Ataques epilépticos, verdadeiras tempestades elétricas no cérebro, às vezes são precedidos por uma sensação distinta - a aura epiléptica - que anuncia a chegada da crise. Mesmo que às vezes não haja muito tempo entre a aura e o início da crise, essas anunciações têm uma utilidade: avisando ao dono do cérebro em turbulência que a tempestade se aproxima, elas permitem que medidas de precaução possam ser tomadas.
Dentre aquelas pessoas que sentem a aura, cada caso é um caso. Algumas pessoas sentem um cheiro que "aparece no ar", outras têm uma "visão", ou uma memória que vem à cabeça. E em outras, a aura é um... orgasmo!
Se a aura orgásmica (parece até nome de livro esotérico!) parece ser rara, em parte é certamente porque vários pacientes não mencionam ao médico a natureza da sua aura. As razões são obviamente compreensíveis: além da epilepsia ainda carregar, indevidamente, um estigma de loucura, uma aura orgásmica constitui uma experiência, digamos, muito pessoal. Sendo assim, é natural que o paciente pense duas vezes antes de dizer ao médico que sente orgasmos antes de cada crise...
Felizmente para a ciência, alguns pacientes não se importam de contar a história toda a seu médico - e foi um desses relatos que deu origem a um estudo húngaro publicado na revista Neurology em janeiro de 2002. Intrigado com o caso de uma paciente de 31 anos cujas crises epilépticas eram sempre precedidas de sensações eróticas eufóricas - mais precisamente, de um orgasmo -, o Dr. Jozsef Janszky, do Instituto National de Psiquiatria e Neurologia de Budapest, resolveu vasculhar a literatura científica atrás de casos semelhantes. Encontrou 22 casos, de pacientes homens e mulheres, descritos em artigos médicos publicados desde 1945 que continham informações suficientes de exames eletroencefalográficos - aqueles exames que avaliam a atividade elétrica do cérebro. Não é muito, mas a comparação dos 22 casos mostrava ao menos uma coincidência: em quase 90% dos casos, incluindo a sua paciente, o foco das crises epilépticas localizava-se no lobo temporal do cérebro - aquela região na altura das orelhas. E quando não era no lobo temporal, era perto.
Até aqui quase morreu Neves afogado em cuspe, porque é comum crises epilépticas serem disparadas por focos no lobo temporal do cérebro. O bacana da pesquisa de Janzsky foi encontrar que, além do foco ser no lobo temporal, quase sempre ele se encontrava do lado direito do cérebro. E quando era realizada cirurgia para remover a região afetada no lado direito do cérebro, as crises desapareciam (que bom!), levando consigo a aura orgásmica (ooooooooh...).
Apesar de basear-se essencialmente na localização de focos de atividade anormal no cérebro, o artigo faz uma contribuição importante à compreensão dos mecanismos cerebrais dos prazeres do sexo. Afinal, é perfeitamente razoável assumir que o orgasmo que precede a crise nesses pacientes é causado pela ativação, ainda que proveniente de atividade epiléptica, das mesmas regiões cerebrais que produzem o orgasmo evocado por meios, digamos, mais convencionais. De fato, a maioria dos pacientes diz que as sensações da aura são muito semelhantes àquelas experimentadas durante o sexo ou a masturbação (claro, ou eles não chamariam de orgasmo...). Aliás, para quem não sabia, deixe-se registrado aqui que é possível atingir o orgasmo puramente através da imaginação!
E que regiões cerebrais responsáveis pelo orgasmo seriam estas? Uma forte candidata é a amígdala. NÃO, não é a da garganta, mas a amígdala que fica dentro do cérebro!!!! Trata-se de uma estrutura do tamanho de uma amêndoa - donde o seu nome -, situada mais ou menos no meio do cérebro. Já era sabido que, durante cirurgias do cérebro humano, a estimulação elétrica da amígdala do lado direito do cérebro pode provocar orgasmos. Lembro ao leitor que é comum cirurgias do cérebro serem realizadas com anestesia local; portanto, por mais bizarra que a cena pareça, é perfeitamente possível um paciente na mesa de operação dizer Doutor, não me leve a mal, mas acho que eu estou tendo um orgasmo...
A aura orgásmica que antecipa crises epilépticas, portanto, possivelmente é causada pela ativação da amígdala direita do cérebro, que tem fortes ligações com as regiões temporais cuja atividade elétrica escapa ao controle já antes da crise. O lado direito do cérebro parece ter mesmo um papel predominante quando o assunto é sexo: a produção de hormônios que controlam funções sexuais é um pouco maior do lado direito do cérebro; a excitação sexual é associada a uma ativação predominante do lado direito do cérebro; e durante o orgasmo, o fluxo sangüíneo diminui em várias regiões da superfície do cérebro, menos na região pré-frontal do lado direito, onde, ao contrário, aumenta - ao menos nos oito homens que toparam se masturbar dentro de uma máquina de tomografia computadorizada, em um estudo sueco publicado em 1994.
Dadas todas as chateações de se sofrer de epilepsia, essa história de aura orgásmica até que parece uma compensação interessante. Mas deixa uma pulga atrás da orelha, como observou minha querida conselheira editorial do Cérebro Nosso de Cada Dia. Em todos os casos investigados, as crises apresentavam movimentos convulsivos. Apesar do fato não atrapalhar as conclusões do estudo, vale o comentário da digníssima conselheira: Como é então que os médicos sabem quando termina o orgasmo e começa a convulsão???
Fontes:
Janszky J, Szücs A, Halász P, Borbély C, Holló A, Barsi P, Mirnics Z (2002). Orgasmic aura originates from the right hemisphere. Neurology 58, 302-304.
Kuikka TJ, Kupila J, Partanen K, Vainio P, Airaksinen J, Eronen M, Hallikainen T, Paanila J, Kinnunnen I et al (1994). Increase in cerebral blood flow of right prefrontal cortex in man during orgasm. Neuroscience Letters 170, 241-243.
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