Medicina Esportiva/Atividade Física - Doping: conceitos
Esta página já teve 115.082.883 acessos - desde 16 maio de 2003. Média de 27.737 acessos diários
home | entre em contato
 

Medicina Esportiva/Atividade Física

Doping: conceitos

08/10/2005

HISTÓRIA

O ópio, um látex obtido pelo corte dos bulbos da Papoula somniferum era conhecido pelos sumérios no ano 3000 a.C.

Na China, por volta de 2737 a.C. já se conheciam algumas plantas cuja mastigação, ou uso de extratos ou infusões, produziam efeitos estimulantes: a efedra (efedrina), a machuang (alcalóide) e a mandragora (afrodisíaca com sabor e cheiro desagradáveis). Os árabes, em 1000 a.C. conheciam a maconha (cannabis.), o haxixe (dez vezes mais forte que a cannabis), a catina ( da qual, hoje se extrai a dextronorisoefedrina) e o ginseng ( uma amina que era usada para estimular os guerreiros).

Na antiga Grécia, em 300 a.C. nos Jogos Olímpicos Antigos, os corredores de longa distância usavam uma cocção de plantas que tinha como principal produto um alucinógeno extraído de cogumelos. Para o pensamento da época, era para evitar o surgimento do "baço grande e duro". Em alguns atletas era feita até a retirada do baço ( esplenectomia). Em outros, fazia-se uma cauterização com ferro em brasa. É dessa época a primeira notícia de uma espécie de regulamentação olímpica em que se proibia qualquer prática mutilante, como a esplenectomia ou a cauterização em atletas. Na mitologia nórdica, os lendários berseks ou berserkers, usavam a bufoteína, uma droga estimulante extraída de um certo tipo de fungo. Na África, os nativos já usavam a "cola acuminata"e a "cola nitida" como estimulantes nas marchas e nas corridas.

Nessa época, o ópio já estava sendo muito usado na Grécia e na Ásia. Ele teve uma grande divulgação entre os árabes porque o Alcorão ( livro muçulmano sagrado) proibia o uso do álcool, mas não citava o ópio. Na Ilíada, poema de Homero, a encantadora Helena, nas festas oferecia aos amigos uma poção milagrosa que curava certas dores e doenças além de produzir sonhos maravilhosos. Provavelmente, era ópio. Na China, as mães embalavam seus filhos num ambiente com fumaça da fervura do ópio para que seus filhos parassem de chorar e adormecessem. Na Turquia, os médicos presenteavam as pessoas mais influentes do reino com formulações que continham opiáceos. Em todas as batalhas desse período, era comum os guerreiros usarem opiáceos para diminuir a dor dos ferimentos e aumentar a coragem para a batalha.

Um pouco antes de Cristo, na antiga Roma, os tratadores de cavalos, usavam o chamado hidromel, uma mistura de água, mel e aveia que eles imaginavam melhorar a forma física dos animais usados nas provas esportivas. Na verdade, antecipando-se aos primeiros conhecimentos de fisiologia, eles hidratavam e aumentavam o suporte de glicose e proteína nos cavalos. Para mostrar ao povo o rigor das leis ou ter a desculpa perfeita para algumas derrotas frente aos gregos, o Senado Romano punia com a crucificação o tratador de cavalos que usasse o hidromel.

Numa análise mais crítica, fica a desconfiança de que os atletas gregos quando subiam o monte Olimpo para buscar inspiração e proteção de Zeus, ficavam ali por dois ou três dias, usando alucinógenos para aumentar a coragem e a audácia para as competições.

