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Associação Brasileira de Psiquiatria
INTRODUÇÃO
Com exceção do éter e do clorofórmio, já utilizados como anestésicos gerais, os solventes não possuem qualquer finalidade clínica. Eles são compostos de hidrocarbonetos alifáticos e aromáticos, facilmente voláteis, presentes numa série de produtos, tais como aerossóis, vernizes, tintas, propelentes, colas, esmaltes e removedores 1 (D) (Quadro 1).
A inalação voluntária dessas substâncias ocorre em várias par-tes do mundo. No Brasil, os solventes estão entre as drogas mais usadas por estudantes de escolas públicas 2 (C) e entre adolescentes de baixa renda 3 (C). Trabalhadores da indústria podem apresentar problemas agudos e crônicos decorrentes da exposição à ação de solventes 4 (C). Diversos usuários crônicos apresentam quadros neurológicos graves 5 (D).
Após a inalação, os solventes alcançam os alvéolos e capilares pulmonares e são distribuídos pelas membranas lipídicas do organismo. O pico plasmático é atingido entre 15 a 30 minutos 1 (D). O metabolismo é variável: nitratos e hidrocarbonetos aromáticos são metabolizados pelo sistema hepático microssomal. Alguns solventes possuem metabólitos ativos mais potentes que a substância inicial. A eliminação pode ser renal ou pulmonar. O mecanismo de ação dos solventes é pou-co entendido, tendo em vista a variedade de classes químicas envolvidas e a freqüente associação entre solventes e poliabuso. Clinicamente funcionam como depressores centrais 5 (D).
Seus efeitos intensos e efêmeros estimulam o uso continuado (rush), principalmente em usuários crônicos, população com propensão significativa ao uso nocivo e continuado. Há controvérsias quanto à existência de tolerância e síndrome de abstinência para essa classe 5 (D).
COMPLICAÇÕES AGUDAS
Doses iniciais trazem ao usuário uma sen-sação de euforia e desinibição, associada a tinidos e zumbidos, ataxia, risos imotivados e fala pastosa. Com o prosseguimento do uso, surgem manifestações congruentes com a depressão do SNC: confusão mental, desorientação e possíveis alucinações visuais e auditivas. A terceira etapa acentua a depressão central, com redução do estado de alerta, incoordenação motora e piora das alucinações. A intoxicação pode atingir níveis ainda mais profundos de depressão, com estado de inconsciência, convulsões, coma e morte 5 (D). Os solventes são depressores cardíacos (ação miocárdica direta) e respiratórios. Arritmias decorrentes do uso agudo já foram relatadas 6 (D). Traumas relacionados à incoordenação e distraibilidade decorrentes da intoxicação são maiores nessa popu-lação 5 (D).
Intoxicações graves, com depressão repiratória, coma, arritmias cardíacas e convulsões são emergências médicas e devem receber tratamento imediato segundo procedimentos de rotina. Intoxicações menos graves devem receber intervenções suportivas como manutenção dos sinais vitais, controle da agitação até controle do quadro 5 (D).
COMPLICAÇÕES CRÔNICAS
Atrofias corticais e cerebelares são possíveis em usuários crônicos, produzindo sintomas de empobrecimento cognitivo, sintomas relacionados aos nervos cranianos e ataxia 6 (D). A N-hexano (benzina) tem me-tabolismo hepático, com produção de metabólitos ativos causadores de toxicidade para os nervos periféricos, levando a neuropatias 6 (D). Pode haver ainda insuficiência renal crônica, hepatites tóxicas, náuseas, vômitos, dores abdominais difusas, diarréia, pneumonites químicas, tosse e broncoespasmos 6 (D). A abstinência é o melhor a ser feito nestes casos. O tratamento de cada uma das complicações deve ser prescrito de acordo com diretrizes específicas.
REFERÊNCIAS
1. Pandina R, Hendren R. Other drugs of abuse: inhalants, designer drugs and steroids. In: McCrady BS, Epstein EE, editors. Addictions – a comprehensive guidebook. New York: Oxford University Press; 1999.p. 171-86.
2. Galduróz JC, Noto AR, Carlini EA. Ten-dências do uso de drogas no Brasil: síntese dos resultados obtidos sobre o uso de dro-gas entre estudantes de 1º e 2º graus em 10 capitais brasileiras. UNIFESP-EPM – Departamento de Psicobiologia. Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID).
3. Carlini-Cotrim B, Carlini EA. O consumo de solventes e outras drogas em crianças e adolescentes de baixa renda na Grande São Paulo. Parte II: meninos de rua e menores internados. Rev ABP-APAL 1987; 8:69-77.
4. Neubert D, Bochert G, Gericke C, Hanke B, Beckmann G, Toluene Field Study Group. Multicenter field trial on possible health effects of toluene. I. Toluene body burdens in workers of the rotogravure industry.Toxicology 2001; 168:139-57.
5. Dinwiddie SH. The Pharmacology of Inhalants. In: Graham AW, Schultz TK, editors. Principles of addiction medicine. Chevy Chase: ASAM; 1998.
6. Health hazards of nitrite inhalants: technical review meeting. March 31, 1987, Rockville, MD. NIDA Res Monogr 1988; 83:1-105.
IMPORTANTE
- Procure o seu médico para diagnosticar doenças, indicar tratamentos e receitar remédios.
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