelle era extirpado
esta hypertrophiava-se. Hoje, porém, está perfeitamente demonstrado que
nenhuma relação existe entre as funcções do baço e as da glandula thyroide.
Com effeito, as minuciosas autopsias praticadas por Legros no grande numero
de animaes por elle esplenectomisados, as experiencias de Bardeleben, Tizzoni
e muitos outros physiologistas provam exuberantemente que nenhuma relação
de causa e effeito existe entre a ablação do baço e a hypertrophia da glandula
thyroide, e que se este facto foi observado por alguns dos autores acima citados,
elle não póde ser aceito senão como a concomitancia de dois phenomenos
completamente independentes.
Fuhrer, Ludwig, Gerlach e muitos outros têm encontrado glanglios lymphaticos
muito hypertrophiados, depois da extirpação do baço. Este facto é verdadeiro,
mas não é constante. Vulpian autopsiando um cão que tinha soffrido a ablação
do baço, ha seis annos, só encontrou hypertrophiados os glanglios lymphaticos
de Azelli e os da visinhança do canal inguinal. Em cães e ratos
esplenectomisados ha 2 ou 3 mezes sómente, Legros encontrou por vezes, mas
não sempre, esta hypertrophia, notando que ella desapparecia depois de algum
tempo. O mesmo facto foi observado por Colin.
Cl. Bernard no intuito de verificar se o baço exercia alguma influencia sobre a
secreção pancreatica, fez a ablação desse orgão em um cão e dois mezes
depois, praticou a fistula pancreatica, verificando que o succo pancreatico nestas
condições, era perfeitamente normal.
Schiff por suas experiencias chegou a um resultado diverso notando que a
extirpação ou as lesões profundas do baço, faziam com que o succo pancreatico
perdesse as suas propriedades digestivas sobre os albuminoides. Outros
autores têm feito experiencias que se acham em opposição com as de Schiff;
mas, para evitar repetições, fallaremos dellas quando tratarmos da influencia do
baço sobre as funcções digestivas.
Legros, que, como já vimos, praticou a ablação do baço em um grande numero
de animaes, observando que estes, depois de sobreviverem alguns mezes á
operação, succumbiam muitas vezes, rapidamente, sem apresentarem pela
autopsia lesões que explicassem a morte, procurou determinar as condições em
que tal accidente se dava, chegando a verificar que os animaes
esplenectomisados resistiam muito menos ás causas de enfraquecimento.
Assim elle observou que uma rata esplenectomisada succumbira logo depois de
ter dado á luz 8 ratinhos.
Para ter uma prova experimental do facto, elle tomou 2 ratos do mesmo porte,
dos quaes, um esplenectomisado ha 4 mezes e outro sem ter soffrido operação
alguma: collocou-os em dois compartimentos separados, e os privou de
alimentos, só ministrando-lhes agua. No fim de 24 horas o rato
esplenectomisado tinha succumbido, ao passo que o outro conservava-se em
optimas condições de saude.
Repetio esta experiencia algumas vezes sempre com o mesmo resultado.
As recentes experiencias de Bardach confirmam esta observação.
Mayer acreditava que o baço extirpado se regenerava.
Philippeaux, Gerlach e Eberhardt baseados em algumas observações
confirmaram a opinião de Mayer, mas Peyrani provou que taes regenerações
não têm lugar, desde que a extirpação do baço seja completa.
Legros constatou igualmente esta não regeneração do baço em todos os
animaes por elles operados.
Quaes são as modificações que se dão no sangue de um animal, cujo baço foi
extirpado? Neste ponto, como em muitos oturos, os autores não estão de
accordo e tem chegado por suas experiencias a conclusões diversas. Pouchet,
por exemplo, com o unico fim de estudar a influencia do baço, sobre a
constituição do sangue, praticou a extirpação do baço não só em mammiferos,
como em passaros e peixes e verificou que em todos estes animaes, o sangue
nenhuma differença apreciavel apresentava, quando comparado ao de outros
animaes da mesma especie em condições perfeitamente normaes. Não nos diz,
porém, este autor sob que ponto de vista comparou o sangue dos animaes
esplenectomisados com os que se achavam em condições normaes.
Picard e Malassez estudaram tambem os effeitos de esplenectomia sobre o
sangue; mas, o fizeram sob o ponto de vista da sua riqueza em globulos e em
hemoglobina.
Elles experimentaram em cães e procederam do seguinte modo: determinavam
por exames em dias successivos, a quantidade média de globulos e de
hemoglobina por millimetro cubico e o quanto de hemoglobina por globulo;
depois faziam a ablação do baço e pelo mesmo processo, notavam as
modificações que se operavam no sangue com relação ao numero de globulos e
a sua riqueza em hemoglobina. Por suas numerosas experiencias, verificaram
que a esplenectomia determina uma diminuição temporaria dos globulos
sanguineos e uma diminuição persistente da hemoglobina.
Ao resultado destas experiencias, poder-se-ia objectar que a diminuição dos
globulos sanguineos e da hemoglobina, em taes casos, não deve ser attribuida á
suppressão do baço, mas sim á hemorrhagia mais ou menos abundante que
quasi sempre acompanha a esplenectomia. A esta objecção, responderam
antecipadamente Picard e Malassez apresentando o resultado de novas
experiencias no sentido de demonstrarem a differença que existe entre as
modificações do sangue de um animal esplenectomisado e as que apresenta o
sangue de um animal que apenas soffreu uma hemorrhagia.
Elles provaram, com effeito que a diminuição de hemoglobina, no sangue do
animal esplenectomisado, era persistente; emquanto que essa diminuição em
consequencia de uma simples hemorrhagia, era temporaria, como a diminuição
de globulos e tendia a desapparecer com a regeneração destes.
As experiencias de Bizzozero e Salvioli feitas com o mesmo fim, confirmam de
um modo completo as de Picard e Malassez.
Quanto á esplenectomia praticada no homem, a sciencia registra um grande
numero de casos; alguns dos quaes provam que o baço não é um orgão
essencial á vida.
Esta operação tem sido praticada em virtude de indicações diversas e o seu
resultado tem variado com essas mesmas indicações.
Esplenectomias reclamadas por hernia do baço em consequencia de um
traumatismo; são bem conhecidas as seguintes: Viard, 1581; Mathias, 1678;
Purmann, 1680; John Fergusson, 1738; Wilson, 1743; Dorsch, 1797; O' Brien,
1814; Lenhossch, 1815; Donnel de Purneat, 1836; Berthet, 1844; Schultz, 1856;
Baizille, 1869; Pietrzynski, 1873.
Todos estes casos foram seguidos de cura. O operado de Dorsch vivia ainda em
excellentes condições de saude, 23 annos depois da operação; o de Berthet
sucumbio de uma pneumonia 13 annos mais tarde.
Este resultado offerece um verdadeiro contraste com o que tem sido obtido
pelos cirurgiões que fizeram a ablação do baço por indicações de outra ordem.
As ablações indicadas por kystos do baço são em numero de quatro. A primeira
foi praticada por Pean (1867) em uma mulher de 20 annos; a segunda por
Koeberlé (1873) em uma mulher de 27 annos; a terceira por Credé em 1881, e a
quarta por Knowley Thornton (1884) em uma mulher de 18 annos. Destas
operadas a unica que succumbio, foi a de Koberlé.
