Cardiologia/Coração/CirurgCardíaca - Novo marcador constata mais cedo a rejeição em transplante cardíaco
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Cardiologia/Coração/CirurgCardíaca

Novo marcador constata mais cedo a rejeição em transplante cardíaco

16/06/2003

Um simples exame de sangue poderá mostrar precocemente se pessoas que receberam transplante de coração estão apresentando algum grau de rejeição do órgão transplantado.

O novo método pode vir a substituir, no futuro, as chamadas biópsias endomiocárdicas – método invasivo atualmente usado para detectar o problema. Essas biópsias exigem a introdução de um pequeno aparelho pela veia jugular do paciente, com o qual serão retirados fragmentos do coração para detectar a presença de células inflamatórias que indiquem uma possível rejeição.

“Apesar de as biópsias serem bastante eficazes, algumas vezes não acusam os casos de rejeição leve”, explica Maria Gerbase de Lima, professora-adjunto da Disciplina de Alergia, Imunologia Clínica e Reumatologia da Unifesp e uma das autoras do estudo, feito em colaboração com os pós-graduandos Andrey Morgun e Natalia Shulzhenko. Essa deficiência das biópsias acontece porque há a possibilidade de o exame não retirar um fragmentos do coração que não esteja acometido de forma suficiente para indicar as condições do órgão transplantado.

O novo marcador de rejeição proposto consiste em analisar em um tipo de célula de defesa do sangue, chamada linfócito, a atividade de um gene que fabrica a proteína Tirc 7. Com esse procedimento, é possível saber precocemente se está havendo uma rejeição. “Quando há uma grande concentração da Tirc 7 na biópsia ou quando ela se apresenta baixa no sangue, isso indica que, dentro de 15 dias, a pessoa irá apresentar algum grau de rejeição do órgão”, afirma Maria Gerbase. “A realização do exame em conjunto com a biópsia, diminui as chances de falsos-negativos”.

No estudo, verificou-se que, antes mesmo de começar o processo de rejeição do coração, os níveis de ativação desse gene aumentaram no órgão e diminuíram no sangue periférico.

Maria Gerbase explica que é cedo para usar apenas os marcadores como diagnóstico da rejeição, pois ainda não existem métodos que garantam 100% de sensibilidade e eficácia para detectar o problema. “Porém, as chances de isso acontecer no futuro são grandes”, diz. “A descoberta de marcadores tem diminuído os erros de diagnóstico, colaborado para detectar o problema com antecedência e ajudado a eliminar alguns exames mais agressivos como as biópsias”.

Metodologia – Estudos norte-americanos realizados em ratos com transplantes de coração mostrou que o bloqueio da ação da Tirc 7 impedia a rejeição do órgão. Isso levou a equipe composta por oito profissionais das disciplinas de Cardiologia, Imunologia Pediátrica, Anatomia Patológica e Cirurgia Cardíaca da universidade a realizar o presente estudo.

O trabalho, que foi premiado em maio, no 22º Congresso da Sociedade de Cardiologia de São Paulo, acompanhou 26 pessoas que realizaram transplantes cardíacos no Hospital São Paulo desde 1996.

Durante o pós-operatório desses pacientes, em que é necessária a realização de biópsias semanais no primeiro mês, quinzenais no segundo, e mensais até o sexto mês de cirurgia, foram colhidas amostras de sangue para análise e comparadas com os resultados das biópsias.

De acordo com os resultados, em 100% dos casos que apresentaram algum grau de rejeição, o nível da Tirc 7 estava aumentado na região da biópsia. O aumento médio era de 2,4 vezes em relação ao período em que o paciente não apresentou rejeição. Em contrapartida, no sangue a concentração diminuiu, em média, 3,1 vezes durante o período de rejeição.

Rosiane Viana Zuza Diniz, pós-graduanda da Cardiologia e também autora do estudo, explica que a alta concentração no coração ocorre devido a uma migração das células do sistema imunológico até o local onde está ocorrendo a rejeição. “O novo marcador também tem nos ajudado a decidir qual o melhor tratamento em casos mais difíceis de rejeição”.

Alternativas – A busca por marcadores mais sensíveis que detectem a rejeição de órgãos transplantados abre novos caminhos não apenas para diagnósticos mais precoces, mas também para encontrar imunossupressores – medicamentos que impedem a rejeição – mais eficazes e menos agressivos ao organismo.

Como efeitos colaterais mais comuns, esses remédios podem causar desde uma insuficiência renal leve até convulsões ou osteoporose.

As mulheres que precisam tomar o medicamento são aconselhadas a não engravidar devido ao risco de causar má-formação no feto.

De acordo com Dirceu Rodrigues de Almeida, um dos membros da equipe que desenvolveu o estudo e responsável pelo Setor de Transplantes Cardíacos do Hospital São Paulo, não há como evitar o uso constante desses medicamentos.

 “Com o decorrer do tempo, a dose é diminuída para o mínimo necessário para impedir a rejeição do órgão transplantado”, diz Dirceu.

 

Ana Cristina Cocolo

 


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