Genética/Clonagem/Terapia gênica - Grupos fecham genoma de T. cruzi e de causadores de doença do sono e leishmaniose
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Genética/Clonagem/Terapia gênica

Grupos fecham genoma de T. cruzi e de causadores de doença do sono e leishmaniose

16/07/2005



Grupos fecham genoma de T. cruzi e de causadores de doença do sono e leishmaniose; remédio "geral" pode ser opção

Reinaldo José Lopes e Ricardo Bonalume Neto escrevem para a “Folha de SP”:

Três dos parasitas que mais infernizam as populações pobres do planeta tiveram o conjunto de seu DNA soletrado por um grupo internacional de pesquisadores.

É o primeiro passo para descobrir brechas importantes na armadura dos três vilões de uma célula só: Trypanosoma cruzi, causador do mal de Chagas; seu parente T. brucei, responsável pela doença do sono; e Leishmania major, um dos causadores da leishmaniose.

Os estudos que detalham e comparam os genomas das criaturas estão na revista "Science" (http://www.sciencemag.org) de hoje, e contaram com a participação de diversos pesquisadores brasileiros.

Entre as instituições envolvidas estão a UFMG, Unifesp (Universidade Federal de SP), USP e Fundação Oswaldo Cruz.

Disponibilizar de uma vez os três mapas genéticos tem uma vantagem: os cientistas já conseguiram comparar as moléculas do trio e descobriram que há numerosos pontos em comum entre eles.

Não é impossível, portanto, que o futuro traga um medicamento "guarda-chuva", capaz de matar os três com uma cajadada só.

"Graças a esses estudos, os cientistas estão bem mais próximos de desenvolver remédios eficazes do que estavam cinco anos atrás", afirmou em comunicado oficial Najib El-Sayed, do Instituto de Pesquisa Genômica em Maryland (EUA), que coordenou a decifração do genoma do T. cruzi. Carlos Renato Machado, biólogo do Depto. de Bioquímica e Imunologia da UFMG, preferiu ser mais sóbrio: "É um alicerce. Agora você tem na mão um grande conjunto de dados que precisa ser mais estudado."

Chaga aberta

O causador do mal de Chagas é, de longe, o que mais mete medo. Estima-se que 18 milhões de pessoas estejam infectadas com o T. cruzi. As mortes estariam por volta de 21 mil ao ano, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.

Não há medicamento conhecido que possa curar a infecção, nem vacinas disponíveis para barrar o parasita, que afeta de forma devastadora órgãos como o coração.

A dificuldade não é por acaso: o genoma mostra que se trata de um participante bizarramente sofisticado do jogo da evolução. Segundo Machado, apesar do genoma, ainda não se conhece com certeza o número de cromossomos (as estruturas enoveladas que abrigam o DNA) da criatura.

"Aliás, o número e tamanho dos cromossomos pode variar em diferentes cepas do parasita", completa o biólogo José Franco da Silveira, do Depto. de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Unifesp, outro brasileiro envolvido no estudo.

A esquisitice não diminui a complexidade do T. cruzi. Estima-se que ele tenha cerca de 12 mil genes (mais ou menos a metade da atual conta para seres humanos), muitos dos quais parecem conter o "código" para a fabricação de proteínas da mesma família, com algumas pequenas variações.

"Essa repetição é muito interessante, embora o que ela significa ainda não esteja muito claro", afirma Machado, que trabalhou com Santuza Ribeiro Teixeira, também da UFMG, estudando os genes que o parasita usa para consertar o próprio DNA.

Uma pista sobre isso pode estar nos tipos de gene "multiplicados". Muitos codificam proteínas da superfície das células do parasita, "relacionadas com a virulência [capacidade de causar doença] e evasão do sistema de defesa do organismo", afirma Silveira.

Ou seja, estariam ligadas à capacidade de enganar as células humanas que o T. cruzi precisa invadir para sobreviver. Outros trechos de DNA muito abundantes poderiam ser chamados de "genes-ladroeira". Daniella Bartholomeu, bióloga mineira que faz pós-doutorado com a equipe de El-Sayed nos EUA, explica.

"O parasita, por exemplo, não é capaz de sintetizar ácido siálico. Por isso "rouba" essa molécula do hospedeiro", diz Bartholomeu.

