Velhos costumes que representam risco à vida. Em trabalho feito pelo professor de enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Lúcio José Vieira, foi identificada, nos últimos anos, alta mortalidade por tétano entre recém-nascidos no Estado. As más condições em que é feito o corte do cordão umbilical, logo após o nascimento, e as formas como o coto umbilical é tratado, em casa, são as principais causas da incidência da doença. Ao contrário do uso correto de álcool absoluto, muitas mães insistem em manter práticas como a aplicação de azeite, óleo de mamona e até teia de aranha e fumo no local. A falta de imunização contra o tétano entre as gestantes também é um problema.
De acordo com o pesquisador, alguns cuidados antigos ainda estão bastante arraigadas entre as famílias, principalmente na área rural, nas regiões do Norte e Nordeste de Minas. “Aquelas mães que dão à luz com a ajuda de parteiras tendem a manter certos costumes. Mesmo aquelas que são orientadas no hospital, quando chegam em casa adotam práticas antigas, pois acreditam na experiência de outras pessoas. O que realmente ocorre é que a bactéria, que causa o tétano, encontra condições ideais para se produzir nesses produtos aplicados”, explica.
O uso de materiais não esterilizados, como tesoura, no momento do parto, também contribui para os altos índices de tétano neonatal. O pesquisador constatou que, entre 1997 e 2002, o tétano matou 25 bebês em Minas, uma média de 4,3 óbitos por ano.
Essa mortalidade é considerada preocupante, conforme os parâmetros da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma vez que a rede pública já oferece vacina eficaz contra a doença. De acordo com o pesquisador, um caso de tétano por ano já é considerado pela OMS como situação epidêmica. “Conhecemos bem as medidas de controle da doença e a vacina contra o tétano, disponível em toda rede pública, é bastante eficaz. Meu interesse, no início do trabalho de pesquisa, era entender porque crianças ainda morrem dessa doença”, conta.
CAMPO A tese de doutorado, defendida recentemente no programa de pós-graduação em enfermagem de saúde pública, da USP-Ribeirão Preto (SP), será encaminhado aos gestores da rede pública e apresentado, semana que vem, na Secretaria Nacional de Ações Básicas de Saúde, no Ministério da Saúde. Durante os sete meses de trabalho de campo, o pesquisador localizou 19 das 26 mães que perderam seus filhos por tétano. “A maioria são mulheres da área rural, que não tiveram acesso aos serviços de saúde e não fizeram o pré-natal. Verifiquei que também houve falhas no sistema de vigilância epidemiológica, já que, em alguns casos a mãe havia perdido o filho por tétano e estava grávida novamente, sem ter sido imunizada. Muitas atribuem a morte do filho a apenas um chamado de Deus”, lembra. (LM)
Fonte: Estado de Minas, 20/07/05