Na América do Sul, a coca mascada era usada para aumentar o desempenho, diminuir o cansaço e amenizar a fome nos trabalhos forçados e nas longas marchas. Depois, a folha de coca passou a ter o domínio da nobreza e dos sacerdotes, com caráter divino, mas como se confirmou que ela diminuía a fadiga, passou a ser ofertada aos "mensageiros" a chamada "cocada", uma bola de folhas de coca misturada com calcário. Com o calcário, o efeito era amenizado porque ele alcanizava o ambiente gástrico impedindo a rápida degradação da cocaína pela saliva e pelo suco gástrico. Os índios escondiam algumas plantas nativas de coca porque já estavam dependentes de seus efeitos. Quando o espanhol Francisco Pizarro começou as primeiras conquistas na região em 1532, pagava os índios mineiros com folhas de coca. Eles mantinham a dependência e tinham mais ânimo para descer nas minas de cobre e prata. Quando Pizarro destruiu o Império Inca ( atual Cuzco), essa prática terminou.

Na América do Norte, ingeria-se uma planta chamada peyote, que contém um alcalóide estimulante conhecido como mescalina. No Tirol, usavam substâncias contendo arsênico com fins religiosos.
Na Europa do século XVI surgem drogas com cafeína e esse é o ponto inicial da dopagem entre os povos mais civilizados e entre os atletas. Em 1806, o aprendiz de farmacêutico Friedrich Sertuner, alemão, isola o principal alcalóide do ópio e lhe dá o nome de morfina em alusão a Morfeu. Dez anos depois, ela já é usada em cavalos na Inglaterra. Em 1865, na construção do Canal do Norte em Amsterdã, os operários recebiam drogas que aumentavam o rendimento no trabalho. Na inauguração do Canal, houve uma prova de natação e vários nadadores competiram usando drogas estimulantes. Em 1879, na Corrida Ciclística dos Seis Dias, na França, os franceses usavam misturas à base de cafeína, os belgas usavam cubos de açúcar mergulhados em bebida alcoólica ou éter ( era conhecido desde o século XII como anestésico, mas usado com fins recreativos na Inglaterra em 1700) e alguns ciclistas usavam a nitroglicerina pelo seu efeito vasodilatador coronariano.

Em 1886, já com o uso indiscriminado de estimulantes pelos atletas, acontece a Corrida dos 600 Km entre Bordeaux e Paris e nela se tem a primeira notícia de morte em atleta por uso de estimulantes: morre o ciclista inglês Linton, que usou uma mistura de cocaína com nitroglicerina. Por volta de 1900, no boxe usavam-se tabletes de estriquinina misturados com conhaque e cocaína. Nessa época, era comum a prática de debilitar o adversário com drogas dopantes acondicionadas em garrafas de água. É possível que mortes tenham ocorrido por esse motivo.

Em 1919, o farmacêutico japonês Ogata sintetiza a anfetamina e com isso cresce a dopagem esportiva, principalmente no ciclismo.
Durante a 2a.Guerra Mundial, de 1939 a 1945, os soldados recebiam o medicamento Pervitin (uma anfetamina) nos seus "kits"de sobrevivência. Seu efeito estimulante e a abolição do sono eram úteis nas grandes marchas e nos vôos noturnos. Depois, passaram a usa-lo também nos jogos do exército. Então, terminada a guerra, muitos soldados estavam viciados com esses comprimidos. Quando voltaram a seus países, muitos deles continuaram suas práticas desportivas, principalmente os jogadores de futebol americano. Estavam mais corajosos pelas agruras da guerra e, além disso, jogavam dopados. Isso fez disseminar o uso de anfetaminas entre os desportistas, prática que existe até hoje, incorporada ao uso de outras substâncias proibidas pelas leis esportivas.

Nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, são descritas três mortes por uso de doping: Knut Enemark Jensen, um ciclista da Dinamarca de 25 anos (quinze tabletes de anfetamina, mais oito tabletes de um vasodilatador coronariano, misturados a uma garrafa de café), Dirck Howard, alemão, medalha de bronze nos 400m. (por dose excessiva de heroína) e Simpson, um corredor inglês ( também por um estimulante).

