Mineralograma - O mineralograma capilar
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Mineralograma

O mineralograma capilar

02/12/2005

Foto: Vitor Peixoto

O mineralograma capilar, exame que pode avaliar as possibilidades de alguém desenvolver uma doença a partir da análise química dos fios de cabelo, é realizado na PUC. Simples e rápido, o teste é mais sensível do que o feito nos EUA.

Nossa saúde pode estar por um fio. De cabelo. Existe na PUC a tecnologia para ajudar a diagnosticar, a partir da análise dos fios de cabelo, possíveis patologias, como a osteoporose, antes mesmo que o paciente apresente qualquer sintoma. Chamado de mineralograma capilar, o novo exame também está ajudando a medicina legal a elucidar casos de envenenamentos, já que o período de exposição a um determinado elemento tóxico fica "marcado" no cabelo.

O exame consiste em analisar a composição dos fios e determinar a concentração de 40 elementos químicos incorporados à matriz durante seu estágio inicial de crescimento. Ele pode ajudar a identificar possíveis intoxicações ou carências de minerais essenciais ao funcionamento do organismo. Nos Estados Unidos, por exemplo, o exame mostrou que crianças com dificuldades de aprendizado e comportamento agressivo têm um nível elevado de chumbo no cabelo.

- Diferentemente das amostras de sangue e urina, o cabelo é um monitor biológico capaz de registrar, por exemplo, uma intoxicação ao longo de um período de meses ou até anos. E tem a vantagem de poder ser armazenado mais facilmente - afirma o professor da PUC Norbert Miekeley, doutor em química analítica e físico-química pela Universidade Livre de Berlim.

Juntamente com a professora Carmem Porto da Silveira, Miekeley coordenou uma equipe do Departamento de Química que aprimorou o mineralograma capilar. A novidade introduzida pela PUC foi a utilização de técnica e metodologia mais modernas.

Utilizada nos Estados Unidos, França e Alemanha, a técnica de espectrometria de emissão com fonte de plasma (ICP-AES) foi superada pela espectrometria de massa (ICP-MS), aperfeiçoada na PUC. Segundo Miekeley, o novo método é mais rápido e sensível:

- No caso do elemento mercúrio, a espectrometria de massa detecta 0,002 microgramas do elemento por grama de cabelo, enquanto o método convencional só determina níveis 400 vezes maiores, explica o professor. Conhecido o resultado do exame, o médico pode compará-lo com os padrões de um determinado grupo supostamente saudável. A associação de excessos ou deficiências a determinados sintomas contribui para um diagnóstico mais preciso.

Apesar disso, o professor lembra que o mineralograma tem limitações nem sempre discutidas. Propagandas de laboratórios internacionais que superestimam a potencialidade do exame fizeram com que o Conselho Regional de Medicina restringisse seu uso.

- Insinuações de que uma análise de cabelo pode ser um avaliador confiável do risco de uma pessoa infartar são, no mínimo, exageradas, critica o professor.

Ele lembra que os valores de referência para comparação expressam apenas as concentrações de elementos que uma determinada população apresenta. Isto não quer dizer que ela seja saudável. Por isso, ele questiona os referenciais adotados pelos laboratórios comerciais. De acordo com a tese de doutorado na PUC da professora Maria Teresa Dias Carneiro, a concentração de arsênio "normal" para um ser humano é de 0,14 miligramas por quilo enquanto os valores estipulados pelos laboratórios variam entre 2 e 10 miligramas, ou seja, chegavam a níveis até 70 vezes superiores. Apresentados em congressos e publicações internacionais, os valores sugeridos pela PUC já estão sendo adotados em alguns laboratórios, que modificaram suas metodologias e aproximaram os limites de referência.

- O carioca é diferente em vários aspectos de outras populações, mas as diferenças encontradas na composição química de seu cabelo revelam apenas que os dados produzidos por laboratórios comerciais são de pouca confiabilidade, afirma o professor.