Duas esplenectomias foram praticadas em consequencia do deslocamento do
baço; a primeira por Martin (1877) em uma mulher, a segunda por Czerny em
1878. Estes dous casos foram seguidos de cura.
A hypertrophia do baço, acompanhada ou não de leucemia, motivou as
seguintes esplenectomias: Zacarelli, uma mulher de 24 annos (1549);
Quittenbann, uma mulher de 22 annos (1826); Kuchler, homem de 36 annos
(1855); Spencer Wells, homem de 20 annos (1865); Bryant, mulher de 40 annos
(1867); Koeberlé, mulher de 42 annos (1867); Urbinato (1873); Spencer Wells,
mulher de 42 annos (1873); Waston, homem (1873); Pean, mulher de 24 annos
(1876); Spencer Wells, mulher de 27 annos (1876); Billroth, mulher de 45 annos
(1877); Langley Brown, homem de 20 annos (1877); Tuchs, mulher de 40 annos
(1877); Limmons, homem (1877); Volney d'Orsay (1878); Czerny, mulher de 24
annos (1878); Arnison, homem de 37 annos (1878); Geissel, mulher de 30 annos
(1878); Franzolini, mulher de 22 annos (1881); Havard (1881); Baker Brown
(1881); Chiarleoni, mulher (1881); F. Ferrier, mulher de 43 annos (1881); Billroth,
mulher de 43 annos (1884); Koeberlé, mulher de 46 annos (1884); Blum, mulher
de 12 annos (1885); Le Bec, homem de 19 annos (1885).
Destes operados apenas 3 não succumbiram em consequencia da operação.
Todos os mais morreram desde alguns instantes até alguns dias depois da
operação.
Nenhuma modificação importante e capaz de indicar qual a natureza das
funções do baço, tem sido notada nos doentes que sobreviveram á
esplenectomia. Apenas em alguns, como na operada de Czerny, foram
observadas ligeiras perturbações para o lado da digestão; em outros,
hypertrophia dos ganglios lymphaticos.
III.
Do baço como orgão modificador do sangue
Sendo o baço uma glandula sem canal excretor, onde o sangue entrando e
sahindo soffre uma verdadeira filtração, os experimentadores procuraram desde
logo determinar quaes as modificações que o liquido sanguineo soffre ao
atravessar a polpa esplenica.
No intuito de chegarem a esse resultado seguiram vias diversas: uns de
microscopio em punho tentaram illuminar o campo de acção, assignalando na
polpa esplenica os vestigios das modificações soffridas pelo sangue; outros
analysaram comparativamente o sangue que entra para a glandula esplenica,
assim como o que della sahe; outros ainda acreditando que o sangue soffre
neste orgão modificações chimicas complementares de funcções de outros
orgãos, estabeleceram differentes experiencias no sentido de provarem taes
modificações.
Infelizmente é forçoso confessar que, apezar do ataque simultaneo e successivo
que tem soffrido este importante assumpto, por tão habeis experimentadores, a
luz ainda não se fez de um modo completo e que experiencias e observações
patrocinadas por nomes respeitabilissimos, são muitas vezes contraditorias,
contribuindo para plantar a duvida no espirito daquelles que procuram estudar
mais de perto a questão.
Vejamos, agora, quaes as theorias sobre as modificações que soffre o sangue
na polpa esplenica e quaes os factos em que se baseam. Dividiremos estas
theorias em dous grandes grupos: no 1º trataremos das que attribuem ao baço
funcções especiaes na composição globular do sangue, e no segundo
estudaremos as que fazem deste orgão um modificador do plasma sanguineo.
Funcções do baço relativamente aos globulos sanguineos
Tres funcções principaes têm sido attribuidas ao baço relativamente á sua
influencia sobre a composição globular do sangue: a primeira consiste na
fabricação de globulos brancos; a segunda na transformação de globulos
brancos em globulos vermelhos ou na formação destes ultimos globulos, e a
terceira na destruição das hematias.
Examinemos cada uma destas funcções e a base experimental sobre que
repousam.
1º. DO BAÇO COMO ORGÃO FORMADOR DE GLOBOS BRANCOS. - Esta
opinião que foi sustentada em 1777 por Hewson e é acceita por um grande
numero de physiologistas, basea-se na paridade estructural que existe entre o
baço e os orgãos lymphoides, na hypertrophia geral das glandulas lymphaticas,
commumente observada nos animaes esplenectomisados, e finalmente na
grande quantidade de globulos brancos encontrados na veia esplenica
comparativamente aos que se encontram na arteria.
A estructura lymphoide do baço é um elemento de grande valor em favor da
theoria leucocytogenica e tem sido reconhecida por quasi todos os histologistas.
Alguns admittem tecido adenoide disseminado por toda polpa esplenica; Denis e
outros, porém, só reconhecem a existencia d'esse tecido nos corpusculos de
Malpighi e o longo das pequenas arterias, e acreditam que a polpa esplenica,
atravessada em todos os sentidos pelas trabeculas, offerece lacunas
perfeitamente comparaveis aos espaços lymphaticos que se encontram nos
ganglios lymphaticos.
Virchow tambem é partidario d'esta opinião e considera os corpos brancos de
Malpighi, isto é, os corpusculos esplenicos, como tendo a mesma estructura
intima e as mesmas funcções que os folliculos solitarios da mucosa intestinal ou
as placas de Peyer, vendo em cada um d'estes pequenos orgãos, outros tantos
equivalentes dos ganglios lymphaticos.
Quanto a hypertrophia dos ganglios lymphaticos, consecutiva a esplenectomia
não é, como já o dissemos, um facto constante.
Hirt, Vierhordt, Funke e outros experimentadores verificaram maior quantidade
de globulos brancos na veia esplenica, do que na arteria.
Tarchanoff e Swaen chegaram por suas experiencias a resultados differentes
aos obtidos por estes ultimos experimentadores. Elles, antes de compararem o
sangue da arteria da veia esplenica, procuraram ver se havia uma relação
constante e geral entre a quantidade de globulos brancos das arterias e a das
veias, e chegaram á conclusão de que nenhuma relação podia ser estabelecida
n'esse sentido, pois elles verificaram que conforme os orgãos, conforme o seu
estado de actividade ou inactividade, conforme a sua situação mais ou menos
profunda, assim variava a differença entre o sangue afferente e o efferente, sob
o ponto de vista da sua riqueza em globulos brancos: ora, o sangue arterial e o
venoso possuiam o mesmo numero de globulos brancos, ora o venoso possuia
maior numero, ora, ao contrario, era o arterial que se apresentava mais rico em
leucocytos.
Só entre o sangue do ventriculo esquerdo e o do ventriculo direito verificaram
uma differença constante. Encontraram sempre maior numero de globulos
brancos no sangue do ventriculo esquerdo e procuram explicar este facto pela
maior concentração d'este ultimo que tem atravessado os pulmões e pela
deluição do sangue venoso que recebe em seu trajecto até a auricula direita
grossos troncos lymphaticos.
Comparando então o sangue da veia esplenica com o da arteria esplenica
concluiram que o da veia continha menor numero de globulos brancos do que o
da arteria e que quanto mais normal era o estado do baço, menor era essa
differença.
