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2. Transmissão (Por Fábio de Carvalho Chaves)
2.1 Mecanismos de transmissão
Os estudos epidemiológicos convergem todos no sentido de apontar os flebotomíneos como peças mestras do mecanismo de transmissão da leishmaniose visceral, ocorrendo esta quando os insetos se alimentam sobre homens ou animais infectados e, a seguir, o crescimento dos flagelados no tubo digestivo do vetor torna-se suficiente para assegurar sua inoculação em hospedeiros susceptíveis.
Se, pouco depois de infectar-se, o flebotomíneo volta a alimentar-se com sangue, o crescimento dos flagelados pode ser inibido. Mas se a segunda refeição for feita com sucos de plantas (ou, nas condições de laboratório, com passas ou soluções açucaradas), as formas promastigotas multiplicar-se-ão abundantemente no tubo digestivo do inseto. Agora, quando ele tentar novamente sangue, poderá regurgitar com o sangue aspirado os grumos de leishmanias (promastigotas infectantes) que cresciam no esôfago e no proventrículo.
Em vista do tempo requerido para o crescimento abundante dos flagelados e da vida curta dos insetos adultos (cerca de duas semanas ou pouco mais), é necessário que o flebotomíneo se infecte muito cedo, talvez por ocasião de suas primeiras refeições sanguíneas, para que possa efetuar a transmissão do calazar.
A proporção de insetos encontrados com infecção natural é sempre muito baixa. Assim, a transmissão fica na dependência de existir, nos focos americanos, uma densidade grande de Lutzomyia longipalpis, fato que se constata nas áreas de leishmaniose visceral, mesmo no interior das casas, sempre que haja um surto epidêmico.
Outro mecanismo de transmissão possível, entre os animais, é a transmissão direta, sem flebotomíneos. Em certas áreas endêmicas, observou-se a pequena densidade de insetos vetores, raros casos humanos e grande incidência do calazar canino. Como os flebotomíneos aí mostravam poucas tendências em picar os cães, supôs-se que a propagação pudesse ter lugar pelo coito, tanto mais que em diversas pesquisas pôde-se comprovar o parasitismo da glande e da uretra dos cães por leishmanias.
2.2 Transmissão do calazar no Brasil
Esta questão foi bem estudada em vários trabalhos publicados por Deane e Deane em 1955 e 1956. Tais estudos foram realizados em zonas urbanas e rurais do Estado do Ceará, principalmente nos municípios de Sobral, Manapê e Viçosa. Nas áreas rurais verificaram que, além do homem, apresentavam infecção natural o cão doméstico e um canídeo campestre, a raposa- Lycalopen vetulus. Verificaram ainda que, na área investigada, os flebótomos são os dípteros hematófagos mais freqüentes e às vezes os únicos encontrados nas casas. Entre estes insetos, a Lutzomyia longipalpis era a espécie predominante (97% dos flebótomos capturados na área). Pelo fato de terem encontrado infecção natural desta espécie bem como pelo fato de terem conseguido infectar facilmente a Lu. longipalpis em homem, cão e raposa parasitados, estes pesquisadores foram levados a incriminar definitivamente essa espécie como vetor do calazar naquele Estado do Brasil. Também a distribuição do Lu. longipalpis na área coincidia qualitativamente e quantitativamente com a do calazar. Assim, a espécie é muito mais comum nos boqueirões e grotões do que no sertão e alto das serras. Justamente nesses boqueirões e grotões é onde se encontra o maior número de casos da doença, não só no Ceará, como também em Jacobina (BA).
Também na Venezuela a Lu. longipalpis vem sendo incriminada como o principal transmissor da leishmaniose visceral; as investigações venezuelanas encontraram, em áreas do calazar, promastigotas no tubo digestivo anterior desta espécie de flebótomo.
A Lutzomyia longipalpis tem sido encontrada, geralmente como espécie dominante em todas as localidades onde ocorreram casos de calazar e foram feitos inquéritos entomológicos cuidadosos, desde o México até a Argentina.
Pode-se, portanto, afirmar ser a Lu. longipalpis o principal, senão o único, vetor do calazar na América Latina.
2.3 Os insetos vetores: flebotomíneos
Na família Psychodidae, subfamília Phlebotominae, há numerosas espécies pertencentes ao gênero Lutzomyia que vivem nas Américas, porém poucas estão envolvidas na transmissão das leishmanioses e só uma tem importância como vetor do calazar: é a Lutzomyia longipalpis.Na Europa, Ásia e África, os transmissores pertencem ao gênero Phlebotomus, variando as espécies de uma região para outra:
• Na Bacia do Mediterrâneo: P. perniciosus, P. ariasi, P. major, P. longicuspis, P.perfiliewi etc.;
• Na União Soviética: P. longiductus, P. smirnovi etc.;
• Na Índia: P. argentipes;
• Na China: P. chinensis;
• No Sudão e Quênia: P. orientalis e P. martini.
Inquéritos realizados em áreas endêmicas do Brasil (Ceará) mostraram que a Lutzomyia longipalpis representava 97% da população flebotômica local e era a única espécie encontrada com infecção natural. Ela é muito freqüente no sopé das serras e nos vales estreitos, bem como ao longo dos rios da planície litorânea. Sua distribuição coincide com a da doença, diminuindo consideravelmente nos planaltos e serras elevadas, onde também se registram poucos casos de leishmaniose visceral.
Lu. longipalpis invade habitualmente as casas nas zonas rurais e encontra-se também em áreas urbanas de localidades pequenas ou nas periferias de cidades grandes como Fortaleza. Ele habita áreas periurbanas da cidade do Rio de Janeiro, em encostas desmatadas de morros, ao nível da cota de 100 metros.
Quando a temperatura e a umidade ambientais aproximam-se das encontradas nos microclimas dos abrigos naturais, os flebotomíneos abandonam estes locais. E, como têm hábitos zoófilos e antropófilos, vão picar indiferentemente homens e animais.
Durante a noite, são atraídos pela luz, o que facilita a invasão dos domicílios e o contato com a população humana. Isto é particularmente verdadeiro em relação às fêmeas, que necessitam alimentar-se de sangue para a oviposição, ao passo que os machos, sempre mais abundantes nos ambientes externos, só se alimentam de sucos vegetais.
Nas regiões semi-áridas, com uma estação de chuvas bem marcada, é nesse período que se multiplicam os insetos. Mas durante o início da quadra estival, uma população numerosa persiste ainda e vai diminuindo pouco a pouco a variação da densidade dos insetos, segundo os meses do ano, condiciona, por sua vez, o ritmo periódico da curva de incidência da doença.
Fig.1 - Representação do flebótomo vetor do calazar |
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IMPORTANTE
- Procure o seu médico para diagnosticar doenças, indicar tratamentos e receitar remédios.
- As informações disponíveis no site da Dra. Shirley de Campos possuem apenas caráter educativo.
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