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Vacinas em alergia: Imunoterapia específica

04/03/2003

INTRODUÇÃO

A imunoterapia foi introduzida por Noon e Freeman em 1911,  inicialmente destinada para tratamento da rinite alérgica. Consiste na administração de alérgenos em doses crescentes,  com o objetivo de dessensibilizar os pacientes alérgicos ou de prevenir os sintomas decorrentes da exposição natural a esses alérgenos 1 (D).

A seleção e a concentração dos alérgenos a serem utilizados na imunoterapia específica é baseada nos resultados dos testes alergológicos,  que fornecem dados precisos para uma adequada avaliação,  qualitativa e quantitativa,  do perfil das doenças alérgicas 2 (D) 3 (C). Os mesmos extratos alergênicos utilizados nos testes alergológicos devem ser,  preferencialmente,  utilizados na imunoterapia específica 4 (D).

A Organização Mundial de Saúde recomenda a imunoterapia específica como uma forma de tratamento comprovadamente eficaz nas doenças alérgicas mediadas pela IgE,  como rinoconjutivite alérgica,  asma atópica e reações alérgicas ao veneno de picada de insetos. Está ainda indicada nos pacientes com baixa resposta ou efeitos colaterais graves aos medicamentos empregados no con-trole sintomático da asma e outras manifestações alérgicas 5 (D).

PRINCIPAIS RECOMENDAÇÕES QUANTO AO LOCAL ONDE SE REALIZA O PROCEDIMENTO 4-6 (D)

Condições básicas do local destinado à realização de testes alergológicos,   diluição e aplicação de imunoterapia alérgeno-específica:

• Área física com luminosidade e ventilação adequada,  com geladeira tipo doméstico;

• O mobiliário deve ser simples,  com linhas retas que facilitem a limpeza e a conservação;

• O material deverá estar acondicionado em local apropriado de fácil acesso e limpo;

• Os extratos alergênicos devem ser estocados,  em geladeira,  à temperatura de 4º a 17º C.

RECURSOS HUMANOS

A diluição e a utilização dos extratos alergênicos para fins diagnóstico e terapêutico são procedimentos inerentes à prática médica. Recomenda-se,   portanto,  que testes alergológicos e a imunoterapia alérgeno-específica sejam realizados por médico especializado ou por profissional técnico devidamente treinado,  e nesse caso,  obrigatoriamente,  supervisionado pelo médico 6 (D) 7 (B).

A imunoterapia alérgeno-específica pode ser indicada por via subcutânea ou através das mucosas,  utilizando-se extratos diluídos em di-ferentes soluções carreadoras. As diluições dos extratos alergênicos para imunoterapia especí-fica deverão ser realizadas pelo próprio médico 4 (D).

A administração,  por via subcutânea,  deve ser realizada no consultório,   clínicas ou hospi-tais. Em casos especiais,  será permitida a aplicação por farmacêuticos ou por enfermeiros em postos de saúde 6 (D).

MATERIAIS NECESSÁRIOS 4-6 (D)

Considera-se como materiais imprescindí-veis para a realização de testes e preparo de imunoterapia específica:

• Seringas,  agulhas,  puntores descartáveis,  algodão,   álcool iodado;
• Medicamentos de emergência incluem adrenalina,  anti-histamínico,   corticosteróide e broncodilatador;
• Material para intubação endotraqueal e ventilação.

FUNDAMENTOS TÉCNICOS

Indicações

A imunoterapia específica está indicada no tratamento da rinoconjuntivite alérgica,   asma alérgica,  reações ao veneno de insetos,  e em outras doenças de hipersensibilidade mediadas por IgE 5 (D).

Extratos alergênicos

A qualidade dos extratos alergênicos é crucial tanto para a fidedignidade do diagnóstico quanto para o sucesso do tratamento. O material deve ser padronizado de acordo com as normas internacionais e obedecendo a legislação vigente no país 8, 9 (D).

Seleção de extratos alergênicos A escolha varia em função da história clínica. O teste alergológico cutâneo é um exame complementar que auxilia na identificação causal das doenças alérgicas e na determina-ção da dose inicial da imunoterapia específica.

Doses sub-ótimas são ineficazes e doses supra-ótimas  podem produzir reações adversasgraves 10, 11 (D)12 (A),  que inclui,  embora muito raramente,  a evolução para óbito 7 (B).