Pela secção dos nervos esplenicos notaram que ao mesmo tempo que o baço
augmentava consideravelmente de volume, produzia-se uma diminuição
sensivel do numero de globos brancos da veia esplenica, e que essa diminuição
de leucocytos, muito accentuada nos primeiros momentos que se seguiam á
dilatação esplenica, ia decrescendo progressivamente e tendia desapparecer no
fim de 3 a 5 horas. Estes experimentadores explicavam este facto physiologico
pelo accumulo de globulos brancos no interior da polpa esplenica.
Experiencias, porem, mais recentes, contradizem absolutamente as conclusões
a que chegaram Tarchanoff e Swaen e confirmam as de Hirt, Vierhordt e Funke.
Assim Bizzozero e Salviole encontraram sempre maior numero de globulos
brancos no sangue de veia esplenica do que no da arteria esplenica.
Eis o resultado de algumas experiencias:
Sangue da arteria esplenica Sangue da veia esplenica
Exp. I 1 globulo branco para 598
vermelhos
1 globulo branco para 368
vermelhos
Exp. II 1 globulo branco para 678
vermelhos
1 globulo branco para 268
vermelhos
Exp. III 1 globulo branco para 259
vermelhos
1 globulo branco para 115
vermelhos
Exp. IV 1 globulo branco para 425
vermelhos
1 globulo branco para 277
vermelhos
Exp. V 1 globulo branco para 180
vermelhos
1 globulo branco para 150
vermelhos
Estas experiencias provam a evidencia que a proporção de globulos brancos
para globulos vermelhos é sempre maior no sangue da veia esplenica do que na
arteria esplenica. Poder-se-ia, entretanto, objectar que este augmento relativo de
leucocytos corre por conta, não de uma genese no interior do baço desses
mesmos globulos, mas sim de uma destruição de globulos vermelhos. Bizzozero
e Salvioni livraram-se desta objecção, porquanto elles provaram que o augmento
relativo do numero de globulos brancos no sangue da veia esplenica, era
acompanhado de maior quantidade de hemoglobina, o que só é explicavel pelo
augmento do numero das hematias.
O Dr. G. Gregorescu procedendo á contagem dos globulos brancos da arteria e
veia esplenicas, pelo processo de Malassez, chegou a resultados que apoiam de
um modo brilhante as funcções leucocytogenicas do baço.
Elle encontrou, com effeito, 95,750 globulos brancos por millimetro cubico na
veia esplenica ao passo que na arteria esplenica só achou 72.750 globulos
brancos por millimetro cubico. Interrompendo a circulação na veia esplenica de
modo a determinar uma estase sanguinea na polpa esplenica, durante 3/4 de
hora, elle verificou que o numero de globulos brancos na veia esplenica
augmentava, attingindo a 149,000 por millimetro cubico.
Se lançarmos as nossas vistas para o que se observa na clinica, encontraremos
certos factos que confirmam estes dados experimentaes. Com effeito, em certos
estados morbidos, apresentam-se, como factores constantes a hypertrophia da
glandula esplenica e o augmento do numero de globulos brancos do sangue. A
concomitancia destes dous factos tem levado muitos pathologistas a explicarem
essa leucocytose, por uma hyperactividade funccional do baço.
Na leucocythemia principalmente, a hypetrophia do baço é uma lesão quasi
constante, pois, tem sido observada nos 4/5 dos casos. Ao lado dessa
hypertrophia caracterisada pelo augmento consideravel dos elementos
constitutivos da polpa esplenica e pelo espessamento dos septos trabeculares,
nota-se um desenvolvimento consideravel dos corpusculos de Malpighi, que
adquirem uma coloração esbranquiçada e attingem, com os progressos da
molestia, ao tamanho de uma pequena noz.
DO BAÇO COMO CENTRO FORMADOR DOS GLOBULOS VERMELHOS. -
Dos partidarios da theoria que faz o baço gozar um papel importante na
formação das hematias, uns acreditam que esta formação se effectua em virtude
de uma metamorphose dos leucocytos em contacto com a polpa esplenica;
outros sustentam que as hematias não são o resultado de uma transformação
dos globulos brancos, mas que ellas derivam-se de certos elementos figurados
do sangue, que no baço vêm soffrer a ultima phase de sua evolução, adquirindo
pelo contacto com a polpa esplenica a sua materia corante ou a hemoglobina.
Hewson, que como já vimos, era partidario da funcções leucocytogenicas do
baço, acreditava tambem que no interior deste orgão se effectuava a
transformação de globulos brancos em globulos vermelhos, em consequencia do
desenvolvimento da hemoglobina.
Tiedemann e Gmelin sustentaram tambem a mesma opinião, baseados no facto
de haverem encontrado uma coloração avermelhada no liquido dos lymphaticos
provenientes da polpa esplenica.
Virchow pelo exame histologico do tecido esplenico chegou a reconhecer
globulos hematicos em via de evolução e admittia que estes globulos se
formavam no interior do baço.
O proprio Kölliker, que foi um dos principais sustentaculos da theoria regressista,
isto é, da que conferiu ao baço a funcção de destruir hematias, parece ter
modificado mais tarde, a sua opinão, admittindo a possibilidde de se formarem
globulos vermelhos na polpa esplenica. E' pelo menos o que se póde inferir do
seguinte trecho de sua obra:
«A mon avis il faut être bien circumspecte dans cette question, tant que l'on aura
pas observé directement la transformation des globules blancs en globules
rouges. Nous connaissons trop peu le rôle que jouent les globules blancs dans le
sang, pour qu'il soit permis de conclure, de leur presence a une formation de
globules rouges. Je dois dire cependant que j'ai observè dans derniers temps,
que chez les jeunes mammiferes il se produit des globules rouges dans la pulpe
splenique et que cette production a lieu aussi dans le sang du foie. Il me parait
vraisemblabe, d'après cela, que chez les animaux adultes également, la rate est
le siège d'une generation abondante des globules blancs, que se transforment
en globules rouges dans cet organe lui-même et peut être aussi dans le foie.»
A riqueza globular do sangue da veia esplenica comperada a da arteria
esplenica e a de outros vasos, tem sido um argumento invocado em favor desta
theoria; mas n'este ponto os dados experimentaes são contraditorios. Emquanto
que alguns physiologistas têm encontrado uma quantidade maior de globulos
vermelhos no sangue da veia esplenica do que em qualquer outro vaso, outros,
pelo contrario, têm achado essa quantidade sempre inferior. Os primeiros
concluiram do resultado de suas experiencias que o baço é um orgão formador
de globulos vermelhos, os segundos deduziram de suas experimentações que a
glandula esplenica, ao em vez de formar, destroe globulos vermelhos.
Qual será a causa d'estas divergencias na simples observação de um facto?
Só duas hypotheses podem ser formuladas para explicar taes divergencias: ou
os observadores estudaram realmente o sangue venoso esplenico em condições
differentes e então deve-se concluir que elle póde se apresentar ora mais rico,
ora menos rico do que o sangue dos outros vasos; ou então alguns dos
experimentadores foram induzidos a erro pelos processos analyticos que
empregaram.
Por esta simples consideração vê-se a necessidade que ha de examinar
detalhadamente as condições experimentaes que presidiram a estas analyses.
