Pessoas com a doença de Alzheimer podem produzir menos proteínas do que as pessoas sadias. É o que sugere a dissertação de mestrado desenvolvida por Adriana Madeira e apresentada ao Departamento de Morfologia da Unifesp.
A doença de Alzheimer provoca progressiva perda da atividade cerebral e muitas vezes é confundida com outras formas de demência.
Em seu trabalho, a pesquisadora analisou a quantidade do RNA ribossômico - molécula que participa da produção de proteínas nas células - em três grupos: 15 jovens, 15 idosos sadios e outros 15 idosos com Alzheimer.
Pela coleta de sangue, de análises radioativas e de contagens feitas por computador, ela estabeleceu comparações. No caso dos jovens, a "quantidade" média da molécula foi de 1,70; nos idosos sadios, 1,64; e, nos pacientes com Alzheimer, esse número ficou em 1,13. "Os resultados confirmam que pessoas com a doença têm menos RNA ribossômico do que pessoas dos outros dois grupos", afirma Adriana. "E a diferença é significativa, estabelecendo mais um marcador da doença."
Segundo ela, como a quantidade de RNA ribossômico é menor, é possível inferir que a capacidade de síntese protéica nos indivíduos com Alzheimer está diminuída.
A menor quantidade de proteínas afeta todo o funcionamento do organismo. "O processo de digestão, por exemplo, é prejudicado, com dificuldades para a degradação eficiente dos alimentos", ilustra.
"Sabemos que existe a diminuição do RNA ribossômico, mas não conhecemos as causas desse decréscimo", afirma Marília Smith, orientadora da dissertação. Segundo ela, essa é uma das linhas de pesquisa que vem sendo desenvolvida pela Genética.
Diagnóstico
O diagnóstico precoce e preciso da doença de Alzheimer ainda é difícil. Ele leva em consideração uma série de variáveis, com exames clínicos e cognitivos, que avaliam aspectos físicos e relacionados à memória. Ainda assim, pode-se dizer que ele é provável. "O definitivo só é possível mesmo através da autópsia cerebral, feita após a morte", destaca Adriana.
Ela lembra que, embora sua pesquisa de forma isolada não determine o diagnóstico da doença, acrescenta mais um elemento que pode se juntar aos outros.
"A confirmação de mais uma característica e marcador da doença de Alzheimer ajuda a compreendê-la melhor. A gente pode entender como se dá esse envelhecimento errado do doente", diz. Para ela, essa é uma das principais contribuições do estudo, que recentemente foi publicado pela revista norte-americana Mechanisms of Ageing and Development.
A análise da orientadora da dissertação caminha na mesma direção. Segundo Marília, a melhor compreensão do funcionamento da doença permite pensar em futuras alternativas de intervenção e tratamento, que poderão inclusive envolver terapias gênicas.
Ansiedade pela cura
A doença de Alzheimer afeta cerca de 20 milhões de pessoas em todo mundo, atingindo principalmente os idosos
acima de 60 anos. Segundo Adriana, a perda da atividade cerebral leva o paciente a uma limitação física e cognitiva e a um distanciamento social progressivo, até a completa alienação e dependência.
Não existem remédios ou tratamentos específicos para a doença. O que se procura é melhorar a qualidade de vida do paciente, indicando atividades físicas e em grupo, terapias com animais e outras medidas paliativas. "Não há um remédio que seja capaz de estacionar ou curar o problema", destaca Adriana.
Por isso, é uma doença muito difícil de ser enfrentada. "Durante o meu trabalho, eu recebi muitas ligações de familiares de pacientes, querendo saber se havia alguma novidade, quais eram os resultados. A ansiedade pela cura é muito grande", afirma. "Daí a importância social de se estudar a doença", conclui.
Francisco Bicudo