Câncer/Oncologia/Tumor - Vacina terapêutica pára avanço de câncer
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Câncer/Oncologia/Tumor

Vacina terapêutica pára avanço de câncer

23/04/2005


Terapia personalizada criada por pesquisadores da USP e de hospital faz
sistema de defesa "despertar" contra doença

Reinaldo José Lopes escreve para a ‘Folha de SP’:

Pesquisadores da USP e do Hospital Sírio-Libanês, em SP, acabam de tornar
disponível um novo tratamento para pacientes com duas formas de câncer, o
melanoma e o carcinoma renal.

Trata-se de uma espécie de vacina personalizada, que conseguiu deter a
expansão dos tumores em 80% dos casos e aumentar a sobrevida de pacientes
terminais.

A vacina, que precisa ser produzida de forma individual, mobiliza o sistema
de defesa do organismo do paciente para que ele reconheça o tumor como
inimigo e parta para o contra-ataque.

É o que explica o imunologista José Alexandre Barbuto, do Instituto de
Ciências Biomédicas da USP e do Sírio-Libanês. "O tumor tem uma série de
mecanismos de escape. Ele cria um mecanismo que não permite que o sistema
imune [de defesa] seja ativado", disse.

Segundo o pesquisador, o calcanhar-de-aquiles do qual o câncer se aproveita
atende pelo nome de célula dendrítica.

Nas doenças infecciosas, são essas células que dão ao organismo o alerta
sobre os antígenos -nome dado a toda substância estranha, produzida por uma
bactéria ou vírus, por exemplo, que revela que as defesas do corpo foram
vazadas.

Em tese, o mesmo poderia acontecer com o câncer, já que as células tumorais
sofrem tantas alterações bioquímicas que o organismo seria capaz de
enxergá-las como inimigas e reagir.

"Só que o tumor cria um ambiente que não permite a maturação das células
dendríticas", conta o cientista. Assim, elas não conseguem cumprir seu papel
de "apresentar" o antígeno para o sistema imune. "A informação não chega até
onde deveria chegar", diz Barbuto.

Escola de guerra

Em princípio, os cientistas poderiam tentar arrancar as células que darão
origem às dendríticas desse ambiente opressor e, em laboratório,
estimulá-las para que se desenvolvam direitinho.

Mesmo fora do corpo, no entanto, parece que elas carregam a marca da
opressão tumoral e não conseguem completar seu desenvolvimento. A saída foi
fundi-las com células de doadores sadios.

Parece mirabolante, mas o raciocínio por trás dessa união é simples. A
célula do doador "ensina" a do doente a se transformar em dendrítica de
novo; a do doente é indispensável porque já interagiu bioquimicamente com o
tumor e, portanto, tem certa vantagem para reagir a ele.

O processo para misturá-las lembra vagamente o da clonagem da ovelha Dolly:
lado a lado, as células recebem um pulso elétrico, e as membranas que as
revestem se fundem.

A célula resultante tem dois núcleos. Para impedir que a pequena aberração
se multiplique, ela também recebe uma dose de radiação, que a esteriliza.
Dez milhões de pares de células recebem esse tratamento de choque para que a
vacina fique pronta.

Desde 2001, o pesquisador e seus colegas testaram a vacina em dois grupos de
35 pacientes terminais cada, com resultados promissores. Além de o
tratamento conseguir deter a expansão do tumor, a sobrevida média dos
pacientes também aumentou de forma significativa.

Pacientes que teriam entre seis e nove meses de vida passaram a sobreviver,
em média, 13 meses (caso dos melanomas) e mais de 21 meses (caso do
carcinoma renal).

Parece pouco, mas trata-se de tumores que normalmente deixam poucas opções
aos médicos e pacientes. "E não acho que o tratamento deva ficar restrito
apenas a doentes terminais. Num câncer em estágio inicial, é provável que os
resultados sejam ainda melhores", afirma Barbuto.

Os pesquisadores chamam o método de vacina porque ele estimula o sistema
imune, mas seu uso é terapêutico, e não preventivo. Ela também é considerada
um adjuvante, ou seja, deve ser tomada com os tratamentos convencionais.

Um dado importante é que o tratamento é personalizado. Até o doador das
células deve ser trocado durante as aplicações. "Não é qualquer laboratório
que domina a técnica e possui os equipamentos para produzi-la", afirma
Barbuto. O paciente poderia usá-lo apenas com o aval de seu oncologista.

Barbuto e seus colegas do hospital vão preparar a vacina em seu laboratório
privado, o Genoa. Por enquanto, o tratamento só está disponível no
Sírio-Libanês, mas Barbuto diz que qualquer hospital já pode solicitá-lo ao
laboratório.
(Folha de SP, 9/4)

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