Diluição dos extratos alergênicos 13 (D)

Considerações ao diluir extratos alergênicos para a imunoterapia específica:

• Dose ótima para obter uma resposta terapêutica eficaz;
• Compatibilidade na mistura entre os diferentes extratos alergênicos.

Início e aumento de dose

A dose inicial deve ser selecionada com base na sensibilidade de cada paciente,   por meio do teste cutâneo. Doses progressivamente crescen-tes deverão ser administradas em intervalos re-gulares,  até se atingir a dose ótima de manu-tenção. Ocorrendo reações locais ou focais,  considerar a utilização de menores concentra-ções ou a interrupção imediata da imunoterapia específica 14-18 (D).

GUIA PARA IMUNOTERAPIA ESPECÍFICA

Técnica

Após assepsia da pele,  injetar por via sub-cutânea,  após aspiração. Se vier sangue,  des-prezar o material e repetir a aplicação em outro local. Após a aplicação,  pressionar o local por 15 a 20 segundos e não massagear. Observar o paciente por 30 minutos,  pelo risco de reações imediatas. Se necessário,   poderá ser indicado o uso prévio de anti-histamínico para reduzir a prevalência de efeitos sistêmicos 4, 5 (D). Reações locais Eritema,  edema ou prurido,  considerar o prosseguimento da imunoterapia específica com cuidados adicionais ou a sua interrupção 4, 5, 9 (D) 7 (B).

Reações sistêmicas 4, 5, 19, 20 (D) Reações moderadas: prurido,   espirros,  tosse,  eritema difuso,  urticária,  angioedema e taquipnéia,  que na maioria das vezes res- pondem bem ao uso de anti-histamínicos. A incidência é maior na fase inicial ou de indução da imunoterapia específica. Quase todas as reações acontecem até 30 minutos após a injeção.

Reações graves incluem crise de asma e rea-ções anafiláticas 7 (B). Ao primeiro sinal de reação sistêmica,  recomenda-se aplicação subcutânea de solução milesimal de epinefrina,  e de anti-histamínico e glicocorticóide por via intra-muscular. Hospitalização pode ser necessária. Interromper,  de imediato,   o uso da imunoterapia específica.

Contra-indicações relativas 4 (D) 15 (D)

Asma corticóide-dependente,  gestação,  dermatite atópica grave,   paciente idoso e crianças abaixo de dois anos.

Contra-indicações absolutas 4 (D) 15 (D)

Doenças malignas,  doenças auto-imunes,  distúrbios psíquicos graves,   uso de beta-bloqueadores adrenérgicos,  doença alérgica não mediada por IgE e condições de risco para o uso de epinefrina.

Considerações adicionais 4 (D)

• Conservar o frasco em geladeira afastado do congelador;
• Desprezar o material se houver precipitação ou turvação do conteúdo;
• Observar data de validade;
• Evitar exercícios por duas horas após in-jeção;
• Suspender a aplicação se o paciente apre-sentar reações.

Duração da imunoterapia específica 21 (B) 22, 23 (A) 24 (B) 25, 26 (D)

A imunoterapia específica deverá ser descontinuada,  após um ano de uso da dose de manutenção,  se o paciente não apresentar melhora. Reavaliar o perfil alergológico e a indicação terapêutica.

Nos pacientes com boa resposta clínica com a imunoterapia alérgeno-específica,   o tratamento deverá ser mantido por dois a quatro anos. A dose ótima de manutenção é variável,  devendo ser estabelecida a cada caso.

REFERÊNCIAS

1. Noon L. Prophylactic inoculation against hay fever. Lancet 191l;i:1572-3. in Bousquet J,  Demoly P,  Michel FB. Allergen Immunotherapy in the 21 st Century: Therapeutic Vaccines for Allergic Diseases. 57 th Annual Meeting (Handouts) AAAAI 2001.

2. Ownby DR,  Adinoff AD. The apropriate use of skin testing and allergen immunotherapy in young children. J Allergy Clin Immunol 1994; 94:662-5.

3. Rosario NA,  Vilela MM. Quantitative skin prick test and serum IgE antibodies in atopic asthmatics.
J Invest Allergol Clin Immunol 1997; 7:40-5.

