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Biologia

Conep suspende implante que deu certo, mas não explica razão

18/12/2005
O primeiro implante de células-tronco feito no Brasil em paciente com trombose foi considerado um "sucesso absoluto", mas as pesquisas com esse tipo de cirurgia experimental foram suspensas por determinação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). O implante, feito em 11 de maio pelo cirurgião vascular José Dalmo Araújo, no Instituto de Moléstias Cardiovasculares (IMC) de São José do Rio Preto (SP), salvou a perna direita do agente tributário Ramão Torres Martins, de 49 anos.

Martins tinha 90% de chance de ter o membro amputado. Por isso, como último recurso, aceitou ser submetido ao implante. No entanto, o projeto da experiência foi rejeitado pela Conep por não cumprir os requisitos previstos na Resolução 196/96, que estabelece as regras com pesquisas em seres humanos.

Sigilo

Segundo William Saad Hossne, coordenador da Conep e autor da resolução, o implante deveria ter sido feito só após o projeto ter sido aprovado pela Conep. "Inicialmente, nem sequer havia projeto. Depois, um projeto foi enviado, a comissão votou pela sua rejeição e enviou a decisão para o comitê de ética local", afirmou. O coordenador disse que, por questão de sigilo, não poderia revelar os motivos que levaram a Conep a suspender as experiências e a não aprovar o protocolo.

Vale lembrar que o Conep aprovou, em 19 de outubro de 2001, a pesquisa "Heterogeneidade de vetores e malária no Brasil", que acabou utilizando iscas humanas na comunidade de São Raimundo do Pirativa, no Amapá. Reportagem do Estado, publicada no sábado, mostrou que, no estudo, ribeirinhos capturavam mosquitos transmissores da malária e, duas vezes por ano, recebiam cem picadas nos braços ou nas pernas. Ele recebiam R$ 12 por isso.

Responsabilidade

Com a rejeição, a Conep se exime da responsabilidade sobre o implante, que fica agora a cargo de Araújo e do IMC, até que um novo projeto seja aprovado pela Conep e as pesquisas, retomadas. Apesar de não ter sido protocolado na Conep, o procedimento médico foi notificado ao Comitê de Ética de São José do Rio Preto. Segundo Araújo, o implante foi feito em caráter de urgência, pois o paciente perderia a perna se fosse esperar a aprovação da Conep.

No entanto, ele admite que a aprovação da comissão é importante. "Não acho que a Conep esteja errada e estou fazendo um projeto mais completo para ser aprovado", disse Araújo. Ele admitiu que o anterior "foi feito às pressas" e "novas informações serão incluídas no novo protocolo".

Araújo disse que já terminou o prazo de observação do paciente. "O procedimento foi um sucesso absoluto, mas é preciso ressaltar que o paciente era jovem e tinha patologia favorável, o que ajudou muito. Pode ser que isso não ocorra em outros pacientes, pois cada caso é um caso e serão necessários ainda uns cinco anos para que esse tipo de cirurgia seja popularizado", comentou. De acordo com Araújo, cinco pacientes deixarão de receber os implantes por causa da suspensão das pesquisas.

"Cautela"

Para Cid José Sitrangulo Júnior, presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (Sbav), "qualquer resultado tem de ser analisado com cautela porque há poucos procedimentos no mundo e uma conclusão nesta fase é precipitada". Segundo ele, para que os resultados do implante sejam considerados promissores serão necessários ainda mais alguns anos. O implante foi o primeiro feito no mundo fora do Japão e da China, onde cerca de 200 já foram realizados.

Conhecedor da polêmica, o paciente Martins preferiu ressaltar sua melhora. Morador de Campo Grande (MS), ele disse que, pela primeira vez, calçou sapatos desde junho de 2004, quando a trombose arterial se agravou. Na segunda-feira, deverá passar pela análise de médicos do governo do Estado para decidir sobre sua volta ao trabalho, um ano e cinco meses depois de licença médica. "Graças a Deus e ao doutor Dalmo minha vida voltou ao normal", afirmou. "Mas estou triste com essa situação, porque só quem passou o que passei sabe quanto é importante essa cirurgia", comentou.
Por Chico Siqueira


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Publicado por: Dra. Shirley de Campos
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