Até essa época, os métodos de detecção da dopagem ainda eram muito simples. O primeiro método foi desenvolvido pelo químico russo Bukowski que trabalhava no Jóquei Clube da Áustria e analisava saliva dos cavalos. Mas ele negava-se a revelar seu método. No mesmo ano, 1910, Sigmundo Frankel químico da Universidade de Viena desenvolveu um novo método, também trabalhando com saliva. Nas décadas de 40 e 50, foram criados e desenvolvidos os métodos da cromatografia gasosa e delgada que foram sendo aperfeiçoados com o tempo, até serem substituídos pela moderna espectrofotometria de massa que pode determinar na urina a presença e dosagem da maioria das substâncias listadas como proibidas para os atletas.

Já em 1955, a Federação Mundial de Ciclismo iniciava trabalhos de análises de urina. Chegou ao ponto de em uma só prova, obter cinco resultados positivos em vinte e cinco amostras. Ela foi a primeira, porque em muitos países da Europa o ciclismo é um esporte de massa e naquela época os interesses comerciais de divulgação de marcas e logotipos por parte dos ciclistas, era uma realidade.

Durante os J.O. de Tóquio em 1964 um congresso da UNESCO conjuntamente com o COI iniciou o combate à dopagem, esboçando leis, controles e punições. Seguiram-se simpósios na Alemanha, Áustria, Itália e Suíça, mas os países não reconheciam essas deliberações, muitas vezes invocando razões até de uso de dopagem por patriotismo. Desde 1965 e com periodicidade de três anos, a Liga Ciclística da Bélgica passou a divulgar o resultado de seus exames. De 25,59% em 1965, caiu para 8,16% em 1968 e para 4,78% em 1971, vindo a aumentar para 7,10% em 1974 provavelmente pelo desenvolvimento das técnicas de cromatografia. A substância mais encontrada foi a anfetamina e os exames positivos eram quase todos de profissionais e de veteranos com mínimos percentuais em principiantes.

Em 1968, durante os J.O. de Inverno em Grenoble, o COI forma uma comissão de cinco médicos e um químico que unificaram todas as deliberações e leis existentes. Três meses antes dos J.O. do México essa primeira lei foi enviada para todos os países participantes da Olimpíada, mas o controle foi muito pequeno e sem qualquer punição. Os países alegavam o pouco tempo entre a lei e os Jogos. Muitos até ameaçaram não comparecer aos Jogos e outros chegaram a manifestar intenção de abandonar a Vila Olímpica.
A anfetamina e produtos assemelhados, que dominavam os casos positivos passaram a ser substituídos paulatinamente pelos hormônios masculinos, os chamados esteróides anabólicos com poderes muito mais vitoriosos mas também com efeitos colaterais mais desastrosos. Depois, os atletas começaram a usar diuréticos para mascarar a presença dos hormônios e mais recentemente os hormônios de crescimento, principalmente, ganharam destaque na preferência dos atletas.

CONCEITO

Na verdade, doping e dopagem são duas palavras que têm significado diferente. O doping é a própria substância que pode ser usada com fins médicos e a dopagem é o uso em atletas com a finalidade de levar vantagem no desempenho esportivo. Com o passar do tempo, a palavra doping foi ganhando força pelo próprio uso e hoje, doping e dopagem são praticamente sinônimos.

A origem do nome "doping" é incerta. Os árabes o chamavam "cat", derivada de cathine ou catina dos assírios, uma planta de propriedades estimulantes. Os italianos usaram palavras ou termos diversos, como "drogaggio", "ergogenia medicamentosa", "melassanera" e "bombe chimiche".Os americanos sempre preferiram falar em ergogenia. Os franceses passaram do "topethe", para a "dynamite"até chegar à "dopage".

No dialeto africano Kafir, já existia a palavra "dop"significando uma infusão estimulante de plantas medicinais usada em festas religiosas. No inglês encontra-se "dope"com o significado de lubrificante ou verniz especial para aviões e o verbo "to dope", vocábulo usado nas corridas de cavalo para indicar a administração de drogas ao cavalo para melhorar o seu rendimento. A palavra "doping" aparece pela primeira vez, em um dicionário inglês no ano de 1889 significando uma mistura de narcóticos utilizada em cavalos puros-sangue. Os antigos dicionários holandeses apresentam "dooper" = batizar e "under dooper" = utilização de drogas. Os compêndios franceses falam em "duper" = trapaça, pequena fraude. Talvez dessa palavra eles tenham tirado a "dopage"e daí tenha vindo a dopagem e depois o doping dos americanos.

