Medicina Esportiva/Atividade Física - Efeitos da cafeína na performance esportiva
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Medicina Esportiva/Atividade Física

Efeitos da cafeína na performance esportiva

08/10/2005
 

 



A cafeína é comumente usada por atletas na sua preparação para o treinamento e competições. Os primeiros estudos sobre o uso da cafeína no esporte datam da década de 70, onde se verificou que com dose de 330 mg de cafeína ingerida 60 minutos antes do esforço, os atletas submetidos a um protocolo experimental aumentaram o tempo de esforço em 19,5%, em um cicloergômetro, com uma intensidade de 80% do VO2 máximo. Foi especulado que o aumento da disponibilidade de AGL resultou em um incremento de sua taxa de oxidação, reduzindo a utilização de glicogênio e portanto retardando o início da fadiga. Esta afirmação teve suporte no decréscimo do quociente respiratório (R) e no aumento dos níveis plasmáticos de glicerol, que foram confirmados em estudos posteriores com protocolos semelhantes e com uma metodologia mais apurada.

Outros autores não encontraram aumento da endurance com o uso da cafeína, com exercícios de média duração, de 20 e 27 minutos. Outros estudos não mostraram a alteração da utilização de substrato em sujeitos treinados, durante exercícios de 45 min de esteira, embora houvesse aumento dos AGL pré exercício. Especularam que o exercício já seria um poderoso estimulante simpático e que mobilizaria AGL por si só, provavelmente mascarando a elevação cafeína-induzida de AGL. Com o treinamento, a oxidação de AGL já seria otimizada, e então a cafeína provocaria pouca potencialização.

Em alguns artigos mais recentes, a influência do condicionamento físico sobre os efeitos ergogênicos da cafeína foi confirmada em exercícios de predominância aeróbia. Cerca de 50 % dos sujeitos do grupo experimental, não treinados, pouparam glicogênio durante os 15 minutos iniciais de exercício a 85% do VO2 máximo frente a uma dose de 9 mg/kg de cafeína. Porém, em um estudo com cafeína na dose de 10 mg/kg de peso corporal em sujeitos não atletas, abstinentes do uso de cafeína e submetidos a protocolo de endurance a 80% do VO2 máximo, não houve diferenças significativas na temperatura retal, tempo total de exercício, consumo de oxigênio, produção de gás carbônico, freqüência cardíaca e percepção do esforço em comparação com grupo placebo. Já em um estudo com desportistas, este resultado foi significativo. Com doses de cafeína entre seis e nove mg/kg, remadores de alto nivel competitivo diminuíram o tempo para finalizar um teste de 2000 metros, realizados em remoergômetro. Foi constatado 1,2% de diminuição do tempo para finalização da prova e aumento de 2,7% da potência média desenvolvida, considerado significativo. Em um protocolo de teste para o tempo de fadiga em uma intensidade 10% abaixo do limiar anaeróbio 2, os autores encontraram uma maior duração de exercício, com o uso de cafeína em uma dose de 5 mg/kg de peso corporal, em homens não treinados abstinentes do uso da substância.

Exercícios de predominância anaeróbia não parecem responder positivamente em relação à cafeína. Em testes de Wingate, o uso de cafeína na dose de 6 mg/kg não mostrou nenhum benefício, em indivíduos jovens e fisicamente ativos, abstinentes do uso da substância. Com a mesma dose, outro autor investigou a possibilidade de melhora do tempo para completar 10 sprints de 20 metros cada, com intervalo de 10 segundos, simulando um jogo de esporte coletivo. Não encontrou diferença significativa na diminuição deste tempo. O mesmo ocorreu após a ingesta de cafeína na dose de 250 mg, por sete sujeitos que foram submetidos a exercícios em cicloergômetro a 100 +/- 5 % do VO2máx. Em um protocolo de fadiga em uma intensidade 10% acima do limiar anaeróbio 2, não houve aumento do tempo de exercício com o uso de cafeína em uma dose de 5 mg/kg de peso corporal, em homens não treinados abstinentes do uso da substância.

Embora existam reportes de uso de cafeína por atletas de força, não há evidências consistentes de aumento da força máxima ou submáxima, in vivo. A justificativa mais provável seria a de que a dose de cafeína relativa à massa muscular envolvida é muito pequena, já que in vivo ou in situ, o uso da cafeína realmente provoca aumento da tensão muscular.

Variações dos efeitos da cafeína na performance esportiva podem ser justificadas frente ao hábito de ingestão de cafeína. A tolerância à cafeína foi estudada e confirmada. Demonstrou-se que não existe efeito ergogênico em consumidores habituais de cafeína, apesar de haver um modesto efeito pré-exercício na concentração de AGL. Já quando a cafeína foi administrada para consumidores habituais após abstinência prévia de cafeína por quatro dias, houve duplicação dos valores de AGL séricos e aumento significativo dos valores de noradrenalina. No entanto, ainda existem contradições neste aspecto, mostrando que o consumo habitual da cafeína não alteraria a resposta ergogênica em relação ao aumento dos AGL, conseqüentemente da endurance, mas que diminuiria a concentração de ADR.