As substâncias do T. cruzi e do T. brucei que fazem esse serviço sujo, conhecidas como trans-sialidases, poderão ser alvos de drogas contra eles, conta a bióloga, uma vez que estão presentes nos parasitas mas não nos hospedeiros -ou seja, menos chances de efeitos colaterais.

A equipe identificou vários outros alvos potenciais. O obstáculo para torná-los reais, contudo, não é só científico.

Doenças de pobre

"O grande problema nessa área é que o desenvolvimento de drogas não é muito atrativo do ponto de vista econômico para as companhias farmacêuticas", diz Daniella Bartholomeu. Ou seja: doenças que afetam pobres não parecem uma fonte muito promissora de lucros.

Mas, ressalva a pesquisadora, "o desenvolvimento de uma droga única capaz de combater os três parasitas seria mais atrativo". É esperar para ver.

Leishmania "modelo" revela suas fraquezas

Os microrganismos do gênero Leishmania causam duas doenças devastadoras: a tegumentar, que destrói a pele e a mucosa, e a visceral, que afeta fígado, baço e outros órgãos. O genoma do L. major deve ajudar a entender e combater esses males.

"Ele funciona como modelo do gênero, porque a sua interação com o sistema imune é bem conhecida. Além disso, é difícil trabalhar com os outros Leishmania em laboratório", explica Angela Cruz, pesquisadora da USP de Ribeirão Preto.

Junto com o pós-doutorando Jeronimo Ruiz, a pesquisadora foi responsável por parte do seqüenciamento e da análise dos genes no cromossomo 2 do parasita. "O interessante é que em breve teremos o genoma de outros, como o L. brasiliensis, e a comparação deve trazer dados importantes", diz.

Dois dos genes encontrados parecem alvos interessantes: é com eles que o microrganismo parece enganar as células do sistema de defesa do organismo que invade.

Mais de 6.000 genes pertencem a trio

Os três parasitas são diferentes, são transmitidos por diferentes insetos e causam doenças distintas no ser humano, mas as aparências "macro" enganam. O sequenciamento "micro" do seus genomas revelou um núcleo comum de 6.200 genes, presentes em ordem semelhante.

Isso significa que teoricamente é possível desenvolver uma mesma droga que sirva para atacar o trio. Esse remédio polivalente seria muito útil no Terceiro Mundo, onde as áreas de incidência das doenças tropicais se cruzam e as dificuldades de acesso a tratamento são grandes -além do fato de ainda não existir nenhuma vacina para as três doenças.

Um dos principais autores dos estudos, Peter J. Myler, do Instituto de Pesquisa Biomédica de Seattle (SBRI), afirma que "agora que os genes desses parasitas estão mapeados, é muito mais fácil identificar os genes que são críticos para sua sobrevivência. Eles é que geralmente servem como alvo para drogas".

"Inicialmente, acreditávamos que a organização dos genes entre os parasitas seria bem diferente, mas 70% dos genes ocorrem na mesma ordem", diz Myler. A diferença estaria principalmente no final dos cromossomos.

A vantagem adicional é que vários desses genes parecem ser derivados de bactérias. "Isso é interessante por causa da distância que eles têm do hospedeiro", afirma Angela Cruz, brasileira que participou do projeto do Leishmania. Por isso, Myler os considera um bom foco de estudo.

T. brucei

O sequenciamento do Trypanosoma brucei mostra como a luta é difícil. Transmitido pela mosca tsé-tsé e causando problemas neurológicos que podem afetar o sono, o parasita se revelou ser o que mais variabilidade apresenta nas proteínas da sua superfície -um indicador tradicional da dificuldade de se fazer uma vacina.

Para que o organismo humano fique vacinado e reconheça o inimigo sempre, é melhor que ele seja um alvo constante.

Mas, se ao mesmo tempo o parasita é o que possui o aparato mais complexo para despistar o sistema de defesa do organismo humano, ele é também o que mais depende dele para sobreviver, o que também passa a ser um ponto frágil.

Pois, por mais útil que seja a idéia de uma droga capaz de combater os três microrganismos, os genomas também abrem a chance de se criar armas novas para explorar o calcanhar-de-aquiles de cada um deles.
(Folha de SP, 15/7)

Jornal da Ciênia-SBPC


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