Segurança e eficácia deve ser assegurada antes que este tratamento possa realmente beneficiar pacientes
Peter Braude, professor of obstetrics and gynaecology
Stephen L Minger, director of stem cell biology laboratory
Stem Cell Group, Division of Reproductive Health, Endocrinology and Development, Guy's Campus, King's College London SE1 9RT
Ruth M Warwick, consultant haematologist
O uso de células-tronco embrionárias humanas tem sido anunciado como o passo mais importante na batalha contra patologias degenerativas graves, como a diabetes e a doença cardíaca, assim como para algumas patologias neurológicas debilitantes ou letais, como a doença de Parkinson e a doença do neurônio motor. Novos relatos e material de propaganda em sites da Internet tentam dar a impressão de que esta terapia é segura e disponível de imediato ou que sua introdução é iminente. Se esta esperança é verdadeira e quantas esperanças devem ter os pacientes nesta tecnologia são ainda assuntos a serem discutidos.
Apesar do número de células-tronco de linhagens de embriões humanos estarem aumentando consideravelmente, nos últimos dois anos, poucos destes estão bem caracterizados, e muitos ainda devem ser muito mais estudados para que se garanta a sua segurança e a eficácia. Isto requer pesquisa e um investimento significativo. Ainda não é possível fazer as células-tronco crescerem em condições que permitam a produção de um produto farmacêutico destinado ao uso em vivo. Mesmo os embriões de que as células-tronco embrionárias são extraídas ainda crescem em culturas que necessitam de produtos humanos ou animais. O uso prematuro da terapia celular pode expor muitos pacientes a risco de doenças produzidas por vírus ou príons, até que sistemas para seleção e triagem de doadores seja implementado.
A lição da aplicação prematura da terapia genética, a devastação causada pela transmissão do HIV a pacientes com hemofilia, os problemas clínicos e legais resultantes da infecção por hepatite C através da transfusão de sangue, e a crise resultante da encefalopatia espongeiforme bovina devem ser consideradas como oportunidade de aprendizado. A expansão das culturas de células-tronco pode levar à formação de uma única linhagem celular que será usada por muitas centenas ou milhares de pacientes, amplificando exponencialmente o risco potencial de transmissão de doenças a partir de um único doador infectado.
A transmissão de malignidades, doenças infecciosas e auto-imunes a partir de órgão, tecidos ou células é uma ocorrência rara, mas um evento bem documentado. Tecidos têm transmitido príons, e os príons causam uma variante da doença de Creutzfeldt-Jakob (vCJD), que certamente pode ser transmitida pela transfusão de sangue. Não existe um teste, no sangue, para vCJD e nem um método eficientes de inativar o agente causador da doença.
As mudanças estão aí. Porém aqueles que trabalham com células-tronco no Reino Unido não têm um código ou estatuto que regule os bancos de tecidos. A partir de 6 de abril de 2006, será mandatório que estes bancos trabalhem de acordo com diretivas para trabalho com tecidos ou células. Assim, todos os laboratórios para fertilização in vitro e laboratórios para produção de linhagens celulares com intenção terapêutica terão que seguir estas normas e ter um novo padrão de qualidade, muito mais rígido do que as normas atuais fornecidas pela "Human Fertilisation and Embryology Authority" (HFEA).
As diretrizes irão cobrir seleção de doadores, testes e procura de material inicial para linhas celulares, marcar o caminho entre doadores e receptores, uso de sistema específico de sistema de código e relato de eventos adversos. A fonte de material deve ser traçada mesmo se a doação é anônima no ponto de doação. Um grupo colaborativo conveniado com a "English Department of Health" trabalha há dois anos estabelecendo as principais normas para todo o Reino Unido e implementando sua operacionalização. De qualquer forma, o "Medical Research Council" está implementando cinco unidades de culturas in vitro no Reino Unido para estabelecer padrões rigorosos para a produção de células-tronco embrionárias com fins terapêuticos.
Doadores potenciais de componentes do sangue devem fornecer suas histórias clínicas e de vida, e as amostras de sangue devem ser testadas rigorosamente em cada doação para que se minimizem os riscos. Uma nova abordagem de segurança deve ser usada para as linhagens de células-tronco. Como estas linhagens são potencialmente imortais e podem se expandir infinitamente, deve ser possível a testagem destas células e não somente realizar a testagem na época da doação. Claramente os testes para vírus e príons devem ser validados dentro deste contexto antes que se usem estas células como instrumento de dosagem.