Há também influência da dieta nos efeitos da cafeína. Em um estudo simulando a situação que ocorre comumente com atletas em período de competição, foi administrada uma dieta rica em carbohidratos (CHO) 3 dias antes, e 3 h antes de um exercício com duração de 120 min a 75 % do VO2 máximo. Não houve aumento dos níveis de AGL pré-esforço, nem alterações no quociente respiratório (R) nestas circunstâncias. Quando na condição de dieta normal referente à quantidade de CHO, a cafeína produziu um aumento de 50-100% nos níveis de AGL. Concluiu-se que o uso simultâneo de cafeína e carregamento de CHO prévio ao exercício não mostra mais benefícios que o carregamento de CHO sozinho e pode ainda piorar os benefícios da suplementação prévia de cafeína.

O fato do café não produzir tantos benefícios ergogênicos, quando comparado com a cafeína em forma de cápsulas, mesmo quando em doses equivalentes, pode evidenciar que o café tem outras substâncias químicas que inibem seu potencial ergogênico. Nesta direção, sabe-se que a adição de mais cafeína no café produz efeitos ergogênicos mais significativos 50. Ao encontro desta evidência, há um estudo que utilizou café descafeinado como placebo e a mesma substância adicionada de cafeína na dose de 5 mg/kg de peso corporal. Utilizou-se de um protocolo que representou 77,4 + 10,6% do VO2 máximo em cicloergômetro, no intuito de verificar diversas respostas fisiológicas, como tempo para a fadiga, consumo de oxigênio, freqüência cardíaca e grau de percepção de esforço. A única variável que obteve diferença significativa foi a percepção do esforço. Todos as outras variáveis não obtiveram diferença significativa em relação ao grupo placebo. A adição de cafeína ao café como veículo de ingestão pode ter minimizado o efeito da cafeína sobre as repostas fisiológicas esperadas. Percebe-se também que a dose de 5 mg/kg de cafeína foi inferior ao comumente utilizado em outros estudos com esta substância.

Considerações finais

Os principais mecanismos de ação aceitos em relação à cafeína seriam:

- efeito estimulatório no SNC, com aumento da liberação de catecolaminas via receptores de adenosina;
- maior mobilização de AGL pré-exercício e conseqüente oxidação aumentada pelo músculo;
- inibição indireta da glicogenólise, com poupança de glicogênio, e ainda
- modificações eletrolíticas, como a maior disponibilidade de cálcio, aumentando o recrutamento motor.

Embora ainda não exista consenso, devido às inúmeras diferenças metodológicas, sobre os efeitos ergogênicos da cafeína, permite-se observar que o perfil de pessoas e de atividades que possivelmente teriam benefícios na performance esportiva com o uso da cafeína seriam: destreinados; uso infreqüente ou abstinência do uso de cafeína; doses entre 6-10 mg/kg; abstinência de dietas com alto valor de CHO e uso de cafeína em atividades prolongadas a 70-85% do VO2 máximo.

Como sugestão dos autores desta revisão, estudos futuros devem preocupar-se em estabelecer os seguintes critérios para a metodologia utilizada:

- não utilizar o café como veículo de ingestão de cafeína;
- garantir a abstinência prévia de consumo de metilxantinas e de outras drogas pela amostra;
- expressar claramente se a amostra é sedentária, ativa ou atleta;
- expressar a quantidade de carbohidratos ingerida nos dias anteriores ao protocolo e imediatamente antes dos testes;
- utilizar protocolos de exercício bem definidos, acima e abaixo dos limiares anaeróbios, com a determinação prévia do consumo máximo de oxigênio;
- determinar a concentração de lactato anteriormente aos testes de fadiga; a fim de evitar a fadiga muscular residual, resultante de testes prévios em dias sucessivos;
- considerar as influências das adaptações fisiológicas e as variações de motivação possivelmente resultante de sucessivos testes de exercício, sobre o tempo para a fadiga e
- utilizar sempre doses de cafeína relativas ao peso corporal.

Referências Bibliográficas

1. FitzSimmons CR, Kidner N. Caffeine toxicity in a bodybuilder. J Accid Emerg Med 1998;15(3):196-7.

2. Spriet LL, Howlett RA. Caffeine. In: Maughan RJ (Ed). Nutrition in Sport. Oxford: Osney Mead:2000, p. 379-92.


3. Chesley A, Howlett RA, Heigenhauser GJF, Hultman E, Spriet LL. Regulation of muscle glycogenolytic flux during intense aerobic exercise after caffeine ingestion. Am J Physiol 1998;275 (r):596-603.

4. Van Soeren MH, Mohr T, Kjarer M, Graham TE. Acute effects of caffeine ingestion at rest in humans with impaired epinephrine responses. J Appl Physiol 1996;80:999-1005.

5. Graham TE, Rush JWE, van Soeren MH. Caffeine and exercise: metabolism and performance. Can J App Physiol 1994;19:111-38.

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