E' o que vamos fazer, começando pelas experiencias que appoiam as funcções
hematopoieticas do baço.
Picard e Malassez que estudaram a questão, variando as condições
experimentaes, empregaram em suas analyses o processo de contagem de
globulos do segundo d'estes autores e a dosagem da hemoglobina.
Elles começaram por notar que a riqueza globular do sangue da veia esplenica
variava com o estado de ampliação ou de retracção do baço. Ora, como a
ampliação ou retracção da glandula esplenica póde se effectuar sob a influencia
nervosa, elles procuraram obter experimentalmente estes dous estados
diversos, pela secção e pela excitação do nervo esplenico, afim de analisarem o
sangue que refluia do orgão, n'um e n'outro caso, sob o ponto de vista de sua
riqueza em globulos e em hemoglobina. No primeiro caso, isto é, quando o baço
se achava ampliado em consequencia da secção do nervo, o sangue da veia
esplenica apresentava um numero maior de globulos do que o sangue arterial,
assim como uma proporção mais elevada de hemoglobina; quando pelo
contrario, o orgão se retrahia em consequencia da excitação do nervo, o sangue
efferente da glandula esplenica apresentava quasi o mesmo numero de globulos
que o da arteria e algumas vezes mesmo um numero inferior.
Em uma outra serie de experiencias, estes mesmos autores, produziram a
paralysia de uma parte limitada do baço, pela secção dos nervos que n'ella se
destribuiam, deixando intacta a outra parte do orgão. Verificaram então que o
sangue proveniente da parte paralysada era muito mais rico em hematias do que
aquelle que procedia da parte não paralysada. Estas esperiencias confirmão as
primeiras e provam de um modo evidente que a riqueza globular da veia
esplenica subordina-se ao influxo nervoso.
Acreditando que a ampliação e a retracção do baço em taes condições, são
phenomenos identicos aos que se observam em todos os orgãos de funcção
intermittente, os quaes se apresentam, ora dilatados, ora contrahidos, conforme
o seu estado de actividade ou de repouso, estes experimentadores sustentam
que a maior quantidade de globnlos vermelhos e de hemoglobina, observados
no sangue venoso do baço, quando este orgão é posto experimentalmente em
estado de vaso-dilatação, é a expressão da actividade funccional da glandula
esplenica, e que, portanto, no interior deste orgão dá-se a formação de
hematias.
Esta interpretação, comquanto não nos pareça inverosimil, não é a unica que
pode ser apresentada para explicar o facto experimental. Pode-se, com effeito,
suppôr que um certo numero de globulos normalmente retidos na polpa
esplenica, em consequencia da vaso-dilatação do orgão, devam ser acarretados
facilmente, dando lugar ao augmento da riqueza globular da veia esplenica.
Ainda em apoio desta theoria, Picard e Malassez demonstraram que a polpa
esplenica incerra maior proporção de ferro do que o proprio sangue; mas, este
mesmo facto tambem pode ser invocado em favor da theoria que sustenta que o
baço é um orgão destruidor de hematias.
Mantegazza fez as mesmas experiencias de Picard e Malassez. Apenas, elle ao
envez de comparar o sangue da veia esplenica ao da arteria, comparou-o ao da
veia jugular.
Pela simples inspecção do quadro seguinte vê-se que os resultados das
experiencias destes grandes observadores se harmonisam em alguns pontos,
divergindo em outros.
NUMERAÇÃO DOS GLOBULOS VERMELHOS POR MILLIMETRO CUBICO
Maxima Minima Média
Veia jugular
5.500,00
0
4.750,00
0
5.125,00
0
Mantegazza
Veia
esplenica
5.625,00
0
4.375,00
0
5.000,00
0
Arteria
carotida
5.460,00
0
5.200,00
0
5.330,00
0
Picard e
Malassez
Veia
esplenica
5.600,00
0
5.520,00
0
5.550,00
0
Bizzorero e Salvioli procederam tambem a um grande numero de experiencias,
no laboratorio de pathologia de Turim, no sentido de provarem as funcções
hematopoieticas do baço.
Elles retiraram sangue de 1 a 2% do peso do corpo do animal e notaram, como
factos constantes e consecutivos: 1º augmento de volume ou tumefacção do
baço; 2º a presença neste orgão e no sangue da veia esplenica de globulos
vermelhos nucleados; 3º, que o numero destes era directamente proporcional á
quantidade de sangue perdida pelo animal.
Procuraram igualmente saber qual a quantidade de hemoglobina, de globulos
vermelhos e de globulos brancos da arteria esplenica comparada com a da veia
esplenica e chegaram a verificar que nesta a riqueza era maior, tanto em
hematias e leucocytos, como em hemoglobina.
Praticaram, alem disso, a esplenectomia em um grande numero de animaes e
verificaram que em todos elles havia uma sensivel diminuição da hemoglobina,
facto este que, como já vimos, tinha sido assignalado por Picard e Malassez.
No intuito de provarem que esta diminuição de hemoglobina devia correr por
conta da ausencia do baço e não da perda sanguinea consecutiva á operação,
elles praticaram a ferida necessaria á esplenectomia, sem comtudo extirparem o
orgão, e verificaram que a diminuição do hemoglobina nestes casos, era muito
pequena e passageira, voltando o sangue em pouco tempo ao seu estado
normal.
Além dos factos experimentaes que acabamos de analysar, os partidarios da
theoria progressista, appellam para o que se observa na clinica com relação á
hypertrophia e á degeneração do baço, coincidindo sempre com uma diminuição
muito pronunciada do numero de hematias. Dizem elles que a glandula
esplenica, em taes casos, é a séde de um processo hyperplastico ou
degenerativo que difficulta ou impossibilita o seu funccionalismo, e que esta
inhibição funccional traz como consequencia a alteração da crase sanguinea.
Não podemos acceitar esta interpretação, porquanto, se a diminuição do numero
de globulos vermelhos reconhecesse como causa, as alterações do baço, claro
é, que depois da extirpação d'este orgão, dever-se-ia notar modificações ainda
mais pronunciadas na riqueza globular do sangue.
Ora, como vimos, tal facto ainda não foi observado depois das esplenectomias
praticadas no homem; e apenas uma diminuição passageira do numero de
hematias tem sido notada por alguns experimentadores.
DO BAÇO COMO CENTRO DESTRUIDOR DAS HEMATIAS. - Kölliker
sustentou esta theoria, baseado no exame microscopico do parenchyma
esplenico. A principio exclusivista parece ter modificado depois a sua opinião,
admittindo a possibilidade de se formarem globulos vermelhos na polpa
esplenica.
Moleschott extirpou o baço a muitas rãs e como facto consecutivo, achou
augmentada a relação entre o numero de hematias e o de leucocytos; donde
concluio este autor que o baço era destruidor de globulos vermelhos. As suas
experiencias, porem, não foram confirmadas pelas que em grande numero se
tem praticado em mammiferos, e por isso só, não podem ser apresentadas
como um argumeto em favor d'esta theoria.
Em 1846 e 1847 Beclard experimentando em cães e cavallos, analysou pelo
processo chimico de Dumas, unico que n'aquella época era conhecido, o sangue
da veia esplenica, o da veia jugular e de outros vasos, sob o ponto de vista de
sua riqueza em globulos, e notou que o sangue da veia de esplenica era o que
apresentava menor quantidade de substancia globular. De suas experiencias
Beclard concluiu que os globulos vermelhos são destruidos em contacto com a
polpa esplenica.