4. Seba J,  Mendes N,  Rosário N,  França A. Guia Prático de utilização de extratos alergênicos para fins diagnóstico e terapêutico nas doenças alérgicas. Rev. Bras. de Alergia e Imunopatologia 2001; 24: 116-9

5. Bousquet J,  Lockey R,  Malling HJ.
Allergen immunotherapy: therapeutic vaccines for allergic diseases. A WHO position paper. J Allergy Clin Immunol 1998; 102:558-62.

6. RESOLUÇÃO DO CREMERJ nº 181/ 2002,  Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro 16/04/2002: 34 – Parte V.

7. Lockey RF,  Benedict LM,  Turkeltaub PC,  Bukantz SC. Fatalities from immunotherapy (IT) and skin testing (ST). J Allergy Clin Immunol 1987; 79:660-77.

8. Seba J,  Mendes N. Rumos da imunoterapia alérgeno-específica. Editorial. Rev Bras de Alergia e Imunopatologia 2001; 24:116-9.

9. Lockey RF,  Bukantz SC.
Allergens and allergen immunotherapy in: Clinical Allergy and Immunology 2nd Ed. 1999.

10. Allergen products (Producta allergenica) European Pharmacopeia 1997; 1063-8.

11. Bousquet J,  Michel F. Standardization of allergens. In: Spector S,   editor. Provocation testing in clinical practice. NY: Marcel Dekker; 1994. p. 15-50.

12. Walker SM,  Pajno G,  Lima MT,  Wilson DR,  Durham SR. Grass polen immunotherapy for seasonal rhinitis and asthma: a randomised controlled trial. J All Clin Immunol 2001,  107:87-93. 13. Nelson HS,  Ikle D,  Buchmeier A. Studies of allergen extract stability: the effects of dilution and mixing. J Allergy Clin Immunol 1996; 98:382-8.

14. Durham SR,  Till SJ. Immunologic changes associated with allergen immunotherapy. J Allergy Clin Immunol 1998; 102:157-64.

15. Mailing H,  Weeke B. Immunotherapy. Position Paper of the European Academy of Allergy and Clinical Immunol. Allergy 1993; 48:9-35.

16. International Consensus Report on diagnosis and management of asthma. International Asthma Management Project. Allergy 1992; 47:1-61.

17. International Consensus Report on diagnosis and management of rhinitis. International Rhinitis Management Working Group. Allergy 1994; 49:1-34.

18. Global strategy for asthma management and prevention. WHO/NHLBI workshop report:National Institutes of Health,  National Heart,  Lung and Blood Institute,  Publication Number 95-3659; 1995 January 1995.

19. Stewart GE 2nd,  Lackey RF. Systemic reactions from allergen immunotherapy. J Allergy Clin Immunol 1992; 90:567-78.

20. Personnel and equipment to treat systemic reactions caused by immunotherapy with allergenic extracts. American Academy of Allergy and Immunology. J Allergy Clin Immunol 1986; 77:271-3.

21. Fanta C,  Bohle B,  Hirt W,  Siemann U,  Horak F,  Kraft D,  et al. Systemic immunological changes induced by administration of grass pollen allergens via the oral mucosa during sublingual immunotherapy. Int Arch Allergy Immunol 1999; 120:218-24.

22. Naclerio RM,  Proud D,  Moylan B,  Balcer S,  Freidhoff L,   Kagey-Sobotka A,  et al. A double-blind study of the discontinuation of ragweed immunotherapy. J Allergy Clin Immunol 1997; 100:293-300.

23. Durham SR,  Walker SM,  Varga EM,  Jacobson MR,  O’Brien F,  Noble W,  et al. Long-term clinical efficacy of grass-pollen immunotherapy [see comments]. N Engl J Med 1999; 341:468-75.

24. Des Roches A,  Paradis L,  Menardo JL,  Bouges S,  Daures JP,   Bousquet J,  et al. Specific immunotherapy prevents the onset of new sensitizations in children. J Allergy Clin Immunol 1997; 99:450-3.

25. Johnstone DE. Immunotherapy in children: past,  present,  and future. (Part II). Ann Allergy 1981; 46:59-66.

26. Jacobsen L,  Dreborg S,  Moller C,  Valovirta E,  Wahn U,   Niggemann B,  et al.
Immunotherapy as a preventive treatment. J Allergy Clin Immunol 1996; 97:232.


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