Obesidade:Adulto/Infantil/Bariátrica - Ideal de corpo perfeito centrado na magreza influencia o desenvolvimento de transtornos alimentares
Esta página já teve 115.736.005 acessos - desde 16 maio de 2003. Média de 27.708 acessos diários
home | entre em contato
 

Obesidade:Adulto/Infantil/Bariátrica

Ideal de corpo perfeito centrado na magreza influencia o desenvolvimento de transtornos alimentares

21/09/2005
Ideal de corpo perfeito centrado na magreza influencia o desenvolvimento de transtornos alimentares, mas não age isoladamente. Fatores familiares e genéticos também estão presentes

 
Ilustração Andrea Melo sobre foto Stela Murgel

Márcia (nome fictício) ouviu falar em transtornos alimentares pela primeira vez durante uma aula de biologia, ainda no colegial. Então com 16 anos, ela mal sabia que a preocupação com o corpo um pouco acima do peso a levaria a desenvolver, meses depois, um desses distúrbios: a bulimia nervosa. No início, apenas fazia dietas, até que começou a provocar vômitos. Depois de perder 1 kg em um mês, se empolgou. No ápice da crise, recorria ao vômito entre cinco e sete vezes ao dia. “Eu queria ser magra para impressionar, mas não tinha ânimo para fazer nada. Combinava com meus amigos para sair e, em cima da hora, desmarcava”, conta a estudante de moda, hoje com 21 anos.

A descrição é de um caso clássico de bulimia nervosa, transtorno caracterizado pela ingestão de grandes quantidades de alimentos seguida por medidas purgativas, como a indução de vômitos ou a utilização de laxantes e diuréticos. O papel sociocultural na origem desses transtornos é tema de debates e as respostas convergem para a mesma direção: o contexto é importante, mas não age isoladamente. “Se os fatores culturais fossem os únicos responsáveis, todas as adolescentes ocidentais estariam doentes”, aponta a psiquiatra Angélica de Medeiros Claudino, coordenadora do Programa de Orientação e Assistência aos Pacientes com Transtornos Alimentares (Proata), do Complexo UNIFESP/SPDM.

Existem dois outros tipos de transtorno alimentar: a anorexia nervosa, caracterizada por uma redução drástica na ingestão de alimentos, acarretando graves problemas de saúde e com um elevado índice de mortalidade (cerca de 10%); e o transtorno de compulsão alimentar periódica (TCAP), quando pessoas, em geral obesas, ingerem grandes quantidades de alimentos num curto período de tempo — sem recorrer a medidas purgativas. O TCAP está em fase de estudos para ser considerado um quadro psiquiátrico. Anorexia e bulimia afetam majoritariamente mulheres.

Os transtornos têm origem multifatorial, sendo alguns aspectos comuns às três classificações, o que dificulta o diagnóstico. Um fator importante, também relacionado ao contexto sociocultural, é a baixo auto-estima. Além disso, jovens com auto-imagem alterada ou com tendência à obesidade são mais suscetíveis à pressão exercida pelo ideal de magreza e, diante da impossibilidade biológica de atingir esse padrão, recorrem às dietas, que agem como um gatilho para os transtornos em mais de 90% dos casos.

De acordo com Mônica Cristina Di Pietro, psiquiatra do Proata, a maior parte das pacientes com transtornos alimentares, principalmente anorexia, apresenta percepção do próprio corpo alterada. Mesmo muito abaixo do peso ideal, essas pessoas se enxergam gordas e mantém os métodos restritivos. “O transtorno da imagem corporal é um dos principais sintomas da anorexia e seu desenvolvimento pode estar ligado a fatores culturais”, completa. A influência do ideal de magreza evidenciou o aumento de casos a partir dos anos 60. Os transtornos, que até então acometiam mulheres jovens, brancas e de nível econômico privilegiado, passaram a atingir pessoas de todas as classes e nacionalidades. Para o filósofo da USP, Renato Janine Ribeiro, é necessário estar atento às demandas criadas pelos meios de comunicação. “A gordura foi sinal de beleza quando a comida era rara. Hoje, ninguém da classe média baixa para cima passa fome, então a magreza passa a ser o seu signo. Isso significa que não podemos pensar em ideais de beleza e de bem-estar sem compreender o quadro social em que se dão”, afirma.

Aspectos Genéticos

Fatores biológicos também devem ser levados em conta. Parentes de primeiro grau de anoréxicos têm 11 vezes mais chances de desenvolver o transtorno que parentes de indivíduos saudáveis; para a bulimia, a chance é 4 vezes maior. Estudos realizados com gêmeos monozigóticos — com carga genética idêntica —, revelam que, caso um tenha anorexia, a probabilidade do outro também desenvolver o transtorno varia entre 50% e 70%; para os dizigóticos, a probabilidade é de 5%. Segundo Claudino, outros estudos revelam alterações neuroquímicas ligadas ao comportamento alimentar, como o controle da saciedade. “Até agora, os estudos foram feitos na vigência da doença, então não se sabe se as alterações observadas já estavam presentes antes da pessoa adoecer ou se são conseqüência da doença já instalada.”

Além disso, mães de pacientes com transtornos são geralmente mais preocupadas com o peso das filhas e chegam a incentivar a adoção de dietas, o que não é tão observado nas mães de garotas normais. Segundo o psiquiatra e psicanalista Domingos Paulo Infante, do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, o fator alimentar é um dos mais importantes no relacionamento durante a infância. “Imagine uma criança que pede alimento, mas que visa o amor materno.

Se a mãe responde sempre com alimento, o sujeito terá de renunciar ao alimento para mostrar que não é isso que pediu”, explica. Independentemente da origem dos transtornos, os profissionais concordam que um dos maiores obstáculos está na adesão ao tratamento. A resistência das pacientes é elevada e a reincidência também — cerca de 30% permanecem cronicamente doentes. “Uma boa parte das pacientes volta ao convívio social e ao peso normal, mas isso não quer dizer que elas deixam de se preocupar com o corpo, é uma questão cultural”, acrescenta Claudino.

Márcia espera que sua recuperação seja permanente. A estudante iniciou o tratamento em fevereiro, graças ao incentivo da mãe de seu namorado, que é psicóloga. Em julho, decidiu passar 20 dias em um clínica de reabilitação. Além de readquirir disposição para as tarefas cotidianas, ela não teve mais episódios de bulimia e faz planos para seu futuro profissional. “Hoje eu vejo nas passarelas o desfile de uma doença, da magreza mórbida. Se realmente me tornar uma estilista, apenas mulheres saudáveis, e não magras, irão desfilar para mim”, completa.

Por Pablo Ferraz

www.unifesp.br


IMPORTANTE

  •  Procure o seu médico para diagnosticar doenças, indicar tratamentos e receitar remédios. 
  • As informações disponíveis no site da Dra. Shirley de Campos possuem apenas caráter educativo.
Publicado por: Dra. Shirley de Campos
versão para impressão

Desenvolvido por: Idelco Ltda.
© Copyright 2003 Dra. Shirley de Campos
 
Hacked by
#TeaMGh0sT

~ DB GOT DROPPED ~