Os resultados obtidos por Lehman e Gray confirmam este modo de ver, os de
Funke contradizem-n'o.
Apresentamos o seguinte quadro que representa a quantidade de substancia
globular por 1000 grammas de sangue, encontrada em diversos vasos segundo
as analyses feitas por estes autores.
lhmam gray Beclard funke
Arteria esplenica - - -
-
750
642
304
Veia esplenica 32 65 110
113
796
705
431
Aorta e carotida - 148 132
-
-
--
Veia porta - - 128
136
-
--
Veia jugular 74 - 120
128
--
-
Pelas experiencias que temos passado em revista, vê-se que o exame do
sangue afferente e efferente do baço não nos fornece os elementos, para
fazermos um juizo seguro sobre a influencia que a glandula esplenica exerce
sobre os globulos hematicos; porquanto, como vimos, a differença entre a
riqueza globular do sangue arterial e a do sangue venoso deste orgão é
extremamente variavel.
Alguns autores admittem uma opinião mixta, isto é, que no interior do baço
formam-se e destroem-se hematias.
O Dr. G. Grigorescu procurou provar este modo de vêr pela experiencia
seguinte: _ Contou, pelo processo de Mallassez o numero de globulos
vermelhos e brancos do sangue da orelha, da arteria esplenica e da veia
esplenica; depois interrompeu, por algum tempo, a circulação na veia esplenica,
pela applicação de uma ligadura, procedendo em seguida a contagem dos
globulos da veia esplenica.
Eis os resultados numericos:
Sangue da orelha - 5:210,000 globulos vermelhos e 38,000 globulos brancos.
Sangue da arteria esplenica 4:892,000 globulos vermelhos e 72,750 globulos
brancos.
Sangue da veia esplenica 4:000,000 globulos vermelhos e 95,50 globulos
brancos.
Sangue da veia esplenica depois da interrupção por 3/4 de hora do sua
circulação. - Globulos vermelhos 5.612,500, globulos brancos 149,000.
Destas experiencias, este experimentador conclue:
1.º que o sangue que sahe do baço nas condições normaes é menos rico em
globulos vermelhos e mais rico em glohulos brancos do que o sangue que entra
pela arteria esplenica;
2.º que o sangue que tem demorado em contacto com a polpa esplenica, tornase
muito mais rico tanto em globulos vermelhos como em globulos brancos;
3.º finalmente, que o baço tem por funcção de um lado, destruir os globulos
vermelhos, de outro lado, crear estes mesmos globulos e os globulos brancos.
Julgamos, entretanto, que a experiencia de Grigorescu está sujeita a objecções
e que as suas conclusões não são legitimas.
Com effeito, que elementos temos para affirmar que o augmento do numero de
globulos sanguineos na veia esplenica é o resultado do contacto da polpa
esplenica?
Não será mais verosimel admittir-se que, quando se interrompe a circulação na
veia esplenica, o sangue no interior do baço deva tornar-se mais condensado
pelo embaraço creado á sahida dos seus elementos figurados?
DO BAÇO COMO MODIFICADOR DO PLASMA SANGUINEO. - Robin negando
a influencia do baço sobre a parte globular do sangue, sustenta que são os
plasmas sanguineo e lymphatico, os elementos que devem ser modificados em
sua passagem atravez da polpa esplenica.
Acredita que taes modificações são de ordem chimica e consistem na troca de
certos principios immediatos, que ainda não foram determinados em virtude da
imperfeição das analyses a que tem sido submettido o sangue da arteria e veia
esplenicas.
Em apoio de sua opinião diz elle que o baço sendo uma glandula, nenhuma
influencia directa deve exercer sobre os solidos da economia e como todas as
outras glandulas, este orgão só pode exercitar a sua acção sobre os plasmas
sanguineo e lymphatico.
Esta opinião assim esboçada de um modo vago e indeterminado, sem ter por
base nenhum facto experimental, só deve figurar no numero das hypotheses;
que tem sido apresentadas para explicar as obscuras funcções da glandula
esplenica.
Outros autores têm acreditado que as modificações que sofre o sangue ao
atravessar a polpa esplenica, acham-se intimamente ligadas a funcções de
outros orgãos.
Referimo-nos a duas theorias que sustentam: a 1ª que o baço influe sobre a
actividade do succo gastrico e a 2ª que elle influe sobre a do succo pancreatico.
Comecemos pela primeira apresentada e sustentada por Guido Bacelli em um
opusculo, publicado em 1871.
Diz este autor que as glandulas pepsicas recebem por intermedio dos vasos
curtos, sangue proviniente do baço e que é a custa dos principios fornecidos por
este orgão que ellas secrectam a pepsina.
Além das estreitas relações anatomicas existentes entre o baço e o estomago
são apontados, como base desta theoria, dois factos de observação clinica.
O primeiro é que, no periodo de defervescencia da febre palustre ou logo após
aos primeiros accessos, os doentes accusam um appetite devorador.
O segundo é que os doentes, victimas de cachexia palustre, têm no cortejo de
seus soffrimentos, as angustias da mais rebelde dyspepsia, para qual são nullos
os esforços da therapeutica.
No primeiro caso, diz Bacelli, a infecção despertou na economia e juntamente o
baço appareceu volumoso por uma hyperhemia que declinou; no segundo a
hyperplasia esplenica, que deu lugar ao augmento dos diametros da viscera,
que a tornou impermeavel, surda a todos os meios resolutivos, é constante e
não modifica-se.
Esta theoria é insustentavel, porque basêa-se em dados completamente falsos.
Com effeito, as veias chamadas vasos curtos, conduzem o sangue efferente do
estomago e não são destinados a levarem para este orgão o sangue
proveniente do baço.
Demais a intepretação dada por Bacelli aos factos clinicos tambem não é
exacta. O augmento de appetite, que se observa nos doentes logo após aos
primeiros accessos malaricos, é perfeitamente explicavel pela necessidade que
então sente o organismo de recuperar o que perdera durante o periodo febril. A
dyspepsia observada nos individuos victimas de uma cachexia de origem
malarica, depende da cachexia em si, da alteração do sangue, e não das lesões
esplenicas; a prova disto temos nas esplenectomias praticadas tanto no homem,
como nos animaes, sem determinarem perturbações para o lado das funcções
gastricas.
Examinemos agora a theoria que attribue ao baço um papel influente sobre a
actividade do succo pancreatico na digestão dos albuminoides.
Esta theoria foi apresentada por Schiff em 1862. Este eminente physiologista
concluiu de suas numerosas experiencias que para o pancréas se carregar de
fermento e fornecer um liquido capaz de digerir as substancias albuminoides, é
preciso que os productos da digestão (peptonas) absorvidos no estomago sejam
modificados pelo baço.
Eis em que consistiram as principaes experiencias que apoiam a theoria dos
pancreatogeneos de Schiff.
1. Em varios animaes esplenectomisados elle verificou que o succo pancreatico
perdia a propriedade de digerir os albuminoides. O liquido resultante da
maceração do pancréas de taes animaes tambem mostrava-se inactivo em
contacto com as substancias albuminoides.
