Medicina Esportiva/Atividade Física - Morte súbita relacionada ao exercício
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Medicina Esportiva/Atividade Física

Morte súbita relacionada ao exercício

26/03/2005
 


        

A atividade física, de vários ângulos

         Quando procuramos estabelecer uma relação entre a atividade física e a morte súbita de origem cardíaca, o pensamento pode nos direcionar tanto para aspectos preventivos associados ao exercício físico quanto pode nos alertar para fatores relacionados ao esforço decorrente desta atividade como uma verdadeira causa.

         Em outras palavras, o exercício tem sido e realmente pode ser visto de forma antagônica. Se por um lado existe um imenso potencial preventivo na relação entre exercitar-se e morrer subitamente, também existe um risco definido de se morrer subitamente durante ou, especialmente após, a atividade física. Por isso, a morte súbita relacionada ao exercício deve ser levada muito a sério, pois mesmo sendo pouco freqüente, quando ocorre de fato, tem sempre um impacto profundo na comunidade médica e na população em geral.

         Visto pelo ângulo positivo, o hábito de exercitar-se de forma regular e crônica proporciona um efeito protetor na prevenção primária e secundária da doença arterial coronária ("entupimento de artérias do coração"). Alguns destes benefícios podem ser relacionados à diminuição na progressão, ou até mesmo, na regressão da aterosclerose coronária (gordura nas artérias).

         A melhora no condicionamento físico atlético também pode relacionar-se a alterações benéficas no colesterol, à perda de peso, à diminuição na freqüência cardíaca e na pressão arterial de repouso. Além disto, a prática continuada de atividades aeróbias possibilita uma maior extração periférica de oxigênio pelos músculos esqueléticos, possivelmente estimule a circulação colateral das artérias coronárias e melhore os níveis de açucar no sangue, entre outros tantos efeitos recomendáveis.

         No entanto, uma pequena parcela das pessoas possuem doenças que fazem com que o exercício possa perder este papel de proteção contra eventos cardiovasculares agudos. Tais situações independem do nível de condicionamento físico, podendo acometer atletas altamente treinados ou pessoas que praticam exercícios físicos apenas eventualmente.

Definições importantes

         Define-se como morte súbita relacionada aos exercícios a morte que ocorre quando da realização de atividade física ou até 1 hora após seu término. Deve-se acrescentar a esta definição mais um elemento: a morte deve ser provocada por algum transtorno no funcionamento normal do sistema cardiovascular, a fim de que sejam excluídos atletas que venham a falecer quando da prática de esportes com risco de vida intrínseco, como pára-quedismo, alpinismo, automobilismo entre outros.

Um pouco de história

         Segundo a mitologia grega, Pheidippides correu de Maratona até Atenas com a tarefa de anunciar a vitória dos gregos sobre os persas e morreu ao dar a feliz notícia ao povo ateniense. Provavelmente este foi o primeiro relato de morte súbita relacionada ao exercício físico que se tem notícia.

Atividade física regular e morte súbita

         Diferentes estudos sugerem que a morte súbita relacionada ao exercício físico ocorra em uma freqüência maior entre corredores de fundo do que em atletas de outras modalidades. A morte súbita entre os maratonistas tem sido estimada em um atleta morto para cada 50.000 que não tem eventos (0,002%).

         Calcula-se que ocorra 1 morte súbita para cada 165.000 pessoas que fazem atividade física regular por ano, de forma que o risco relativo para morte súbita aumenta de fato durante o exercício, embora o risco absoluto permaneça muitíssimo baixo. Cabe ressaltar que aqueles indivíduos com menor exposição à atividade física têm maior risco para morte súbita que os que exercitam-se regularmente.

         De acordo com pesquisa realizada no início dos anos noventa, o risco relativo de sofrer infarto agudo do miocárdio é de 5,9 no período de 1 hora após exercício físico vigoroso. No entanto, este mesmo risco relativo apresenta queda significativa quando a prática do exercício é regular e quando a freqüência semanal aumenta. Por exemplo, tal risco tem sido estimado como sendo de 19%, 8% e 2% respectivamente para os indivíduos que realizam sessões de atividade física 1 ou 2, 3 ou 4 e 5 ou mais vezes por semana.

