Pesquisadores de Minas Gerais deram um salto em direção à primeira vacina antiofídica no mundo. O fato é mais que mera curiosidade científica. Para se ter uma idéia, até hoje, a única forma conhecida de evitar a morte de pessoas picadas por serpentes era realizar o tratamento com o soro antiofídico, ou seja, após o ataque. Numa tentativa de reverter isso, a Fundação Ezequiel Dias (Funed), financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas (Fapemig), desenvolveu um trabalho que serve como base para a criação de um método preventivo como a vacina.
Os estudos tiveram início no final da década de 90, quando a coordenadora do projeto, a pesquisadora e diretora de Pesquisa e Desenvolvimento da Funed, Thaís Viana de Freitas, fez um estágio de um ano em Liverpool, Inglaterra. Lá, na escola de medicina tropical, está instalado o Centro de Controle de Venenos e Antivenenos da Organização Mundial de Saúde (OMS). "Fizemos um intercâmbio no qual alguns professores também estiveram aqui em Belo Horizonte e no Instituto Butantan", diz.
Em Liverpool, a pesquisadora teve contato com uma metodologia de encapsulação de venenos em liposomas; vesículas que funcionam como membranas de células. Isso permite ao organismo a capacidade de eliminar a toxidade dos venenos. A princípio, a pesquisa original foi desenvolvida para uso em animais, pois estima-se que um milhão de animais como bovinos, eqüinos e caprinos morrem anualmente no Brasil, vítima de picadas de cobras.
Todos os estudos e métodos para a criação da vacina estão prontos e patenteados, inclusive internacionalmente. Agora, para que o produto se concretize em um produto comercial, tudo depende de investimentos da indústria farmacêutica. "Desde 1989 estamos melhorando esse processo de profilaxia, buscando formas de deixá-lo cada vez mais barato", comenta Thais. Outra preocupação dos pesquisadores é ampliar o leque de serpentes que. possam ter a vacina específica desenvolvida.
"Estou interessada em começar a testar o método de prevenção em cavalo e bois", adianta a pesquisadoras da Funed. Segundo ela, a extensão desse método de profilaxia para os seres humanos ainda depende de alguns pontos específicos a serem superados. Isso porque, alguns componentes não são permitidos para uso nas pessoas.
A Fundação Ezequiel Dias é uma das três instituições brasileiras que trabalham na produção de soro antiofídico, ao lado do Instituto Butantã (SP) e do Vital Brasil (RJ). Atualmente, o País desenvolve soro contra as picadas de cobras coral. cascavel, jararaca e surucucu.
Estado de Minas, 26/05/03