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EUA estudam liberar droga só para negros

16/06/2005

 

Remédio para o coração deve ser o primeiro destinado somente a uma raça

Stephanie Saul escreve para o ‘New York Times’:

Oito anos após ser reprovado pela Administração de Drogas e Alimentos (FDA, na sigla em inglês) dos EUA, o BilDil, uma droga contra insuficiência cardíaca, está sendo estudado pela mesma agência, mas para uso somente por negros.

Se for autorizado, esse será o primeiro medicamento do mundo a ser destinado especificamente para uma raça, o que já desperta polêmica.

Testes em 1.050 negros indicaram tendência

O direcionamento foi resultado de uma mudança de estratégia do fabricante, o laboratório NitroMed, após o parecer negativo para o uso geral.

Testes feitos previamente indicavam que o remédio era muito mais eficaz em negros do que em indivíduos de outras raças.

Para comprovar essa hipótese, foi feita uma segunda bateria de exames, com 1.050 negros. Segundo os responsáveis pela pesquisa, os resultados se mostraram muito satisfatórios.

"Nós nos surpreendemos com os resultados. Já tínhamos a desconfiança de que o medicamento era realmente mais eficaz em negros, mas os testes se mostraram ainda mais conclusivos neste sentido", disse Michael D. Loberg, pesquisador do NitroMed responsável pelo medicamento.

O FDA rejeitou o medicamento na primeira tentativa de aprovação, por apresentar baixo índice de reversão de quadros de insuficiência cardíaca.

Como somente 180 dos 630 pacientes participantes da primeira pesquisa eram negros, a amostra também havia sido considerada insuficiente para provar que o remédio era eficaz para afro-descendentes.

A razão para a adaptabilidade do remédio para pacientes negros estaria no fato de que indivíduos dessa raça com insuficiência cardíaca teriam quantidades menores de oxido nítrico no organismo, uma substância naturalmente presente em pessoas sem este tipo de problema. O BilDil seria eficaz, segundo o laboratório, por reverter essa deficiência.

A aprovação do novo remédio, segundo estimativas do laboratório, deve fazer com que as vendas cheguem a US$ 825 milhões por ano, e cerca de 700 mil negros americanos que sofrem de insuficiência cardíaca devem ser beneficiados.

Um volume considerado razoável pelo laboratório, depois de 13 anos de gastos, desde que o BilDil começou a ser desenvolvido. Os gastos com a pesquisa, no entanto, não foram revelados.

Mas a possível liberação está gerando críticas de vários especialistas. A alegação é que drogas para raças específicas não teriam como ser produzidas.

"Não acredito que esse medicamento seja eficiente para os negros. Além disso, os efeitos colaterais não estão bem estudados nesse grupo. O FDA foi precipitado", afirmou o médico e geneticista Jonathan Kahn, da Universidade de Yale.

Medicamento não serviria para o Brasil

O BilDil não seria útil para tratamento de negros brasileiros com insuficiência cardíaca.

A afirmação é do geneticista Sérgio Danilo Pena, professor titular do Depto. de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Segundo ele, as características genéticas dos brasileiros são diferentes das dos americanos.

"A miscigenação fez com que a definição de raça no Brasil seja algo realmente complicado. Se uma droga é dita eficaz para negros, como vamos saber que o paciente que estamos atendendo é realmente negro? Somente um exame genético seria capaz de identificar isso, tornando o tratamento inviável", contou ele.

Pena diz ainda que a cor da pele não é definição de raça. Muitas pessoas consideradas brancas podem ter mais herança genética dos negros do que se imagina. O mesmo pode acontecer com uma pessoa de cor de pele negra, que pode ter um genoma predominantemente europeu.

"Isso inviabiliza o desenvolvimento de qualquer droga voltada para uma raça, especialmente em países como o nosso. O médico não pode avaliar a raça pelo que ele vê, e nem mesmo pelo que o paciente julga ser. No Brasil, a raça é uma questão de opinião."

Um retrato genético dos brasileiros divulgado em 2000 pela equipe de Pena mostra a dificuldade em se identificar uma raça no país. O estudo revelou a presença de linhagens ameríndias em 33% dos brasileiros ditos brancos e confirmou a forte miscigenação da população.

De acordo com a pesquisa, a maioria das linhagens paternas da população branca do país veio da Europa (mais de 90%). Todavia, 60% das linhagens maternas são de origem ameríndia ou africana. A união do branco com negras e índias é uma marca da formação do Brasil.

Exemplo semelhante aconteceu na Argentina. Embora se sintam mais europeus do que seus hermanos latino-americanos, 56% dos argentinos têm raízes indígenas.

A informação foi divulgada pelo Serviço de Análises Genéticas da Universidade Nacional de Buenos Aires (UBA), que analisou amostras de DNA de pessoas de 11 das 24 províncias argentinas.

Até mesmo para o uso nos EUa, Pena vê o BilDil com desconfiança.

"A miscigenação nos EUA é muito menor, mas não podemos dizer que não aconteceu. Isso também faz com que a eficácia o BilDil lá seja questionada", disse o especialista. (Leonardo Valente)

(O Globo, 14/6)

Jornal da Ciência- SBPC


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