Terapia personalizada criada por pesquisadores da USP e de hospital faz sistema de defesa "despertar" contra doença
Reinaldo José Lopes escreve para a ‘Folha de SP’:
Pesquisadores da USP e do Hospital Sírio-Libanês, em SP, acabam de tornar disponível um novo tratamento para pacientes com duas formas de câncer, o melanoma e o carcinoma renal.
Trata-se de uma espécie de vacina personalizada, que conseguiu deter a expansão dos tumores em 80% dos casos e aumentar a sobrevida de pacientes terminais.
A vacina, que precisa ser produzida de forma individual, mobiliza o sistema de defesa do organismo do paciente para que ele reconheça o tumor como
inimigo e parta para o contra-ataque.
É o que explica o imunologista José Alexandre Barbuto, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e do Sírio-Libanês. "O tumor tem uma série de mecanismos de escape. Ele cria um mecanismo que não permite que o sistema imune [de defesa] seja ativado", disse.
Segundo o pesquisador, o calcanhar-de-aquiles do qual o câncer se aproveita atende pelo nome de célula dendrítica.
Nas doenças infecciosas, são essas células que dão ao organismo o alerta sobre os antígenos -nome dado a toda substância estranha, produzida por uma bactéria ou vírus, por exemplo, que revela que as defesas do corpo foram vazadas.
Em tese, o mesmo poderia acontecer com o câncer, já que as células tumorais sofrem tantas alterações bioquímicas que o organismo seria capaz de enxergá-las como inimigas e reagir.
"Só que o tumor cria um ambiente que não permite a maturação das células dendríticas", conta o cientista. Assim, elas não conseguem cumprir seu papel de "apresentar" o antígeno para o sistema imune. "A informação não chega até onde deveria chegar", diz Barbuto.
Escola de guerra
Em princípio, os cientistas poderiam tentar arrancar as células que darão origem às dendríticas desse ambiente opressor e, em laboratório, estimulá-las para que se desenvolvam direitinho.
Mesmo fora do corpo, no entanto, parece que elas carregam a marca da opressão tumoral e não conseguem completar seu desenvolvimento. A saída foi fundi-las com células de doadores sadios.
Parece mirabolante, mas o raciocínio por trás dessa união é simples. A célula do doador "ensina" a do doente a se transformar em dendrítica de novo; a do doente é indispensável porque já interagiu bioquimicamente com o tumor e, portanto, tem certa vantagem para reagir a ele.
O processo para misturá-las lembra vagamente o da clonagem da ovelha Dolly: lado a lado, as células recebem um pulso elétrico, e as membranas que as
revestem se fundem.
A célula resultante tem dois núcleos. Para impedir que a pequena aberração se multiplique, ela também recebe uma dose de radiação, que a esteriliza. Dez milhões de pares de células recebem esse tratamento de choque para que a vacina fique pronta.
Desde 2001, o pesquisador e seus colegas testaram a vacina em dois grupos de 35 pacientes terminais cada, com resultados promissores. Além de o tratamento conseguir deter a expansão do tumor, a sobrevida média dos pacientes também aumentou de forma significativa.
Pacientes que teriam entre seis e nove meses de vida passaram a sobreviver, em média, 13 meses (caso dos melanomas) e mais de 21 meses (caso do carcinoma renal).
Parece pouco, mas trata-se de tumores que normalmente deixam poucas opções aos médicos e pacientes. "E não acho que o tratamento deva ficar restrito apenas a doentes terminais. Num câncer em estágio inicial, é provável que os resultados sejam ainda melhores", afirma Barbuto.
Os pesquisadores chamam o método de vacina porque ele estimula o sistema imune, mas seu uso é terapêutico, e não preventivo. Ela também é considerada um adjuvante, ou seja, deve ser tomada com os tratamentos convencionais.
Um dado importante é que o tratamento é personalizado. Até o doador das células deve ser trocado durante as aplicações. "Não é qualquer laboratório que domina a técnica e possui os equipamentos para produzi-la", afirma Barbuto. O paciente poderia usá-lo apenas com o aval de seu oncologista.
Barbuto e seus colegas do hospital vão preparar a vacina em seu laboratório privado, o Genoa. Por enquanto, o tratamento só está disponível no Sírio-Libanês, mas Barbuto diz que qualquer hospital já pode solicitá-lo ao laboratório. (Folha de SP, 9/4)
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