A pressa para ser o primeiro a usar linhagens celulares para a terapia pode comprometer a segurança de receptores e desacreditar esta terapia. Este precaução é presente na Índia e na Rússia, onde a intervenção do Governo tenta limitar ou prevenir o aumento do número de clínicas oferecendo curas por meio de células-tronco para toda sorte de doenças. Apesar dos dados preliminares insuficientes sobre a segurança ou dos dados insuficientes de pesquisas com animais, ensaios usando células derivadas de medula óssea autólogas têm sido realizados em pacientes com doença cardíaca, situações em que a urgência e a necessidade terapêutica poderiam justificar a implementação imediata do método. Porém a urgência não é justificativa para uma má ciência. Experimentos animais devem ser conduzidos para a melhor compreensão do destino e da integração das células transplantadas e dos riscos de neoplasias originadas nas células implantadas em um novo meio ambiente. A ética de transferir células humanas para animais, para o desenvolvimento de novas terapias para doenças debilitantes, deve ser considerada como parte do debate sobre células-tronco.
Companhias comerciais têm proclamado por todo o mundo que uma nova era está surgindo, porém com perda seletiva da memória para o fato de que grandes expectativas levam a grandes desilusões. Só podemos esperar que um fracasso financeiro imediato na comercialização de terapias celulares não faça desaparecer esta promissora tecnologia. A terapia com células-tronco deve ser explorada com segurança e metodicamente para que possa oferecer reais benefícios para muitos pacientes no futuro.
References
1. Select Committee of the House of Lords. Stem cell research-report. London: Stationery Office, 2002. www.parliament.the-stationery-office.co.uk/pa/ld200102/ldselect/ldstem/83/8301.htm (accessed 13 May 2005).
2. Medicines and Healthcare products Regulatory Agency. Rules and guidance for pharmaceutical manufacturers and distributors. London: Department of Health,1997. http://medicines.mhra.gov.uk/inforesources/publications/orangeguide.htm (accessed 13 May 2005).
3. Centers for Disease Control and Prevention. Creutzfeldt-Jakob disease in patients who received a cadaveric dura mater graft-Spain 1985-1992. Morb Mortal Wkly Rep MMWR 1993;42:560-3. http://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/00021225.htm
4. Llewelyn CA, Hewitt PE, Knight RS, Amar K, Cousens S, Mackenzie J, et al. Possible transmission of variant Creutzfeldt-Jakob disease by blood transfusion. Lancet 2004;363: 417-21.
5. Peden AH, Head MW, Ritchie DL, Bell JE, Ironside JW. Preclinical vCJD after blood transfusion in a PRNP codon 129 heterozygous patient. Lancet 2004;364: 527-9.
6. Department of Health. A code of practice for tissue banks providing tissues of human origin for therapeutic purposes. 2001. www.dh.gov.uk/PublicationsAndStatistics/Publications/PublicationsPolicyAndGuidance/ PublicationsPolicyAndGuidanceArticle/fs/en?CONTENT_ID=4006116&chk=8VQR%2B5
7. Directive 2004/23/EC of the European Communities and of the Council of 31 March 2004 on setting standards of quality and safety for the donation, procurement, testing, processing, preservation, storage and distribution of human tissues and cells. Official J Eur Union 2004. http://europa.eu.int/eur-lex/pri/en/oj/dat/2004/l_102/l_10220040407en00480058.pdf (accessed 13 May 2005).
8. Jayarama KS. Indian regulations fail to monitor growing stem-cell use in clinics. Nature 2005, March 17: 434, 259.
9. Danilova, M. Stem cell craze spreads in Russia. Associated Press: http://apnews.myway.com/article/20050314/D88QNPG80.html
10. Schachinger V, Assmus B, Britten MB, Honold J, Lehmann R, Teupe C, et al. Transplantation of progenitor cells and regeneration enhancement in acute myocardial infarction: final one-year results of the TOPCARE-AMI Trial. J Am Coll Cardiol 2004;44: 1690-9.
11. Rifkin J. Are you a man or a mouse? Guardian 2004, 15 March. www.guardian.co.uk/comment/story/0,,1437701,00.html (accessed 13 May 2005).