Nos J.O.do México em 1968, o COI definia complexamente a dopagem. É a administração ou o uso de agentes estranhos ao organismo ou de substâncias fisiológicas em quantidade anormal, capazes de provocar no atleta, no momento da competição, um comportamento anormal, positivo ou negativo, sem correspondência com sua real capacidade orgânica e funcional. Na verdade, o COI precisava definir a dopagem, mas esbarrou de cara nessa definição complexa, embora qualquer outra definição fosse muito difícil para a época. Isso porque a definição deveria envolver aspectos multiconceituais de farmacologia, toxicologia e de clínica, não se esquecendo dos aspectos éticos, educativos e de costumes regionais.

Para o COI, soberano e rápido em suas decisões durante Olimpíadas, nunca houve problemas. Ele comunica o resultado positivo, faz a contraprova, retira a medalha, altera classificações de provas e pronto. Mas quando a lei passa a ser utilizada por federações e confederações ela ganha outra magnitude porque permite o envolvimento jurídico da questão e as defesas buscam argumentos muitas vezes irreais dentro da clínica médica. Sem falar em julgamentos errôneos calcados em fatores políticos, de marketing e de influências econômicas. Alguns
Comitês Olímpicos Nacionais tentaram resolver essa questão com alterações na definição de dopagem, como os alemães que a definem como "o uso ilícito e nocivo de tudo aquilo que possa alterar o comportamento do atleta em competição". Por mais simples e objetiva que ela possa ser, a argumentação jurídica poderia indagar, por exemplo, se a presença de maconha ou cocaína numa amostra de urina poderia afirmar com certeza se ela estava fazendo efeito no momento exato da competição ou se os metabólitos identificados não significavam que o efeito havia acontecido alguns dias antes. Por isso, algumas regulamentações mais recentes, já não se atrevem a definir doping e de uma maneira simples iniciam suas regras com "estão proibidas as substâncias a seguir relacionadas".

Em 1998, a FIMS (Federação Internacional de Medicina Esportiva) faz um posicionamento oficial sobre o assunto e publica em seu boletim:

Doping nos esportes é o uso proposital ou não intencional por um atleta, de uma substância proibida ou métodos proibidos pelo Comitê Olímpico Internacional. A FIMS apóia a proibição do doping para proteger os atletas de: 1) Uma vantagem desleal que pode ser obtida por atletas que utilizam substâncias ou métodos proibidos para melhorar o desempenho. 2) Os possíveis efeitos colaterais prejudiciais à saúde que algumas substâncias e métodos podem produzir.

Além das conseqüências em termos éticos e de saúde que estão envolvidas com o doping, reconhecem-se as potenciais implicações legais. A distribuição de várias substâncias proibidas (ex: esteróides anabólicos), se não por uma razão medicamente justificável, é contra a lei em vários países. Estimular ou auxiliar atletas a utilizar tais substâncias ou métodos é antiético e, portanto, igualmente proibido.

O DOPING TECNOLÓGICO

Este é um capítulo complexo que envolve todas as formas de dopagem que não sejam aquelas por substâncias proibidas pelas regulamentações nacionais e internacionais. Geralmente, envolvem recursos utilizados com o fim de levar vantagem desonesta ou de acarretar extrema desvantagem ao adversário.

Aqui estão recursos tecnológicos, bioquímicos, psicológicos e outras técnicas de trapaça à ética desportiva. Não há uma classificação ou uma relação do que é proibido. Mas toda trapaça deliberada tem que ser punida severamente em nome da ética desportiva. Em muitos casos, a comprovação é difícil. Mas existem técnicas psicológicas como a hipnose em que não há um consenso sobre se lícita ou não.

