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Ao longo de suas histórias, o vinho e a medicina têm vários pontos de ligação. Inúmeras publicações têm enaltecido o uso medicinal do vinho desde os antigos egípcios há mais de 4000 anos [1] e, particularmente neste século, o avanço da ciência médica tem propiciado a descoberta de propriedades do vinho benéficas à saúde como, por exemplo, a sua ação no aparelho cardiovascular.
O que poucos sabem é que o vinho, por ignorância do ser humano, foi coadjuvante de algumas páginas negras da história da medicina. No que passamos a relatar, pode-se dizer que o elo de ligação entre as histórias do vinho e da medicina foi uma "gota de chumbo".
Desde o século XVIII já se sabia que há uma correlação entre duas entidades nosológicas: a gota, consequência do acumulo de ácido úrico no organismo, e o saturnismo, que é a intoxicação por chumbo (Pb). Sabe-se hoje que o saturnismo também leva à retenção de ácido úrico nos rins e há pesquisadores que consideram a gota como uma consequência da intoxicação subclínica por chumbo [2]. Entre as várias consequências do saturnismo, algumas das quais também ocorrem na gota, podemos citar: dor de cabeça, febre, cólica e constipação intestinais, dores articulares, incoordenação motora e dificuldade na marcha, anemia, icterícia, perda da fala, cegueira, insanidade mental, paralisias e, em casos extremos, a morte.
A gota sempre foi considerada uma doença das classes nobres, dos glutões e dos devassos. Não sem razão, existe um aforisma atribuido a Galeno, o grande médico dos gladiadores e conhecedor das propriedades do vinho: "A podagra (gota) é filha de Baco e de Vênus". Hipócrates, a quem se atribui a primeira descrição clínica da gota, já suspeitava da relação da doença com comidas substanciosas e vinhos e acreditava no valor da dieta no controle da doença [2].
Vários registros históricos evidenciam que a gota foi pandêmica durante o Império Romano e que a forma saturnina da doença foi sem dúvida prevalente [1,2,3]. Estudiosos chegam a hipotetizar que uma das prováveis causas da queda do Império Romano foi o envenenamento crônico por Pb, através da ingestão de alimentos, especialmente de vinhos contaminados, ocorrido principalmente na aristocracia romana, amante dos excessos da mesa e do copo [1,2]. Existem, inclusive, claras evidências históricas de que a maioria dos imperadores romanos que reinaram entre os anos 30 A.C. e 220 D.C. padeciam de sintomas de intoxicação crônica por chumbo [2].
A principal forma de contaminação era consequência da prática largamente utilizada pelos romanos de ferver lentamente o vinho em recipientes feitos ou revestidos com chumbo ou liga metálica contendo este metal. Essa prática visava tornar o vinho adocicado (na época não se conhecia o açúcar) e quebrar sua acidez. Deste modo, após a fervura obtinha-se um xarope espesso, doce, de forte aroma e cor acentuada denominado "sapa" ou "defrutum" ou, ainda, "caroenum" [1,2]. Outro efeito do processo era aumentar o tempo de conservação do vinho, pois com a fervura ocorre a formação do acetato de chumbo (o "açúcar do chumbo") que ajuda na preservação graças à sua ação inibitória do crescimento de microorganismos. Pelas mesmas razões os romanos costumavam também preservar vários alimentos, principalmente frutas, por meio do "defrutum" [1,2].