Fonte: BMJ 2005;330:1159-1160 (21 May), doi:10.1136/bmj.330.7501.1159
Terapia com células-tronco esperança ou modismo
Segurança e eficácia deve ser assegurada antes que este tratamento possa realmente beneficiar pacientes
Peter Braude, professor of obstetrics and gynaecology
Stephen L Minger, director of stem cell biology laboratory
Stem Cell Group, Division of Reproductive Health, Endocrinology and Development, Guy's Campus, King's College London SE1 9RT
Ruth M Warwick, consultant haematologist
O uso de células-tronco embrionárias humanas tem sido anunciado como o passo mais importante na batalha contra patologias degenerativas graves, como a diabetes e a doença cardíaca, assim como para algumas patologias neurológicas debilitantes ou letais, como a doença de Parkinson e a doença do neurônio motor. Novos relatos e material de propaganda em sites da Internet tentam dar a impressão de que esta terapia é segura e disponível de imediato ou que sua introdução é iminente. Se esta esperança é verdadeira e quantas esperanças devem ter os pacientes nesta tecnologia são ainda assuntos a serem discutidos.
Apesar do número de células-tronco de linhagens de embriões humanos estarem aumentando consideravelmente, nos últimos dois anos, poucos destes estão bem caracterizados, e muitos ainda devem ser muito mais estudados para que se garanta a sua segurança e a eficácia. Isto requer pesquisa e um investimento significativo. Ainda não é possível fazer as células-tronco crescerem em condições que permitam a produção de um produto farmacêutico destinado ao uso em vivo. Mesmo os embriões de que as células-tronco embrionárias são extraídas ainda crescem em culturas que necessitam de produtos humanos ou animais. O uso prematuro da terapia celular pode expor muitos pacientes a risco de doenças produzidas por vírus ou príons, até que sistemas para seleção e triagem de doadores seja implementado.
A lição da aplicação prematura da terapia genética, a devastação causada pela transmissão do HIV a pacientes com hemofilia, os problemas clínicos e legais resultantes da infecção por hepatite C através da transfusão de sangue, e a crise resultante da encefalopatia espongeiforme bovina devem ser consideradas como oportunidade de aprendizado. A expansão das culturas de células-tronco pode levar à formação de uma única linhagem celular que será usada por muitas centenas ou milhares de pacientes, amplificando exponencialmente o risco potencial de transmissão de doenças a partir de um único doador infectado.
A transmissão de malignidades, doenças infecciosas e auto-imunes a partir de órgão, tecidos ou células é uma ocorrência rara, mas um evento bem documentado. Tecidos têm transmitido príons, e os príons causam uma variante da doença de Creutzfeldt-Jakob (vCJD), que certamente pode ser transmitida pela transfusão de sangue. Não existe um teste, no sangue, para vCJD e nem um método eficientes de inativar o agente causador da doença.
As mudanças estão aí. Porém aqueles que trabalham com células-tronco no Reino Unido não têm um código ou estatuto que regule os bancos de tecidos. A partir de 6 de abril de 2006, será mandatório que estes bancos trabalhem de acordo com diretivas para trabalho com tecidos ou células. Assim, todos os laboratórios para fertilização in vitro e laboratórios para produção de linhagens celulares com intenção terapêutica terão que seguir estas normas e ter um novo padrão de qualidade, muito mais rígido do que as normas atuais fornecidas pela "Human Fertilisation and Embryology Authority" (HFEA).
As diretrizes irão cobrir seleção de doadores, testes e procura de material inicial para linhas celulares, marcar o caminho entre doadores e receptores, uso de sistema específico de sistema de código e relato de eventos adversos. A fonte de material deve ser traçada mesmo se a doação é anônima no ponto de doação. Um grupo colaborativo conveniado com a "English Department of Health" trabalha há dois anos estabelecendo as principais normas para todo o Reino Unido e implementando sua operacionalização. De qualquer forma, o "Medical Research Council" está implementando cinco unidades de culturas in vitro no Reino Unido para estabelecer padrões rigorosos para a produção de células-tronco embrionárias com fins terapêuticos.
Doadores potenciais de componentes do sangue devem fornecer suas histórias clínicas e de vida, e as amostras de sangue devem ser testadas rigorosamente em cada doação para que se minimizem os riscos. Uma nova abordagem de segurança deve ser usada para as linhagens de células-tronco. Como estas linhagens são potencialmente imortais e podem se expandir infinitamente, deve ser possível a testagem destas células e não somente realizar a testagem na época da doação. Claramente os testes para vírus e príons devem ser validados dentro deste contexto antes que se usem estas células como instrumento de dosagem.