2. Em dous cães que haviam sido alimentados duas horas antes elle ligou o
duodeno em suas extremidades e introduzio no seu interior 20 centimetros
cubicos de albumina cosida; em um dos animaes ligou fortemente os vasos
esplenicos, de modo a abolir a actividade funccional do baço, no outro deixou
livre a circulação do orgão. Sacrificando os animaes no fim de 6 horas depois da
operação, elle encontrou intacta a albumina introduzida no duodeno do cão,
cujos vasos esplenicos tinham sido ligados, e completamente digerida a do outro
cão.
Em 1875, Heidenhain publicou experiencias que contradiziam as de Schiff, pelas
quaes procurou demonstrar que a pancreatina se formava unicamente no
pancréas, a custa da substancia zymogena, sem que o baço influisse de modo
algum sobre a formação de tal fermento.
Herzen (1877) observando que havia uma relação inversa entre a proporção da
substancia zymogena e a do fermento-pancreatico e que o momento de maior
actividade de secreção do succo pancreatico coincidia justamente com a
ampliação da glandula esplenica, foi levado a crêr que este orgão, durante a sua
dilatação produzia uma substancia destinada a transformar a materia zymogena
em pancreatina. Para proval-o Herzen fez a seguinte experiencia: Sacrificou
dous cães, um em jejum desde 24 horas, o outro na sexta hora da digestão.
Dividiu o pancréas do cão sacrificado em jejum em tres fragmentos: um destes
fragmentos foi collocado em pequeno vaso com glycerina; outro triturado com
um pedaço do baço do proprio cão e collocado em glycerina e o terceiro triturado
com um pedaço do baço do cão n. 2, sacrificado em digestão, sendo tambem
collocado em glycerina. Deitando então a mesma quantidade de albumina
cosida nos tres vasos, e levando estes a uma estufa em temperatura
conveniente, verificou ao cabo de algumas horas que a albumina do vaso em
que se achava o fragmento do pancréas triturado com o do baço do cão n. 2
(sacrificado em digestão) estava digerida, ao passo que a dos outros vasos
apresentava-se intacta.
Esta experiencia parecia ter resolvido a questão, prestando um apoio seguro a
opinião de Schiff, quando Ewald em 1878, Bufalini em 1879 e Malassez em 1880
chegaram a resultados pelos quaes julgaram-se habilitados a negar qualquer
influencia do baço sobre a secreção do succo pancreatico.
Ewald extirpou o baço a um cão e seis dias depois, particando uma fistula
pancreatica, verificou que o succo, que della escoava-se, peptonisava a
albumina, saccharificava o amido e emulsionava as gorduras.
As experiencias de Bufalini, consistiram em extirpar o baço a muitos cães,
sacrifical-os ao cabo de certo tempo e collocar as macerações feitas com o
pancréas destes animaes em contacto com materias albuminoides nas
condições favoraveis a digestão. Verificou em todos os casos que o pancréas
conservava a sua actividade digestiva sobre os albuminoides.
Malassez, em um cão esplenectomisado ha alguns mezes, repetiu as
experiencias de Bufalini e chegou aos mesmos resultados que elle.
Pelo que acabamos de expôr, vê-se que physiologistas da mais alta importancia
se acham em completo antagonismo no campo da experimentação, facto este
que colloca em serias difficuldades quem, como nós, procura fazer um juizo
seguro sobre o assumpto.
Com o unico fim de tirar-nos deste dedalo de duvidas, fizemos algumas
experiencias: Destas apenas uma forneceu-nos resultados concludentes, por
isso só della nos occuparemos fazendo a sua descripção minuciosa.
Eilla:
O animal em experiencia era uma cadella pequena, pello preto, pesando 5
kilogrammas. Fixada na mesa de Jolyet em decubito dorsal, cortamos os pellos
do flanco esquerdo e depois de havermos lavado a região com uma solução de
sublimado, fizemos uma incisão horisontal, de 4 a 5 centimetros de extensão,
interessando a pelle e o tecido cellular subcutaneo; incisamos o plano muscular,
penetramos na cavidade abdominal e retiramos para fóra o baço, que se achava
extremamente dilatado.
Ligados com dois fios de seda os vasos esplenicos, praticamos a extirpação do
orgão. Suturados os dois planos da ferida com fios de sêda e com os
necessarios cuidados anti-septicos, fizemos collocar o animal em uma das
gaiolas do bioterio _ em decubito lateral direito. No dia seguinte encontramol-o
na mesma posição e lugar, parecendo não ter se levantado nem para tomar
alimento; dois dias depois ainda mostrava-se triste e abatido, mas já andava e
alimentava-se perfeitamente. No 9.º dia, em que o animal parecia estar em bôas
condições physiologicas com a ferida em adiantada cicatrisação, nos
propuzemos verificar se alguma modificação se havia dado na actividadé
digestiva do succo pancreatico sobre os albuminoides. Para esse fim,
introduzimos 10 grammas de albumina cosida no duodeno d'este animal e o
mesmo fizemos no de outro tomado por termo de comparação, o qual era de
porte menor e pesava apenas 4500 grammas. Eis o manual operatorio que
seguimos: fixados os animaes, um na meza de Jolyet e o outro na goteira de
Claude Bernard, abrimo-lhes com os cuidados anti-septicos a que já nos
referimos, a cavidade abdominal, por meio de uma incisão de 5 a 6 centimetros,
praticada na linha mediana, logo abaixo da região epigastrica; encontrado o
duodeno nós applicamos a cada uma de suas extremidades uma ligadura de
catgut, e fizemos uma pequena abertura n'esta parte do intestino e tendo
affastado os labios da ferida introduzimos no seu interior por pequenos
fragmentos as 10 grammas de albumina cosida. Restituidos os intestinos a sua
posição normal e feita a sutura das feridas, tomada a temperatura rectal (36º),
foram os animaes cuidadosamente collocados em gaiolas do biotero. No dia
seguinte tinham fallecido, não nos sendo possivel chegar ao conhecimento da
hora em que havia morrido cada um d'elles. Autopsiando os cadaveres retiramos
da cavidade abdominal a parte do duodeno comprehendida entre as duas
ligaduras.
No duodeno do cão que havia soffrido a esplenectomia, as 10 grammas de
albumina tinham sido completamente digeridas: no do outro encontramos grande
quantidade de sangue e alguns fragmentos de albumina, que depois de lavados
e seccos passaram a 4g,55.
O duodeno do n. 2 apresentava-se muito congesto e de uma côr escura,
parecendo indicar terem sido applicadas as ligaduras extremamente apertadas,
o que explica até certo ponto o facto de não ter sido completamente digerida a
albumina introduzida no duodeno deste animal.
* * *
Resulta desta experiencia, que uma certa quantidade de albumina introduzida no
duodeno de um animal privado de baço, foi completamente digerida e que,
portanto, a glandula esplenica nenhuma influencia exerceu sobre a actividade
digestiva do succo pancreatico.
Rejeitamos, pois a theoria de Schiff e acceitamos convencidos a opinião de
Ewald, Bufalini e outros experimentadores, que como nós, verificaram a
actividade do succo pancreatico, a despeito da ausencia do baço.
* * *
IV.