Reproduções do método, tal como era utilizado pelos romanos, foram realizadas em laboratórios de pesquisa no final do século passado ou neste século, tendo sido encontrado "defrutum" com teor de chumbo de 15 a 30 mg por litro, e em alguns casos obteve-se "sapa" com 240 a 1000 mg de chumbo por litro![2] Os achados são alarmantes quando comparados aos níveis máximos de Pb permitidos no vinho pela legislação de vários países: somente 0,2 a 0,3 mg/litro!!! Uma colher de chá, de cerca de 2,5 ml de "sapa", poderia conter até 2,5 mg de Pb, o suficiente para provocar envenenamento crônico. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a ingestão máxima diária é de até 0,04 mg !!! [3,4]
Curiosamente, existem estudos que estimaram as quantidades diárias de chumbo ingeridas nas diferentes classes sociais romanas: os aristocratas ingeriam, em média, 0,25 mg/ dia (dos quais 70% eram provenientes do vinho), os plebeus consumiam 0,035 mg/ dia (cêrca de 40% atribuídos ao vinho) e os escravos somente 0,015 mg/ dia (apenas 7% devidos ao vinho) [2].
O envenenamento coletivo por chumbo através do vinho não foi exclusividade dos romanos. No final do século XIII, na França, houve um surto de saturnismo na provincia de Poitou que ficou conhecido como a "Colica Pictonum" [1,3]. Todos os bebedores de vinho sofreram da moléstia devida à contaminação de vinhos tratados com litargírio, o óxido de Pb, para adoçá-los e mascarar sua acidez de modo a torná-los mais parecidos com os vinhos do Vale do Loire, mais caros e melhores. Curiosamente as epidemias surgiam com mais frequência depois de anos frios e de más colheitas. Como vemos, a lesão dos consumidores devida à ganância pelo lucro fácil é antiga!
Também na Inglaterra a classe nobre foi acometida por surtos de gota saturnina nos séculos XVIII e XIX, devido ao consumo desmedido de vinhos fortificados, em especial de vinho do porto, provavelmente contaminado [1,2,3]. Apenas em 1825 a Inglaterra importou mais de 20 milhões de litros de vinho do porto! [2]
Alguns pesquisadores atribuem a propriedade indutora de gota dos vinhos fortificados ao seu teor de Pb e, nos anos 70, a análise de vinhos do porto engarrafados entre 1770 e 1820 revelou concentrações de chumbo de 0,3 a 1,9 mg/l [2]. Já se levantou a hipótese de que algum fator ainda desconhecido, resultante da oxidação dos vinhos fortificados, seria responsável pelo seu poder indutor da gota, pois se observa que as crises de gota surgem mais frequentemente após a ingestão de vinhos colocados em decantadores ou provenientes de garrafas abertas por um longo tempo [5].
Nos dias de hoje ainda ocorrem casos esporádicos de intoxicação por chumbo proveniente de vinhos contaminados. Na França, durante os anos 50, ocorreu um famoso caso de envenenamento de toda a tripulação de um petroleiro por vinho contaminado com 4 mg de Pb/l [6] e, na década de 70, foi descrita a intoxicação de 23 pessoas por cidra contaminada [7]. Em uma revisão de 15 anos de literatura (1978 a 1992) encontramos 8 artigos [2,4,8,9,10,11,12,13] relatando casos individuais ou de pessoas de uma mesma familia que sofreram intoxicação, tendo como fontes de contaminação, na maioria dos casos, a presença de chumbo no revestimento dos recipientes onde se armazenava vinho de fabricação caseira (cerâmica esmaltada, tintas, tubulação, etc...). Outras fontes descritas são ânforas e garrafas decorativas contendo chumbo, utilizadas para o serviço de vinhos.
Encontramos também na literatura trabalhos mostrando que cristais de vidro contendo chumbo podem ser fontes de alta contaminação [14,15]. Este tipo de cristal contem cerca de 20 a 32% de Pb , o qual é adicionado ao quartzo fundido para proporcionar maior densidade, durabilidade e, sobretudo, clareza e brilho. Um vinho do porto contendo 0,89 mg de Pb/l colocado em taças ou decantadores feitos com este tipo de cristal, sofre em 4 horas um aumento de 3 vezes no teor de chumbo e, após 4 meses, atinge a 3,518 mg/l [14]. Uma outra pesquisa também realizada com vinho do porto, relata um aumento de 0,21 mg/l para 1,233 mg/l após 3 meses de decantação, mas o resultado pode talvez ser devido à evaporação, que aumentaria a concentração e não a quantidade real de chumbo no vinho decantado [15].