1) Dopagem bioquímica: autohemotransfusão.
Já foi um procedimento muito usado. Consiste em se retirar de 0,5 a 1 litro de sangue, trinta dias antes da competição e reinjetá-lo na véspera. Qualquer organismo fabrica nesses trinta dias a quantidade de sangue que foi retirada. A devolução do sangue à circulação significa que o atleta irá competir com uma quantidade adicional de sangue e, portanto de glóbulos vermelhos, em última análise de oxigênio com conseqüente vantagem na capacidade aeróbica. O sangue é guardado numa temperatura de 4o C e sua inoculação é feita com um cateter porque ele fica muito denso. É evidente o perigo de morte por embolia. Foi o que aconteceu com Luck Derick em 1991. Ele era jogador de futebol do Bruges, da Bélgica e o médico que realizou a autohemotransfusão havia sido seu companheiro na mesma equipe. Esse caso, as dificuldades de guarda do material, o risco de contaminação do sangue, dentre outros fatores contribuíram para o abandono dessa técnica.

2) Dopagem física: estimulação por eletrodos.
Esta é uma técnica que não se pode provar que foi feita, mas aos atletas se recomenda que não se submetam a ela. Consiste em colocação de eletrodos nas inserções tendinosas de um músculo ou de um grupo de músculos, seguida de impulsos elétricos superiores a 50 volts. A violenta contração isométrica que se segue permite hipertrofias musculares muito rapidamente, mas o risco de ruturas musculares graves e principlamente tendinosas é extremamente alto. Este método foi muito usado na ex-União Soviética.

3) Fraudes tecnológicas.

O esgrimista russo Boris Onischenko, nos J.O. de 1972, usou um minúsculo engenho eletrônico na empunhadura da sua espada, que marcava toques no seu adversário, que não existiam. Foi expulso dos Jogos e punido por atitude antiesportiva pela Federação Internacional de Esgrima.
Anos atrás, quando as corridas de automobilismo ainda não tinham as rigorosas inspeções das máquinas como hoje, sabe-se de casos em que as equipes usavam um reservatório de água abaixo do chassis tornando o carro mais pesado e dentro dos limites da pesagem. Dada a largada, o piloto acionava um pequeno dispositivo e a água era expelida fazendo com que o carro ficasse mais leve por todo o resto da prova.

4) Gestação programada
Esta manobra também está abandonada, mas foi muito utilizada entre as décadas de 60 e 80, mais difundida nos países do leste europeu. A inoculação de espermatozóides era feita em laboratório aproximadamente três meses antes da prova principal, fazendo com que a atleta competisse no terceiro mês de gestação, aproveitando-se do fato de que havia um aumento da quantidade de glóbulos vermelhos. Depois da competição era feito o aborto já programado. O COI chegou a pensar em proibir a competição de mulheres grávidas, mas recuou porque com isso estaria se intrometendo na programação familiar em mulheres que não tentavam com a gravidez obter vantagens esportivas.

5) Outras trapaças

Nos regimes comunistas era comum em nadadores a inoculação de ar pelo ânus imediatamente antes das provas para facilitar a flutuação na água. Em muitos países não comunistas, esta trapaça também foi usada e hoje é técnica abandonada, pelo incômodo abdominal e pelas novas técnicas nos treinamentos de natação.

Na década de 80, em competição de atletismo na Costa Rica, uma menina acometida de hepatite foi substituída por sua irmã gêmea que chegou em segundo lugar na prova. Descoberta a fraude, foram suspensas de qualquer competição por toda a vida, muito mais numa punição moral e educativa.
No futebol e no basquetebol, são vários os fatos conhecidos de pequenos aumentos ou diminuições nas dimensões entre as traves e nos aros. Na década de 80, em decisão do campeonato americano universitário, o técnico local diminuiu em apenas um centímetro o diâmetro de um dos aros, mudando suas táticas de arremesso conforme atacava para este ou aquele aro. Venceu o jogo, depois com resultado anulado pela Liga e recebeu uma suspensão perpétua para trabalhar com o basquetebol.

