Psiquiatria e Psicologia - Abuso e Dependência da Anfetamina
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Psiquiatria e Psicologia

Abuso e Dependência da Anfetamina

14/06/2003

 

Associação Brasileira de Psiquiatria

INTRODUÇÃO

As anfetaminas foram sintetizadas na década de 30. O propósito era o tratamento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, então denominado hiperatividade ou disfunção cerebral mínima. Atualmente, existem indicações para o tratamento da transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, da narcolepsia e da obesidade com restrições 1 (D). Nos últimos 20 anos, anfetaminas modificadas têm sido sintetizadas em laboratórios clandestinos para serem utilizadas com fins não-médicos (Quadro 1). A mais conhecida e utilizada no Brasil é a 3,4-metilenedioxi-metanfetamina (MDMA), o ecstasy, uma metanfetamina inicialmente identificada com os clubbers e suas festas, conhecidas por raves.

O consumo no Brasil é pouco conhecido. Um estudo com adultos de uma cidade brasileira mostrou uma prevalência de 1,3%, sendo que 80% destes usuários possuía prescrição médica para consumir esta substância 3 (B). Entre estudantes, o uso das anfetaminas é eminentemente feminino, provavelmente com o intuito de perder peso 4 (D). Desse modo, nota-se a existência de diferentes tipos de usuários, cujo consumo de anfetamina tem propósitos diversos 5 (D) (Quadro 2):

As anfetaminas são estimulantes do SNC, capazes de gerar quadros de euforia, provocar a vigília, atuar como anorexígenos e aumentar a atividade autonômica dos indivíduos 6 (D) (Quadro 3). Algumas são capazes de atuar no sistema serotoninérgico, aumentando a liberação do neurotransmissor na sinapse ou atuando como agonista direto. Essa propriedade parece ser a responsável pelos efeitos alucinógenos de algumas anfetaminas: o ecstasy (MDMA) e similares têm grande afinidade pelos receptores serotoninérgicos 5HT e 5HT 27 (D).

COMPLICAÇÕES AGUDAS

Quadros ansiosos agudos, com sintomas de inquietação, podem aparecer na intoxicação aguda ou overdose. Irritabilidade, tremor, ansiedade, labilidade do humor, cefaléia, calafrios, vômitos, sudorese e verborragia podem acompanhar este estado, que necessitará de farmacoterapia 8 (D). Ansiolíticos benzodiazepínicos podem ser prescritos em doses usuais 9 (D).

O uso endovenoso (pouco freqüente no Brasil) produz um quadro de intenso prazer (rush ou flash) , sensação de poder, hiperexcitabilidade, euforia e aumento da libido. Comportamentos agressivos podem aparecer. A tolerância e fissura pelo flash levam a um padrão de uso compulsivo por um longo período, seguido de exaustão e períodos prolongados de descanso. Sintomas paranóides podem surgir durante a intoxicação 6 (D). Há problemas relacionados ao uso injetável, como: infecções, endocardites e abs-cessos.

Cristais de metanfetaminas, como o ice ou o crystal (desconhecidas no Brasil), são fumadas em cachimbos de vidro, podendo também serem injetadas ou inaladas. O efeito é prolongado (2 a 24 horas) e os sintomas euforizantes e estimulantes são intensos. Sintomas psicóticos podem aparecer. Há ocorrência de bruxismo, tiques e anorexia 2 (D).

O ecstasy (MDMA) é habitualmente consumido em tabletes ou cápsulas, contendo cerca de 120mg da substância 7 (D). Produz um quadro de euforia e bem-estar, sensação de intimidade e proximidade com os outros. Outros efeitos são a anorexia, taquicardia, tensão maxilar, bruxismo e sudorese. A duração dos efeitos é 4 a 6 horas e o desenvolvimento de tolerância rápida impede o uso compulsivo e aditivo 7 (D). Crises hipertensivas, precordialgias, arritmias cardíacas, hepatites tóxicas, hipertemia, convulsões, rabdomiólise e morte já foram relatadas. Sintomas ansiosos e psicóticos agudos e crônicos (em indivíduos pre-dispostos) podem aparecer 2 (D).

As principais complicações ameaçadoras à vida na overdose por anfetaminas são a hipertemia, hipertensão, convulsões, colapso cardiovascular e traumas. Edemas pulmonares cardiogênico são possíveis 2 (D).

SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA

A síndrome de abstinência chega a atingir cerca de 87% dos usuários de anfetamina 9 (C).

Sintomas depressivos e exaustão podem suceder períodos prolongados de uso ou abuso (Quadro 4). Sintomas mais pronunciados de abstinência foram observados em usuários de metanfetaminas pela via inalatória (ice e crystal)2 (D).

TRATAMENTO

O tratamento medicamentoso para a remissão dos sintomas de abstinência das anfetaminas não tem se mostrado promissor 10 (A). Antide-pressivos e agonistas dopaminérgicos foram in-vestigados sem sucesso 11 (A). As condutas medicamentosas seguem critérios adotados pela clínica individual, quando os pacientes são tra-tados suportivamente, mantendo as condições vitais adequadas. Benzodiazepínicos de ação curta podem ser utilizados 12 (D).

