|
SOB AS BÊNÇÃOS DOS MONGES Pela primeira vez o Brasil reúne cinco marcas das raras cervejas trapistas belgas. Gula promoveu uma degustação inédita para desvendar seus aromas, sabores e mistérios
Sabemos que existem no mundo, sobretudo na Europa, inúmeros tipos de cerveja. Distinguem-se pelos diferentes ingredientes, métodos de elaboração e características organolépticas, ou seja, que impressionam os sentidos do olfato e do paladar. Entre os tipos mais notáveis, um merece reverência especial: as cervejas trapistas, produzidas por monges na Bélgica, em mosteiros que seguem os mandamentos da ordem religiosa católica cisterciense, fundada no século XVII, silenciosa e meditativa, assinalada por severa disciplina, oração e trabalho rural. "São cervejas espetaculares, feitas com matéria-prima selecionada, muita calma e detalhes notáveis, como a fermentação na própria garrafa - o mesmo processo do champagne", explica Xavier Depuydt, especialista em cerveja. Pois bem, o Brasil recebeu pela primeira vez um lote com as cinco marcas que compõem a ilustre categoria. Na verdade, elas são seis. Mas uma delas, a Westvlteren, só é comercializada na porta do mosteiro, tornando inviável a exportação comercial. Degustamos a Orval, a Chimay White, a Achel e a Westmalle Tripel, entre as claras; e a Westmalle Dubbel, a Chimay Red, a Chimay Blue, a Rochefort 8 e a Rochefort 10, entre as escuras. Todas foram servidas conforme a regra, ou seja, a uma temperatura mais elevada que a indicada para as nossas brasileiras pilsen. O ideal é entre 10 graus e 12 graus e, se possível, em copos com formato de cálice. Assim os aromas mais voláteis se desprendem com facilidade. Participaram da prova: Cássio Piccolo e Norberto D'Oliveira Neto, proprietários do Frangó, bar especializado em cerveja; Alberto Lopes de Oliveira, colaborador de Gula; Sérgio Camargo, sócio do Pirajá, em São Paulo; Rodrigo Martins, chef do restaurante Pomodori; e a mestre cervejeira Cilene Saorin. O encontro aconteceu no restaurante Faggot. A prova não foi às cegas, como de costume. Afinal, todas as marcas são reconhecidamente especiais e nossa intenção foi descrever suas virtudes e sugerir boas combinações. O chef Rodrigo preparou pratos para harmonizar cada cerveja. A seguir, os comentários sobre as jóias testadas. Como se diz na Bélgica, a votre santé!
CLARAS Orval - 6,2%. Colarinho marcante, com ótima formação. Aroma floral complexo e envolvente. Possui traços de condimento (pimenta e cravo) e de frutas. Na boca, é amadeirada, seca, com certa adstringência e leve sabor de amêndoa. "Final delicioso", segundo Cássio Piccolo. Chimay White - 8%. A mais conhecida entre as trapistas. Colarinho persistente, aroma de baunilha, pêssego, lúpulo e é levemente cítrica. Na boca, é condimentada, macia e tem corpo médio. "Bem equilibrada", afirmou Cilene Saorin. Achel - 8%. Chega a lembrar uma pilsen. Aroma de frutas, com toque de tabaco. Westmalle Tripel - 9,5%. A formação e a persistência do colarinho são perfeitos. Aromas finos, de baunilha e lúpulo, os mesmos das pilsen, bem equilibrados. Seu sabor leve e adocicado, misturado ao alto teor alcoólico, não passa a sensação de muito forte - um perigo para quem não está acostumado. "A melhor!", segundo Sérgio Camargo.
As claras combinaram muito bem com escabeche de san pierre; camarão marinado com limão e laranja; mariscos com vinagrete de mostarda em grãos; vôngole com pimenta calabresa e aspargos.
ESCURAS Westmalle Dubbel - 7%. Colarinho perfeito, bolhas pequenas. Aroma de baunilha. Leve frutado na boca e baixa oxidação. Mais leve que a Tripel. Chimay Red - 7%. Aroma de especiarias, fermento e um leve amanteigado. Corpo médio, sabor condimentado, picante, o final lembra o tabaco. Chimay Blue - 9%. A única safrada. Degustamos uma de 2002. Aroma de chá preto, picante. Na boca, leve acidez e final majestoso. Rochefort 8 - 9,2%. Boa formação de espuma. O ideal é deixá-la respirar por alguns instantes antes de degustá-la. O uso do copo certo é importante. Rochefort 10 - 11,3%. A mais forte das degustadas. Aroma levemente doce, com toques de lúpulo. Sabor de framboesa. Uma cerveja muito marcante, apesar de ser escura. Pelo fato de ser um pouco mais adocicada, acompanha bem sobremesas, como o morango com aceto balsamico e ganache de chocolate.
As escuras são perfeitas para acompanhar lombo de cordeiro grelhado com ervas e cenoura, além dos queijos gorgonzola e roquefort.
As cervejas são importadas pelo Belgian Beer Paradise Tel.: (11) 2494 - 6498 e (11) 3079-6543.
Revista Gula - Fevereiro/2003. |