6) Manipulação do material de coleta

Esta é uma trapaça que tem sido combatida com muito rigor por todas as entidades desportivas. A pena máxima de suspensão tem sido aplicada. O que os atletas fazem com mais freqüência é a adição à urina, de saliva, cerveja e uísque. As alterações do pH são tão evidentes que é fácil a identificação da fraude. Sabe-se que muitos atletas usaram frascos plásticos com urina de outra pessoa, presos na axila e um tubo plástico chegava até o pênis onde era preso com uma fita transparente; o atleta que informava sua incapacidade de micção, esperava o cansaço ou o descuido do médico coletor para através de uma simples manobra, ceder a urina que não era sua. Pior ainda e de uma maneira antifisiológica muito perigosa, o atleta urinava em seu vestiário e depois lhe passavam um cateter pela uretra para receber urina de outra pessoa e depois simular uma micção normal no ato de coleta. Por isso, todas as deliberações atuais, solicitam que as salas de coleta sejam amplas (para se evitar a troca de frascos de coleta), que não se permita o ingresso na sala além dos atletas e seus médicos e que os atletas estejam praticamente nus no momento de ceder a urina.

PRESENTE

Desde 1968, quando o COI implantou o controle antidoping as classes de substâncias proibidas e a lista dessas substâncias foi crescendo paulatinamente. Em 68 eram proibidos os estimulantes do sistema nervoso central, os narcóticos analgésicos e as aminas simpaticomiméticas. Em 76, já apareciam os hormônios esteróides anabólicos. Em 84 eram proibidas as substâncias máscaras, como os diuréticos e o probenecide. Hoje a lista é ainda maior.

Tudo porque o combate ao doping é mais ou menos como a luta entra ladrão e polícia: quanto mais a polícia se especializa, mais o ladrão se aperfeiçoa. Muitas vezes, os atletas ganharam. Outras vezes, a vitória foi do controle, como no Pan de 83 e nos J.O.de 88.

Se nas décadas de 60 e 70 as anfetaminas predominaram nos casos positivos, a partir de 80, os esteróides anabólicos começaram a dominar e fazer muitas vítimas, algumas fatais. O amadorismo, o orgulho da vitória e a vitória pela pátria foram caindo. Chegou a vez da ideologia política e do patriotismo nacionalista, que também caíram. Hoje, é o tempo do interesse econômico de patrocinadores e dos atletas, muitas vezes com a guarda baixa dos sistemas controladores. Advogados irrompem as salas de julgamento com teses mirabolantes, atletas suspensos são perdoados sem justificativa, ligas, federações, associações e confederações fazem julgamentos distintos conforme seus interesses, a justiça comum invoca leis antigas para proibir sanções, etc. Enquanto isso, de um lado, a ciência foi fazendo aperfeiçoamentos tecnológicos no sistema de identificação e, do outro lado, os atletas foram buscar refúgio em outras substâncias ilícitas para as quais o laboratório ainda não está bem preparado, como o hormônio de crescimento, a corticotrofi- na, a gonadotrofina coriônica e a eritropoietina.

A cocaína, como droga de rua, invadiu todos os setores da sociedade e não poupou o esporte. Se as anfetaminas e outros estimulantes foram caindo de cotação, ela chegou com força e hoje é uma droga perturbadora presente em muitas urinas de atletas competidores, inclusive de alto nível. O crack e o ecstasy vêm na esteira da cocaína.