Em outro trabalho de doutorado, Lúcia Maria de Carvalho Fortes mostrou que anomalias na composição do cabelo podem identificar distúrbios ósseos na metabolização do cálcio que podem levar à osteoporose. No estudo, feito com 900 mulheres com mais de 40 anos, 144 apresentavam uma concentração mais alta do que o normal de cálcio, fósforo, magnésio, estrôncio e bário no cabelo. Comparado com as concentrações de pacientes com doenças endócrinas e ostemalácicas, o resultado comprova a relação entre essas patologias e a liberação desses elementos.

Mas existe um problema. O exame pode indicar as possibilidades de uma mulher desenvolver a osteoporose, mas se a paciente já for portadora, o organismo não libera mais os elementos químicos e não há como diagnosticá-la.

- Usado com senso crítico e dados analíticos confiáveis, o mineralograma é um diagnóstico auxiliar valioso, acrescenta Miekeley.

Segundo o professor, a alimentação é um fator que contribui na contaminação interna. Ele cita um estudo da PUC que analisou o pêlo de grupos de animais e constatou que os herbívoros têm concentrações de metais tóxicos muito menores do que os carnívoros.

- A expressão popular "comer como um cavalo" perde um pouco seu sentido pejorativo segundo essas pesquisas, brinca o professor, lembrando que o resultado é semelhante para pessoas vegetarianas.

Miekeley diz que a partir da constatação da existência de um alto nível de mercúrio nos pêlos dos gatos, os pesquisadores perceberam uma relação direta entre a concentração de mercúrio e o consumo de peixes. Mas ele reforça que não foram identificados casos semelhantes em seres humanos. Outra curiosidade é que o cachorro, o "melhor amigo do homem", é tão "contaminado" quanto seu dono.

Comprado com verbas do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico, o equipamento custou US$ 300 mil e já está sendo ultilizado em pesquisas mais complexas como na análise de meteoritos, sedimentos marinhos, artefatos arqueológicos, a água utilizada em hemodiálise e até dos rios da Amazônia.

- Os métodos analíticos para a determinação de elementos químicos em cabelo ou qualquer outra amostra biomédica já estão disponíveis no Brasil há alguns anos. O que falta é uma colaboração mais estreita entre médicos e químicos para entender melhor a relação entre a presença de anomalias no cabelo e a existência de um doença, acredita Miekeley.

A análise química do cabelo custa R$ 60 e costuma ser solicitada por médicos e farmácias de manipulação à Fundação Padre Leonel Franca. A instituição é a intermediária e responsável pelo recolhimento do pagamento. Os interessados em fazer o exame podem pedir mais informações pelo e-mail icpmspuc@rdc.puc-rio.br.

 

Descrição do mineralograma

Para o exame, é necessário um pré-tratamento da amostra de cabelo. Os fios são cortados e lavados com agentes específicos para retirar as impurezas que poderiam comprometer o resultado. O professor diz que as contaminações externas mais freqüentes são pelo selênio de xampus anticaspa e pelo cobre e alumínio de piscinas, além de prata, níquel e chumbo em pessoas que tingem o cabelo.

- Alguns produtos para escurecer o cabelo são nada mais que soluções concentradas de acetato de chumbo que, usados com freqüência, podem intoxicar uma pessoa, alerta Miekeley.

O passo seguinte é dissolver uma mecha de 200 a 300 miligramas de cabelo em ácido nítrico e em água oxigenada com alto grau de pureza. A solução resultante é injetada num plasma produzido através de colisões de átomos e íons de argônio e elétrons num campo eletromagnético. Com a aparência de uma chama química, o plasma atinge temperaturas que podem passar de oito mil graus e transforma seus componentes em íons simples.

Esses íons são transferidos para o espectrômetro de massa. No aparelho, eles são separados e identificados de acordo com a razão massa/carga. Adequa-damente calibrado, o instrumento informa, em poucos minutos, os teores dos elementos encontrados e seus isótopos.

O controle de qualidade dos resultados é assegurado por práticas de laboratório e pela participação em programas de intercomparação nacionais e internacionais através do Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro).

- Temos grande preocupação em manter a qualidade de nossos testes. Afinal, o Departamento de Química da PUC é reconhecido como Centro de Exelência em Química Analítica, tem um nome a zelar - afirma.

www.puc-rio.br


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