UM PUNHADO DE ESTRELAS Provamos dez marcas de Barolo, da safra 1997. Descubra por que esse tinto italiano continua a ser um dos melhores vinhos do mundo
A degustação deste mês contraria a lenda de que o Barolo continua a ser um tinto que precisa envelhecer e que, quando isso acontece, já passou. Os vinhos da espetacular safra de 1997, que tivemos a oportunidade de avaliar, podem ser bebidos agora. Mas, ao mesmo tempo, demonstram grande força, poder, raça e formidável estrutura. Significa que viverão gloriosamente por mais de vinte anos. São puro prazer, força e sedução. Sob qualquer ponto de vista, os dez vinhos da prova mensal de Gula são tintos espetaculares. Apenas 8 pontos separaram o primeiro do décimo, na média das avaliações dos experientes degustadores da revista, que eram, por ordem alfabética, Ennio Federico, Fernandes da Silva Filho (sommelier do restaurante La Vecchia Cucina, de São Paulo), Jacques Trefois, José Maria Santana, José Ruy Sampaio e Luciano Percussi, além deste redator. Coincidentemente, são tintos aclamados com no mínimo 90 pontos, pelos mais abalizados críticos internacionais.
Como se sabe, o Barolo é um antigo tinto italiano, derivado da uva Nebbiolo, no Piemonte. Na Idade Média já existiam vinhos feitos com ela, naquela região. Há duas versões para o nome Nebbiolo, ambas honrosas. Para uns, viria de nebbia (neblina, em português), névoa densa e rasteira freqüente no Piemonte; outros afirmam derivar de nobile, ou seja, nobre, pois proporcionava o vinho da aristocracia regional. Uva de maturação tardia - como a francesa Cabernet Sauvignon e a portuguesa Baga -, mostra seu esplendor apenas em algumas sub-regiões selecionadas do Piemonte, com solo calcário. Por isso, seu cultivo é limitado, respondendo por apenas 3% do vinho da região. A Nebbiolo proporciona tintos de elevada acidez e fortes taninos, porém de significativa complexidade aromática e concentração de fruta, que tornam a bebida apta ao longo envelhecimento em cave. Os grandes vinhos elaborados com a uva integram o ápice de excelência dos tintos italianos.
A safra de 1997 é considerada grandiosa na região do Piemonte. Produziu vinhos suntuosos. As uvas amadureceram perfeitamente, fornecendo quantidades de fruta muito madura. O excelente teor alcoólico e a elevada quantidade de glicerina contribuíram para arredondar o vinho. São tintos de boa acidez e taninos muito maduros e doces - e, acima de tudo, com bela estrutura. O ano de 1996 também se mostrou esplêndido, porém deu vinhos de outro estilo: mais clássicos e fechados, não tão quentes e sedutores como os de 1997. Outro excelente ano foi 1998. Os anos seguintes, de 1999 e de 2000, também prometem bons tintos. Para os amantes do Barolo, não poderia haver melhores notícias. Aos que desejam se iniciar nesse fascinante vinho, nada mais apropriado que começar pelos irresistíveis 1997. Se a primeira impressão é a que fica, certamente se apaixonarão ao primeiro gole.
De modo geral, os vinhos mostram uma cor que vai da tonalidade rubi-intensa à mais escura, brilhante e límpida. Exibem de aromas muito complexos e amplos ao de especiarias, caixa de charuto, alguns toques florais e um adorável herbáceo, levemente mineral, de fruta madura (framboesa, marmelo) e de fruta cozida (geléia, compota, goiabada, marmelada). O corpo se revela viril e fortemente estruturado. A boa acidez fornece excelente frescor aos vinhos e equilíbrio. Os taninos potentes e, ao mesmo tempo, doces e macios e o alto teor alcoólico exibem-se encantadores. Longo e delicioso se apresenta o retrogosto. São vinhos suntuosos, de raça. Beneficiam-se com o arejamento, portanto, não tema decantá-los pelo menos meia hora antes do serviço.
Todos os vinhos provados pela equipe de Gula estão entre os melhores da família Barolo de 1997. Limitamos a prova a dez tintos. Mas, para felicidade dos bebedores exigentes, o mercado brasileiro está bem abastecido destes e de outros vinhos da safra. Aproveitem, pois tintos assim surgem raramente e desaparecem com rapidez. À mesa, acompanham perfeitamente as mais requintadas caças, seja codorna, perdiz, faisão, paca, capivara, seja javali; harmonizam-se divinamente com animais de criação, como carneiro, cabrito, vitela e boi. Nossa prova ocorreu às cegas, com copos ISO. Após a degustação, o talentoso chef Alencar, proprietário do restaurante Santo Colomba (Alameda Lorena 1157, tel. 11/3061-3588), serviu um magnífico spaghetti al pesto e um divino stracotto al Barolo, que combinaram perfeitamente com os vinhos. O serviço estava impecável.
Revista Gula- Maio / 2003.
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