A pressa para ser o primeiro a usar linhagens celulares para a terapia pode comprometer a segurança de receptores e desacreditar esta terapia. Este precaução é presente na Índia e na Rússia, onde a intervenção do Governo tenta limitar ou prevenir o aumento do número de clínicas oferecendo curas por meio de células-tronco para toda sorte de doenças. Apesar dos dados preliminares insuficientes sobre a segurança ou dos dados insuficientes de pesquisas com animais, ensaios usando células derivadas de medula óssea autólogas têm sido realizados em pacientes com doença cardíaca, situações em que a urgência e a necessidade terapêutica poderiam justificar a implementação imediata do método. Porém a urgência não é justificativa para uma má ciência. Experimentos animais devem ser conduzidos para a melhor compreensão do destino e da integração das células transplantadas e dos riscos de neoplasias originadas nas células implantadas em um novo meio ambiente. A ética de transferir células humanas para animais, para o desenvolvimento de novas terapias para doenças debilitantes, deve ser considerada como parte do debate sobre células-tronco.
Companhias comerciais têm proclamado por todo o mundo que uma nova era está surgindo, porém com perda seletiva da memória para o fato de que grandes expectativas levam a grandes desilusões. Só podemos esperar que um fracasso financeiro imediato na comercialização de terapias celulares não faça desaparecer esta promissora tecnologia. A terapia com células-tronco deve ser explorada com segurança e metodicamente para que possa oferecer reais benefícios para muitos pacientes no futuro.
References
1. Select Committee of the House of Lords. Stem cell research-report. London: Stationery Office, 2002. www.parliament.the-stationery-office.co.uk/pa/ld200102/ldselect/ldstem/83/8301.htm (accessed 13 May 2005).
2. Medicines and Healthcare products Regulatory Agency. Rules and guidance for pharmaceutical manufacturers and distributors. London: Department of Health,1997. http://medicines.mhra.gov.uk/inforesources/publications/orangeguide.htm (accessed 13 May 2005).
3. Centers for Disease Control and Prevention. Creutzfeldt-Jakob disease in patients who received a cadaveric dura mater graft-Spain 1985-1992. Morb Mortal Wkly Rep MMWR 1993;42:560-3. http://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/00021225.htm
4. Llewelyn CA, Hewitt PE, Knight RS, Amar K, Cousens S, Mackenzie J, et al. Possible transmission of variant Creutzfeldt-Jakob disease by blood transfusion. Lancet 2004;363: 417-21.
5. Peden AH, Head MW, Ritchie DL, Bell JE, Ironside JW. Preclinical vCJD after blood transfusion in a PRNP codon 129 heterozygous patient. Lancet 2004;364: 527-9.
6. Department of Health. A code of practice for tissue banks providing tissues of human origin for therapeutic purposes. 2001. www.dh.gov.uk/PublicationsAndStatistics/Publications/PublicationsPolicyAndGuidance/ PublicationsPolicyAndGuidanceArticle/fs/en?CONTENT_ID=4006116&chk=8VQR%2B5
7. Directive 2004/23/EC of the European Communities and of the Council of 31 March 2004 on setting standards of quality and safety for the donation, procurement, testing, processing, preservation, storage and distribution of human tissues and cells. Official J Eur Union 2004. http://europa.eu.int/eur-lex/pri/en/oj/dat/2004/l_102/l_10220040407en00480058.pdf (accessed 13 May 2005).
8. Jayarama KS. Indian regulations fail to monitor growing stem-cell use in clinics. Nature 2005, March 17: 434, 259.
9. Danilova, M. Stem cell craze spreads in Russia. Associated Press: http://apnews.myway.com/article/20050314/D88QNPG80.html
10. Schachinger V, Assmus B, Britten MB, Honold J, Lehmann R, Teupe C, et al. Transplantation of progenitor cells and regeneration enhancement in acute myocardial infarction: final one-year results of the TOPCARE-AMI Trial. J Am Coll Cardiol 2004;44: 1690-9.
11. Rifkin J. Are you a man or a mouse? Guardian 2004, 15 March. www.guardian.co.uk/comment/story/0,,1437701,00.html (accessed 13 May 2005).
Fonte: BMJ 2005;330:1159-1160 (21 May), doi:10.1136/bmj.330.7501.1159
Aventis