Do baço como orgão phagocytario
Metchnicoff demonstrou por suas bellas pesquizas que os leucocytos se
apoderam não só das poeiras inertes e dos cadaveres dos microbios, como
tambem em um grande numero de casos dos microbios pathogenicos vivos e
que esta propriedade dos leucocytos ou phagocytose gosa de um papel muito
importante na evolução das molestias infectuosas e no phenomeno da
immunidade.
O mesmo experimentador, Golgi e outros verificaram que as cellulas da polpa
esplenica, bem como as de outros tecidos, possuem a mesma propriedade que
phagocytos. Estas cellulas foram denominadas macrophagos, porque em geral
são muito maiores do que os leucocytos ou microphagos.
Estabelecidas estas idéas preliminares e conhecida a riqueza da polpa
esplenica, tanto em macrophagos, como em microphagos, comprehende-se
facilmente que o baço deva desempenhar um papel importantissimo na evolução
das molestias infectuosas.
Para desmostral-o Bardach fez experiencias interessantissimas que consistiram
em inocular o virus carbunculoso em cães esplenectomisados, comparando os
effeitos d'esta infecção em animaes assim operados, com os que se produziam
nos cães que não haviam soffrido a esplenectomia.
E' facto bem conhecido que os cães são inteiramente refractarios aos meios
naturaes de contagio carbunculoso.
Na Russia Meridional, onde o carbunculo é muito frequente nos rebanhos de
ovelhas, os cães, sem se contagiar, devoram os cadaveres carbunculosos.
Inoculado no tecido subcutaneo, o virus carbunculoso determina apenas uma
infiltração mais ou menos extensa no ponto da inoculação. Quando o virus é
introduzido no interior das veias os animaes apresentam symptomas de
carbunculo, mas, geralmente triumpham da molestia. O mesmo não acontece
quando os cães são privados da glandula esplenica: quasi sempre succumbem
victimas da infecção carbunculosa.
Bardach evidenciou este facto por uma serie de experiencias. Em 25 cães elle
praticou a esplectomia e um mez depois fez a injecção intravenosa de 1
centimetro cubico de uma cultura carbunculosa, nestes animaes
esplenectomisados e em 25 outros tomados por termo de comparação.
Dos 25 esplenectomisados, 19 succumbiram victimas da infecção carbunculosa,
emquanto que dos 25 não operados, tomados por testemunhas, apenas
morreram 5.
Deve-se ainda notar que as injecções do virus no sangue produzem tanto mais
facilmente a molestia e matam os cães tanto mais rapidamente, quanto menor é
o pezo do animal.
Ora, os cães menores foram sempre tomados nestas experiencias, para
testemunhas, sendo escolhidos os maiores para a extirpação do baço.
Estas experiencias confirmam pois de um modo brilhante a opinião de que o
baço gosa um papel preponderante no reacção do organismo contra os germes
pathogenicos.
Para saber se os cães esplenectomisados, que haviam resistido a infecção
carbunculosa, eram refractarios a uma nova inoculação, o Dr. Bardarch fez
outras experiencias sobre cães que haviam resistido a infecção carbunculosa
nas primeiras experiencias.
Cada experiencia se fez em 3 cães.
Na 1.ª experiencia não houve elevação de temperatura, nem nos cães
esplenectomisados, nem nos cães testemunhas, apézar de ter-se-lhes injectado
1 centimetro cubico de uma emulsão de cultura sporifera em gelose.
Na 2ª. experiencia - um dos 3 cães esplenectomisados succumbio ao
carbunculo; sua temperatura elevou-se a 41º,5.
Os outros 2 cães esplenectomisados e os testemunhas não tiveram mesmo
ligeira elevação thermica.
Tudo isto prova que não é o baço só que intervém na producção da
immunidade, mas que outros orgãos tambem a podem crear por si mesmos.
Esta immunidade não é constante nos animaes esplenectomisados, assim como
ficou provado pela morte de um dos animaes depois de uma injecção nova.
Ella é ao contrario constante nos animaes que não foram privados do baço.
Parece-nos, pois, que as experiencias de Bardach estão de pleno accordo com
as funcções leucocytogenicas do baço e que reunidas aos dados, histologicos e
anatomo-pathologicos concorrem para firmar o papel phagocytario deste orgão.
PROPOSIÇÕES
Cadeira de physica medica
I
Em toda a reacção chimica da producção de electricidade.
II
A electricidade fornecida pelas pilhas é, pois, o resultado das reacções chimicas
que nellas se passam.
III
A força electro-motora de uma pilha varia com a natureza dos metaes e dos
acidos empregados.
Cadeira de chimica mineral
I
O arsenico chimicamente considerado é um metalloide.
II
Em sua fórma elementar não é empregado em medicina.
III
De seus compostos, os mais usados são: o acido arsenioso, os arsenitos e
arseniatos de sodio e potassio.
Cadeira de botanica e zoologia
I
Os microbios pertencem ao reino vegetal.
II
A palavra microzoario, não deve, pois, ser empregada para designar os
microorganismos que são a causa intima das virulencias.
III
Segundo os estudos modernos parece fóra de duvida a natureza phycologica
dos microbios.
Cadeira de anatomia descriptiva
I
No apparelho auditivo deve-se distinguir duas partes: uma constituida pelos
differentes orgãos externos destinados a transmittir as ondulações sonoras; a
outra representada por um apparelho receptor.
II
A membrana do tympano é um septo que fecha na extremidade interna conducto
auditivo externo, separando-o da caixa do tympano.
III
Esta membrana é um orgão de aperfeiçoamento de grande utilidade, mas não é
indispensável á audição.
Cadeira de Histologia
I
O sangue é um liquido plasmatico tendo em suspensão grande numero de
elementos figurados.
II
Estes elementos figurados são de tres especies: globulos vermelhos ou
hematias, globulos brancos ou leucocytos e hematoblastos.
III
As hematias são os elementos que existem em maior numero no sangue.
Cadeira de Chimica organica e biologica
I
O acido salicylico é diatomico e monobasico.
II
Este acido gosa de propriedades anti-septicas e anti-thermicas muito
aproveitaveis em medicina.
III
De seus saes o mais empregado na clinica é o salicylato de sodio.
Cadeira de physiologia theorica e experimental
I
As fibras musculares, que entram na composição das tunicas vasculares,
representam o seu elemento contractil.
II
Ellas podem apresentar differentes estados de actividade contractil.
III
Estes estados estão subordinados ao influxo nervoso.
Cadeira de pharmacologia e arte de formular
I
A familia das rubiaceas fornece plantas utilissimas em medicina.
II
Estas plantas são: a cephoelis ipecacuanha, a cinchona calisaya e a coffea
arabica.
III
Ellas devem suas propriedades therapeuticas aos tres alcaloides: emetina,
quinina e cafeina.
Cadeira de pathologia cirurgica
I
As luxações escapulo-humeraes são as mais frequentes de todas as luxações.
II
N'estas luxações a cabeça do humero só póde ser levada para diante para traz e
para baixo.
III
Qualquer que seja a variedade da luxação escapulo-humeral o movimento de
abducção do braço é impossivel.
Cadeira de chímica analytica e toxicologica
I
A energia toxica do curare varía com a procedencia d'esta substancia.
II
O curare introduzido na economia pela via gastro-intestinal não determina, nas
condições normaes, effeitos toxicos.
III
O animal curarisado morre por asphyxia.
