INFERTILIDADE PARA O UROLOGISTA GERAL
Jorge Haddad Filho
Agnaldo Cedenho
O casal é considerado infértil quando não ocorre gravidez após um ano de relações sexuais sem uso de qualquer método contraceptivo, uma vez que cerca de 85% dos casais que desejam ter filhos atingem o objetivo nesse intervalo. Os fatores associados à infertilidade conjugal se dividem, de modo apenas didático, em masculinos e femininos, cada um contribuindo igualmente como causa da infertilidade do casal.
NOÇÕES DA FISIOLOGIA DO TESTÍCULO
(observar figura)

A maior parte do volume testicular é representada pelos túbulos seminíferos, entre os quais existe o espaço intersticial contendo as células intersticiais ou de Leydig. A figura permite observar a estrutura dos túbulos seminíferos: fibroblastos (dotados de alguma capacidade contrátil) juntamente com a membrana basal, compõe a lâmina própria; as células de Sertoli revestem internamente o túbulo. Entre as células de Sertoli e em contato direto com suas membranas localizam-se as células germinativas em desenvolvimento. As espermatogônias ocupam o compartimento basal e as células mais diferenciadas, o adluminal.
As células de Leydig sintetizam androgênios (principalmente testosterona) e estrogênios (principalmente estradiol) sob estímulo do LH hipofisário. Por um lado, altas concentrações de testosterona no ambiente testicular são necessárias à espermatogênese e, por outro, esse hormônio é reduzido à di-hidro-testosterona (DHT) nos órgãos alvo, exercendo por esta via sua ação androgênica no fenótipo. Os esteróides produzidos pelas células de Leydig exercem ação inibitória sobre a síntese e secreção de LH (feed back negativo).
As células de Sertoli realizam várias funções.
- através das junções entre as membranas de duas células contíguas, impedem o contato das células germinativas com substâncias do sangue, formando juntamente com a lâmina própria a barreira hemato-testicular, que impede o desenvolvimento de auto-anticorpos contra o epitélio germinativo;
- sintetizam várias proteínas sob estímulo de FSH e testosterona: a ABP (androgen binding protein), liga-se à testosterona e tende a manter o hormônio por mais tempo na luz tubular, favorecendo um aumento na sua ação; a inibina exerce ação inibidora sobre o FSH e
- finalmente, sintetiza várias proteínas (transferrina e ceruloplasmina, dentre outras), que são transferidas da célula de Sertoli para as células do epitélio germinativo, tendo função no desenvolvimento e diferenciação destas últimas.
As células germinativas formarão os espermatozóides. As espermatogônias e os espermatócitos primários são diplóides, enquanto que os espermatócitos secundários e espermátides são haplóides. O conjunto das transformações que a espermátide sofre até que se torne um espermatozóide denomina-se espermiogênese. O tempo necessário para a formação completa de um espermatozóide a partir de uma espermatogônia é de 75 dias e, sua passagem pela via excretora do testículo ocorrem em 15 dias. Assim, a alteração na espermatogênese que acontecer num dado período será verificada apenas após 3 meses.
As relações entre os diferentes elementos descritos não são completamente esclarecidas, conhecendo-se no entanto os seguintes pontos:
- as células de Sertoli interferem:
- no trofismo das células de Leydig provavelmente através da síntese de substâncias difusíveis, de natureza ainda não completamente elucidada,
- nas células germinativas, através da síntese de fatores moduladores do desenvolvimento destas células e
- nos fibroblastos, colaborando para a síntese da membrana basal.
- as células de Leydig interagem com as células de Sertoli através da testosterona, que estimula as sínteses nesta última. Através do mesmo hormônio interferem nos fibroblastos, determinando síntese de substâncias que influirão sobre a célula de Sertoli;
- os fibroblastos parecem ter efeito modulador sobre a ação androgênica na célula de Sertoli, colaborando para a maior eficiência da síntese de proteínas por esta célula; e
- as células germinativas interagem com as células de Sertoli, possivelmente adaptando a síntese protéica das mesmas às necessidades de cada estágio do desenvolvimento do epitélio germinativo.
Todo este complexo mecanismo de interdependência está sob controle dos centros neuro-hormonais hipotálamo-hipofisários. Ao lado das relações já apontadas, pode-se ressaltar ainda o papel da prolactina (PRL) sintetizada pela hipófise, que desempenha papel modulador negativo sobre a secreção de GnRH pelo hipotálamo, influindo assim no papel das gonadotrofinas (LH e FSH) na espermatogênese.
UNIFESP