Mascarenhas, na Terra Quente de Trás-os-Montes, uma aldeia anônima do interior do país. Provavelmente, nunca terá figurado no roteiro dum curioso de patrimônio. Acontece que um dia um casal de jovens urbanos respondeu ao apelo do mundo rural. A Luísa, uma filha da terra, e o Vítor deixaram Braga para Mascarenhas. Descobriram uma casa, em avançado estado de degradação, constituída por uma ala de habitação e um antigo lagar de azeite. Restaurou-se a casa em si, pondo entre parêntesis a área industrial do prédio.

Em 1993, os Lopes ainda estavam virados para a cidade, empenhados num negócio familiar de enchidos tradicionais e transformação de fumeiros de Trás-os-Montes, sediado em Mirandela. As coisas complicaram-se e a família recolheu, "acabamos por mudar de azimute, voltamo-nos para nós próprios e para a nossa casa." Este, revelou-se o momento ideal para a realização de um velho sonho. Vítor explica que "era uma aspiração antiga da minha mulher ter um restaurante, em virtude da boa mão que tem para a cozinha, acabamos por vislumbrar aqui nestes escombros a possibilidade de realizar essa ambição e acabamos por fazer a reconversão do lagar em restaurante."
Em 1998, foi o início da aventura. "A minha mulher que é otimista por natureza, nunca duvidou da viabilidade do negócio. Eu, pelo contrário, achava que haveria alguns espinhos que era preciso vencer." A fada da cozinha ganhou a aposta, contornando obstáculos estruturais. "Nós estamos num meio rural, muito deprimido, com uma taxa demográfica muito baixa, o que inviabiliza um pouco o negócio, quer pela sua vertente de consumo, que é escasso, quer também pela vertente da mão-de-obra, que é muito limitada." Desta feita, segundo o elemento mais racional do casal Lopes, "qualquer iniciativa empresarial neste meio é muito mais difícil do que noutros meios." Em contrapartida, verificam-se tradições locais e fenômenos contemporâneos, que vêm equilibrar a balança: melhores vias de comunicação, que ligam o litoral ao interior, uma certa apetência pela ruralidade, pelos ambientes agrestes de Trás-os-Montes e o enquadramento numa zona de caça conceituada, que ativa um turismo cinegético, bastante marcado pela sazonalidade. Do ponto vista do espaço e do tempo, é impossível não constatar e não relevar o caráter externo e pontual destes movimentos populacionais.
Os ingredientes da receita do "Museu do Azeite" consistem na originalidade do espaço físico e na qualidade da gastronomia. O lagar e o restaurante, perfeitamente integrados um no outro, formam um todo harmonioso e quente. As empregadas servem as benesses gastronômicas da chefe Luísa, ao som de melodias populares e guitarras de jovens músicos locais. Curiosamente, estes condimentos não são em si uma garantia de sucesso. "Outra das dificuldades, é o fato de nós não vivermos num meio que valorize a gastronomia como um patrimônio cultural, regional." A valorização vem de fora. Assim, é de destacar que o "Museu do Azeite" contou com o apoio de padrinhos importantes. Vítor Lopes conta, "tivemos a felicidade, logo nos primeiros meses de sermos visitados por órgãos de comunicação social de expressão nacional, como a Rádio TSF, o Semanário Expresso e outras revistas também dedicadas a estas coisas da vida no campo."
O valor x da gastronomia tradicional
É uma questão de evolução histórica e social, é uma questão de cultura? A gastronomia tradicional é um valor em alta em certos meios, enquanto que está em baixa constante, ou nunca foi cotado, noutros. Será que os restaurantes são tão caros, que só lá pode ir o senhor doutor? Será que o Zé Povinho já só dá valor aos bens materiais? Os urbanos sonham viver no campo. Os rurais agarram-se a menor oportunidade para fugir para a cidade. Onde é que fica a razão? Vítor Lopes propõe a sua análise pragmática destas novas realidades. "O tipo de desenvolvimento que se gerou para o interior com a constituição de cidades médias, como Mirandela, que emprega grande parte das pessoas que vivem no interior, acaba por gerar uma certa ânsia de tipo urbano, de forma que, há valores que se vão perder. Na gastronomia, por exemplo, o fast-food é uma ambição mais notória do que, propriamente, a gastronomia tradicional. É mais provável que abra, dentro de pouco tempo, nestas cidades o MacDonald, do que propriamente uma réplica do Museu. Temo que haja uma continuação da degradação da gastronomia como valor cultural e como valor econômico para a região. Nós vivemos muito mais para as pessoas que nos vêm visitar. É gente de fora que tem mais apetência por isto do que propriamente os locais. Os locais têm mais necessidade de fazer o percurso ao contrário: frequentar um bom shopping center no litoral, e comer hamburgers e pizzas."
É um dever das associações de desenvolvimento local travar e inverter este movimento, aumentando a qualidade de vida das populações, impulsionando oportunidades e iniciativas econômicas para o território, disseminando a filosofia do desenvolvimento local. O Museu situa-se no território da Associação para o Desenvolvimento da Terra Quente – Desteque, que aprovou um projecto da família Lopes, precisamente, ligado ao apoio à divulgação, através de vários instrumentos, como por exemplo, a Internet ou a sinalética para a localização do projeto. Olhando melhor, o Museu também é agente de desenvolvimento local. Desde que figura na rota de qualquer amante da gastronomia que se preze, Mascarenhas nunca terá sido tão visitada. "Nós geramos alguma riqueza, que vamos distribuindo: pelos produtos locais que procuramos, os ordenados das senhoras que trabalham aqui. Também se escoa alguma produção local através do contacto das pessoas que vêm cá. As pessoas gostam do impacto que isso gera na comunidade. Precisamos dessa simbiose, não vivemos numa ilha."

Falta acrescentar um detalhe importante: as jovens que servem à mesa e os jovens, responsáveis pelo ambiente musical são estudantes locais. Além de lhes proporcionar com este trabalho o princípio da constituição dum pé-de-meia, "vamos formando-os como pessoas, mesmo a nível da educação cívica, e vamos procurando fazer o seu enriquecimento pessoal." Quem falou numa ilha?
Maria do Rosário Aranha
Restaurante Museu do Azeite
Mascarenhas (a 10 km da cidade de Mirandela) -Portugal
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