Quando nossos netos e bisnetos forem vacinados com DNA, certamente estarão sendo tratados melhores do que nós vacinados com as vacinas tradicionais
Eloi S. Garcia é pesquisador e ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz, membro da Academia Brasileira de Ciências. Artigo enviado pelo autor ao "JC e-mail":
Vacinas são antígenos produzidos por microorganismos mortos ou "atenuados" ou por subunidades vacinais, antes de serem inoculados nas pessoas para protegê-las da infecção.
As subunidades vacinais são produzidas por componentes estruturais dos agentes (vírus ou bactéria) infecciosos.
Essas subunidades são proteínas ou polissacarídeos obtidos dos microorganismos causadores das doenças e "reconhecidas" pelo sistema imune produzindo anticorpos.
Por exemplo, pode-se usar como subunidade vacinal um antígeno protéico encontrado na superfície do vírus da hepatite B.
Ou seja, o sistema imune "responde" a esta proteína vacinal de maneira semelhante a que "responderia" ao vírus completo da hepatite B.
As vacinas "mortas" ou as subunidades vacinais têm a vantagem de evitar a reversão da "atenuação" do microorganismo, o que pode tornar o agente vacinal em causador da doença.
As subunidades vacinais ainda têm a vantagem de causar menor efeito colateral se comparadas às duas outras formas de vacinas.
A reação do sistema imune a uma infecção depende de resposta humoral e celular. A primeira envolve a produção de anticorpos, que como mísseis biológicos, atacam o agente infeccioso.
Quando o sistema imune "reconhece" o microororganismo morto ou alguma molécula do agente infeccioso, a resposta humoral é desencadeada.
As doenças virais ativam a resposta celular e esta, como a infantaria, age e envolve o microorganismo para combatê-lo.
As vacinas virais "atenuadas" induzem a resposta celular porque os vírus chegam a infectar células, e estas passam a produzir proteínas virais que ativando a produção de anticorpos.
O que são vacinas de DNA? São moléculas de DNA, que combinam o que há de melhor nos imunobiológicos tradicionais.
Ou seja, são vacinas menos complexas em termos estruturais e que produzem melhor imunidade nos indivíduos.
As vacinas de DNA agem como subunidades vacinais, e desde que codifiquem somente proteínas imunizantes específicas, são mais seguras e possui efeito colateral mínimo.
Entretanto, diferentemente das subunidades vacinais, a vacina age como uma vacina "atenuada" devido o DNA penetrar nas células e produzir proteína imunizante específica.
A vacina de DNA mimetiza uma infecção viral, sendo que a proteína viral imunizante é induzida pelo DNA vacinal.
Além de serem mais efetivas do que as vacinas "mortas" e subunidades vacinais e mais seguras do que as vacinas "atenuadas", as vacinas de DNA são baratas, rápidas de produzir e estáveis.
Em um país tropical como o nosso, as vacinas tradicionais são transportadas para mais de 5.000 municípios e mantidas em recipientes refrigerados dispendiosos.
As vacinas de DNA são resistentes à temperatura ambiente, e podem ser transportadas para qualquer canto do país de modo mais prático e mais barato.
A vacina de DNA é produzida em laboratório básico de biologia molecular, onde é desenvolvida em cultura de bactéria.
Posteriormente, extrai-se e purifica-se o DNA infectante da bactéria, podendo assim o DNA ser inoculado no paciente.
Devido à complexidade estrutural dos microorganismos torna-se difícil o desenvolvimento de vacinas tradicionais.
Utilizando-se a tecnologia do DNA podem tornar-se mais fácil conseguir vacinas contra malária, doença de Chagas, esquistossomose, Leishmaniose e dengue.
A utilização comercial das vacinas de DNA para combater as nossas endemias deve demorar de cinco a dez anos.
No entanto, quando nossos netos e bisnetos forem vacinados com DNA, certamente estarão sendo tratados melhores do que nós vacinados com as vacinas tradicionais.
artigo de Eloi S. Garcia
Jornal da Ciência- SBPC