Atividade física ao acordar

         A morte súbita cardíaca tem, da mesma forma que os outros eventos cardiovasculares agudos, variação circadiana. Há um pico na incidência durante as primeiras horas da manhã, embora não exista qualquer evidência de que exercitar-se durante este período produza riscos maiores que exercitar-se em qualquer outro momento do dia.

Morte súbita e atividade sexual

         No que tange à atividade sexual, embora o gasto energético despendido na sua execução seja baixo, parece existir uma associação digna de nota com o aumento da incidência de infarto nas 2 primeiras horas a partir de sua realização, sendo o risco relativo estimado de 2,5.

         Nesta situação, novamente, a atividade física regular mostrou exercer um papel protetor, pois aqueles sujeitos que exercitavam-se regularmente apresentaram um risco relativo menor de eventos peri e pós-coito do que aqueles sedentários. Aqui, não houve diferenças entre indivíduos com ou sem diagnóstico prévio de doença cardíaca isquêmica.

As causas

         Quanto às causas, dois grupos distintos podem ser reconhecidos. Nnos indivíduos com idade inferior a 30 anos, a morte súbita deve-se mais freqüentemente a problemas estruturais do músculo cardíaco, ao passo que os sujeitos com mais de 30 anos têm a doença das artérias coronárias como principal fator causal.

         Das mortes no subgrupo com idade inferior a 30 anos, as doenças de base, em ordem decrescente de freqüência, são a miocardiopatia hipertrófica, anormalidades congênitas nas artérias coronárias, doença arterial coronária e ruptura da aorta por síndrome de Marfan. Outras causas menos comuns podem ser citadas: o uso de substâncias como a cocaína, a displasia arritmogênica do ventrículo direito, o espasmo arterial coronário e até mesmo o prolapso da válvula mitral, especialmente quando em associação com insuficiência mitral.

         Por outro lado, em indivíduos com idade superior a 30 anos, a causa mais freqüentemente implicada é a doença arterial coronária. As valvulopatias adquiridas, o prolapso da válvula mitral, a miocardiopatia hipertrófica, além de outras causas, correspondem a cerca de 5% das mortes súbitas relacionadas aos exercícios nesta faixa etária.

Investigação das pessoas sob risco

         Determinadas questões são de suma importância:

  • Alguma vez você apresentou perda abrupta de consciência durante a realização de esforço físico?
  • Ocorre dor no peito durante a realização de atividades que possam exigir mais do coração?
  • Há história familiar de morte súbita ou de cardiopatia na família e, caso exista, qual a idade do indivíduo quando este faleceu?

         A resposta para tais perguntas, a história clínica atual, passada e familiar, o exame físico e o eletrocardiograma são em geral suficientes para que o paciente possa ser liberado para prática de atividades físicas sem correr riscos significativos.

         Recentemente foi determinado que morte súbita do pai ou da mãe é fator de risco independente para morte súbita, com risco relativo de 1,8. Foi encontrado também correlação positiva quanto a idade das mortes entre pais e filhos.

Conclusão

         Embora a morte súbita durante o exercício seja um evento incomum, aqueles indivíduos em risco devem ser identificados e aconselhados quanto as suas condições. Tem sido aceito que pessoas com anormalidades cardíacas de alto risco devam evitar competições atléticas.

         Através da avaliação clínica, eletrocardiograma e de outros exames, quando necessários, os atletas sob risco de morte súbita podem, em geral, ser identificados.

         Por fim, o ideal é que o exercício físico seja uma atividade prazerosa, não uma obrigação. Felizmente, após superado um período inicial, a prática desportiva regular é freqüentemente sentida como algo agradável que acaba por trazer inúmeros benefícios ao praticante, benefícios estes que vão desde a melhora do colesterol até um aumento na auto-estima. O resultado disso é uma espécie de retorno positivo em relação à prática do exercício, o qual pode torná-lo auto-sustentável.

 
Dr. Ricardo Stein
Médico do Esporte
www.drgate.com.br


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