Genética/Clonagem/Terapia gênica - Embrião clonado não é organismo
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Genética/Clonagem/Terapia gênica

Embrião clonado não é organismo

15/02/2005
'Embrião clonado não é organismo', diz cientista autorizado a clonar embriões humanos na Grã-Bretanha

Autorizado a clonar embriões humanos para pesquisa, Paul de Sousa diz que técnica amplia possibilidades para tratar doenças

Herton Escobar escreve para 'O Estado de SP':

Dentro de alguns anos, quando colocar o olho no microscópio e vir um embrião humano clonado repleto de células-tronco, Paul de Sousa estará com a consciência tranqüila.

Se tudo der certo, ele deverá destruir esse embrião, retirar as células-tronco de dentro dele e transformá-las em neurônios motores, que serão usados na pesquisa de doenças genéticas neuromusculares, hoje incuráveis.

Sousa, do Instituto Roslin, na Escócia, foi um dos três cientistas autorizados esta semana na Grã-Bretanha a realizar a clonagem de embriões humanos para fins de pesquisa.

Inglês, filho de portugueses, ele vai trabalhar no projeto com Ian Wilmut, o 'pai' da ovelha Dolly, também do Roslin, e Christopher Shaw, do King's College de Londres.

Sousa falou a 'O Estado de SP' sobre essa controversa pesquisa, que produzirá embriões clonados a partir de células dos próprios pacientes:

- Como o senhor avalia as contestações éticas colocadas sobre esse tipo de pesquisa?

- Não estamos falando de clonagem de células para tratamento nem muito menos para reprodução; estamos falando de clonagem para produção de células para pesquisa. Como você sabe, células-tronco podem ser isoladas do organismo adulto ou de embriões. A diferença é que as embrionárias têm o potencial de se transformar em uma variedade muito maior de tipos celulares e podem ser multiplicadas em cultura mais facilmente. Quando você pensa em aplicações terapêuticas, essas duas coisas são muito importantes. Porque para tratar uma doença você precisa de muitas células - não centenas nem milhares, mas milhões. No nosso caso, a clonagem oferece a oportunidade de produzir células-tronco com a construção genética específica de uma doença. Isso nos permitirá fazer estudos in vitro para os quais, de outra forma, não teríamos células suficientes.

- Não haveria uma alternativa à clonagem? Seria possível tirar os neurônios motores diretamente dos pacientes?

- Sim, mas você não conseguiria multiplicá-los in vitro o suficiente para fazer as análises genéticas de que necessitamos. Para rastrear o gene de uma doença hereditária você precisa de amostras de tecido das pessoas afetadas, mas também de seus pais e parentes em geral. Infelizmente, nesse caso, não temos acesso a essas amostras, porque todos os parentes afetados já morreram em decorrência da doença. Por isso precisamos de uma estratégia alternativa.

- O senhor considera que esses embriões clonados são mesmo 'embriões', apesar de não serem formados pela fertilização do espermatozóide e óvulo?

- Embrião é um termo que usamos para descrever uma coleção de células que têm o potencial para dar origem a um animal. E se eu pegar um embrião clonado e colocá-lo dentro de um útero, ele pode dar origem a um filho. Nesse sentido, sim, é um embrião. Todavia, é um embrião que consiste de 200 células. Ele não tem órgãos, não tem um sistema nervoso nem a capacidade de sentir alguma sensação. É uma coleção de células.

- Quando olha no microscópio, o senhor vê vida?

- Eu vejo vida celular, o que é diferente da vida de um organismo. É algo que tem o potencial para formar vida, mas que não é ainda um organismo. Digo isso com o maior respeito aos diferentes pontos de vista. Vivemos em um mundo secular. O que nos conforta em oferecer essa tecnologia na Grã-Bretanha é a existência de um órgão regulatório que é independente de nossos interesses e que analisa todos os possíveis riscos e benefícios de maneira isenta. Isso nos dá a confiança de que nem todo mundo pode concordar conosco, mas agimos com responsabilidade sobre o que pretendemos fazer.
(O Estado de SP, 12/2)
Jornal da Ciência- SBPC


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