Do ponto de vista global há um outro problema sério. A maioria dos países não dispõe de laboratórios capazes de fazer as análises e mesmo quando dispõe esbarram nos rígidos atributos para credenciamento junto ao COI. Só agora, em 2001 o Brasil está em vias desse credenciamento. De outro lado, a grande dependência desses países, como é o caso do Brasil de importar aparelhos e reativos, torna muito cara uma análise toxicológica de urina, inviabilizando um número maior de controles.
Infelizmente, apesar dos avisos, das punições e da rigidez de alguns controles, o número de casos positivos tem aumentado. Os recordes que foram conquistados em épocas de abuso não sancionado dos hormônios, já não podem ser batidos com o esmero do treinamento e da moderna fisiologia. Em alguns esportes, quem não se dopar não chega em primeiro lugar, esta é uma verdade incontestável.
Pior. A mídia expõe esses campeões de uma forma tão excepcional e, muitas vezes, tão milionária que jovens incautos nas academias buscam nas drogas anabolizantes a similaridade desses corpos musculosos, ágeis e velozes. Este é o maior perigo dos tempos modernos. Se os atletas que se dopam, de certa forma ainda têm suas doses e efeitos colaterais controlados, no ambiente de academias ou de competições não controladas, as doses são abusivas e os efeitos indesejáveis são mascarados. É possível afirmar que mais de 95% das ampolas de esteróides anabólicos ou de hormônios masculinos, de uso em esportistas ou atletas vão parar nas mãos desses jovens, homens e mulheres. E isso já é um problema de saúde pública quando não, de criminalidade.

FUTURO

O futuro da dopagem mostra-se sombrio. Organismos esportivos internacionais, governos, associações nacionais, universidades, etc. precisam trabalhar de uma forma organizada, concatenada e responsável para que o controle seja aperfeiçoado, a ética prevaleça e o caráter educativo dos jovens seja prioritário.

Mesmo que possa parecer utopia, arrisco aqui, colocar ações que são urgentes nessa batalha:
1- O COI deveria destinar parte de suas milionárias verbas para financiar laboratórios de controle antidoping em países não desenvolvidos.
2- As Federações Internacionais deveriam uniformizar seus critérios de punição ou criar um Conselho Internacional para os julgamentos de todos os casos.
3- A justiça comum não pode estar acima da justiça desportiva nos casos de dopagem.
4- Laboratórios, Diretores de Laboratórios, Chefes de Controle e Técnicos de Controle, deveriam receber pesadas punições nos casos de omissão de resultados, negligência e suborno.
5- Os tribunais de julgamentos, em qualquer nível ou em qualquer instância, deveriam ter mais da metade de seus membros especializados no tema doping: médicos e toxicologistas.
6- Os exames "fora de competição" deveriam ser em maior número e não só em atletas tidos como "profissionais".
7- Os governos através de seus Ministérios de Esporte deveriam financiar parte ou todo dos exames laboratoriais antidoping.
8- O controle antidoping também através de sangue e não só de urina precisa ser implantado em determinadas modalidades esportivas.
9- Os medicamentos constantes da lista de proibidos pelas regulamentações antidoping precisam ter rígido controle por parte das vigilâncias sanitárias ou órgãos afins.
10- Campanhas educativas contra as drogas deveriam ser obrigatórias nas categorias menores de todas as modalidades esportivas.
11- Campanhas educativas financiadas pelo setor privado, com incentivos fiscais, deveriam atingir todas as academias e outros ambientes esportivos.
12- As penas comunitárias deveriam merecer mais atenção na reformulação das legislações antidoping, com prestação de serviço comunitário principalmente em centros de reabilitação de drogados.
13- Nos esportes profissionais ou semelhantes, a pena pecuniária deveria ser instituída com destino da arrecadação para centros de reabilitação ou fundos de amparo.
14- Médicos, técnicos e outros profissionais ligados aos clubes ou a atletas, que facilitaram ou negligenciaram sobre o uso de doping, além das penas esportivas, deveriam também ser julgados pelos seus órgãos de classe.
15- As Faculdades de Educação Física deveriam ter o tema doping como cadeira curricular para melhor informação e formação ética dos futuros profissionais.

Obs: para um futuro ainda bem distante, é ético se pensar que indivíduos clonados não poderiam participar de competições esportivas profissionais ou profissionalizadas.

www.cbcm.com.br


IMPORTANTE

  •  Procure o seu médico para diagnosticar doenças, indicar tratamentos e receitar remédios. 
  • As informações disponíveis no site da Dra. Shirley de Campos possuem apenas caráter educativo.
Publicado por: Dra. Shirley de Campos
versão para impressão

Desenvolvido por: Idelco Ltda.
© Copyright 2003 Dra. Shirley de Campos