COMPLICAÇÕES CRÔNICAS

Pessoas que desejam melhorar seu desempenho social utilizam anfetaminas cronicamente em baixas doses (20-40mg/dia) e de modo socialmente imperceptível. Tais indivíduos expõem-se a esforços e atividades desnecessárias, resultando em fadiga excessiva. Sua crítica sobre   relação entre a fadiga e ao uso prolongado de anfetaminas é prejudicada. A tentativa de  abandonar ou diminuir o uso resulta em depressãoe letargia 2 (D). O uso crônico torna-o distante da realidade, irritado, paranóide e impulsivo, descuidado com a aparência e seus com-promissos.

Pode haver suicídio decorrente da impulsividade do uso ou da depressão nos períodos  de exaustão 8 (D).

Sintomas psicóticos com sintomas de primeira ordem podem ocorrer em qualquer modo de uso. Normalmente, os acometidos são usuários crônicos, que utlizam anfetaminas em grande quantidade 13 (C). As principais características são a presença de delírios persecutórios e auto-referentes, além de alucinações auditivas e visuais 14 (C). O tratamento pode ser feito com neurolépticos ou benzodiazepínicos 12 (D).

Quanto às complicações clínicas, o uso crônico leva a estados de desnutrição e a complicações como infarto agudo do miocárdio, cegueira cortical transitória, cardiopatias irreversíveis, vasoespasmos sistêmicos e edema agudo de pulmão 2 (D).

DEPENDÊNCIA

As anfetaminas são capazes de causar dependência, porém boa parte dos indivíduos não procura auxílio especializado. Além disso, não há abordagens específicas e baseadas em evidências para esses pacientes 11 (A), no entanto, considerar o consumo de anfetamina entre indivíduos que apresentam quadros sugestivos de complicação da substância (em busca do diagnóstico precoce), bem como motivá-los para buscar tratamento especializado, melhora o prognóstico destes 15 (D).

REFERÊNCIAS

1. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) Parecer técnico-científico do Grupo Assessor de Estudos sobre Medicamentos Anorexígenos. D.º 21/07/2002. Disponível por URL:http://www.abeso.org.br/informes/informe2.htm

2. Ellenhorn MJ, Schonwald S, Ordog G, Wasserberger J. Amphetamines and designer drugs. In: Ellenhorn MJ, Schonwald S, Ordog G, Wasserberger J, editors. Ellenhorn’s medical toxicology - diagnosis and treatment of human poisoning. Maryland: William & Wilkins; 1997. p. 340-55.

3. de Lima MS, Beria JU, Tomasi E, Mari JJ. Use of amphetamine-like appetite suppressants: a cross-sectional survey in Southern Brazil. Subst Use Misuse 1998; 33:1711-9.

4. Galduróz JC, Noto AR, Carlini EA. IV Levantamento sobre o uso de drogas entre estudantes de 1º e 2º graus em 10 capitais brasileiras. São Paulo: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID); 1997.

5. World Health Organization. Amphetamine-type stimulants. Geneve: OMS; 1997.

6. Gold MS, Herkov M. The pharmacology of cocaine, crack and other type stimulants. In: Graham AW, Schultz TK, Wilford BB editors. Principles of addiction medicine. Chevy Chase: ASAM; 1998. p.137-46.

7. Laranjeira R, Dunn J, Rassi R, Fernandes M. "Êxtase" (3,4-metilenodioximetanfetamina-MDMA): uma droga velha e um problema novo. Rev APB-APAL 1996; 18:77-81.

8. Wilkins JN, Conner BT, Gorelick DA. Management of stimulant, phencyclidine, hallucinogen, marijuana and multiple drug intoxication and withdrawal. In: Graham AW, Schultz TK, editors. Principles of addiction medicine. Chevy Chase: ASAM; 1998. p. 465-86.

9. Cantwell B, McBridge AJ. Self detoxification by amphetamine dependent patients: a pilot study. Drug Alcohol Depend 1998; 49:157-63.

10. World Health Organization (WHO). Systematic review of treatment for amphetamine-related disorders. Geneve: WHO; 2001. p. 9.

11. Srisurapanont M, Jarusuraisin N, Kittirat-tanapaiboon P. Treatment for amphetamine withdrawal. Dtaabase Syst Rev 2000; 4:CD003021.

12. Gawin FH, Ellinwood EH Jr. Cocaine and other stimulants. Actions, abuse and treatment.
N Engl J Med 1988; 318:1173-82.

13. Hall W, Hando J, Darke S, Ross J. Psychological morbidity and route of administration among anfetamine users in Sidney, Australia. Addiction 1996; 91:81-7.

14. Yui K, Ykemoto S, Goto K. Factors for susceptibility  to episode recurrence in spontaneous recurrence of methamphetamine psychosis.Ann N Y Acad Sci 2002; 965:292-304.

15. Bruce M. Managing amphetamine dependence. Adv Psychiatry Treat 2000; 6:33-40.

 

 


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