Nas décadas de 80 e 90 várias pesquisas foram realizadas com o objetivo de determinar os níveis de chumbo nos vinhos e no sangue de seus consumidores. Um estudo feito em 1981 em 8 grandes cidades da França revelou que, entre vários fatores que aumentam os níveis sanguíneos de Pb, está o consumo de vinhos, que afeta mais homens do que mulheres [16]. Numa pesquisa de 1983, na Itália, verificou-se que os bebedores de grandes quantidades de vinho têm níveis sanguíneos de chumbo mais altos do que os bebedores moderados e abstêmios [17]. Outros estudos, feitos com alcóolatras, mostraram que os bebedores de vinho tinham maiores teores de Pb no sangue do que os bebedores de cerveja ou destilados [18,19,20,21] e que há uma correlação direta entre o alto nível de chumbo no sangue e a elevação da pressão arterial [19].
No tocante ao estudo do teor de Pb nas bebidas alcóolicas encontramos pesquisas mostrando que o vinho possue maiores teores do que a cerveja. Nas cervejas o nível de chumbo variava de menos do que 0,01 mg/l (em lata ou garrafa) e mais de 0,1 mg/l (em barril) enquanto no vinho medido dentro da garrafa o teor era de cêrca de 0,25 mg/l. Retirando-se o envoltório de Pb situado sobre a rolha e servindo-se o vinho em copo, sem limpar a abertura da garrafa, o nível de chumbo foi muito superior a 0,25 mg/l e em um caso chegou a 1,89 mg/l [22]. Aliás, um estudo feito na Inglaterra revelou que 20% dos vinhos contendo cápsula de chumbo sobre a rolha, analisados entre os anos de 1985 e 1986, apresentavam conteúdo de Pb superior ao limite legalmente permitido [23].
A propósito da cápsula de chumbo existente sobre a rolha em muitos vinhos, uma pesquisa bastante engenhosa foi realizada na Inglaterra em 1990 [24]. Os autores mostram que, após a retirada da cápsula e da remoção de apenas a metade externa da rolha em contato com ela, o vinho aspirado através da seringa apresentou 0,057 mg de Pb/l. Após a remoção do restante da rolha, o mesmo vinho servido no copo, sem a limpeza prévia do gargalo, revelou 0,32 mg de Pb/l. Após enxugar-se suavemente o gargalo com um pano e servir novamente o vinho no copo, o teor de Pb caiu para 0,25 mg/l. Finalmente, após a limpeza vigorosa da boca da garrafa com uma toalha, o vinho mais uma vez servido apresentou apenas 0,1 mg de Pb/l. Portanto a remoção da cápsula de chumbo abaixo do ressalto do gargalo e a limpeza adequada do mesmo são fundamentais no serviço do vinho.
Por tudo o que foi aqui exposto, fica clara a importância da divulgação do papel do vinho contaminado com chumbo como fonte de saturnismo. Primeiro, porque ficamos conhecendo melhor a história do vinho, esse fiel companheiro que, como os bons amigos, não está isento de se contaminar, ainda que involuntariamente, por más companhias. Segundo, porque cabe aos amantes do vinho evitar os fatores que possam prejudicar tanto a ele como a nós mesmos. No caso, é importante saber a procedência do vinho que se consome, conhecer o serviço adequado de vinhos (da retirada da rolha à escolha de taças e decantadores) e beber com moderação. Ignorando tais informações, corre-se o risco de beber mal e até mesmo de adquirir uma indesejável "gota de chumbo" no vinho.
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Publicado originalmente na "Revista Médica de Minas Gerais", vol. 3, No. 2, p.115-117, 1993 Autores: Julio A. Sousa Neto & Ramon M. Cosenza Médicos, professores da UFMG, autores de Cursos, palestras e artigos científicos sobre vinhos
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