Cadeira de clinica cirurgica
I
A laparotomia é um recurso de grande valor nos casos de occlusão intestinal.
II
A indicação para esta operação deve ser fornecida pela causa productora da
occlusão e pelo estado do doente.
III
Uma antisepsia rigorosa deverá presidir á esta operação.
Cadeira de clinica de molestias cutaneas e syphiliticas
I
O lupus póde curar-se expontaneamente.
II
Os parasiticidas empregados no tratamento d'esta affecção não são mais do que
auxiliares do processo curativo natural que geralmente se estabelece.
III
O tratamento interno é o mais importante.
Cadeira de anatomia medico-cirurgica e comparada
I
No concavo popliteo existem orgãos de grande importancia.
II
As feridas d'esta região offerecem uma gravidade particular.
III
O concavo popliteo é séde de predilecção dos aneurismas arteriaes.
Cadeira de operações e apparelhos
I
O accumulo de falsas membranas no conducto laringo-tracheal, indica muitas
vezes a tracheotomia.
II
A hemorrhagia é o accidente que se tem a temer n'esta operação.
III
A abertura dos anneis da trachéa pelo thermo cauterio é o meio mais seguro de
evitar este accidente.
Cadeira de pathologia medica
I
O hematozario estudado por Laveran é o germen productor do impaludismo.
II
Durante os accessos do impaludismo ha uma notavel diminuição do numero de
hematias.
III
Esta diminuição é explicavel pela acção destruidora que os hematozoarios
exercem sobre os globulos vermelhos.
Cadeira de clinica propedeutica
I
Os phenomenos plessimetricos e stethoseopicos são elementos de que se
utilisa o clinico para chegar ao conhecimento do estado da maior parte dos
orgãos internos.
II
Estes phenomenos devem ser interpretados à luz das leis da physica.
III
A localisação de um grande numero de lesões pode ser perfeitamente precisada
pelos signaes plessimetricos e stethoscopicos.
Primeira cadeira de clinica cirurgica de adultos
I
O tratamento cirurgico da ectopia renal é constituido pela nephrectomia.
II
A indicação para esta operação é fornecida pelas desordens funccionaes
produzidos pela ectopia.
III
A nephrectomia tem sido praticada com magnificos resultados.
Cadeira de anatomia e physiologia pathologicas
I
Nas molestias infectuosas, os phagocytos travam luta renhida contra os
microbios invasores.
II
Nessa luta, ora triumpha o organismo, ora os germens pathogenicos.
III
Os phagocytos mostram-se sempre impotentes diante de algumas especies de
microbios.
Cadeira de materia medica e therapeutica
I
A medicação anti-septica representa um papel importante no tratamento das
molestias infectuosas.
II
A energia dos anti-septicos é variavel para cada especie pathogenica.
III
Os microbios ganham em resistencia pelo contacto de uma dose insufficiente de
anti-septico.
Cadeira de obstetricia
I
A ruptura do utero é um dos accidentes mais graves de que póde ser victima a
mulher.
II
Este accidente póde ter logar no curso da prenhez; é porém, muito mais
frequente durante o trabalho de parto.
III
As rupturas uterinas se fazem mais frequentemente no segmento inferior do
orgão.
Cadeira de clinica ophthalmologica
I
As diversas variedades de conjuntivite são constituidas por differentes
modificações do mesmo processo pathologico.
II
Estas modificações dependem de causas complexas.
III
A classificação das conjuntivites é puramente theorica.
2ª Cadeira de clinica medica de adultos
I
A angina de peito póde depender de uma lesão arterial ou de um estado
nevrosico.
II
Os caracteres clinicos de angor pectoris variam com a sua condição
pathogenica.
III
O seu prognostico varia na mesma razão.
Cadeira de clinica psychiatrica
I
Uma das fórmas mais graves da hysteria é caracterisada pela loucura.
II
A loucura hysterica é sempre acompanhada de outras manifestações da mesma
molestia.
III
Um dos phenomenos mais frequentes na loucura hysterica é constituido pelas
allucinações.
Cadeira de medecina legal
I
Para verificar se uma creança nasceu viva ou morta, a docimasia pulmonar é o
recurso de maior segurança de que póde lançar mão o medico legista.
II
Ha condições, porém, em que este recurso póde fornecer indicações erroneas.
III
A docimasia pelo methodo hydrostatico é a que deve ser preferida.
Cadeira de Hygiene e mesologia
I
O aperfeiçoamento dos estudos bactereologicos tendem a generalisar a
vaccinação, como um recurso prophylatico do mais alto valor.
II
A efficacia da vaccina contra a variola não soffre mais contestação.
III
A vaccina animal deve sempre ser preferida a jenerianna.
Cadeira de pathologia geral
I
Immunidade é a propriedade pela qual o organismo se isenta de certas causas
morbigenicas.
II
A immunidade póde ser natural ou adquirida.
III
O papel microbicida dos phagocytos fornece elementos de grande valor para a
comprehensão do phenomeno da immunidade.
Cadeira de clinica pediatrica
I
O sarampão é uma molestia de extrema benignidade na infancia.
II
E' contagioso e epidemico.
III
Um primeiro ataque confere geralmente a immunidade.
Cadeira de clinica obstetrica e gynecologica
I
A causa determinante da septicemia puerperal é a absorpção dos productos
toxicos que resultam da pollulação do microbio septico, nos orgãos da geração.
II
O tratamento d'este estado morbido deve consistir no emprego de anti-septicos.
III
A anti-sepcia é ainda um methodo preventivo de grande valor.
Primeira cadeira de clinica medica
I
A tosse é um symptoma commum a grande numero de estados morbidos.
II
São as molestias do apparelho respiratorio as que mais frequentemente
apresentam este symptoma.
III
A tosse reconhece quasi sempre como causa uma excitação dos ramos, do
tronco ou do nucleo de origem do nervo pneumo-gastrico.
Aphorismes de Claude Bernard
I
Les manifestations de la vie exigent un concours de circonstances exterieures
convenablement fixées et sensiblement identiques pour toute la série des étres
vejetaux et animaux.
(Phenomènes de la vie. T. II. pag. 3.)
II
La dessiccation est le plus sûr moyen de mettre les organismes inferieurs dans
la condition de la vie latente.
(Idem, T. II. pag. 8.)
III
La seule voie pour arriver a la vérité dans la science physiologique est la voie
experimentale.
(Idem, T. I. pag. 17.)
IV
Les principes de l'experimentation appliquée aux êtres vivants ne pourront être
devoilés que par de longues études et un travail opiniâtre.
(Idem, T. pag. 19.)
V
La cellule est l'image virtuelle d'un organisme elevé.
(Idem. T. I. pag. 368.)
VI
Les manifestations vitales sont mieux isolées, plus nettes dans les degrés élevés
de l'echelle que dans se degrés inferieurs et c'est pour quoi la physiologie des
animaux superieurs est la clef de la physiologie de tous les autres, contrairement
a ce qui se dit generalement.
(Idem, T. I. pag. 369.)
VII
La phenoménalité vitale comprend des faits de complexités croissante, a savoir
les propriétés, les actes et les fonctions.
(Idem, T. I. pag. 369.)
http://www2.prossiga.br/vitalbrazil/producaocientifica/1892.pdf